o dinossauro da Super ( ou do que é que eu estou falando? )

domingo, 25 de janeiro de 2009
Imagem por Adhago.

Imaginem um homem sentado numa pedra no meio de uma planície desértica. Imaginem agora que este homem não desconfia que a pedra é na verdade um focinho fossilizado de um Tiranossauro Rex. Agora junte à imagem os dizeres "Quem não lê não sabe o que está perdendo", usado numa propaganda da revista Super Interessante. Imaginou? Então, continuemos...

O produto de mídia que começarei a "analisar" a partir deste instante foi retirado de um exemplar da própria revista Super Interessante que, utilizando de seu espaço particular, acabou realizando uma espécie de esforço "metalinguístico", não na essência do significado, mas no átimo em que evidencia uma estratégia publicitária e de divulgação de sua marca dentro do produto que leva e eleva esta mesma marca. Seria isso um novo pré-requisito editorial? Uma nova "tecnologia" para a arte do convencimento? Ou uma nova e "esperta" maneira comunicativa? Não sei bem ao certo, mas esta ideia não me parece original. Faz lembrar os Parnasianos, a coisa da "arte pela arte"... Percebi que existiu uma maior (e bota maior nisso) preocupação com a linguagem visual do que com a escrita. Percebo um enorme fóssil de dinossauro, provavelmente um Tiranossauro, que ocupa quase que todo o campo da página fazendo alusão a um passado incomensuravelmente distante e mágico. No topo, um jovem pós-ultra-moderno vestido ou equipado a la American Way of life - como a maioria, claro -, completamente distraído, contemplando o horizonte e, sem se dar conta, sentado na estrutura óssea superior de um milenar e pré-histórico animal. Mas qual a moral da história? Qual a mensagem que a Super, utilizando-se da própria Super, quis transmitir? A frase presente na propaganda, que diz de maneira direta, "Quem não lê não sabe o que está perdendo", seria, talvez, a melhor resposta para estas perguntas. A informação, ou também a falta dela, ligando-se diretamente àquele velho dito do "ver mas não enxergar". Porém, o que o rapaz está perdendo? Pelo simples fato do rapaz não ser leitor da Super Interessante, ele perde a chance de perceber que não está sentado numa rocha, mas sim no focinho de um Tiranossauro Rex. E mais, perde a possibilidade de ter descoberto o mais novo parque arqueológico do mundo, que simplesmente estava ali, sob suas nádegas! E mais, perde a chance de se tornar famoso, de seguir uma carreira brilhante como cientista ou pesquisador, meramente por ter sido ele o dono da descoberta! Ficamos com a impressão de que a Super é um verdadeiro manual paleontológico, que vai nos mostrar os atalhos e os truques para diferenciarmos uma pedra de um dentre de um Tigre Dente-de-Sabre, por exemplo (desculpe a redundância). O rapaz poderia ser leitor da revista Galileu, por exemplo, fato que não o tornaria capaz de discernir a pedra do fóssil. Este conhecimento só é adquirido por advento da leitura da Super Interessante, e nada além dela. Só, e somente só, a Super Interessante pode mostrar o caminho para uma descoberta desta magnitude. Continuando a leitura e análise da propaganda, é possível extrair a ideia de uma sabedoria consumível, facilmente encontrada nas avenidas e ruas deste mundo. Lá está ela, saída do forno, imótua numa banca de revista, e agora até nas prateleiras dos Supermercados! A ordem agora é ler. Não apenas ler, mas ler a Super, pois só o seu conteúdo pode ser aplicado em seu cotidiano em prol, quem sabe, da humanidade e porque não dizer de um prêmio Nobel de "Faro Paleontológico", se caso existisse. Peço desculpa pela brincadeira. É que a situação chega a ser cômica. Imagine você no quintal de sua casa a olhar um líquido preto e mal cheiroso que brota do chão, achando que aquilo não passa de uma tubulação de esgoto quebrada. Entra ano e sai ano e você não dá a mínima importância para aquele pequeno vazamento, sem imaginar que seu quintal é um verdadeiro manancial petrolífero capaz de produzir mais de 1000 barris de petróleo e seus derivados por dia. E tudo isso porque a senhora não lê a revista Super Interessante todos os meses! Será que tudo isso é verdade? O certo é que a comunicação tem o poder de convencer e de deslocar o pensamento humano. O conhecimento e a informação pelo consumo (ou pela leitura), é o tema principal desta propaganda. Nada seremos se não lermos a Super, pois como ela mesmo diz no rodápé, "saber é Super". Talvez se não lermos, sejamos reduzidos à condição de insetos, feito o Samsa do Kafka. Meu deus!

estes Brasis

Imagem por umRashid.

Da mesma forma que a cultura serve para denunciar o progresso da sociedade, o tempo serve para reformar e construir novos conceitos e ideias. E, em se tratando do polêmico debate concernente ao estudo de nossa identidade nacional (leia-se, brasileira), isso fica ainda mais evidente após uma análise mais acurada sobre o afloramento da visão de que o povo brasileiro deve ser pensado como a fusão de inúmeros fragmentos raciais que, por conseguinte, desencadearão em uma Unidade/Singularidade frente a outras etnias; ideologia essa que começou a ser mais bem tratada a partir dos anos 60. "Nós somos um povo mestiço e isso não podemos esconder", assim escreveu Darcy Ribeiro em seu livro O Povo Brasileiro. Essa afirmação só vem a corroborar um aspecto identitário nacional que, na pior das hipóteses, é completamente visível e indiscutível - ou alguém aqui sabe dizer a verdadeira origem de seus traços físicos? A formação desse "povo ninguém", como assim designou o autor da obra, mesclado e repartido em trejeitos europeus, africanos, indígenas e tantas outras derivações, acabou implicando, querendo ou não, na produção dessa "unidade multifacetada e multicultural" chamada brasileiro. O documentário, que leva o mesmo título da obra, dirigido por Isa Grinspum Ferraz, apresentando este mesmo discurso através de outra linguagem midiática - neste caso a televisão -, faz brotar impactantes questionamentos referentes ao papel desempenhado pela mídia, ou melhor, que deveria ser desempenhado por ela, no justo desígnio de promoção desse "universo homogêneo" que é o nosso país. O filme ainda conta com depoimentos de Chico Buarque, Gilberto Gil, Antônio Candido, Tom Zé, Aziz Ab'Saber, Paulo Vanzolini, Hermano Vianna.

ondas nada comuns

sábado, 24 de janeiro de 2009
Imagem por nusferatu.

O uso da esfera pública com a finalidade de formação de uma consciência coletiva (localidade), a democratização da comunicação e a promoção ao engajamento da comunidade em prol da defesa e da manutenção de sua particularidade social, possibilitando a geração de movimentos sociais que encontram no pleno direito ao exercício da cidadania a sua meta primordial, formando também "agentes políticos" saudáveis... Talvez sejam essas as três características mais desrespeitadas no ambiente de uma rádio com a concessão para ser comunitária. Em síntese, a maior parte das características e funcionalidades objetivas ligadas a qualquer rádio comunitária é desrespeitada e/ou desviada a partir do momento em que seu pensamento básico atrela-se, direta ou indiretamente, à mídia. Tal fato explica, de uma forma mais contundente, a desvalorização do caráter original das emissoras de rádio comunitárias. Perde-se assim o foco da racionalidade, abrindo espaço para a introdução de uma metodologia discrepante da que a origina. A defesa e a preocupação com o que é de ordem social e de interesse geral (maioria) da comunidade/localidade é reprimida a tal ponto que o cidadão é obrigado a aceitar posicionamentos que não condizem com a sua realidade, tornando-o alienado e reduzindo-o ao papel de mero consumidor de bens simbólicos. Há uma espécie de prática de uma "violência" simbólica por parte dessas estações transgressoras, um nuvem negra que sobrevoa a atmosfera cognitiva e intelectualizante de milhares de pessoas. Outro ponto a se destacar é a instrumentalização do meio comunicativo, nessa caso o rádio, por meio de figuras políticas ou partidos/legendas, com o desejo de angariar conquistas eleitorais. Uma apropriação indevida de um espaço destinado a outros objetivos, mas que serve de combustível para a máquina da corrupção. E o pior de tudo é saber que esses atos são, indubitavelmente, facilitados por administrações também fraudulentas. Muitos mitos são forjados através dessa prática ilícita. Desse modo, a comunidade acaba perdendo a vez e a voz, o direito à cidadania, à moral e à liberdade de expressão. Essa atitude, quando não aparece clara e inteiramente perceptível aos ouvidos do cidadão, surge camuflada, jamais perdendo o seu caráter degenerante. Não obstante, há a prática do que se convencionou chamar de "coronelismo radiofônico", entre tantos outras artimanhas que são utilizadas. Aqui o patrão (geralmente um candidato político) arma uma rádio comunitária, difunde suas propostas e, depois de se sagrar vitorioso - ou não - "entrega" a emissora à população, manipulando interesses e vontades que deturpam os anseios da massa.

o departamento

Imagem por BambolaDiVetro.

a repressão não

procura submergir
a criança
(envoltos estão os significados, as formações)

ambição!
não

as máquinas abstratas não são negócios de instâncias psicológicas
antes de depender das ciências da cultura das ideologias das gias dos ensinamentos elas dependem da política do desejo
me dê o não

de ti preciso sua perna é larga seu passo
paço
para ampliar o pretendido período de latência
Freud é duvidável

a esfera AMBIÇÃO! das passagens dum agenciamento para outro
(Marcador pela repressão social)

mas que perna larga, que pena larga
o coração iluminado...
e todo conjunto repressivo sobre o conjunto das máquinas desejosas não age
faz por meio das ABSTRATAS
ATÉ NISSO -
SOCIAL-INDIVÍDUO
o coração sombrio

zonas biológicas
zonas psicológicas
zonas sociais

eu não estou pensando em ninguém
as máquinas de ensino não têm por fim primordial transmitir informações conhecimentos uma cultura mas transformar inteiramente as coordenadas semióticas da criança o período de latência é um fazer construir pessoas que -
15 anos de duração?
submeter indivíduos até o mais íntimo de suas feiúras
nervosas
todo o sistema de produção capitalista meu deus...
família escolar reeducativos remédios baRATOS
deseficientes
na medida que conseguem prender
e o inconsciente só existe após a sua manifestação nas estruturas semióticas ou nas estratificações sociais ou materiais - ratos potenciais me devoram?
sintomas maquínicos ameaçando
o retorno poderoso
minha própria dissociação
cuidado, criancinhas
os departamentos nos corrigem

navegar é muito perigoso...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Imagem por dudu988.

