Comunicado

quinta-feira, 23 de julho de 2009
É tempo de mudanças. O Clube de Carteado foi, durante muito tempo, minha forma de malinar com a literatura e suas adjacências. No entanto, chega uma hora em que é preciso elaborar mudanças. Um momento de se ampliar os horizontes e escrever através de outros ares.

Aviso a todos que meu novo blog está aberto. Espero a visita de todos vocês, leitores que sempre me acompanharam e que, juntos, conseguiram edificar e dar vida ao Clube de Carteado. Convido todos ao desbravamento do Equador das Coisas.



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O EQUADOR DAS COISAS


Continuemos...

As oliveiras perseguem imperfeitos ventares

quarta-feira, 22 de julho de 2009
A mãe jamais vai entender a alma de dureza do filho. Não entenderá que dentro daquele coração austero, ríspido e incomum, há um coração que profundamente ama. A mãe não perceberá, nunca, que tudo o filho engole na alma, que não sabe ele usar o pesado escudo de fingir ou amaneirar os fatos. A roupa que não é a devida para o que ele é, por tudo o que é e o que já fez, o orgulho familiar tão destrutivo, a intenção diária da ostentação da imagem. Meu filho, por que você faz isso comigo? O filho escuta e se cala, parado sobre o espelho o quarto o habita. Ele tenta se desnudar de tudo, até dos absurdos. O silêncio na face do filho beijando-lhe feito um rinoceronte em fuga, atacando. A quietude que perfura a falta de entendimento imortal da mãe, que não se cansará de sofrer enquanto o filho existir dentro do seu corpo, dentro de sua mentalidade, do seu pensamento, crosta e tatuagem. Levanta os olhos em direção de si, esverdeados como a relva do quintal em margaridas e mangueiras, vê a grossa sobrancelha fazendo a curva da proteção, os cílios pequenos em jardim bem-vivo, abetos e hortências têm a bola verde dentro do branco globo ocular. Aproxima mais e decididamente investe a dúvida contra a parte que não se toca, a parte de dentro, o fosso e a fonte. Deslocada, reclamando da vida triste e sem diversão, no domingo a mãe está a preparar embates rotineiros. Que recordações você irá me deixar! Um filho que não abre a boca, sem amor, sem respeito, que tristeza! Era a voz, interminável voz, a conceder cantigas. A melodia diurna, vespertina, noturna. O filho taciturno declarado louco. O que você tem? O que fizemos? Pai, eu te peço misericórdia! Ele declina a retina e observa o mais. Nariz redondo, grosso, entradas de bocal ruidoso ao se respirar, cano curto. Apalpa o nariz, enfia o dedo mindinho em um dos buracos e dele uma massa cinza-purulenta destoa protuberante, grudada na unha roída. O filho se conhece, quer. Mas bem sente que o tempo passa e com ele oxida até a imundície. Sujo, o filho retira de si não a vontade do asseio, mas a percepção vagarosa de que é preenchido por algo. Embevecido, continua sua maquinação de olhar. O olhar dói e ele gosta. Não cansa, não cede, não desiste. Mesmo que de longe a mãe agora lhe cerque de rumores, não desanima em ser. Deus, tende piedade de nós! Olhai esta criança, vigiai, Senhor! Toma-o em tuas mãos e reforma! Um filho do diabo com a mãe à mesa, repleta do pão que o diabo amassa. Os dois comendo juntos, unidos em sim e em um não. A ojeriza da mãe diante daqueles modos aprendidos com um professor misterioso. Você deve ter saído escondido, conhecido aqueles meninos de rua, suspeitado da esfera podre da vida. Eu não te fiz assim! Eu não te quis assim! Ele com o espelho em namoro, solitário filho mais novo. Ainda inocente, com a ingenuidade de quem sempre aprende com as horas. Brutalizado pela mediocridade dos outros, o filho se atendia. Acariciava o rosto construído em barba espessa, negra, persona de se teatralizar, atuar. Manipulando suas desinências estruturais, crescia abruptamente de seu organismo uma natureza de espantalho. Pendurado em si, frio, a navalha dos íris afetavam a mãe possuída pelo desespero. Havia por detrás do espelho um conjunto de livros. Ele abriu a porta retangular amarelada, gangorreou a vista diante dos títulos e se estirou ao livro de capa preta. Varrendo a sala a mãe se encontrava, perdida. O filho, com o livro preso ao abdômen, destilou passos para fora do quarto. A mãe pensou falar algo, não o fez. Deixou. Mãe decepcionada, a vida tombada nas costas largas e mãos desertificadas em ranhuras e fendas. Sem rumo o filho procurando o destino. Não tinha ele como dizer o amor que sentia por ela, era fraco demais. Taciturno demais para a palavra expressada com a voz da garganta. Deus, tu és meu pai e a luz desta casa! Abençoa o meu filho! Um velho almanaque. Como fazer pipas e descobrir os céus. Lição fácil e em pouco passos. Já fora da sala, longe do quarto, daquele eu ficado à deriva no reflexo cristal da imagem, o filho procurou pela linha e pelo cerol. A noite era distante demais.


O quarto caudaloso e um cômodo perdido

segunda-feira, 20 de julho de 2009
I


conheço-me bem,
mas, mesmo de mim sabendo,
sigo me estudando...


II


meus livros tombados
dormem. não sabem, nos sonhos
seus, que estou a ver.


III


embaixo da cama
mora um dragão. de noite
ele cospe estrelas.


IV


quando a luz quero eu
apagar, acendo a lua
da minha janela.


V


enquanto eu durmo,
os anjos varrem com asas
a poeira estelar...


