Imagem por Adhago.o dinossauro da Super ( ou do que é que eu estou falando? )
Imagem por Adhago.estes Brasis
ondas nada comuns
o departamento
ambição!
não
de ti preciso sua perna é larga seu passo
paço
para ampliar o pretendido período de latência
Freud é duvidável
zonas biológicas
zonas psicológicas
zonas sociais
navegar é muito perigoso...
letreiros luminosos me tiram o sono, me lembram vagamente que a cidade, mesmo com sono, não dorme... HOTEL 24 HORAS. Não consigo dormir. Não saio mais. Nem me interessa saber se amanhã vai chover nos satélites artificiais. Nos lagos naturais, nos paços celestiais, nas luzes das catedrais... não encontro inspiração. Um mar azul e aberto é só um mar azul, e aberto... concreto e abstrato só servem para nomear o que é comum e próprio. E vice versa. Como toda obra de arte é a arte de uma obra, que nem sempre é arte, nem obra... obrei reconheceste reconhecendo o hífen que nos separa (aproxima). Lembra das pontes? De hidrogênio? As cadeias de carbono só sabem unir valências. E Margarida só sabe unir os lábios. No espelho do quarto...
a vida é uma viagem. Trouxeste a chave? Do carro? Então percorramos esta cidade de prédios irregulares, que crescem em direção ao mar. A brisa se mistura ao mato no pôr-do-sol, mas tudo é tão inofensivo... nenhum descanso para um coração acelerado. Nenhum decênio para um movimento involuntário. Nada se escreve nas linhas tortas do trilho, nem mesmo o silêncio das estações. A primavera cheira a jasmim, nos campos da Europa. No Brasil, caem pétalas no outono. Se Antônio fosse vivo, viveria... mas Antonio morreu, sem nunca ter existido. Virou uma representação imperfeita de um mundo irregular. Como as curvas das palavras...
tenho pena dos homens utópicos, mas adoro me iludir. Que todos os seus sonhos se realizem hoje, amanhã e sempre. Nos clichês da vida... os homens não são fáceis, e eu adoro todos. Quero todo mundo aqui, olhando para meu umbigo sujo de desleixo, sorrindo para meus gestos largos e obscenos. Os homens são sempre iguais, mesmo sendo diferentes... porque não se resiste a ser o que sempre se quis. Me prendo a convenções, conveniências e consensos. A rima me atrai tanto quanto a aliteração. “A brisa do Brasil beija e balança”. Na pança da sobeja...
capricho na caligrafia quando escrevo algo que eleva minha baixo-estima. Me estimo e, com a mesma dedicação, cumpro uma penitência diária em frente ao espelho. Com dedo em riste e olhos envenenados de ódio. Não sei a parte que me cabe no latifúndio da vida. Ademais, desejo o dia em que todas as terras sejam desapropriadas. E escrevo porque meu mundo perfeito não existe, e a lua às vezes não brilha em meu céu. As estrelas são surpreendentes, e tem noites em que o melhor mesmo é dividir uma mesa com os amigos, ao som da última parada do momento. Num bar vagabundo...
não posso me distrair. Nem começar uma frase com a palavra “não”. É indelicado, dizem os mestres. O fato é que sentei para escrever e lembrei de Drummond. Só a poesia nos redime de tanta falta de tudo. A poesia é uma ponte entre eu e os outros – de mim. Aqueles mesmos que navegam nas ondas de um rio, muito perigoso...
poema para uma viagem de dias
uma crônica em três tempos
Iraquara bem poderia ter sido, durante seus primeiros anos de vida, cenário para filmes de faroeste norte-americano, com aqueles lugarejos vazios de alma e cheios de mistérios. Iraquara já foi uma cidade-fantasma, não é exagero dizer. As estradas, quase todas em precário estado de conservação, de cascalho e barro, não facilitavam o contato com as outras cidades. A falta de calçamento apropriado, a presença de buracos no meio das vias públicas, o lamaçal em que se transformava quando a chuva apertava, tudo isso fazia com que o recolhimento dos habitantes dentro de seus aposentos fosse marca de um passado nada distante. A falta de conforto, em todos os sentidos e segmentos, era visível. Sem higiene nem saúde, porcos, jumentos, pessoas e outros animais disputavam restos de alimentos após o fim da feira, nos sábados de se lavar as almas esfomeadas.