“navegar é muito perigoso”, diria o mestre Guima, inspirado no Pessoa. Adoro inverter frases. Adoro a palavra adoro... em minha infância, fui amiúde repreendido por um aviso singelo: “só se adora a Deus”. E assim foi. Eu tinha de dizer que gostava de certas coisas. Mas, na verdade, eu adorava. E continuo adorando. Acredito em pouca coisa do que já me disseram sobre a vida. Ainda mais se tais simbolizações vieram despidas de textura, ritmo, luminosidade, fluência, perspectiva, cores e afins... o que foge a isto tende a ser apagado, aos poucos... viver é preciso, navegar é perigoso...

letreiros luminosos me tiram o sono, me lembram vagamente que a cidade, mesmo com sono, não dorme... HOTEL 24 HORAS. Não consigo dormir. Não saio mais. Nem me interessa saber se amanhã vai chover nos satélites artificiais. Nos lagos naturais, nos paços celestiais, nas luzes das catedrais... não encontro inspiração. Um mar azul e aberto é só um mar azul, e aberto... concreto e abstrato só servem para nomear o que é comum e próprio. E vice versa. Como toda obra de arte é a arte de uma obra, que nem sempre é arte, nem obra... obrei reconheceste reconhecendo o hífen que nos separa (aproxima). Lembra das pontes? De hidrogênio? As cadeias de carbono só sabem unir valências. E Margarida só sabe unir os lábios. No espelho do quarto...

a vida é uma viagem. Trouxeste a chave? Do carro? Então percorramos esta cidade de prédios irregulares, que crescem em direção ao mar. A brisa se mistura ao mato no pôr-do-sol, mas tudo é tão inofensivo... nenhum descanso para um coração acelerado. Nenhum decênio para um movimento involuntário. Nada se escreve nas linhas tortas do trilho, nem mesmo o silêncio das estações. A primavera cheira a jasmim, nos campos da Europa. No Brasil, caem pétalas no outono. Se Antônio fosse vivo, viveria... mas Antonio morreu, sem nunca ter existido. Virou uma representação imperfeita de um mundo irregular. Como as curvas das palavras...

tenho pena dos homens utópicos, mas adoro me iludir. Que todos os seus sonhos se realizem hoje, amanhã e sempre. Nos clichês da vida... os homens não são fáceis, e eu adoro todos. Quero todo mundo aqui, olhando para meu umbigo sujo de desleixo, sorrindo para meus gestos largos e obscenos. Os homens são sempre iguais, mesmo sendo diferentes... porque não se resiste a ser o que sempre se quis. Me prendo a convenções, conveniências e consensos. A rima me atrai tanto quanto a aliteração. “A brisa do Brasil beija e balança”. Na pança da sobeja...

capricho na caligrafia quando escrevo algo que eleva minha baixo-estima. Me estimo e, com a mesma dedicação, cumpro uma penitência diária em frente ao espelho. Com dedo em riste e olhos envenenados de ódio. Não sei a parte que me cabe no latifúndio da vida. Ademais, desejo o dia em que todas as terras sejam desapropriadas. E escrevo porque meu mundo perfeito não existe, e a lua às vezes não brilha em meu céu. As estrelas são surpreendentes, e tem noites em que o melhor mesmo é dividir uma mesa com os amigos, ao som da última parada do momento. Num bar vagabundo...

não posso me distrair. Nem começar uma frase com a palavra “não”. É indelicado, dizem os mestres. O fato é que sentei para escrever e lembrei de Drummond. Só a poesia nos redime de tanta falta de tudo. A poesia é uma ponte entre eu e os outros – de mim. Aqueles mesmos que navegam nas ondas de um rio, muito perigoso...

Por Luís Osete, sobre o peso da existência...

Luís Osete é estudante de jornalismo e psicologia, dividi-dor de um apartamento comigo, Germano, bem ali no centro da cidade de Juazeiro-BA. E está iniciando uma espécie de coluna aqui no Clube de Carteado, onde escreverá "Sobre o peso da existência", postulando acerca da vida, esta coisa que nos basta...

poema para uma viagem de dias

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Imagem por illy93.

a Danúbia Lins.

nestas horas me tenho incrédulo
e também no labirinto, preso,
da felicidade.
conheço-te de longe
(menina que inquieta minh'alma).
foges para onde?
a vida é um caminho de nuvens
que enxergamos passar
da janela,
um caminho de toada triste,
de tortas pedras.
e este mundo
fica tão simples na tua voz!
(ele não é maior que a distância
negra do teu claro coração).

Salvador, 25 de junho de 2002.

uma crônica em três tempos

Imagem por LuthiHaitsu69.

Tempo II - A Iraquara do seu Juquinha

Era ele, sempre, como num ritual sagrado e atemporal. Todo santo dia, lá estava o seu Juquinha, recarregando as lâmpadas dos postes de luz de Iraquara. Foi um avanço quando o prefeito Manoel Teixeira Leite trouxe à cidade algumas unidades das lâmpadas Petromax e Colemam, e em pontos estratégicos iluminou as ruas iraquarenses, escuras e amedrontadoras. Acostumados com uma Iraquara feia e noturnamente intransitável, pois não havia energia elétrica nas ruas, tampouco nas casas, os antigos moradores, que acendiam fifós em suas casas, o que acabava clareando um pouquinho as calçadas nuas e sujas, ao verem seu Juquinha malinando naquele arcabouço metálico pendurado no mastro, de inox e ar no bojo, bombando ar para o receptáculo onde ficava a camisa de amianto e a mistura de álcool e querosene, sentiam-se felizes porque o breu tinha hora pra acabar, mesmo que por um curto espaço de tempo.

Iraquara bem poderia ter sido, durante seus primeiros anos de vida, cenário para filmes de faroeste norte-americano, com aqueles lugarejos vazios de alma e cheios de mistérios. Iraquara já foi uma cidade-fantasma, não é exagero dizer. As estradas, quase todas em precário estado de conservação, de cascalho e barro, não facilitavam o contato com as outras cidades. A falta de calçamento apropriado, a presença de buracos no meio das vias públicas, o lamaçal em que se transformava quando a chuva apertava, tudo isso fazia com que o recolhimento dos habitantes dentro de seus aposentos fosse marca de um passado nada distante. A falta de conforto, em todos os sentidos e segmentos, era visível. Sem higiene nem saúde, porcos, jumentos, pessoas e outros animais disputavam restos de alimentos após o fim da feira, nos sábados de se lavar as almas esfomeadas.

E o seu Juquinha, tio da Maria escritora, assim como outros personagens iraquarenses, iluminando tudo sem pedir muito ao destino, as dores e as alegrias deste povo que traz o pé encardido como sinal de bem-aventurança desde o momento da nascença. Clareando as quedas das mulheres casadas quando tentavam driblar as poças e os charcos - um escândalo para a época. Aquela luzinha temporária, esgotável, alumiando as infâncias maravilhosas, de brincadeiras de pular, de correr, de esconde-esconde, de galinha-gorda, de dar bolo, pega-pega, baleado, jiribita, boca-de-forno, elástico, casinha, panelinha e de boneca. Tudo para ver a meninada mais livre, sem essa falsa felicidade que os jovens de Iraquara estampam em seus rostos, mancebia regada a combustíveis dopantes e mecânicos.

Incansável Juquinha, dando carga com a força dos braços para ver Iraquara crescer, para ver a menina Maria se deslumbrar com a boneca que chorava e com a boneca que dormia trazidas por seu pai dentro de uma malinha de lá de Belo Horizonte, em uma de suas inumeráveis viagens pelo Brasil - brinquedos que ninguém possuía na cidade, sem falar na cama Patente para as bonecas que também ganhou. Para ver a Maria voltar do Instituto Ponte Nova nas férias, hoje cidade de Wagner, engolir piaba viva e amarrar cabaça no corpo para aprender a nadar no rio que a sede nunca possuiu, mas que foi distribuído em abundância pelos povoados de Caiçara, Ingazeira, São José, Pratinha, Riacho do Mel e tantos outros. Luz para ver a Maria sonhar em ser aeromoça, policial feminina, assim como ajudar a costurar perna de rapaz ferido e ver o doutor Américo Chagas cauterizar gente doente usando de talos de folha de côco raspados e enrolados em algodão. Tio bombeando luz para que a Maria pudesse ler nas noites as revistas O Cruzeiro e Manchete que o pai Abdias Dourado fizera assinatura, para no futuro ver nascer dentro dela o gosto de escrever e educar.

Juquinha que quis ver o "vestido venturoso" no corpo da Maria, ganhado do deputado Souto Soares, depois de recitado o versejo "Neste dia venturoso/cheio de luz e esperança/aceitas, doutor Souto,/estas flores por lembrança?" numa festa de recepção ainda bem lá nos idos de brotação citadina. Homem Juquinha que viu a chegada do motorzinho movido a óleo diesel que acendia Iraquara todinha às 18 horas, dava sinal que ia apagar dez para as dez da noite e que parava de gerar energia pontualmente às 22 horas, dispensando no porvir próximo seu trabalho de acendedor de postes, num já calculado pequeno indício do "progresso" dos tempos aportando na Chapada, sem ter dó de ninguém. Iraquara mudou, sim, e cresceu - o mínimo que poderia crescer, é de se saber - em débito impagável para com milhares de Juquinhas, que com amor e ação fizeram com que os dias iraquarenses fossem preenchidos com radiações luminosas ancorados nos raios matinais que não cansam de nos surpreender quando ultrapassam a barreira das serras e dos morros diamantinos.

opostos

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Imagem por iNeedChemicalX.