Mireille estranha

Lado a lado estamos e é tão bonito, o tudo, o todo. Um jardim imaturado e com flores roucas nos acompanha. Cercados, nós, os nós das coisas nos observam nas próximas lonjuras, quase sempre intangíveis, quase nunca impossíveis. Hoje sinto que preciso me esforçar feito uma flor que vai se abrindo. Arrecadar de mim o bruto músculo e o movimento. Uma atividade será necessária, mas também o bastante. Uma. É um dia difícil por ser um dia diferente dos demais. No ar está acontecendo uma revolta e eu, mesmo com este meu olhar para baixo, consigo enxergar a novidade que veio do distante... O novo é uma espécie de chuva, cai sobre os nossos ombros, arrasta-nos na correnteza, inunda-nos com uma água penetrante, água-ácida. O que meu coração agora pergunta é tudo que a minha dimensão suspeita. Suas interrogações são as pontiagudas lanças que eu queria atirar, mesmo desconhecendo a melhor direção. Há um vento invadindo este momento e ele é tão justo, e silencioso. Apoio meu corpo meio deslocado para frente nos par de punhos que se dobram. Um órgão dentro de mim inicia uma sinfonia e começo a olhar o teu rosto. Não acreditava tanto na beleza dos teus olhos e nem que eles pudessem também olhar. São verdes como a imagem que tenho de um pasto celestial, morada dum deus qualquer. O pobre banco de cimento frio nos comporta escravamente. O instante é doloroso e de espera... Vou percorrendo tua face, meticulosamente, morena pele clara de um anjo. Vou adormecendo em mim e você é filha de Medusa. Atravesso o triângulo do teu semblante como se meus olhos fossem minhas mãos, apalpando suas tímidas fugas percebidas. Raios solares propendem a desbastar escuridões. Estamos lado a lado num purgatoriozinho ensaiado de emoções. Quantos homens não sentiram o que estou sentindo! Quantas não foram as sensações idênticas! E me questiono acerca de tua origem, mulher, de tua casa, de teu fabrico. Eu estava seguro andando na tipóia velha do terreiro. Posso ser ingênuo, mas sou mais que um sesquicentenário, sei de experiências de que até Deus duvidaria. Tenho palmas hirsutas de tanto rastejar por terra, toupeirando na caçada infeliz. E tu ousas arrojar-se por minha fronde, diacho haurido a granjear a peste, estrepitando cores e ramalhando hastes, envergando-as, ditosamente... mas não nos esqueçamos do som seco do que não diz, esta estranha beleza. Que por entre os centímetros que nos separam, existe um sentimento de máquina que não pensa, um caminho próprio para o olvido. Estamos prestes a ser o fim de algo que não começou. Não vai adiantar eu me levantar e ir colher aquela rosa vermelha, triste porque que irá deixar de respirar, enfadonha porque irá receber as ordens de um reles modelo de maltrato. Que lindo ritual é o do ocaso. Nasce e morre na mesma tarde, com o brilho polido pronto para a miraculosa sobrevivência eterna da memória. Acho que atingimos o auge de nossas fortunas, e me engano pouco se estiver a sentir a loucura da felicidade. Teimoso, levanto-me. As pernas estão enferrujadas e pesam os quilos das imagens que passam por mim agora. O estalo da quebra e a rosa morta em minhas mãos. Posso fazer até um pedido que nada vai adiantar. Estamos nos matando porque não podemos fazer nada. Estamos pouco vivos porque sabemos que a nossa morte já aconteceu desde que nos sentamos aqui. Girassóis se escondem, margaridas temem o pior. Dou-te a rosa em despedida, porque vou já. A triste hora é já caída e, eu sei, mais não podemos. Se vai cobrir-me a lembrança de lampejos que me ajudem, não sei, não chegaremos lá. Abraça o que for agora, mesmo o vento solto, que vou eu mesmo abraçar. Como se procurasse o sorriso torto peculiar àqueles que não puderam amar.


Estrada para além de Charleville

domingo, 19 de julho de 2009
Pede ao Pai Maior (se...) um pouco de deserto,
pede a choça, e o arrojo, pede o abisso...
que o inferno, amigo, é uma estátua de viço
febril, acabrunhante, órgão de mar aberto!

Não é preciso ir!, necessário apenas afugentar
do espírito o medo. É, no sempre, sendeiro desistir
das fáceis atrações casuísticas, com acuidade rir
e finar orgulhos renitentes... o humano aferrar

ao cortejo do tempo nas capitais da juvência,
e debulhar in totum nossas obras inofensivas.
As mãos de quem realmente vive são ogivas

premendo em queima a letra grossa. Na cadência
da hora escura, jubiloso, vai-te, e implora: - Vidas!,
vidas!, cercai-me, benditas, de teus despojos...


Uma imagem para guardar

sábado, 18 de julho de 2009
Germano,

"O tempo é a insônia da eternidade", diria Quintana. E tu, que vives a plenitude da insônia, já és eterno, como o pôr-do-sol-do-nego-d'água. Ou de qualquer paisagem poética. Ou de qualquer poesia que seja paisagem: passagem para uma outra poesia...

Loas à vida!

sigamos...

continuemos...

e, no mais, só o silêncio...

dos ramos...

dos remos...

Luís Osete, 13 de julho de 2009.


Passagem para além de mim

Para Letícia e Zélia;