E o seu Juquinha, tio da Maria escritora, assim como outros personagens iraquarenses, iluminando tudo sem pedir muito ao destino, as dores e as alegrias deste povo que traz o pé encardido como sinal de bem-aventurança desde o momento da nascença. Clareando as quedas das mulheres casadas quando tentavam driblar as poças e os charcos - um escândalo para a época. Aquela luzinha temporária, esgotável, alumiando as infâncias maravilhosas, de brincadeiras de pular, de correr, de esconde-esconde, de galinha-gorda, de dar bolo, pega-pega, baleado, jiribita, boca-de-forno, elástico, casinha, panelinha e de boneca. Tudo para ver a meninada mais livre, sem essa falsa felicidade que os jovens de Iraquara estampam em seus rostos, mancebia regada a combustíveis dopantes e mecânicos.
Incansável Juquinha, dando carga com a força dos braços para ver Iraquara crescer, para ver a menina Maria se deslumbrar com a boneca que chorava e com a boneca que dormia trazidas por seu pai dentro de uma malinha de lá de Belo Horizonte, em uma de suas inumeráveis viagens pelo Brasil - brinquedos que ninguém possuía na cidade, sem falar na cama Patente para as bonecas que também ganhou. Para ver a Maria voltar do Instituto Ponte Nova nas férias, hoje cidade de Wagner, engolir piaba viva e amarrar cabaça no corpo para aprender a nadar no rio que a sede nunca possuiu, mas que foi distribuído em abundância pelos povoados de Caiçara, Ingazeira, São José, Pratinha, Riacho do Mel e tantos outros. Luz para ver a Maria sonhar em ser aeromoça, policial feminina, assim como ajudar a costurar perna de rapaz ferido e ver o doutor Américo Chagas cauterizar gente doente usando de talos de folha de côco raspados e enrolados em algodão. Tio bombeando luz para que a Maria pudesse ler nas noites as revistas O Cruzeiro e Manchete que o pai Abdias Dourado fizera assinatura, para no futuro ver nascer dentro dela o gosto de escrever e educar.
Juquinha que quis ver o "vestido venturoso" no corpo da Maria, ganhado do deputado Souto Soares, depois de recitado o versejo "Neste dia venturoso/cheio de luz e esperança/aceitas, doutor Souto,/estas flores por lembrança?" numa festa de recepção ainda bem lá nos idos de brotação citadina. Homem Juquinha que viu a chegada do motorzinho movido a óleo diesel que acendia Iraquara todinha às 18 horas, dava sinal que ia apagar dez para as dez da noite e que parava de gerar energia pontualmente às 22 horas, dispensando no porvir próximo seu trabalho de acendedor de postes, num já calculado pequeno indício do "progresso" dos tempos aportando na Chapada, sem ter dó de ninguém. Iraquara mudou, sim, e cresceu - o mínimo que poderia crescer, é de se saber - em débito impagável para com milhares de Juquinhas, que com amor e ação fizeram com que os dias iraquarenses fossem preenchidos com radiações luminosas ancorados nos raios matinais que não cansam de nos surpreender quando ultrapassam a barreira das serras e dos morros diamantinos.
opostos
retalhos ( Parte VI )
Produzido nos meses de junho e julho de 2006 por alunos do curso de Comunicação Social - Jornalismo em multimeios do DCH III/UNEB, o curta-metragem Noturno dialoga com algumas das inúmeras faces da noite e sua simbologia. A partir de diferentes pontos de vista, o filme mostra a magia e mistério vividos por personagens da cidade baiana de Juazeiro, que revelam os perigos e encantos da noite.
LXI
a travessia
em flertar
em fluido ar
estar instante
a instância
magnética do
rioverde
LXII
ouço passos lá fora...
é a vida caminhando caminhos.
LXIII
Poeta-me, que eu te conjugo!
Transfigura-me, que eu te arrebato!
Ponha-me de pé, que eu te desfaço!