Enquanto alguns comemoram a vida,
enquanto outros rumam em direção ao paraíso,
continuo a me deliciar por ser a larva que sou.
Enquanto muitos sujam seus uniformes
e maculam suas peles,
eu do meu lado aprendo a aprender.
Enquanto você se masturba com ilusões
de algo que faz do teu ego assunto tão ordinário,
espero o tempo dizer o que devo fazer.
Enquanto dependes de drogas para o prazer,
escuto a música que diz em sons mortais.
Enquanto desfilam pelas ruas trajando a falsidade,
enquanto alguns dão risadas pelos cantos,
prefiro não mostrar os dentes da hipocrisia.
Enquanto cospem no rosto do amigo
e perdem peças fundamentais dos seus tesouros,
enriqueço vendo sofrer as consequências de um mundo perdido.
Enquanto se debruçam e se matam pelo dinheiro,
cruelmente festejo os insucessos
e torço ainda mais pelos fracassos.
O meu lado é oposto.
Do pomar que cultivo os frutos se alimentam.
Enquanto esforças para ter o que ostentar
e mostrar a todos com o horrível orgulho quem és,
contento-me com minhas origens e humildemente construo minha casa,
que ainda sem reboco, chora de tristeza por ter sido erguida ao lado
de residências pintadas com as cores das desgraças dos homens.

Canarana-BA, 18 de julho de 2002.

retalhos ( Parte VI )

Imagem por duststorm10.

LVI

Muitas vidas se resumem a isto:


.


LVII

Cego é quem enxerga cor.
Quem emprega valor.
Quem se sente reitor.
Quem não sabe do amor.


LVIII

O brasileiro é um garrote que está no curral para fim de confinamento, rumo ao matadouro.


LIX

Assim que se tentar renunciar às respostas esquemáticas do determinismo psicogenético, as questões (elas próprias) se voltam e se enriquecem.


LX - (Primeira sinopse escrita para o curta-metragem Noturno)

Produzido nos meses de junho e julho de 2006 por alunos do curso de Comunicação Social - Jornalismo em multimeios do DCH III/UNEB, o curta-metragem Noturno dialoga com algumas das inúmeras faces da noite e sua simbologia. A partir de diferentes pontos de vista, o filme mostra a magia e mistério vividos por personagens da cidade baiana de Juazeiro, que revelam os perigos e encantos da noite.

O Filme foi produzido por Álvaro Luiz, Ecliz Rodriguez, Germano Xavier, Inês Guimarães, Leônidas Vidal e Patrícia Telles.


LXI

a travessia
em flertar
em fluido ar
estar instante
a instância
magnética do
rioverde


LXII

ouço passos lá fora...
é a vida caminhando caminhos.


LXIII

Poeta-me, que eu te conjugo!
Transfigura-me, que eu te arrebato!
Ponha-me de pé, que eu te desfaço!

(Não sei o que me acontece. Sempre perco para as palavras.)


LXIV

Eu já lhe disse que era um presente. Você já viu alguém pagar por um presente? E não adianta recusar o meu PRESENTE, porque eu não aceito devolução. Isso é uma ordem!


LXV - (Story-line sobre o documentário "Buena Vista Social Club")

Depois de quase 40 anos de inatividade, velhos amigos se reúnem novamente para relembrar estórias e, principalmente, tocar juntos. Numa ótica bastante abrangente, os melhores músicos cubanos de toda uma geração provam que para a boa música não existem fronteiras.

confissão

terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Imagem por TriviaBitter.

Amigo, vês aquela moça perto da curva?
Amo-a em minha vontade mais sufocada,
em meu delírio mais cego,
em minha natureza mais estampada.
Todo dia ela se deita lá,
embaixo daquela árvore,
onde tudo após ela se perde
no horizonte distante.
Vezes passo caminhando o outono
e vejo o vestido fino de seda
a balançar no redemoinho
os meus desejos.
Dentro de mim, tudo é igual...
E sei, cada vez mais, que na ausência
até mesmo duma parola a amo.
Na confusão que causa o cruzar daquelas pernas,
amo-a gratuitamente
e de maneira infundada.
Mas o que é mesmo o amor,
senão a incerteza dessas curvas sinuosas?

Salvador, 27 de novembro de 2005.

psicologia de Colombo

Imagem por Radojavor.

Quis Colombo desejar desvendar os mistérios
do mundo. Quis Colombo querer criar o seu próprio caminho.
Colombo quis e buscou pelo sonho.
A crença de que a Terra era redonda desafiando
e contrariando ideias da igreja, o poder.
(Mais poderosa que o homem?)
Quis Colombo e elaborou dúvidas sobre a realização do sonho,
mas certo que a coragem era superior ao medo.
E escreveu o enredo da história.
Desdominação psicológica da igreja sobre as pessoas.
Mesmo não tendo chegado ao seu objetivo inicial,
não se arrepender de ter viajado.
Respeitar as diferenças nos momentos iniciais.
Angustiar-se pela demora (medar
de não concluir a viagem e de desobter sucesso).
Desacomodar a sociedade diante das leis da igreja.
Gerar fascinação nos índios pelos espanhóis.
Mudar os costumes dos índios e dos espanhóis.
Ser selvagem depois. O nobre espanhol
(explorador queria que os índios fossem escravos)
em sua posição de liderança, em posição de Colombo.
Inicialmente dar aos índios posição inferior aos espanhóis.
Fabricar ganância em todos que participarem da viagem
(em dois aspectos: descobertas e ouro).
Romper os padrões científicos da época.
Mudar o relacionamento dos índios com os espanhóis depois da morte
de trinta e nove exploradores (se isso acontecer).
Não dividir os espanhóis em "uns a favor de Colombo"
e "outros a favor de Moxina".
Disseminar sentimento de superioridade por parte dos nobres que participaram da expedição.
Abrir o olho para qualquer nomeação de qualquer vice-rei.
Jamais sofrer de desilusão quando souber que algum Américo Vespúcio descobriu o continente
que ele tanto desejara. Quando encontrar a esposa reconhecer que a liberdade é o bem mais valioso. Conseguir a confiança de uma rainha por não temê-la.
E quando o príncipe pedir para que se descreva a primeira lembrança da viagem,
que venha a memória da terra surgindo entre a neblina
como um sonho que se concretiza ante a força da imaginação.
Agosto de 2005

as casinhas de alegria com fim

Imagem por eikomakimachi.

Desapareceu aquele palhaço da minha infância, que surgia esporadicamente, tacitamente, e que sempre cumpria estadia na praça da minha cidade, bem em frente ao hospital. "A minha infância não é tão longe assim", pensou o jovem já-quase-velho. "Por isso sofro ainda com a viva lembrança daqueles cirquinhos de meia-tigela, pousados sobre o chão empoeirado daquela praça, praça abandonada, tentando tocar o céu inigualavelmente azul-estrelável de Iraquara, beijar a dona da noite e conclamar todos os sorrisos para o passeio no bonde chamado felicidade. Eram rotineiras as aparições. Chegavam sempre de mansinho, e a cidade ainda lenta só espalharia a notícia depois de fincados os mastros principais.

A gente jogando bola na rua ou soltando pipa na frente do cemitério e uma meia dúzia de artistas vestindo fantasias em farrapos, leões fedorentos, macaquinhos esfomeados, a menininha nômade de cabelos loiros - por quem sempre me apaixonava -, que na minha imaginação saltava do alto e dava rodopios de borboleta na frente de todo mundo, dentro daquelas lonas desgastadas, remendadas e já sem vida, sem cor, carregados pelo carro de som divulgando o espetáculo das 8 horas, um som sujo, chiado, quase incompreensível, o palhaço na frente fazendo o que só ele saberia fazer, palhaçadas e peraltices, a garotada em cima do muro esperando o tempo certo de vestir uma roupa e sentar e rir sem fim, aquele tempo, aquele tempo tão esperado que não passava.

Pensando hoje, quanta falta faz a alegria, mesmo a alegria comprada, advinda de um ingresso e de um saquinho de pipoca sem gosto nenhum, senão o da felicidade. Eu, caído mais em mim do que pelas coisas mundanas, eu me lembro muito bem da entrada sombria, repleta de lâmpadas cansadas, das cortinas penduradas cheias de remendos e cortes. A arquibancada, erguida em madeira ruim, sempre dava a sensação que alguém, em algum momento, iria despencar no primeiro acesso de riso solto. Mas a vontade de rir era mais forte que todos os perigos da felicidade - e como é perigoso a felicidade verdadeira da infância! O circo parecia ter vida própria, assemelhava-se a um ser humano, um homem velho com o dorso torto de tanto carregar o peso da incerteza, da dúvida perante o amanhã sofrido, sem show, sem platéia, sem sangue percorrendo suas veias, o picadeiro.

Era quando a noite ruía e já no interior do cirquinho, a voz anunciando "E hoje, tem espetáculo?" nos iluminava de um prazer indescritível, em péssima equalização sonora... e todos respondendo "Tem sim, senhor!!!", para e na direção de um senhor que nunca conhecemos, que nunca vimos o rosto, mas que nas nossas cabeças existia, sim, e tinha a feição e a compleição de um palhaço velhinho, provável proprietário da caravana. Mas de um palhaço mesmo, artista que aprendia a arte do riso no próprio circo, e não de um Clown, artista estudado em escolas e cursos circenses. O meu palhaço, o palhaço iraquarense, o nosso bufão, era palhaço sem diploma, era o palhaço que precisava ser na hora em que estava no picadeiro, que nos dava passagem, tecnologia humana de ponta, feito de improvisos e instantaneidades.

Mas aquele palhaço desmiolado e que usava um baita de um sapatão preto-e-branco envelheceu, o Biancorino que tanto caminhou ao meu lado, o Aziz, o Carlitos, o Carequinha, o Benjamim de Oliveira, o Bozo sem técnica, todos o bobos, o Mixuruca, o Biribinha, os Dangas do Egito Antigo e até a Hilary Chaplain, todos eles, sem exceção, envelheceram em minha alma, assim como na alma de todos que viveram a felicidade estrangeira que Iraquara proporcionava naqueles tempos. Hoje estão petrificados, empalhados e suspensos em alguma parede dos nossos corações. Todavia, a criança que ainda vive em nosso peito, ainda espera aquele carrinho velho passar com toda a trupe, sem farol e fumacento, pobre em adereços e rico em magia, na porta de casa, extremamente capaz de nos revelar a indelével e fantástica surpresa de um sorriso no rosto.

noite...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Imagem por Cadavre5Exquis.