e especialmente para Markoni Trigueiro,
companheiro de uma madrugada


Cheguei sozinho num táxi. Percorri ruas de uma cidade que ainda não conheço. João Pessoa, capital do estado da bandeira “Nego”. Passei por ruas e avenidas de uma luz ainda embaçada demais para meus olhos. A sensação era a de não-pertencimento. Não é uma coisa boa de sentir, mas o carro não parava. Casas antigas, casarões, casinhas. E as luzes amarelas. Desci. A rodoviária daquela cidade é um bloco de médio-porte com ares arquitetônicos obsoletos. Nada chama a atenção. Tudo muito simples, tudo muito usual. Olho para o relógio preso no teto e ainda não deu nem 10 horas da noite. O jogo vai começar. É uma quarta-feira. Preciso me prevenir, penso. Vou à lanchonete, a única que ainda se mantém aberta a essa hora da noite. Peço um suco de laranja e um sanduíche só de queijo, a mulher por trás do balcão me avisa que os serviços da lanchonete já terminaram. Vejo que ela tira o seu gorro, parte de seu fardamento de trabalho. Ela não está mentindo. Eu penso na minha salvação. Estou sem víveres em minha mochila e posso morrer ou sofrer de fome até o amanhã acontecer. De repente, ouço um grito entrar por um dos saguões do estabelecimento, onde alguns potenciais passageiros, malemolentes e já com o sono tombando aos olhos, cultivam a lentidão do tempo. Pareceu-me o dono da lanchonete, um baixinho de óculos, parcamente gordo, avisando: “Vou fechar, quem quiser alguma coisa, que venha agora! Depois, só amanhã de manhã! Estou fechando!” Eu olhei para as prateleiras. Pense rápido, garoto – disse a mim mesmo. Vejamos... suco artificial de laranja, dois biscoitos recheados sabor chocolate. Pronto. Paguei. Ouço o barulho das grandes portas roliças sendo abaixadas, um ranger metálico e estridente. Eu ando no vazio, na direção da outra extremidade. Paro no meio do caminho. Penso na pedra do poeta, tiro a blusa de frio. Não está frio, não está calor. Precisaria de um banho, mas... impossível agora. Uma leve agonia corporal me invade. Odeio me sentir sujo. Mas dava para continuar. Eu segui. Algumas pessoas vêem TV, fim da novela. Eis o jogo. Futebol é sempre a mesma coisa, pensei. Olhei para o rosto de cada um e imaginei suas vidas. A vida, sim, nunca é a mesma coisa. A mulher com seu filhote no colo, o velho barbudo ao lado de sua caixa de papelão, o jovem de boina vermelha, meio brega, meio marginal, o outro com a esposa, os namoradinhos, o que está de pé acende um cigarro com classe, o outro tenta encontrar um jeito de dormir. No meio do primeiro tempo, decido andar por aí. O telefone toca. Ouço uma voz bonita, pensei logo nela. Não, não é. Mas é uma voz bonita. Digo que está tudo bem. Tentei. Estou sem crédito e o telefone ficou mudo de vez. O que fazer. Não quero que se preocupem. Olá, você pode passar uma mensagem para mim de seu celular? O moço diz que sim. O celular é lindo, escreve-se com uma canetinha. Pedi a ele que digitasse. Obrigado, companheiro. Boa noite. Eu estou bem, apesar de não estar tão bem assim. Mas quero passar essa impressão a mim mesmo, pelo menos isso. Eu consigo. É ela agora, o telefone treme. “Amor, meu grande amor...” Comprar um cartão telefônico. Nunca pensei que fosse tão complicado. Fui para fora do lugar, perguntando. O guardinha disse que só entrava pagando. Poxa, que desgraça é essa! Ninguém aí nessa espelunca pode me fazer o favor de ir ali naquela barraca e me trazer um cartão?! Paguei. 1 real e 80 centavos. Vai ficar caro, mas tudo bem. Pessoas sentadas esperam seus destinos. A noite é quase negra. Até um cego sentiria aquela lua linda. Consegui. Volto e ligo. Agradeço por tudo e aviso que vou voltar. E que vim para buscar ela de vez. Agora vai ser assim. Ou morremos ou não vivemos nada. Quase uma hora e as muriçocas me estragando a pele dos braços. Suportei. Um homem quase dando uma cambalhota, de tão envergado sobre o pescoço, dorme na cadeira verde. Eu vou ver a lua. Na entrada há uma fila enorme de táxis. Vou passando e olhando para o interior de cada automóvel. Os donos, deitados sobre o volante ou no banco traseiro, cochilam suas angústias. Sento no meio-fio, por detrás de um carro branco. Tiro de dentro da mochila uma blusa e estendo-a no chão. Deitei e agora estou olhando a lua linda no céu. Penso sobre o dia e me passa um filme bonito. É a memória funcionando. Estou mais vivo do que pensei. Há cigarros. Tiro os sapatos e percebo o sangue correr mais livre na ponta dos dedos. Alívio imediato. Cada vez mais vivo. Olho novamente para o relógio, quase 12. Ouço gritos de gol. Depois olhos tristes de derrota. O time brasileiro fora derrotado. Vivas aos argentinos! Há de se convir que raça e mandinga também ganham jogo. O corredor vai se esvaziando aos poucos. O lugar é quase um deserto e eu continuo deitado olhando a lua. Daqui a pouco me aparece um senhor franzino de corpo, aparentando dois tragos de cachaça no fígado, mas ainda sóbrio, com cabelos brancos, esbanjando sinceridade nos olhos. “Tudo pai de família”, ele me diz, fazendo referência ao bando de cinco ou seis taxistas que conversam e fumam bem próximo da gente. Sinto um teor crítico bastante sarcástico na fala do bebum. “Vai pra onde, doutor?” Bahia, respondo. Juazeiro da Bahia. E não me chame de doutor, sou como você. “É mesmo, doutor. Todo mundo vai pro mesmo lugar depois daqui, confere?” E me estende a mão, me olha nos olhos e tira do bolso esquerdo da camisa a sua carteira de identidade. “Meu nome é Markoni Trigueiro, confere?” Confere, me chamo Germano. De onde és? “Sou daqui mesmo”. Vocês não sabem o real tamanho de Markoni, homem que passou toda a madrugada comigo, me falando o nome das capitais do mundo todo, fazendo contas mirabolantes de matemática, respondendo as perguntas que eu fazia sobre geografia e história, me falando do seu livro favorito de Jorge Amado, “Tereza Batista cansada de guerra”. Estamos cansados, meu bom amigo? Talvez não. Markoni me contou toda a sua história, disse que estava fora de casa já há dois dias, que tinha vergonha dele mesmo, que se sentia incapaz, que tinha uma filha formada em pedagogia e que ensinava numa “escolinha”, que amava sua mulher e que foi vendedor de livros por muito tempo, mas que agora estava desempregado. Entre uma brincadeira e uma confissão, entre uma pergunta e uma sábia resposta, entre um ensinamento em francês e uma lembrança, Markoni, camisa azul de botões aberta na altura do peito, bermuda branca e chinelos simples, olhou para mim quando o relógio marcava cinco e cinqüenta do outro dia, e disse: “Preciso ir.” Falei, de chofre, que era cedo ainda, que ia viajar só quando desse dez da manhã, que ele podia ficar, caso quisesse. Ele repetiu que precisava ir. Agradeci pela companhia, com um sentimento bonito escorrendo nas veias. Percebi os seus olhos verterem lágrimas e ficarem vermelhos. Que é isso, Markoni? – interroguei. Ele me deu um abraço verdadeiro e quis saber se eu iria esquecê-lo. “Promete que vai se lembrar de mim, doutor?” Falei que jamais o esqueceria, e que quando chegasse em casa escreveria um texto para ele, para servir de memória. Ele me olhou uma última vez, apertou forte a minha mão, ainda chorando, e partiu. Nesse instante, falei comigo mesmo: “Um dia a gente se encontra novamente, Markoni. O mundo é pequeno demais diante de nossas vontades...”