(Não sei o que me acontece. Sempre perco para as palavras.)
confissão
Salvador, 27 de novembro de 2005.
psicologia de Colombo
as casinhas de alegria com fim
A gente jogando bola na rua ou soltando pipa na frente do cemitério e uma meia dúzia de artistas vestindo fantasias em farrapos, leões fedorentos, macaquinhos esfomeados, a menininha nômade de cabelos loiros - por quem sempre me apaixonava -, que na minha imaginação saltava do alto e dava rodopios de borboleta na frente de todo mundo, dentro daquelas lonas desgastadas, remendadas e já sem vida, sem cor, carregados pelo carro de som divulgando o espetáculo das 8 horas, um som sujo, chiado, quase incompreensível, o palhaço na frente fazendo o que só ele saberia fazer, palhaçadas e peraltices, a garotada em cima do muro esperando o tempo certo de vestir uma roupa e sentar e rir sem fim, aquele tempo, aquele tempo tão esperado que não passava.
Pensando hoje, quanta falta faz a alegria, mesmo a alegria comprada, advinda de um ingresso e de um saquinho de pipoca sem gosto nenhum, senão o da felicidade. Eu, caído mais em mim do que pelas coisas mundanas, eu me lembro muito bem da entrada sombria, repleta de lâmpadas cansadas, das cortinas penduradas cheias de remendos e cortes. A arquibancada, erguida em madeira ruim, sempre dava a sensação que alguém, em algum momento, iria despencar no primeiro acesso de riso solto. Mas a vontade de rir era mais forte que todos os perigos da felicidade - e como é perigoso a felicidade verdadeira da infância! O circo parecia ter vida própria, assemelhava-se a um ser humano, um homem velho com o dorso torto de tanto carregar o peso da incerteza, da dúvida perante o amanhã sofrido, sem show, sem platéia, sem sangue percorrendo suas veias, o picadeiro.
Era quando a noite ruía e já no interior do cirquinho, a voz anunciando "E hoje, tem espetáculo?" nos iluminava de um prazer indescritível, em péssima equalização sonora... e todos respondendo "Tem sim, senhor!!!", para e na direção de um senhor que nunca conhecemos, que nunca vimos o rosto, mas que nas nossas cabeças existia, sim, e tinha a feição e a compleição de um palhaço velhinho, provável proprietário da caravana. Mas de um palhaço mesmo, artista que aprendia a arte do riso no próprio circo, e não de um Clown, artista estudado em escolas e cursos circenses. O meu palhaço, o palhaço iraquarense, o nosso bufão, era palhaço sem diploma, era o palhaço que precisava ser na hora em que estava no picadeiro, que nos dava passagem, tecnologia humana de ponta, feito de improvisos e instantaneidades.
Mas aquele palhaço desmiolado e que usava um baita de um sapatão preto-e-branco envelheceu, o Biancorino que tanto caminhou ao meu lado, o Aziz, o Carlitos, o Carequinha, o Benjamim de Oliveira, o Bozo sem técnica, todos o bobos, o Mixuruca, o Biribinha, os Dangas do Egito Antigo e até a Hilary Chaplain, todos eles, sem exceção, envelheceram em minha alma, assim como na alma de todos que viveram a felicidade estrangeira que Iraquara proporcionava naqueles tempos. Hoje estão petrificados, empalhados e suspensos em alguma parede dos nossos corações. Todavia, a criança que ainda vive em nosso peito, ainda espera aquele carrinho velho passar com toda a trupe, sem farol e fumacento, pobre em adereços e rico em magia, na porta de casa, extremamente capaz de nos revelar a indelével e fantástica surpresa de um sorriso no rosto.
noite...
Baratas voadoras: Como não matá-las? Com a sandália dos outros. Enquanto a guerra nuclear não chega para extinguir tudo o que não seja barata, vou travando minha luta particular. Certo de que perderei. Não adianta: Baratas só sabem atazanar...
Ô vida gostosa, a noite inteira matando muriçocas... Cada tapa uma morte. Sangue de meu próprio sangue cristalizando em meu peito. Se Dumas dormisse em minha casa escreveria um outro romance: "Os Três Mosquiteiros", uma trilogia sobre minha infância. Não adianta: Muriçocas só sabem pirraçar...