Besouros sobrevoam a sala. Resvalam na parede, bêbados da luz incandescente. Zunem em minhas leituras. Tento alcançá-los com Hatoum em punho, incomodado com aquela aporrinhação no meio da madrugada. Não adianta: Besouro só sabe brilhar...

Baratas voadoras: Como não matá-las? Com a sandália dos outros. Enquanto a guerra nuclear não chega para extinguir tudo o que não seja barata, vou travando minha luta particular. Certo de que perderei. Não adianta: Baratas só sabem atazanar...

Ô vida gostosa, a noite inteira matando muriçocas... Cada tapa uma morte. Sangue de meu próprio sangue cristalizando em meu peito. Se Dumas dormisse em minha casa escreveria um outro romance: "Os Três Mosquiteiros", uma
trilogia sobre minha infância. Não adianta: Muriçocas só sabem pirraçar...

Grilos trilam meus ouvidos. Nas trilhas do terreiro. Com suas longas antenas. Sons envolvem a noite numa sinfonia. Aos poucos, minha patética audição se acostuma, mesmo não lembrando em nada a “Patética”, de Tchaikovsky. Não adianta: Os grilos só não cantam mais para Fernando Sabino...

Tia Bela já dizia: “Se o galo canta fora de hora, é porque amanhã tem novidade...”. Adélia fez uma “Sesta com flores” para complementar: “Os galos sabem/ cantam fora de hora / querendo apressar o dia”. Não adianta: Galos, só, são surpreendentes...

Passarinhos de assobios presos, na escuridão do quarto. Por acaso veem mais fantasmas do que o menino assombrado? Até hoje não entendo por que aqui o mundo se reduz, se tudo lá fora reluz... Seres com um olhar sempre atento. Às vezes param. Às vezes pensam? Não adianta: Gaiolas só trazem lamentos...

A vida e seus mistérios. Nada como uma manhã após uma noite de angústias. Com suas histórias do arco-da-velha. Com seus espectros da falha na telha. Com seus besouros, baratas, muriçocas, grilos, galos e gaiolas...

Mesmo não adiantando nada...

Por Luís Osete, sobre o peso da existência...

Luís Osete é estudante de jornalismo e psicologia, dividi-dor de um apartamento comigo, Germano, bem ali no centro da cidade de Juazeiro-BA. E mantém uma espécie de coluna aqui no Clube de Carteado, onde escreverá "Sobre o peso da existência", postulando acerca da vida, esta coisa que nos basta...

Uma crônica em três tempos

domingo, 18 de janeiro de 2009
Imagem por ju-bertho.

Tempo I - Maria, a Neta polivalente

Ela tinha tudo para ter sido apenas mais uma Maria dentre outras Marias, mas o destino quis com ela fazer diferente. Esta Maria na verdade escreve Anna como primeiro nome para assinar os documentos mais importantes - assim mesmo, com dois ênes. Anna Maria Félix dos Santos, a filha do emblemático Seu Douzinho e de outra Maria, a mãe. Maria diversa, Maria múltipla, de uma sabedoria incomum, mistura de mulher-mãe, de menina, de dona de casa, de avó. Humana, como as demais Marias e também os Joões iraquarenses, forte e fraca, destemida, mulher de se ir à guerra, de sangrar e dar a própria vida em troca de uma causa maior: a vida. Dupla, rudimentar mulher moderna, sem numerais que a classifiquem, olha para o hoje e para o amanhã sem jamais se esquecer do passado.

Esta Maria foi gerada dentro do seio de uma família tradicional da cidade de Iraquara - a família Félix -, cegamente obcecada por um conservadorismo natural àquela época, viu-se atravessar as correntes pesadas do tempo antigo na obrigação de obedecer em tudo aos seus pais, o que a fazia sentir-se enfraquecida diante do silêncio a que era imposta durante todos os primeiros anos de sua vida. Foi assim que, durante muito tempo, aguentou a carga da quase-inércia das horas naqueles idos. Mas esta Maria era uma Maria autêntica, e sendo assim arranjou forças para atravessar inúmeras barreiras ligadas à mulher, vencendo com o passar dos dias toda espécie de submissão e escrevendo sua história com garra e determinança.

Maria é hoje patrimônio vivo de Iraquara, mas nem só em chãos ricos em carbonato de cálcio, que permitem à região possuir o segundo maior parque espeleotemático brasileiro, riquíssimo em formações raras em grutas e cavernas, ela viveu. Maria foi mais uma daquelas Marias que começaram a crescer após terem conhecido o significado da palavra sofrimento, uma Maria que percebeu que seu estado latente de ser não era o caminho mais curto em direção à felicidade. Família, convívio social e trabalho foram as maiores causas para o brotar acinzentado de vários de seus dias. Mas como tudo na vida sofre uma reviravolta, eis que Iraquara, esta criança, cedo ou tarde viria lhe reservar inúmeras satisfações. Para ela, a cidade grafada em língua Tupi e com o significado de Pote de Mel, em referência ao poço de água cristalina e salobre que atraiu os primeiros viajantes tropeiros e possibilitou que em seu derredor fosse construído aos poucos as primeiras casas de descanso das pessoas e dos animais, para sempre se tornaria sua jóia mais preciosa. Razão para uma paixão desmedida, esta Maria não podia caminhar por uma outra trilha.

O bisavô desta Maria foi o fundador da cidade diamantina, que em 05 de julho de 2009 fará 47 anos de emancipação política e territorial. Por estes e outros fatos, esta Maria se sente na obrigação de cuidar da sua filha Iraquara, paixão que certamente durará o tempo necessário à eternidade. Hoje, já entrada em anos e firme em convicções, deseja continuar sendo uma zeladora da história da cidade, buscando dedicar-se ao máximo no intento de difundir e promover o lado cultural da localidade. E é através da expressão de sua palavra, seja em prosa ou em verso, que Maria tenta, com unhas e dentes, perseverar nesta ação transformadora. Sapiente das inúmeras dificuldades para com o trato e a valorização do fazer literário, Maria segue sem desistir. E na lembrança se constrói...

- Teresinha, já decorei todas as poesias de Guiomar Chagas, a sobrinha do doutor Américo.
- Então, recita uma aí pra ver se é mesmo verdade o que você me diz.

Foi lendo as poesias da colega de classe Teresinha, quando ainda morava em Ponte Nova e contava seus 15 anos de idade, que germinou o gosto pela arte poética nesta Maria. Vendo-se desafiada a recitar poemas escritos por Guiomar, lá ia a Maria provar que a poesia entrava fácil pela couraça do espírito, demandando apenas uma maior dedicação ao trabalho de artesã das letras. Enfim, foi lendo Guiomar que esta Maria virou poeta. Admiradora do movimento romântico, Maria também percorre os campos da poesia que enaltecem a geografia privilegiada da região, assim como o desprendimento necessário para psicografar textos.

No entre o vai-dormir e o não-vai, entre o devaneio e sono, ela teve uma visão. Olhou para o teto e viu uma caravela a se aproximar, flutuando sobre nuvens, cercada por raios de luz com pontas preenchidas por pequenas estrelas. Encontrava-se além da sua própria imaginação, como parece ter sido todo o seu percurso vital. Médium-católica, voz-sentir, psicofônica, intuitiva, constituída de pressentimentos, professora polivalente de história, geografia, L.P.L.B, Religião, Educação Moral e Cívica, Filosofia et caetera, esta Maria um dia sonhou que era uma rosa no meio do jardim cheio de outras rosas e beija-flores. Sonhou simples, como quem apenas quer ser parte de todo o colorido, sem suspeitar que ela, esta Maria de vanguarda, bem poderia ser todo o roseiral.

Cícero, o contador de histórias

domingo, 11 de janeiro de 2009
Imagem por Arathrim.

Eu sempre saía de casa após ter feito a refeição do meio-dia, ali pelas tardes amenas da minha Iraquara de lembranças, com a intenção de encontrar aquela família, meu quase irmão Lucas - companheiro de muitas brincadeiras -, meus parentes de coração, é certo... Porém, dentre aquelas pessoas, havia uma que se destacava das demais. Nos seus setenta anos de idade, ele ainda esbanjava um vigor de criança. Olhar perdido pelos caminhos da vida, jeito simples, a camisa quase sempre desabotoada, aqueles cabelos alvos de se viver anos, sério e brincalhão ao mesmo tempo. Tempo que ele tirava de letra, sempre driblando os obstáculos mais difíceis. Era quase diário aquele encontro, eu sozinho, depois meu irmão também, cada vez mais assíduos os dois juntos, porque éramos (somos) daquela família.

Coisa de trezentos metros, cinco ou seis postes atravessados, a esquina da antiga amendoeira dobrada, e logo estávamos diante do portão. Não raras as vezes, encontrávamos todos juntos na garagem. O Lucas, a Maria, a Deuzir, o Vado, o Neto e ele, o Cícero. Cícero, o contador de histórias. Sempre sereno, Cícero era uma pessoa a ser ouvida, com os olhos analíticos da alma. Facilmente ficávamos uma manhã inteira, uma tarde inteira ou uma noite inteira ouvindo os seus causos. Nunca esqueço de uma noite, sentados no banquinho, em plena Avenida Sílvio Almeida ali bem perto do velho posto de gasolina, quando Cícero começou a nos contar histórias de quando ele vestia as ordens da polícia.

Histórias que mesclavam drama e comédia no mesmo ato, corridas contra bandidos e forasteiros nos campos e nas caatingas que recobrem a topografia iraquarense. Falava com uma modéstia sabida, sem exagerar muito, num gesticular esvaziado de detalhamento - talvez fazia isso para não entregar a graça da trama ao primeiro arroubo imaginativo, nos encantando numa intensidade assustadora -, vendendo sua imagem de bravura com a sutil inteligência desses matutos interioranos que aprendem os segredos de viver sem precisar dos manuais e das cartilhas vendidas em revistarias e livrarias dos centros. Falava de tudo, sem nunca misturar nada. Foram muitas risadas e suspenses elevados para as horas últimas e, por vezes, iniciais da madrugada, sempre alimentando nossas almas, naquelas noites frientas da cidadezinha.