O dia que não quero

quinta-feira, 16 de julho de 2009
no dia em que me faltar revoltas,
mesmo as silenciosas;
em que me faltar esperanças,
mesmo as impossíveis;
em que me olvidar das lembranças,
mesmo as depressivas;
em que me faltar alegrias,
mesmo as efêmeras...

certamente estarei pisando gramas
nos sórdidos vergéis da raça humana:
elefante alado voando rasteiro,
na altura da cegueira.




Poema retirado do meu primeiro livro (Clube de Carteado, 2006)

Nova idade

segunda-feira, 13 de julho de 2009
25 anos de Germano. Parabéns, companheiro.


Pedido

domingo, 12 de julho de 2009
Estou aqui. Sinto algo. Que horas são? Esqueceu? Eu não esqueço. O ponteiro marca. Àquela hora. Por favor, meu mais delicado por favor. Eu estou aqui. Sente algo? Que horas são? Você esquece? Quem é capaz? A hora marcada. Meu deus. Eu estou aqui! Sente? A caridade é esta chave, meu bom Rimbaud. Hienas sorriem a esta hora. Quero saber que horas são. Vou fazer um pedido. Não estou bem. Meu rosto. Manchas. A claridade também. O excesso. Tudo me cega. Aquilo. Eu vejo. Ainda vejo. Consigo. Minha cegueira é parcial. De momento. Você vai rir. Eu sei. Pode. Quando pára? Estou aqui. Não sente nada? Tic-tac. Faz o relógio. O que ele aponta? Tenho medo de a hora terminar. O abismo da hora. Estou amargo. É o meu gosto. Isto é um pedido. Minha vida de desculpas. Sempre assim. Não sou assim. Lamento. Muito. Me perdoe. Você vai rir. O minuto. Lembro. Abri meu coração. Não foi hoje. Antigamente. Todo o coração. Tenho um. Pode rir. Vou pôr a mão. Sente? Estou aqui. Sinto. Marca o tempo. Quero começar. Penso. Tanto tempo. Mas tanto mesmo. Minha vida. Me perdi. Como. Não. Sim. Meu espírito dói. Vou levantar. Está escuro. Sempre. Por quê? Eu anseio. Comprei papel. Vou. Escreverei. Pulei nu no mar. Não me lembro se sei nadar. Quem sabe nadar? Do que nos livramos? Pode alguém? Boa noite. Há quanto não nos... que saudade de você. Amor, prezado amor. Estou pedindo demissão de mim mesmo, quero outro emprego de ser. Você me arranja? Me arranha? Aranha. Tua teia. Me enrosco. Fico. Boa tarde, vida. Oi. Estou aqui. Eu sinto. É algo. Há. Os segundos. A marca no relógio. Ponteiros, são em trio. Correm. Quero dizer. Será que vai chover? Ficou bonito o tempo. Estou pensando. Estou lembrando. É o que posso fazer. Recordo. Gravo. Apago o mal que fiz. Você vai rir. Eu me importo. O outono. Me entendo. Bom dia, amor. Escrevo pra dizer. Tudo. Falta. Estou aqui. Não sei como. Mas. Ainda vivo. Eu te peço. Madrugada. Pode haver um corvo na janela. Olhe. Quanto tempo ainda tenho? Pode acabar amanhã. Até já. Eu preciso. Não deixo ouros. Deixo ir. Sem deixar. Jamais. Quero. Vou fazer um pedido. Confie em mim. Sou o que não te sabe. O arrependimento. O egoísmo. O corpo ferido. A alma mais. O corpo vazio. Eu estou morrendo. Falta pouco. Falta apenas. Eu já conheço. O sol quadrado. Já fui escravo. E bandoleiro. Não sou inteiro. Não posso ser. Meu canto é ocioso. Mas deixa que te mostro o fosso por onde andei. Na armadilha. Na arapuca. Pássaro preso. Sou o quintal. Feliz Natal! Feliz ano novo! Feliz ano velho! Aqui estou. Algo sinto. São que horas? Esqueceu? Eu não esqueço. O ponteiro marca. Àquela hora. Por favor, meu mais rouco por favor. Eu estou aqui. Sente algo? Que horas são? Você esquece? Quem é capaz? A hora marcada. Meu deus. Eu estou aqui! Sente? Me levanto. Está claro. Está ameno. O clima. Pode chover. Pode fazer sol. Sempre. Por quê? Eu desejo. Comprei papel. Anotei umas coisas. Tenho um coração. Vou. Escreverei. Pulei nu no mar. Não me lembro se sei nadar. Quem sabe nadar? Do que nos livramos? Pode alguém? Confie em mim. Aperta a minha mão. Segura firme. Por favor. Não desiste. Estamos perto. Estamos tão perto. A onda vai passar. A onda já passou. Vem. Falta pouco. Falta você. Me falto. Sou nada sem. Um braço. Uma jarda. É o destino. Estou nadando. Não sei nadar. Vou te salvar. Meu bem, meu bem. Aperta a minha mão. Que horas são? Vai passar. O frio. Olha a praia. Estamos perto. Segura em mim. Boa noite. Há muito no peito, este ar... saudade. Amor, excelentíssimo. Estou pedindo demissão de mim mesmo, quero outro emprego pra ser. Você me arranja? Me arranha? Aranha. Tua teia. Me enrosco. Fico. Boa tarde, paixão. Olá. Estou aqui. Eu sinto. É algo. Há. Milésimos. A vida no relógio. Ponteiros, são três. Rumam. Quero dizer. Digo. Será que vai chover? Ficou bonito o tempo. Estou pensando. Estou lembrando. É o que posso fazer. Recordo. Gravo. Apago o mal que fiz. Você vai rir. Eu me importo. As estações. O outono. Me entendo. Ria. Acho perfeito o seu sorrir. Bom dia, amor. Tem café pronto. Escrevo pra dizer. Eu também sou clichê. Tudo. Falta. Estou aqui. Sou pobre. Mas amo. Não sei como. Mas. Vivo. Eu te peço. Madrugada. Pode haver um corvo na janela. Olhe. Quanto tempo ainda tenho? Pode acabar amanhã. Até já. Até já. Até já. Eu preciso. Não deixo ouros. Não deixo ir. Sem deixar. Jamais. Eu quero. Como quero. Um pedido. Confie em mim.