Grilos trilam meus ouvidos. Nas trilhas do terreiro. Com suas longas antenas. Sons envolvem a noite numa sinfonia. Aos poucos, minha patética audição se acostuma, mesmo não lembrando em nada a “Patética”, de Tchaikovsky. Não adianta: Os grilos só não cantam mais para Fernando Sabino...
Tia Bela já dizia: “Se o galo canta fora de hora, é porque amanhã tem novidade...”. Adélia fez uma “Sesta com flores” para complementar: “Os galos sabem/ cantam fora de hora / querendo apressar o dia”. Não adianta: Galos, só, são surpreendentes...
Passarinhos de assobios presos, na escuridão do quarto. Por acaso veem mais fantasmas do que o menino assombrado? Até hoje não entendo por que aqui o mundo se reduz, se tudo lá fora reluz... Seres com um olhar sempre atento. Às vezes param. Às vezes pensam? Não adianta: Gaiolas só trazem lamentos...
A vida e seus mistérios. Nada como uma manhã após uma noite de angústias. Com suas histórias do arco-da-velha. Com seus espectros da falha na telha. Com seus besouros, baratas, muriçocas, grilos, galos e gaiolas...
Mesmo não adiantando nada...
Uma crônica em três tempos
Esta Maria foi gerada dentro do seio de uma família tradicional da cidade de Iraquara - a família Félix -, cegamente obcecada por um conservadorismo natural àquela época, viu-se atravessar as correntes pesadas do tempo antigo na obrigação de obedecer em tudo aos seus pais, o que a fazia sentir-se enfraquecida diante do silêncio a que era imposta durante todos os primeiros anos de sua vida. Foi assim que, durante muito tempo, aguentou a carga da quase-inércia das horas naqueles idos. Mas esta Maria era uma Maria autêntica, e sendo assim arranjou forças para atravessar inúmeras barreiras ligadas à mulher, vencendo com o passar dos dias toda espécie de submissão e escrevendo sua história com garra e determinança.
Maria é hoje patrimônio vivo de Iraquara, mas nem só em chãos ricos em carbonato de cálcio, que permitem à região possuir o segundo maior parque espeleotemático brasileiro, riquíssimo em formações raras em grutas e cavernas, ela viveu. Maria foi mais uma daquelas Marias que começaram a crescer após terem conhecido o significado da palavra sofrimento, uma Maria que percebeu que seu estado latente de ser não era o caminho mais curto em direção à felicidade. Família, convívio social e trabalho foram as maiores causas para o brotar acinzentado de vários de seus dias. Mas como tudo na vida sofre uma reviravolta, eis que Iraquara, esta criança, cedo ou tarde viria lhe reservar inúmeras satisfações. Para ela, a cidade grafada em língua Tupi e com o significado de Pote de Mel, em referência ao poço de água cristalina e salobre que atraiu os primeiros viajantes tropeiros e possibilitou que em seu derredor fosse construído aos poucos as primeiras casas de descanso das pessoas e dos animais, para sempre se tornaria sua jóia mais preciosa. Razão para uma paixão desmedida, esta Maria não podia caminhar por uma outra trilha.
O bisavô desta Maria foi o fundador da cidade diamantina, que em 05 de julho de 2009 fará 47 anos de emancipação política e territorial. Por estes e outros fatos, esta Maria se sente na obrigação de cuidar da sua filha Iraquara, paixão que certamente durará o tempo necessário à eternidade. Hoje, já entrada em anos e firme em convicções, deseja continuar sendo uma zeladora da história da cidade, buscando dedicar-se ao máximo no intento de difundir e promover o lado cultural da localidade. E é através da expressão de sua palavra, seja em prosa ou em verso, que Maria tenta, com unhas e dentes, perseverar nesta ação transformadora. Sapiente das inúmeras dificuldades para com o trato e a valorização do fazer literário, Maria segue sem desistir. E na lembrança se constrói...
- Teresinha, já decorei todas as poesias de Guiomar Chagas, a sobrinha do doutor Américo.
- Então, recita uma aí pra ver se é mesmo verdade o que você me diz.