Foi uma historieta que muito me marcou a de quando Cícero, em tom de seriedade, revelou-nos os costumeiros métodos e as táticas que o serviço policial, tanto de Iraquara quando da cidade vizinha Seabra, utilizavam para fazer com que os suspeitos revelassem ainda mais detalhes sobre os crimes praticados. Uma verdadeira tortura era feita, e a gente também sofria escutando tudo aquilo. Choques, agulhas enfiadas calmamente por debaixo das unhas, sovas, provocações de vários estilos entravam para a lista de maldades. Mas o tempo foi passando, a vida nos carregando para outros lugares, impedindo-nos de dividir mais tempo e aprender coisas para a vida com o grande Cícero. O tempo de cada um, agora crianças já adultas, levadas pelo vento das responsabilidades modernas...

E eis que numa manhã o sol, que era claro e de sorriso úmido, emudece. Foi quando recebi um telefonema de minha mãe dizendo que ele, o nosso maior contador de histórias, havia nos deixado para sempre. Eu, mergulhado em provas para corrigir, naquela sala, naquela escola, tão protegido de qualquer infâmia, tão longe daquela morte, confesso que não acreditei. Como pode uma pessoa que sempre esteve e sempre estará em nossos corações, ir, assim, para sempre? Tomado por um câncer, Cícero ainda lutaria com todas as forças por sua permanência física entre nós. Tentou, lutou, conseguiu... mas ele foi chamado, definitivamente, por alguém muito mais importante e, assim, teve de fazer sua última viagem, a viagem que todos nós faremos um dia, com pressa ou sem, para novas descobertas.

Cícero, que jamais morrerá dentro daqueles que tiveram a honra e a sorte de dividir a sabedoria do homem, do cidadão iraquarense, retrato de uma velhice feita de imensidões e sofrimentos, resolveu partir. Tomou banho, penteou os cabelos, como de praxe deixou a camisa entreaberta, permitindo ao vento arrefecer seus pulmões castigados pelo cigarro assassino, pegou sua bicicleta, a mesma que usava para buscar o leite do dia no roçado do tempo, e saiu pedalando calmamente em sua simplicidade magnífica, pedalando, sobrelevado pelas nuvens brancas do céu... pedalando as horas que não o tinham mais, deixando para trás um poço de recordações inesquecíveis, um passado-presente interminável, repleto de saudades...

Uma homenagem a você, Cícero, homem que, com suas palavras e seus gestos humildes, muito me ensinou. Continue a pedalar sua bicicleta mágica, nos horizontes dos mundos invisíveis...

Baudrillard e o destino da energia (O teorema da parte maldita)

Imagem por fluogarden.


Estamos diante de uma transição de fase, de uma evolução. É o que defende o sociólogo e fotógrafo Jean Baudrillard, nascido em Reims (França), em 1929. Evolução essa de dimensões catastróficas. Estamos vivendo num mundo em que a "cultura" atual tem como característica fundamental ser um processo (imutável) de liberação de energia, diferentemente das "culturas" anteriores, e o homem agora é parte integrante desses processos. Baudrillard apresenta os processos energéticos produzidos pelo homem e questiona até onde vai o poder do ser humano de aprimorar, aperfeiçoar esses processos. Ele diz que uma mesma energia produzida para o bem da humanidade, se não controlada ou acelerada pode tomar proporções contrárias e acabar por destruí-la. Como exemplo temos a bomba atômica lançada sobre Hiroshima e o acidente na usina nuclear de Chernobyl (consequências da liberação de grandes quantidades de energia armazenada). Baudrillard analisa também a relação entre bem e mal. Para ele, o bem consiste em uma dialética entre os dois elementos; em contraste, o mal se derivaria da negação dessa dialética, na desunião radical entre bem e mal. Marcados pela cegueira de seus interesses, os indivíduos modernos tendem a acreditar que o mal nunca é aquilo que eles fazem a outros, e sim o que eles sofrem nas mãos de outros. Assim, os atentados de 11 de setembro de 2001 não são encarnações do mal para aqueles que percebem nessas ações uma resposta ao comportamento dos Estados Unidos com relação a causa palestina ou ao terceiro mundo em geral. Como, também, a invasão ao Iraque não tem nada a ver com o mal para os que a analisam como uma resposta ao terrorismo. Em outras palavras, é uma característica essencial do mal o fato de que possa ser produzido ou sofrido, mas sem que por isso possa ser justificado ou explicado de forma racional e convincente. Resumindo, o mal assinala algo inominado, irracional, para o qual não existem palavras. Sempre muito irônico e polêmico, Jean Baudrillard acha um absurdo ser chamado de pós-moderno, pois para ele o conceito de pós-modernidade já não existe mais, é um conceito tratado de forma irresponsável, de abordagem pseudocientífica dos fenômenos. Caracterizado como um filósofo que procura refletir por caminhos oblíquos, examina a vida como um fotógrafo, como ele assim mesmo se intitula. Grande crítico das imagens, Baudrillard revela em suas fotografias a irrealidade das coisas, a ilusão dos objetos, seu próprio simulacro. Seus principais livros são: O Sistema dos Objetos; A sombra das maiorias silenciosas; Simulacros e Simulação (que baseou a trilogia dos filmes Matrix); América; A transparência do mal; A troca impossível e O lúdico e o policial. Atualmente dedica-se a escrever e proferir palestras.

precipitação

Imagem por bizarrismo.

- Vai com calma meu filho. Ainda tem mais...

- Quem é você?

- Estou tentando descobrir também...

- Por acaso és algum anjo torto, desses que vivem na sombra?...

- Se isto melhor lhe convém...

- Para quem já morreu, alguma coisa convém?

- A eternidade, talvez...

- A propósito, cadê o vale de borboletas azuis que povoavam a paisagem eterna de meus sonhos?...

- Você ainda não viu nada, meu caro...

- Osete. Luís Osete.

- Você ainda não viu nada... Mas, deixemos a morte pra depois. Me fale de sua vida...

- Minha vida é feita muito mais de esquecimentos do que de lembranças. Lembro-me apenas que, quando criança, entre uma andorinha no céu e um livro na mão, eu caminhava sorrateiro em direção às nuvens. E, todos sabiam, eu tinha tudo pra envelhecer poeta... Mas não passei de um poema sobre a chuva fina que batia na janela do meu quarto numa manhã de abril: precipitei-me...

- Precipitou-se...

- Quando morri, era meio-dia em minha vida... Ainda tentei apalpar um rasgo da minha infância, perdida... Nada encontrei... Fiquei recolhendo os cacos... Vestígios de mim mesmo, pedaços de vazio... Em meu último alvorecer, senti a finitude da vida, escapando...

- Escapando...

- E busquei com as mãos outra mão que me resgatasse do encontro com o desconhecido. Percebi, por fim, que só eu poderia me resgatar, mas já não havia mais tempo, nem forças...

- Nem forças...

- Ainda vi minha mãe encostada ao fogão coando o café, enquanto eu ria, na sala, das travessuras de meu pai. Agora, na flor da manhã, encontrei você, como se encontrasse um dos fantasmas que cresciam nas paredes do meu quarto...

- Eu sou apenas a linha tênue que divide a vida em duas metades. Agora podes ir ao encontro do que tanto procuravas...

Por Luís Osete, sobre o peso da existência...

Luís Osete é estudante de jornalismo e psicologia, dividi-dor de um apartamento comigo, Germano, bem ali no centro da cidade de Juazeiro-BA. E está iniciando uma espécie de coluna aqui no Clube de Carteado, onde escreverá "Sobre o peso da existência", postulando acerca da vida, esta coisa que nos basta...

o quarto poder

sábado, 10 de janeiro de 2009
Imagem por negateven.

Um desafio para reconquistar o antigo posto na emissora KXBD, coloca o repórter Max Breckett numa situação bastante inusitada. Tudo isso para que pudesse ele retornar a exercer o seu ofício na cidade de Nova York. Do que seria capaz um jornalista decadente para recuperar o seu prestígio perdido? É justamente sobre esta temática que o filme O Quarto Poder, do diretor Costa Gravas, tenta dialogar. Com a incumbência de produzir uma matéria em um museu no centro da cidade, e que, dificilmente, chamaria a atenção da sociedade, Max parte para o local da reportagem, sem grandes expectativas e na companhia de uma estagiária. Todavia, ao chegar ao museu, depara-se com um segurança revoltado por ter sido demitido sem motivos aparentes. Pronto, o palco estava armado. Principalmente, quando o vigilante, com uma arma em punho, dispara um tiro em direção a um outro guarda que estava nas proximidades. E o que parecia ser uma matéria insípida, logo se transforma numa polêmica nacional. Tudo graças à malícia e à experiência de Breckett que, utilizando vários recursos sensacionalistas, consegue arrebatar uma audiência extraordinária, fazendo com que toda a população se voltasse para o fato. Depois do processo inicial, a imprensa revela sua face mais cruel. Percebe-se a fomentação de inverdades que vão de encontro à ética e à objetividade jornalísticas. Macula-se a verdadeira e mais digna faceta do trabalho de apuração dos argumentos, fazendo do aparelho de imprensa uma máquina manipuladora de opiniões. De coadjuvante à protagonista do espetáculo midiático, Max apresenta o outro lado do jornalismo, um retrato que, infelizmente, ainda insiste em permanecer sobre as mesas de inumeráveis redações de jornal. Todo um ritual de ordenamento moral que rege a "cartilha" da decência jornalística é rompida, a partir do instante em que o profissional se "desprofissionaliza", o que implica no emprego de metodologias que permeiam a individualidade, a parcialidade na efetivação da mensagem, ou seja, tudo que abarca os interesses particulares de quem está com essa "arma" em mãos. As consequências de tal procedimento, num meio onde deveria haver o predomínio pela busca e uso da objetividade - e aqui está incluído toda a engrenagem desta ciência, que vai desde a apuração até os modelos de veiculação midiática, passando pelo que intermedeia a relação emissor-receptor (princípio básico da comunicação) -, são de dimensões catastróficas. Uma população alienada, com os olhares viciados para o que há de corrupto, digere, embriagada, o jogo fantástico dos aparelhos comunicacionais. Com um enredo no mínimo interessante, o longa-metragem consegue pôr em discussão uma temática que, indiscutivelmente, como um fantasma, ronda o meio. E isso fica ainda mais evidente a partir do momento que pensamos que hoje o jornalismo é movido pelo combustível dos gigantescos conglomerados empresariais.

selva de pedra

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Imagem por eyetrance.