Ana Olívia

sábado, 11 de julho de 2009
Primeiro que eu não existo. Existir sempre me foi um troço difícil. Não quero me complicar. Ainda mais nestes tempos tão civilizatórios, civilizantes. Dividem tudo, julgam tudo, mataram Deus, nem podemos mais transcender, nós mulheres não somos nada. O dia hoje está tão bonito, sei lá, deixa. Acordei cedo e me deu uma vontade de andar pelo bosque. Pus um livro na bolsa. Vou ler quando chegar ao velho carvalho. Meu marido viajou para longe. Foi tratar de negócios importantes. Moramos longe dos centros e a última vez que isso aconteceu eu já nem me lembro. Dizem que é lá no bosque que fica o inferno. O inferno nos olha todo o dia, fica na espreita. Ele é terno - e tisne não? – e nos acompanha. Hoje eu optei por conhecer o inferno, não outra coisa. Quero-o porque ele me quer. Venha de onde vier, com a máscara que preferir, mas tem de ser ele. Quero ser derrubada. É a minha doença e talvez o meu último dia aqui neste lugar. O mundo é o meu lugar. Ou não é. Sou uma terminal. Tenho a doença do meu pai e a doença do meu irmão e a doença do meu tio e a doença do chofer e a doença da ama e a da prisioneira... Eu tenciono algo e me acho responsável. Segura esta arma com o punho forte e me atira uma morte rápida. Que me paralise e me invalide, que me perturbe as vistas, ou que me torne nervosa e histérica, depressiva e suicida. Meu caso está registrado no amanhã e no hoje que é agora. Vou me auto-submeter ao tratamento dos desregrados. Por vida sempre sofri e não estou aguentando mais. Você que pode até sorrir um dia irá relatar meus traumas e vai ver como sua infância foi tão nobre e silenciosa. A cura está no bosque e o bosque é sombrio. Lá coisas desaparecem, homens se perdem, gritos são ouvidos, lamentos e lamúrias. E quando eu cair por terra quem vai me amparar? Sou romântica e vou morrer. Sinto que posso levar algo, penso. Poderei levar a verdade? O que realmente importa daqui? Há alguma coisa que realmente serve, que sentirei falta quando estiver morta? O teu sorriso? E o amor? Ninguém precisa do amor? Talvez já seja noite e eu estou te falando, falando, estou apenas falando, estamos sós, com quem estou falando? Quem é este que me cerca agora? Quem é este ser que me atormenta na quase-morte? Chega de saudade, chega de pouca ciência, chega de pouca miséria. Eu espero pela desgraça plena. Apaga o café, seu fogo. Fecha a torneira. Encosta sua cabeça aqui. Sai daí e vem. Vem, meu bem, e me diz obrigado. Que o inferno é tão lindo, vou ler um poema. Você vai ficar e vou te bater na cabeça. Vou beber teu sangue, vou matar teu filho que ainda não nasceu, serei teu e você poderá voltar. Repousa aqui, estira estas pernas, vem amor, vem que é hora, não se iluda mais, o céu é um novo assassino. Faremos alguma pornografia, celebraremos o nojo. Um banho nessa vida de festim. Corre pra lá, te encontro, e me traz, por favor, o teu medo do demônio.


Roupa nova

sexta-feira, 10 de julho de 2009
O Clube de Carteado está mudando de roupa. Os últimos ajustes ainda estão sendo feitos. Em breve, voltaremos em pleno vapor. Agradeço a atenção e a paciência de todos. Continuemos, bucaneiros...


o anjo excedente

quinta-feira, 9 de julho de 2009
continuação para o conto "Réquiem por um fugitivo",
de Caio Fernando Abreu.