Foi lendo as poesias da colega de classe Teresinha, quando ainda morava em Ponte Nova e contava seus 15 anos de idade, que germinou o gosto pela arte poética nesta Maria. Vendo-se desafiada a recitar poemas escritos por Guiomar, lá ia a Maria provar que a poesia entrava fácil pela couraça do espírito, demandando apenas uma maior dedicação ao trabalho de artesã das letras. Enfim, foi lendo Guiomar que esta Maria virou poeta. Admiradora do movimento romântico, Maria também percorre os campos da poesia que enaltecem a geografia privilegiada da região, assim como o desprendimento necessário para psicografar textos.
No entre o vai-dormir e o não-vai, entre o devaneio e sono, ela teve uma visão. Olhou para o teto e viu uma caravela a se aproximar, flutuando sobre nuvens, cercada por raios de luz com pontas preenchidas por pequenas estrelas. Encontrava-se além da sua própria imaginação, como parece ter sido todo o seu percurso vital. Médium-católica, voz-sentir, psicofônica, intuitiva, constituída de pressentimentos, professora polivalente de história, geografia, L.P.L.B, Religião, Educação Moral e Cívica, Filosofia et caetera, esta Maria um dia sonhou que era uma rosa no meio do jardim cheio de outras rosas e beija-flores. Sonhou simples, como quem apenas quer ser parte de todo o colorido, sem suspeitar que ela, esta Maria de vanguarda, bem poderia ser todo o roseiral.
Cícero, o contador de histórias
Coisa de trezentos metros, cinco ou seis postes atravessados, a esquina da antiga amendoeira dobrada, e logo estávamos diante do portão. Não raras as vezes, encontrávamos todos juntos na garagem. O Lucas, a Maria, a Deuzir, o Vado, o Neto e ele, o Cícero. Cícero, o contador de histórias. Sempre sereno, Cícero era uma pessoa a ser ouvida, com os olhos analíticos da alma. Facilmente ficávamos uma manhã inteira, uma tarde inteira ou uma noite inteira ouvindo os seus causos. Nunca esqueço de uma noite, sentados no banquinho, em plena Avenida Sílvio Almeida ali bem perto do velho posto de gasolina, quando Cícero começou a nos contar histórias de quando ele vestia as ordens da polícia.
Histórias que mesclavam drama e comédia no mesmo ato, corridas contra bandidos e forasteiros nos campos e nas caatingas que recobrem a topografia iraquarense. Falava com uma modéstia sabida, sem exagerar muito, num gesticular esvaziado de detalhamento - talvez fazia isso para não entregar a graça da trama ao primeiro arroubo imaginativo, nos encantando numa intensidade assustadora -, vendendo sua imagem de bravura com a sutil inteligência desses matutos interioranos que aprendem os segredos de viver sem precisar dos manuais e das cartilhas vendidas em revistarias e livrarias dos centros. Falava de tudo, sem nunca misturar nada. Foram muitas risadas e suspenses elevados para as horas últimas e, por vezes, iniciais da madrugada, sempre alimentando nossas almas, naquelas noites frientas da cidadezinha.
Foi uma historieta que muito me marcou a de quando Cícero, em tom de seriedade, revelou-nos os costumeiros métodos e as táticas que o serviço policial, tanto de Iraquara quando da cidade vizinha Seabra, utilizavam para fazer com que os suspeitos revelassem ainda mais detalhes sobre os crimes praticados. Uma verdadeira tortura era feita, e a gente também sofria escutando tudo aquilo. Choques, agulhas enfiadas calmamente por debaixo das unhas, sovas, provocações de vários estilos entravam para a lista de maldades. Mas o tempo foi passando, a vida nos carregando para outros lugares, impedindo-nos de dividir mais tempo e aprender coisas para a vida com o grande Cícero. O tempo de cada um, agora crianças já adultas, levadas pelo vento das responsabilidades modernas...
E eis que numa manhã o sol, que era claro e de sorriso úmido, emudece. Foi quando recebi um telefonema de minha mãe dizendo que ele, o nosso maior contador de histórias, havia nos deixado para sempre. Eu, mergulhado em provas para corrigir, naquela sala, naquela escola, tão protegido de qualquer infâmia, tão longe daquela morte, confesso que não acreditei. Como pode uma pessoa que sempre esteve e sempre estará em nossos corações, ir, assim, para sempre? Tomado por um câncer, Cícero ainda lutaria com todas as forças por sua permanência física entre nós. Tentou, lutou, conseguiu... mas ele foi chamado, definitivamente, por alguém muito mais importante e, assim, teve de fazer sua última viagem, a viagem que todos nós faremos um dia, com pressa ou sem, para novas descobertas.