Por onde correu o rio,
hoje uma avenida de lágrimas
cobrindo o chão com asfalto
- enorme estrada de lástimas...

Eis aqui a formosura de uma bela árvore!
Amanhã, pobre e infeliz, um poste de desgraças,
iluminando os atos humanos
nas horas que não haveria de ter luz.

Ontem, uma mina de ouro.
Hoje, um túnel de esgoto
transbordando toda a sujeira
dos porcos homens em suas ratoeiras.

Dava pra se ver o horizonte,
o sol se pondo e a noite caindo.
Hoje, horríveis pontes,
o céu cinza, os pássaros chorando...

Onde se tinha cavalos,
hoje um amontoado de carros
dirigidos por indirigíveis,
guiados pela intolerância.

Ontem, vasta flora e fauna.
Sem tédio, a beleza das flores...
Hoje, usina de pragas.
Viadutos e prédios, abrigo das dores.

Muros altos, portões trancados,
luzes e alarmes; mundo de grades.
Tijolos sem vida, blocos de saudade...
apenas uma migalha de liberdade.

Salvador-BA, 30 de agosto de 2002.

paixão e guerra no sertão de Canudos

Imagem por qrolfashion.

E o sertão virou mar, um mar de sangue e horror. Esta é a epopéia sertaneja ocorrida na cidade baiana de Canudos, palco de um dos maiores levantes revolucionários da recente história brasileira. E é essa, também, a temática central do premiado documentário Paixão e Guerra no sertão de Canudos, produzido no ano de 1993, sob a direção de Antônio Olavo. O vídeo, que conta com a narração de José Wilker, outrora protagonista de um longa-metragem que recebe o mesmo nome da cidade que depois seria inundada pelas águas do açude Cabrobó, relata a saga vivida por Antônio Conselheiro, líder guerrilheiro combatente do novo regime governamental instalado no Brasil (a República), que continuaria concentrado na mão das elites e do poder político o direito à terra e à renda. Sob este prisma, a produção buscou em depoimentos de parentes, pesquisadores, a matéria-prima para a construção do filme. A verdade dos testemunhos impressiona, juntamente com o esforço de retratar, na subjetividade das paisagens, a situação da localidade, castigada pela seca e pela pobreza. Certamente, um vídeo que marcará o cenário cinematográfico nacional por muitas décadas.

domingo em Iraquara


Imagem por "ponto-quente".

Hoje é sábado em minha cidade, véspera de um domingo como outro qualquer. Hoje, sábado e véspera de um domingo como qualquer outro na minha cidade, beiro a morte, a minha morte. Por onde me encontrassem, facilmente as pessoas poderiam denunciar preocupações ou simplesmente perguntariam sobre o meu estado, se estaria eu passando por algum problema ou se algo teria acontecido comigo. Porque, nos olhos dessas pessoas, meus conhecidos e meus desconhecidos, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de cachoeiras. Não haveria resposta em mim, e não teria como. Creio que morri um pouco hoje, neste sábado, véspera de um domingo como qualquer outro, um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite.

Morre-se mais ligeiramente (não sei se este é o termo mais conveniente) nos sábados e nos domingos aqui em Iraquara. Engraçado, também morro agora - um pouco é certo -, no mesmo instante em que escrevo estas palavras. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Pois já não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. Precisarei. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga... Necessito da morte para viver, mas morrer em Iraquara, diariamente ou semanalmente - ou simplesmente duas ou três vezes por ano, quando retorno de férias-, é sempre melhor, apesar de não ser nada fácil. Há um gosto gostoso em se morrer aqui.

Todavia, enquanto ela não me abraça pelo todo de sua envergadura (a morte), sigo a escrever, em reduzidas linhas, a minha própria morte. E você, que lê, persiste, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, que pode ser o espelho da sua ou não ter nadica de nada a ver com ela, absorvendo com a alma sua também morte vital. Enquanto ela não vem, o menino e a menina iraquarense, ainda sob os cuidados do ocioso fim de tarde do sábado, sem nenhum desses centros integrados de compras ou entretenimento bastante comuns em cidades grandes, esperam já ansiosos pelo domingo de se ir ao Morro do Pai Inácio, pelo feriado de se aguar nas intermináveis mini-cachoeiras do rio Mucugezinho, pelo final de semana de se fazer trilha pelo Vale do Paty, visitar a aldeia do Capão, limpar a alma na Pratinha ou se aventurar por debaixo do chão, em uma das centenas de grutas espalhadas nos arredores de Iraquara.

E é deveras no sábado que todo o planejamento se dá. Aí o menino e a menina iraquarense ajuda o pai a pôr a churrasqueira portátil no porta-malas do automóvel, a pegar o saco de carvão - muito do qual, infelizmente, produzido com a queima da vegetação nativa da Chapada Diamantina-, a enrolar a esteira de palha do tio, a amarrar os espetos da vizinha, bola, bóia, carne, muita carne, brinquedos, toalhas, com alegria e disposição únicas. Porque foram dias de espera e nada pode dar errado agora . Tudo tem de estar em perfeita ordem, para que o fim de semana não descambe para a desolação total. Começando pelo tempo que, por ser a Chapada uma região geograficamente alta, acostumou-se a pegar desprevenido a quem olha o horizonte claro e limpo de longe do lugar onde se quer aportar, surdinamente levando aquela chuvinha constante e típica justamente para o local escolhido, quando na verdade se esperava um sol abrasador.

Com tudo arrumadinho, sol acordando cedo, lá se vai a família iraquarense, unida como em revoada de estorninhos, povoar universalmente os infindáveis paraísos naturais gerados no centro da Bahia, preenchendo terras em seu nomadismo quase sagrado, colorindo os topos dos morros e das serras, invadindo a privacidade dos mocós e dos animais albinos donos do centro da terra - ah, Júlio Verne! -, cortando as estradas sinuosas das antigas e rentáveis lavras de pedras preciosas, vai como quem consabe da glória que é ter tido a oportunidade de nascer e crescer sobre esta imensa manjedoura feita de pedra, arquitetura divina, rudimentar e misteriosamente imortal, dona das cicatrizes deixadas na memória da vida, e que nunca mais se despedem de nós, pobres mortais - bom salientar.

quando a noite caía em minha infância...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Imagem por Monislawa.

O enigma permaneceu. Como naquelas noites em que eu corria pro banheiro ao sentir o cheiro de cuscuz. Tomava banho ouvindo minha mãe estalar ovos de granja na velha panela - última recordação do chá-de-cozinha.

- O café já está na mesa, crianças...

Ela dizia. E eu me enxugava aos atropelos só para ver a manteiga derretendo no calor do amido. Às vezes me engasgava, tossia, estapeava os ombros, apertava o copo de café, levantava pra cuspir. Olhos lacrimejando ao sorriso de meu pai. Que sempre me dizia...

- Vai com calma meu filho. Ainda tem mais...

Mais tarde eu ia tomar sereno em frente à casa de tia Bela. Ficava guardando um silêncio respeitoso enquanto os cinco mistérios passeavam pelas contas do rosário.

- Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo...

Amém. Ela nunca me falou em Adélia Prado, mas não conheci quem vivesse tanto a poesia daquela mineira de Divinópolis, sobre quem um dia Drummond, espantado, disse: “é um fenômeno poético”. Tia Bela também era um fenômeno poético, sem nunca ter precisado fazer um “Mural” que dissesse:

- A rotina perfeita é Deus.

Do arco de minha tia, pessoas mortas vestidas de branco apareciam em madrugadas insones. Crianças viam e conversavam com Nossa Senhora Divina Pastora.

- Essa menina não se cria, Totonho...

Cancelas abriam e fechavam sozinhas. Visagens de um tempo em que os galos apressavam o dia. E, para coroar a noite, sempre tinha quem acrescentasse, com uma seriedade inquestionável:

- Ainda ontem, dona Bela, finado Zé das Virgens veio me pedir para procurar um dinheiro que ele esqueceu no armário. E, veja a senhora, o dinheiro todinho tava lá...

Aquelas histórias abriam cancelas em minha imaginação. Horas depois, constelações cresciam medonhas por todas as frestas do quarto. Meus cabelos arrepiavam. O coração galopeava. Os olhos vertiam lágrimas de angústia. E qualquer barulho era como se o mundo desabasse, e eu fosse a única vítima. Quando não havia saída, engolia meu orgulho de filho mais velho e clamava:

- Minha mãe, tô com medo...

Tive de aprender a lidar com as sombras daqueles dias, imerso nos lençóis das noites afora. Quando os fantasmas cresciam nas paredes do abandono, e meus olhos lacrimejavam ao sorriso das manhãs. Que nunca me disseram...

- Vai com calma meu filho. Ainda tem mais...

Por Luís Osete, sobre o peso da existência...

Luís Osete é estudante de jornalismo e psicologia, dividi-dor de um apartamento comigo, Germano, bem ali no centro da cidade de Juazeiro-BA. E está iniciando uma espécie de coluna aqui no Clube de Carteado, onde escreverá "Sobre o peso da existência", postulando acerca da vida, esta coisa que nos basta...

soneto trincado

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Imagem por raesalyers.

Pego-me pensando em como seria
o homem de sonho despojado.
Em seu império como um rei acuado,
a vida, assim, que motivo teria?

Num arbusto, em espinhos, pasmo estaria
ao ver o amor no cais ser atracado.
Quem nunca quis ter sido amado?!
E por que em noite foste tu tão tardia?

Quis apenas um sonho ter perdido,
não ter de viver no presente frustrado
e ao infinito mar ter me rendido...

Quem dera não ter eu agonizado,
e no teu colo preso estar detido,
e de sonhos não me sentir abandonado.

Salvador-BA, novembro de 2002.

Iraquara muito além do esquecer

Imagem por RedMisty.