Agora, sempre que entro no quarto que foi de minha mãe até o dia em que ela partiu para a outra terra, para a outra parte desse mundo, tão existível e desconhecida tanto por mim quanto por você, sou levado a caminhar por toda a área do pequeno e misterioso cômodo. Todo dia, antes de abrir a porta, um pensamento atravessa minha mente e é como se, no fundo de mim, eu ainda acreditasse que descerrando aquela porta rústica a encontraria deitada em sua cama, vestida com aqueles olhos de preguiça típicos de quem está desadormecendo, e que aos poucos a veria espreguiçar-se belissimamente, como que pressentindo ali a minha presença. Por isso, antes mesmo de pôr as mãos na fechadura, algo estranhamente sublime me acontecia e de súbito uma força leve cobria meus dedos e punhos, fazendo-me lançar sobre o gélido ferro da porta mãos que não eram as minhas, de tão exageradamente suaves e delicadas. O quarto ditosamente é o mesmo. Foi de minha vontade deixá-lo do mesmo modo como minha mãe o deixou antes de partir em definitivo. A cama permanece no centro, majestosa, com um ar de trono peculiar, penso, a uma rainha que é imortal. O criado-mudo encostado na parede, ao lado direito da cama, com sua parte marmórea brilhando de tão encerada. O abajur com a lâmpada azulada que ela usava porque tinha receio da escuridão total do quarto. O chapeleiro onde pendurava suas bolsas e cintos, a pequena estante negra, sua caixinha de música, suas poucas jóias e alguns penduricalhos. Tudo guardado no encanto do amor, como se o ato de guardar os seus objetos far-me-ia estar também a guardar para sempre a sua imagem em mim. Deus sabe como dói o peito quando me invisto naquele setor da casa, como me acerco de uma falta de ar que me comprime o corpo. Só não há mais o velho guarda-roupa, mas isso não tive como evitar. Existe uma forma de lembrança que é aterradora. Hoje, depois de revê-lo partir junto a minha mãe, no filme de nossas existências, ruflando suas asas e atirando-se sem medo ao mundo imenso dos mundos através da janela desse quarto, eu me pergunto por que razão não tive forças na voz para lhe dizer alguma coisa nas vezes que o vi, alguma palavra que fosse ao menos amiga e carinhosa, e que lhe confortasse um pouco ou lhe dissesse que eu me sentia bem sabendo que estava ali, dentro do móvel preferido de minha mãe, protegendo-a contra qualquer mal possível, protegendo-me também, mesmo você não suspeitando disso, apenas com a sua forte presença. Quando penso que perdi todo esse tempo, que não fui capaz de abraçá-lo sequer uma vez, que não arranquei para fora o meu orgulho hipócrita para dizer do meu amor por você, vejo o quão devo ter sido um filho ruim, um filho indigno, sem amor no coração. Eu que passei todos aqueles anos desconfiando de você, sem saber quem realmente era, o que pretendia, o porquê de viver naquele canto tão escondido da vida, completamente retorcido, amordaçado por um ar preso, morando dentro do guarda-roupa da minha mãe, despedaçando-se aos poucos. Demorei muito para acreditar na idéia de que minha mãe era o fator dissonante de toda essa história. Ela havia mentido para mim e eu fui caindo em sua teia sem maldade, aprisionado como um inseto perdido na selva das coisas. Mas ela fez tudo ser desse jeito porque antes de tudo ela me amava como a um filho legítimo, que tinha dentro de si o mesmo sangue que nela corria. Por isso não guardo mais mágoa, o tempo nos previne de muitas judiações e por vezes apaga o que é para se ter piedade. E aquele meu ar de mediocridade diante de mim mesmo, do poder revelador de minha face, assim como a ausência de um algo que me avisasse acerca da real direção dos ventos, para onde iríamos todos, aonde chegaríamos, o que encontraríamos no final do corredor da vida ou em uma de suas inúmeras curvas, aquilo tudo me fazia pensar duas vezes antes de fitar a verdade que existia dentro daquele seu olhar. Você soube nos auxiliar sem mexer suas asas. A vida parecia mais limpa quando eu saboreava um pouco de sua realidade. Era como se uma criança, carregada pelo pai numa estação repleta de pessoas, tomasse o rumo certo-incerto de sua liberdade e, a partir de uma fuga, começasse a descobrir-se, desabrochar-se como faz uma luz ao se acender em câmera lenta. Eu retrago esses fatos à tona porque hoje é, talvez, o dia mais importante da minha vida. Sozinho nessa casa, ao longo de dias na companhia da tristeza e do sofrimento, coisas fantásticas me aconteceram. Paulatinamente, meu corpo sofreria alterações profundas. Sem dor sentir, duas pequenas asas nuas de pena brotariam em minhas costas. Não fora derramado sangue nem feito quaisquer intervenções cirúrgicas para tal. Simplesmente um par de asas nascera em mim e, ao transcorrer das horas, elas ficariam preenchidas com alvas penas, essencialmente macias e confortáveis. Intrigantemente, diferente do que poderia ter ocorrido com outra pessoa, aceitei a mutação como um adolescente aceita o engrossar de sua voz no início da puberdade. Confesso que, por diversas vezes, esbarrei o meu novo órgão na estreita porta da cozinha, ainda desacostumado com o volume, e também no box do banheiro, quando distraidamente deixava o sabonete escorregar de minhas mãos e dava os volteios necessários para apanhá-lo novamente, mas nada que me fizesse sentir ojeriza por estar a carregar em meu dorso um par de asas angelicais. Desde aquele primeiro dia de mutação, percebi que você era o meu pai. Sim, eu sou o teu filho, posso exclamar, um legítimo anjo como você também o é. E hoje, pai, hoje é o dia que voarei pela primeira vez. Eu decidi tudo, é o meu mais íntimo desejo. Vou sair pela mesma janela que você saiu. Vou alcançar os galhos mais altos da nossa árvore, e com toda a força que tenho te encontrar. Sou a criança liberta de qualquer amarra, que jamais se esquece de pagar pelas imateriais fortunas adquiridas. Sou o filho que viu o pai sofrer e nada fez por não saber, simplesmente. Hoje habitarei o mundo por sua causa. E vai ser agora...

parecer sobre o maldito

quarta-feira, 8 de julho de 2009
curvaturas em desalinho
da mulher-pecado,
as sinuosas da seda
colada ao corpo quente
atenuam as feras criadas
nas jaulas do coração.