Cícero, que jamais morrerá dentro daqueles que tiveram a honra e a sorte de dividir a sabedoria do homem, do cidadão iraquarense, retrato de uma velhice feita de imensidões e sofrimentos, resolveu partir. Tomou banho, penteou os cabelos, como de praxe deixou a camisa entreaberta, permitindo ao vento arrefecer seus pulmões castigados pelo cigarro assassino, pegou sua bicicleta, a mesma que usava para buscar o leite do dia no roçado do tempo, e saiu pedalando calmamente em sua simplicidade magnífica, pedalando, sobrelevado pelas nuvens brancas do céu... pedalando as horas que não o tinham mais, deixando para trás um poço de recordações inesquecíveis, um passado-presente interminável, repleto de saudades...
Uma homenagem a você, Cícero, homem que, com suas palavras e seus gestos humildes, muito me ensinou. Continue a pedalar sua bicicleta mágica, nos horizontes dos mundos invisíveis...
Baudrillard e o destino da energia (O teorema da parte maldita)
precipitação
- Quem é você?
- Estou tentando descobrir também...
- Por acaso és algum anjo torto, desses que vivem na sombra?...
- Se isto melhor lhe convém...
- Para quem já morreu, alguma coisa convém?
- A eternidade, talvez...
- A propósito, cadê o vale de borboletas azuis que povoavam a paisagem eterna de meus sonhos?...
- Você ainda não viu nada, meu caro...
- Osete. Luís Osete.
- Você ainda não viu nada... Mas, deixemos a morte pra depois. Me fale de sua vida...
- Minha vida é feita muito mais de esquecimentos do que de lembranças. Lembro-me apenas que, quando criança, entre uma andorinha no céu e um livro na mão, eu caminhava sorrateiro em direção às nuvens. E, todos sabiam, eu tinha tudo pra envelhecer poeta... Mas não passei de um poema sobre a chuva fina que batia na janela do meu quarto numa manhã de abril: precipitei-me...
- Precipitou-se...
- Quando morri, era meio-dia em minha vida... Ainda tentei apalpar um rasgo da minha infância, perdida... Nada encontrei... Fiquei recolhendo os cacos... Vestígios de mim mesmo, pedaços de vazio... Em meu último alvorecer, senti a finitude da vida, escapando...
- Escapando...
- E busquei com as mãos outra mão que me resgatasse do encontro com o desconhecido. Percebi, por fim, que só eu poderia me resgatar, mas já não havia mais tempo, nem forças...
- Nem forças...
- Ainda vi minha mãe encostada ao fogão coando o café, enquanto eu ria, na sala, das travessuras de meu pai. Agora, na flor da manhã, encontrei você, como se encontrasse um dos fantasmas que cresciam nas paredes do meu quarto...
- Eu sou apenas a linha tênue que divide a vida em duas metades. Agora podes ir ao encontro do que tanto procuravas...
o quarto poder
selva de pedra
Por onde correu o rio,
hoje uma avenida de lágrimas
cobrindo o chão com asfalto
- enorme estrada de lástimas...
Eis aqui a formosura de uma bela árvore!
Amanhã, pobre e infeliz, um poste de desgraças,
iluminando os atos humanos
nas horas que não haveria de ter luz.
Ontem, uma mina de ouro.
Hoje, um túnel de esgoto
transbordando toda a sujeira
dos porcos homens em suas ratoeiras.
Dava pra se ver o horizonte,
o sol se pondo e a noite caindo.
Hoje, horríveis pontes,
o céu cinza, os pássaros chorando...
Onde se tinha cavalos,
hoje um amontoado de carros
dirigidos por indirigíveis,
guiados pela intolerância.
Ontem, vasta flora e fauna.
Sem tédio, a beleza das flores...
Hoje, usina de pragas.
Viadutos e prédios, abrigo das dores.
Muros altos, portões trancados,
luzes e alarmes; mundo de grades.