Ouvindo Mautner, com "Todos os fogos, o fogo" do Cortázar aqui do meu lado direito, espiando-me para ver se não farei nenhuma besteira, dou-me mais uma vez a esta "coisa assassina" que é escrever. É esta minha labuta diária, brotada numa sexta-feira treze de julho, ainda girino em mil novecentos e oitenta e quatro, indefeso nascendo no único hospital da cidade, ali na Praça das Árvores – ainda hoje o único, após mais de vinte anos -, a manha para minhas constantes transformações e reformas humanas interiores. "Tem um Dauphine aqui, vazio, com a chave na ignição" – é o que sempre digo a mim mesmo, até quando a chuva aponta longe-perto nos morros gigantes da Chapada Diamantina, avisando-nos sobre o tédio. “Não deseja acelerá-lo?”, diz, sempre, uma voz irrequieta.

Eu falarei de Iraquara, cidade baiana-natal, lugar que me possuiu até os idos de minha adolescência de quatorze anos. Falarei, falando-me também, porque sou parte. Há de precisarmos da memória, daquele sentir guardado no escrínio de nossa alma, lugar mais ameno. É ela, e também o esquecimento, a mãe de todas as benfeitorias. Eu começo gritando a todos vocês, conhecidos e desconhecidos, que eu perdi Iraquara. Não, eu não estou blefando. Há muito não vivo em Iraquara, não ando suas escuridões noturnas, não cheiro suas manhãs vazias de automóveis nem bebo o rebusnar dos jumentos chegando das vilas e povoados para o movimentado e cansativo dia de feira-livre. Todavia, mesmo sendo este o meu último-inaugural barulho, reforço-me na idéia de pertencimento.

Pertencer é uma palavra difícil, pesa uma tonelada e, para ser mais direto, demanda um conjunto inteiro de vivências. Porque pertencer é ter consciência de construção, de participação, de si próprio. Mas voltemos a Iraquara e às palavras que por ora teço; minha rua, a Tito Luna Freire, já não é mais a mesma, as praças idem, os domingos de se visitar a parentada, amigos se foram – para nunca mais? -, o Educandário José de Arimatéia não existe mais, as brincadeiras de bola e a amurada pequena do vizinho, onde cada timinho esperava sua vez no baba, também são só lembranças. Muita coisa mudou nesses anos em que andei fora, trocando o encardido dos meus pés pisantes de paralelepípedos sujos de terra vermelha por uma alva pele acostumada ao asfalto sem gordura.

Quando, em mil novecentos e noventa e nove, aportei em outros solos, eu não sabia que o ontem pudesse ter sido o meu último dia como iraquarense nato. Talvez eu jamais desconfiasse de tal acontecimento. Um último dia é sempre algo tão longe, tão dissoluto. O derradeiro dia é tão...tão...infinito. Distante! E também impalpável, incompreensível, sem medidas. Mas, então, o que me faz escrever esta crônica-dor senão a existência de um fim, de uma presente imagem daquilo que se acaba? Por que não deixar um último registro de mim, de uma experiência de troca, para que um derradeiro olhar atinja meu universo e o universo dessa cidade tão nova, mesmo que seja apenas a forma de minha arcada dentária num pão dormido, ali mesmo, sobre a velha mesa de todos os dias?

Perder dói, eu sei. Mas ninguém foi derrotado, é preciso que se diga. Nem eu nem você, absolutamente ninguém venceu. A única vantagem que vejo em tudo isso, em toda essa nossa relação, e isso vale para todos que namoram sua cidade, se é que há vantagem nesse jogo, é que todos nós aprendemos, e o melhor de tudo, aprendemos a crescer. Não é que eu, Iraquara, filho de tuas profundezas, esteja reclamando a tua face antiga, saudoso e nostálgico, nada disso. Sei bem que não és mais ingênua como antigamente, que em teus vãos ratos e outras nojeiras compõem agora sua paisagem, o perigo das entradas e saídas, a violência, assim como renovadas fontes de alegria e beleza. Você cresceu, eu cresci. E continuamos crianças, flores anônimas, desabrochando.

Ao contrário do que possa parecer, Iraquara, só estou cuidando um pouco de ti. Esse cuidado em te querer, inesgotável em riquezas e sofrenças, ambígua fonte de sorrir-chorar, de odiar-amar, que dormir-sonhar, que tanto me formou, não pode tomar sereno e se adoentar. Eu perdi minha cidade, cidade que nem só das grutas será, mas a ela pertenço. Eternamente. E ternamente. E por isso, e muito por você, Iraquara, é que sigo te esperando lá na frente, "onde ninguém saiba nada sobre os outros, onde todos olhavam fixamente para a frente, exclusivamente para a frente".

todo texto

terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Imagem por RicardoCruz7.

Todo texto é um hipertexto. É justamente sobre esse alicerce fundamental que Ingedore Koch vai tentar desvendar os segredos do texto plurilinear, ou seja, constituído de múltiplos sentidos, repleto de ramificações, conexões e possibilidades. Koch pretende o hipertexto como um complexo processual de construção de sentido. Resumindo, o hipertexto como um corpo plurilinear e multiramificado. Para ela, todo texto é um hipertexto, independentemente do suporte que utiliza, sendo que a diferença com relação ao hipertexto eletrônico reside apenas no suporte e na velocidade com que essas outras "direções" são acessadas. Como exemplo mais contundente, a autora cita o exemplo do gênero reportagem, que geralmente é circundado por boxes explicativos, sejam eles gráficos, tabelas ou mesmo fotografias. O hipertexto possibilita ao leitor ser ele uma espécie de construtor ou co-autor do texto, a partir do momento em que, na posse do objeto textual, o leitor desvela diversas fontes de informação, assim como diferentes aspectos e propriedades que só serão reveladas de forma aleatória e desfocada. Entre as características do hipertexto, estão a não-linearidade, a volatilidade, a territorialidade, a interatividade, o descentramento e a multisemiose. O principal componente do hipertexto, ainda segundo a autora, é o hiperlink, que é o dispositivo técnico-informático que permite efetivar ágeis deslocamentos, realizar remissões de outros textos, bem como possibilitar o acesso a outros campos informacionais. São três as funções do hiperlink: 1) Dêitica (indicar, sugerir caminhos, enunciar e focalizar); 2) Coesiva (entrelaçar discursos, amarrar informações); 3) Cognitiva ("encapsulador" de cargas de sentido, acionador de memória e de construção estratégica).

diálogo para final de livro

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Imagem por EddieTheYeti.

Braga é o homem do acontecido e inicia o discurso:

- Quanta saudade, Helena!
- Imaginei que estes hematomas te impediriam de enxergar a realidade inconsciente que você produziu.
- Como assim, inconsciente? Eu estava sob o efeito do álcool, não havia um gole sequer de consciência naquele meu gesto.
- Rá, rá, rá! Ah, não?!
- O que tem de engraçado nisso, Helena?
- É que os sinais de uma consciência, plena e madura, não florescem nos instantes mais precisos, não acha?
- Qual a razão para tanta ironia?
- Você sabe...
- Fale! Continue!
-Continuar o quê?
- Diga porquê eu não lhe devo matar.
- Se você me odeia, mate-me.
- Eu te odeio porque te amo. O ódio é o amor em excesso, sabia?!
- Rá, rá, rá... não me faça rir, por favor.
- Amar também é ser fiel a quem nos trai, eu te perdoo, juro.
- Nelson Rodrigues deve estar se pocando de rir... quem está com o punhal não é você, por que você não me mata logo?!
- E quem disse que este punhal é pra você?
- Se não é pra mim, é pra quem?
- Lentamente este punhal irá retalhar um coração despedaçado.
- O que é isso?
- Adeus, Helena.
- Não, não, não... filho da puta, você não merece isso... se matar por mim... desgraçado, covarde! Me dá essa desgraça, eu vou também...

serventia

Imagem por sbego.

Para que serve um texto? Certamente, esta é uma pergunta um tanto que pretensiosa, pois estamos dialogando com um assunto bastante amplo e, diria, ilimitado. Mas, por que ilimitado? A resposta é simples: porque os textos (gêneros textuais) sofrem influência do espaço temporal/tempo, assim como de todas as suas vicissitudes, sofrendo mutações constantes (transmutações) em seus modelos de organização e disposição de seus elementos, sem falar que novos gêneros são criados a todo instante, em diversas partes do mundo, em diversas circunstâncias. Os gêneros textuais são maleáveis. Os gêneros textuais refletem as mudanças pelas quais o mundo e o ser humano atravessam. A cada geração, novos gêneros textuais surgem, acompanhando as modernas ferramentas tecnológicas de comunicação que revolucionam o modo de efetuar a transmissão de mensagens, informação, conhecimento. Cabe ressaltar a importância e influência da internet, como também a fundação de um espaço virtual: o ciberespaço. Em outros tempos, as espécies textuais se restringiam ao romance, novela, conto, crônica, fábula, carta, apólogo, farsa, tragédia, ópera, revista, entre outros. Circunferência aumentada, nestes renovados idos, pelo uso do e-mail, torpedos, mensagens virtuais instantâneas. Construir o conhecimento e a cultura de um povo, registrando a história através da palavra e da expressão, este é o papel primordial que legitima a função de destaque dada aos gêneros textuais.

Luís Osete morreu sem saber se ia dormir ou nascer...

domingo, 4 de janeiro de 2009
Imagem por Amoratus.



Na noite em que velaram meu corpo esperei ansiosamente que alguém recordasse, com a emoção peculiar às perdas, uma de minhas inesquecíveis anedotas da infância e que, à meia-noite, aquele velho segredo fosse revelado aos borbotões, para que todos soubessem que da vida não se leva nada...

Nada disto aconteceu. O óbvio ululante ululou, entre choros e cânticos. As velas embalavam meu espírito, enquanto copos de café eram distribuídos aos de alma mais sonífera. Alguém lembrou de matar o tempo batendo pedras de dominó na mesa de sucupira da sala de estar. É, mais um velório...

Duas horas da manhã, um ônibus estacionou na rua. Um ônibus com um brasão, abaixo do qual se lia: “Universidade do Estado da Bahia”. Oxente, o busu da UNEB?

- Rapaz, foi difícil convencer Zé Humberto de que haveria um Congresso de Comunicação em Cardeal...