(ela chora, e sua lágrima
faz derreter as esferas
esquálidas e sequiosas
das mentes mais vãs)

curvar-se é brasão de fraqueza.
o amor jorra feito o fogo
das claridades mais absurdas.
o controle é perdido, e perdido
é o afã de se querer controle.
a queda de um abismo é livre,
fatal consequência e o seu golpe.

não há escape nem saída.
tuas melenas são correntes,
frias e alucinantes,
de um rio de querenças diárias
sobre você.

a noite não tardará, o que vejo é apenas
o começo de uma batalha onde o vencedor
roga sempre por perdão.


entrevista para tv

terça-feira, 7 de julho de 2009
Dentro dos próximos dias, será exibida no telejornal GR TV 1ª Edição (meio dia), da emissora TV Grande Rio, afiliada da Rede Globo com sede em Petrolina-PE, uma matéria cuja pauta é: "Escritores Anônimos do Vale do São Francisco". Fui entrevistado pela jornalista Leciane ontem, dia 06 de julho. Falei um pouco acerca de meu convívio com a escrita, minhas inspirações e aspirações, projetos e, no final, li o poema "Dados Divinos", de minha autoria. Para quem mora onde o sinal da TV Grande Rio chega com clareza, vale a pena ficar de olho. Abraço a todos. Sigamos...


moscas

acordou tentada por uma brusca vertigem. nada sentiu. caminhou até o espelho. o espelho guardava a imorredoura memória do presente. a perspectiva daquele rosto antigo e amargo era quase um desagrado. banhou-se. ali também havia um espelho. depois a mão de creme sobre o cabelo molhado. novamente o espelho. quis vomitar ao ver a imagem. ao pé da cama, enfiou cuidadosamente os cadarços do tênis nos orifícios. apertou o cinto de couro marrom, passou ferro na camisa branca de linho que foi de sua madrasta. lembrou de sua infãncia no interior e olhou pelo vidro. quase veio a vomitar. comeu azeitonas no café da manhã. não gostava de azeitonas. sentiu uma forte dor no estômago. preparou um sal de frutas e bebeu. mentiu a dor o dia inteiro. quando voltou, olhou a prataria suja sobre a mesa repleta de moscas. virou-se. fechou a lua de sua janela. olhou a lâmpada queimada no teto, percebeu uma mosca pousada em sua boca. procurou o espelho. era escura a noite. o dia inteiro.


meu livro

quinta-feira, 2 de julho de 2009

meu livro é livre,
móvel, vivo.
abro-o, altera-me.
ouço-o, escreve-me.

meu livro cá dentro mora,
paisagem sem fim.
conta ele a história
da liberdade, de seu inventor.

apesar de assim ser
meu livro livre, móvel e vivo,
é dependente de mim.

o chão do amor

quarta-feira, 1 de julho de 2009

- Velha infame – disse a mulher.

O homem abaixou o portão da garagem, trancou com chaves as duas portinholas que funcionavam tal qual um olho-mágico, olhou a caixa de correspondências, viu que nada havia lá dentro, fechou. Percebeu que o gramado da área frontal estava precisando de mais adubo, pensou em amanhã e se queixou:

- Também não foi meu dia hoje.

O homem, garboso em seu terno xadrez, sapato bico fino, legítimo couro, chegou à porta que dava para o interior da sala de estar. A mulher o esperava com respiração arfante, só ele poderia abrir. Aparentando nervosismo, ela fazia um movimento de ir-e-vir com uma das pernas inclinando calcanhar e pé sobre os dedos, de modo que muito lembrava uma bailarina quando esta se eriça rodopiando na ponta dos artelhos dos membros inferiores. O homem era jovem, branco-aloirado, traços escandinavos. Um lenço de cor sóbria lhe adereçava a lapela, tinha o colete em perfeita combinação de tons com o restante da vestimenta, gravata cinza. Tudo muito bem ajustadinho, apertado, como se uma costureira tivesse tirado suas medidas e feito a amarradura das linhas no calor das próprias mãos.

A mulher foi à pequena mesa-bar e encheu um copo com conhaque, o homem observou sua face irritadiça, e do mesmo modo a mecha cacheada de cabelos negros que lhe encobriam o olho esquerdo como um tapete de plumas acariciando-lhe a pela macia. O homem falou algo sobre o seu colega de escritório e percebeu-se vencido pela tentação despertada pelo rastro de perfume deixado pela mulher na extensão do cômodo.

A esta altura, qualquer um que adentrasse no local teria percebido o cenho modificado do homem, a cor rosácea sanguínea preenchendo seus contornos, provavelmente liberada por estímulos ulteriores. Atingido de tal forma, pôs a aproximar-se da mulher que bebia, soluçando de raiva. Tocou o ombro, imprimindo-lhe uma pressão para que ela se voltasse à direção em que estava agora. O homem lhe sorriu com uma suavidade rigorosa.

Mais de um quarto de hora já se passava quando o homem, afrouxando os botões do terno, resolveu sentar, num momento de só pensamento, copo de conhaque seguro pelas duas mãos apoiadas no joelho. Chateado, desconfortavelmente perdido em suas idéias, fitou languidamente um fio de cabelo da mulher preso ao carpete, sob a mesinha de centro.

- Sente-se aqui – falou, fazendo sinal com a cabeça.

- Aquela velha desgraçada.

- Calma, você tá tão linda hoje.

A mulher encostou o rosto no ombro do homem, tinha tensão no canto dos olhos e no queixo, não podia disfarçar. Morena-clara, trejeitos indiáticos, corpulenta, propícia para os lampejos maternais. Ficou ali respirando um ar confuso, imaginando mil coisas, parada, dando pequenos goles no líquido alcoólico.

- Quase perdemos tudo - rompeu a voz da mulher o curto silêncio que ali se instalara.

- Não diga isso.

- É porque você não viu como a expressão do rosto daquela velha mudou hoje.

O homem a abraçou, mesmo estando meio torto no sofá.

- Nem olhou na minha cara.

- Tem gente que é mesmo muito desconfiado.

- Não consigo tirar isso da cabeça. Amanhã ela vai ter comigo quando aparecer no escritório. Não vou deixar isso barato – disse, engolindo de uma só vez o conteúdo do copo.

O homem pensou no dia atribulado, mas não deferiu nenhuma palavra. Antes que a mulher lhe dirigisse mais descontentamentos, o homem aplicou um beijo longo na boca carnuda da mulher.

- Mas ela não perde por esperar – disse ela, no justo instante em que descolaram os lábios -, jogo até praga se preciso for. Aí ela nunca mais inventa de vender um terreno assim, tão sem querer, tão sem vontade.

A mulher olhou em torno, novamente pousou as vistas na mesa-bar. Foi buscar mais conhaque. Já estava amolecida com o efeito provocado pelo primeiro copo. Copo cheio dessa vez, transbordando.

- O estagiário errou um cálculo de área e por pouco não perco o emprego.

- Me dá um beijo – sussurrou a mulher, malemolente -, me faça esquecer aquela velha louca.

- Dou sim.

- Me ame.

- Vem, meu bem...

O homem pôs o copo sobre a mesinha de centro e abraçou a mulher antes mesmo de ela chegar ao sofá.

- Ponha o copo junto ao meu.

- Desgraçada! Bandida! – exclamou a mulher, enlaçando-se nos braços do homem.

Estavam embebidos num ar confortável de delírio e ira, ambos compenetrados nos acontecimentos do dia, nos desenredos do trabalho, nos descompassos dos trâmites morais e de negócios. Não conseguiam amenizar a cólera, tampouco desfazê-la totalmente. O homem a olhou nos olhos, puxou-a pelas mãos e foram em direção ao quarto.

- Eu te amo.

- Por que não tira a minha roupa? – bramiu a mulher, jogando-se de bruços no colchão.

- Confessa que estamos bem, amor, me sinto tão bem com você.

- Estamos.

- Se não fosse as desavenças lá na empresa, eu diria sem medo que hoje foi um dia perfeito. Teu cheiro...

- Alguém deve ter enchido a cabeça dela de caraminholas pra ter pensado em desistir da venda – disse a mulher, passando a mão libidinosamente sobre a calça do homem, na altura do pênis.

- Tenho quase certeza disso. Deu conta de que pediu muito pouco por terreno tão bom. É uma espécie de arrependimento sufocante, que fere ambas as consciências, tanto a de quem compra quanto a de quem comercializa. Lembro de muitos casos assim. Não seremos os últimos.

A mulher descerrou o zíper da calça do homem, tirou da casa o botão e arriou-a. Passeou a face por toda a coxa direita dele, com a bochecha roçando os pêlos macios próximos à virilha. Sentiu o membro ganhar forma e atacar a barreira da cueca. Naufragava em calores úmidos, descidos desde o couro cabeludo até sua panturrilha. Silenciosa, ébria, apalpou o membro do homem com uma das mãos, quase deitada sobre a cama, num esforço tripudiado pelas lembranças castrantes do afetado dia.

- Porra de mulher!

- Amanhã você vai ao fórum e pega a assinatura com o velho Gomes. Aí tudo se resolve. E vê se não olha pra cara deslavada dela novamente – vociferou o homem, já tomado pelas pulsões do sexo febril.

- Hoje fiquei sabendo que ele está caduco, não sei se vai conseguir assinar o documento.

- Ele está vivo, é o que importa. Não aceite nem as digitais. Faça com que ele assine nem que for com a ajuda de alguém. A letra é a melhor prova. Dispensa até as testemunhas – completou, olhando para baixo e vendo a mulher lamber seu pênis, colocando-o inteiro na boca, enquanto atravessava seu corpo grande por cima do seu.

- Parecia até que estava com raiva de mim, como se fosse eu que tivesse feito a besteira de vender o terreno a preço de banana.

- Penso que ela não fez nenhuma consulta antes.

- Ah, Ah... – gemeu a mulher.

Estavam os dois deitados. Tórax sobre tórax. A mulher em cima, fazendo movimentos lentos. Começavam a suar. O ar no quarto tornara-se abafado, um pequeno espelho na cabeceira da cama iniciou uma espécie de embaçamento. Amavam-se, indubitavelmente. Loucamente, desmedidamente, ferozmente. Mas os olhos abertos dos dois provocavam um ruído na engrenagem natural das horas. Era como se não suspeitassem de que estavam ali, um dentro do outro, em escavações corpóreas e fabricando rituais de dança. Os olhos, vivos como nunca, emprestavam àquela transa um sentimento de completa estranheza. Estariam cegos? Presos às amarras do cotidiano? Encaçapados no duro jogo da vida?

- Vou preparada amanhã – disse a mulher, saltando ininterruptamente sobre o homem, devidamente atenta para que o pênis dele não tomasse outro caminho senão o do interior de sua vagina.

- A melhor defesa é o ataque, já diz o ditado.

- Humm, humm... – gemia a mulher, baixinho, agora recostada no abdômen do homem -, a gente bem que poderia ter um filho. Mas sem aquele terreno, sem a nossa própria casa, fica inviável.

O homem explodiu em gozo, regou com o branco leite seminal todo o órgão feminino. A mulher tombou para o lado, ainda nele enroscada. Inspiravam e expiravam sofregamente. Tinham os aspectos faciais bons, aparentavam felicidade. Há muito tempo não sentiam tanto desejo como naquele momento. O casamento partia para o sétimo ano e parecia que a casa em que viviam de aluguel estava impregnada de uma monotonia aterradora. O amor começava a ser tratado como um fator opcional, coisa de domingo, quando não se tem nada por fazer e o tédio massacra. Um edredom aveludado fazia-se de roupa de cama. A cor creme das paredes trazia um pouco de paz aos olhos dos dois, esgotados pelo dia estafante.

- Te amo.

O homem voltou-se.

- Nos amamos muito, não?

A mulher meteu-se a levantar, indo de pronto à sala. Encheu mais um copo com bebida, agora vodka, e consigo mesma disse:

- Nem que eu mate a sua mãe, amor, mas aquela terra amanhã será nossa.