- Ainda bem que ele nunca ouviu falar nesse fim de mundo, senão aí é que ele não acreditaria mesmo...

Chegaram, e foram logo entrando. Algumas pessoas esqueceram que por trás de Osete (veja só...) tinha uma família. Correram para espiar como a minha face, cercada de flores, perdia um pouco da obscuridade. Mas até estes mais afoitos se convenceram de que deveriam cumprimentar os donos da casa. Uma fila se formou para dar os pêsames a meus pais.

Terminado o ritual, por volta das três e meia da manhã, os que não estavam a fim de rezar, chorar e jogar dominó se entreolharam:

- E aí, vamos fazer o quê agora?...

- Poxa, não dá nem pra chamar o cara pra comer um pastel, né...

- Velho, essa varanda seria massa para uma miséria coletiva...

- Mas um clima pesado desses...

- Que nada. Se ele tivesse vivo ia gostar, isso eu garanto. Eu trouxe uns vinhos, só falta alguém puxar a poesia...

- Pronto! Eu recito um cordel...

E lá se foi Vinícius declamar aquele velho cordel que nunca envelhece... Sob o lema, “a poesia é a única prova concreta da existência do homem” (Luís Cardoza y Aragon), deu-se início à madrugada de recitais. As beatas, convidadas por minha mãe, e os bêbados, que nunca precisam ser convidados, ficaram meio perdidas ante a balbúrdia. Minha família preferiu o silêncio:

- Vamos respeitar. Quem sabe não foi um desejo dele...

No sarau, o mais agitado (como sempre), era Paulo. Até no muro ele resolveu subir, com um copo de vinho numa mão e a “Carta de despedida”, de Ana Cristina César, na outra.

- Que milagre Osete não resolveu escrever uma carta de despedida também, hein Érica...

Comentou Karine, enquanto discutia uma mística de despedida ideal para aquele momento.

- Sei lá. Foi suicídio?

- Sei não. Foi mistério...

Germano, que até aquele momento só havia recitado “Porto dos disfarces”, aproveitou os primeiros raios de uma “aurora morta” para declamar a frase que um dia servira de título a um texto escrito numa noite de insônia:

- Luís Osete morreu sem saber se ia dormir ou nascer...

Velas sem sebo, choros sem lágrimas, cânticos sem palavras... Agora já não me recordo com tanta clareza, mas suponho que um sorriso à mona lisa escapou de meus lábios ao ouvir a frase avulsa. O caixão se fechou lentamente e, antes que alguém desconfiasse de qualquer coisa, o enigma permaneceu...

Por Luís Osete, sobre o peso da existência...

Luís Osete é estudante de jornalismo e psicologia, dividi-dor de um apartamento comigo, Germano, bem ali no centro da cidade de Juazeiro-BA. E inicia hoje uma espécie de coluna aqui no Clube de Carteado, onde escreverá "Sobre o peso da existência", postulando acerca da vida, esta coisa que nos basta...

cangaceiro

sábado, 3 de janeiro de 2009
Imagem por Jacantti.

aperta o gatilho!
olha o tiro!
a malvadeza no peito!
olha que sujeito
sem respeito!
mata até no leito
o sertanejo suspeito!
que sujeito
sem respeito!
não sofre do coração?

Julho de 2006

modernidade

Imagem por bitterev.

A modernidade se institui no século XVI. Entre a Idade Média e a Moderna surge o Renascimento, período em que há uma mudança no modo de pensar. O homem está mais próximo da natureza (universo) e se estabelece num diálogo entre o mesmo e seu universo. O pensamento moderno opera instalando uma nova forma de conhecimento do homem, baseada na ciência. A teologia racional cede lugar para uma nova ordem de reflexão antropológica, agora do homem-máquina e do homem-histórico. Para que isso acontecesse, foi necessário retirar Deus do centro do universo; o homem passa a ser o centro do Lógos (conhecimento). As coisas serão explicadas por elas próprias, e não exterior a elas, e para a suas constituições bastarão a observação empírica e a análise lógica. Nessa época, institui-se um novo padrão de racionalidade, pois a natureza como meio que explicava o que acontecia no mundo se reduz ao momento em que Copérnico e Galileu Galilei introduziram a Astronomia e a Física, respectivamente, no modo de pensar do homem. A razão é a fonte natural do conhecimento e possuidora de poderes para atingir a verdade, independentemente de qualquer força superior. O mundo agora é imperfeito, sem começo nem fim, assim como um espaço neutro, sem hierarquias nem valores. O homem adquire autonomia e é integrado a partir dele mesmo e das condições da subjetividade, em busca dos dispositivos mecânicos (mecanismo) posto no fundo do seu ser, os quais regulam suas relações de si consigo mesmo, com o outro e com o mundo, dando movimento à antropologia do homem-máquina. É a partir daí que brota a célebre expressão "penso, logo existo", que é a razão própria da existência. Ao duvidar de todas as certezas existentes, o homem se depara com a constatação de que estava duvidando, fato este do qual não se pode duvidar. "Na medida mesmo em que estou pensando, tenho a certeza que estou existindo". Esta é, para o homem, a certeza inquestionável, ela é evidente por si mesma, é intuitiva. Essas mudanças ocorrem justamente no momento de transformações fundamentais na sociedade européia; a Reforma Protestante, a Expansão Marítima, a Revolução Industrial e, consequentemente, a Revolução Francesa. Com todo esse processo que se dá, fica ainda mais perceptível de que antes da modernidade não existia o eu (absoluto, autosuficiente, moderno). É também neste momento que a igreja católica tem seu poder reduzido. Grandes pensadores da época vieram confirmar o poder da razão humana: Galileu Galilei insurge-se contra o logismo aristotélico (o homem atinge todo conhecimento possível); Espinosa estende a ciência ao mundo dos homens, afasta os mistérios e as restrições que impedia o domínio do saber, como os antigos; Descartes estende a "ciência" a todos os campos do conhecimento, da física à astronomia, da filosofia à metafísica; Freud descentra a consciência, que não é absoluta (dependente das funções, estâncias e efeitos); Marx descentra o indivíduo (a historicidade do homem não é individual, fala das relações de classes: burguesia e proletariado); Darwin explica que o homem deixa de ser o centro da natureza (a questão essencial da sua teoria é a adaptação: os mais adaptados sobrevivem). A alma, que já foi imortal, redonda, infinita, descobre-se mortal e finita. Os diferentes modos de racionalidade como vimos na antiguidade clássica, medieval, modernidade, pós-modernidade, acabam por se debaterem, uma vez que uma não se sobrepõe a outra numa linha evolutiva. Mesmo que um modo se torne hegemônico, não extingue os outros, os elementos são recompostos.

humana necessidade

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Imagem por karosia.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para que se consiga subir
os rios que descem,
sempre ligeiros.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para que se possa ler
tuas mãos-oceânicas,
teus olhos-esconderijos.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para pintar tua boca, mulher,
punhal que na cegueira dilacera,
ventre de morte lenta...

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para enxergar sabor,
tatear sons,
sentir verdade.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para voar campos,
fazer-se passarinho,
ter liberdade.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para ver no espelho, refletido,
teu âmago e o meu,
a imagem da realidade.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para fechar teus botões,
sem ressentir,
pretexto para dúvidas...

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém...
Mas, e esse amor,
pega-se?
É gente?

Vai ser preciso amar,
muito...

Janeiro de 2006.

Machado de Assis e a flor anônima

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Imagem por IshoXI.

“Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas”

(Trecho de “A um bruxo, com amor”, de Carlos Drummond de Andrade).

Manhã clara. Minha alma é que tinha acordado escura. Então, resolvi percorrer os cômodos da casa à procura de uma janela que me trouxesse a luz goethiana. Lembrei-me das últimas férias. Naquela ocasião, entre Pepetela, Jorge Amado e John Le Carré, encontrei um livro azul: uma edição antiga do “Quincas Borba”, de Machado de Assis. Imediatamente, uma luz se acendeu em mim, e uma flor desabrochou...

“Descolorida, ressequida, a flor parecia trazer em si um bom par de dúzias de anos. Martinha não distinguia que espécie de flor era; mas fosse qual fosse, o principal era a história”. Não há dúvida, a história é sempre o principal. Como o artista, apesar de si mesmo, se estabelece pela obra.

Nestas férias, entretanto, a estante empoeirada foi substituída por um presépio e uma árvore de natal. As leituras estavam espalhadas pela casa. Foi numa de minhas idas ao banheiro que encontrei a revista “Na ponta do lápis”, publicação da Olimpíada de Língua Portuguesa. Totalmente dedicada ao “bruxo do Cosme Velho”.

Entre o perfil amoroso de Dona Carolina (esposa de Machado) e os artigos de estudiosos da obra machadiana, encontrei o conto “Flor anônima”, publicado originalmente no Almanaque da Gazeta de Notícias, em 1897. Como é maravilhoso se espantar com um escritor, 100 anos depois de sua passagem. Senti que a luz voltou, e a flor se abriu impávida...

“Pobre flor anônima! Vejam a vantagem de escrever. O escrito traz a assinatura dos amores, dos ciúmes, das esperanças e das lágrimas. A flor não trazia data nem nome. Era uma testemunha que emudeceu. Os próprios sepulcros conservam o nome do pó guardado. Pobre flor anônima!”

Machado de Assis. Uma flor anônima, sobretudo para aqueles que se amparam na “palavra de ordem” – dizem que gostam, sem ter lido - e, o que é mais triste, para os que vivem nas amarras do analfabetismo. O que sempre me impressionou foi a maneira madura com que Machado encarava este nosso problema crônico.

Se hoje em dia o presidente da república é obrigado a cobrar empenho dos prefeitos contra o analfabetismo, imagine como não era a situação na época mais criativa de Machado de Assis. E nem por isso seus textos tiveram de ser “adaptados” ao despreparo dos leitores, para se tornar leitura de fácil acesso. Tanto assim que ler o bruxo é um espanto constante. É um desvelar da própria existência, ante o olhar “alusivo e zombeteiro” de um escritor que se abre como uma senda (ou seria uma flor?) a um lugar chamado eternidade...

Por Luís Osete, sobre o peso da existência...

Para ler o texto que causou o espanto-criativo no autor, clique aqui.