Tijolos sem vida, blocos de saudade...
apenas uma migalha de liberdade.
paixão e guerra no sertão de Canudos
domingo em Iraquara

Imagem por "ponto-quente".
Hoje é sábado em minha cidade, véspera de um domingo como outro qualquer. Hoje, sábado e véspera de um domingo como qualquer outro na minha cidade, beiro a morte, a minha morte. Por onde me encontrassem, facilmente as pessoas poderiam denunciar preocupações ou simplesmente perguntariam sobre o meu estado, se estaria eu passando por algum problema ou se algo teria acontecido comigo. Porque, nos olhos dessas pessoas, meus conhecidos e meus desconhecidos, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de cachoeiras. Não haveria resposta em mim, e não teria como. Creio que morri um pouco hoje, neste sábado, véspera de um domingo como qualquer outro, um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite.
Morre-se mais ligeiramente (não sei se este é o termo mais conveniente) nos sábados e nos domingos aqui em Iraquara. Engraçado, também morro agora - um pouco é certo -, no mesmo instante em que escrevo estas palavras. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Pois já não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. Precisarei. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga... Necessito da morte para viver, mas morrer em Iraquara, diariamente ou semanalmente - ou simplesmente duas ou três vezes por ano, quando retorno de férias-, é sempre melhor, apesar de não ser nada fácil. Há um gosto gostoso em se morrer aqui.
Todavia, enquanto ela não me abraça pelo todo de sua envergadura (a morte), sigo a escrever, em reduzidas linhas, a minha própria morte. E você, que lê, persiste, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, que pode ser o espelho da sua ou não ter nadica de nada a ver com ela, absorvendo com a alma sua também morte vital. Enquanto ela não vem, o menino e a menina iraquarense, ainda sob os cuidados do ocioso fim de tarde do sábado, sem nenhum desses centros integrados de compras ou entretenimento bastante comuns em cidades grandes, esperam já ansiosos pelo domingo de se ir ao Morro do Pai Inácio, pelo feriado de se aguar nas intermináveis mini-cachoeiras do rio Mucugezinho, pelo final de semana de se fazer trilha pelo Vale do Paty, visitar a aldeia do Capão, limpar a alma na Pratinha ou se aventurar por debaixo do chão, em uma das centenas de grutas espalhadas nos arredores de Iraquara.
E é deveras no sábado que todo o planejamento se dá. Aí o menino e a menina iraquarense ajuda o pai a pôr a churrasqueira portátil no porta-malas do automóvel, a pegar o saco de carvão - muito do qual, infelizmente, produzido com a queima da vegetação nativa da Chapada Diamantina-, a enrolar a esteira de palha do tio, a amarrar os espetos da vizinha, bola, bóia, carne, muita carne, brinquedos, toalhas, com alegria e disposição únicas. Porque foram dias de espera e nada pode dar errado agora . Tudo tem de estar em perfeita ordem, para que o fim de semana não descambe para a desolação total. Começando pelo tempo que, por ser a Chapada uma região geograficamente alta, acostumou-se a pegar desprevenido a quem olha o horizonte claro e limpo de longe do lugar onde se quer aportar, surdinamente levando aquela chuvinha constante e típica justamente para o local escolhido, quando na verdade se esperava um sol abrasador.
Com tudo arrumadinho, sol acordando cedo, lá se vai a família iraquarense, unida como em revoada de estorninhos, povoar universalmente os infindáveis paraísos naturais gerados no centro da Bahia, preenchendo terras em seu nomadismo quase sagrado, colorindo os topos dos morros e das serras, invadindo a privacidade dos mocós e dos animais albinos donos do centro da terra - ah, Júlio Verne! -, cortando as estradas sinuosas das antigas e rentáveis lavras de pedras preciosas, vai como quem consabe da glória que é ter tido a oportunidade de nascer e crescer sobre esta imensa manjedoura feita de pedra, arquitetura divina, rudimentar e misteriosamente imortal, dona das cicatrizes deixadas na memória da vida, e que nunca mais se despedem de nós, pobres mortais - bom salientar.
quando a noite caía em minha infância...
- O café já está na mesa, crianças...
Ela dizia. E eu me enxugava aos atropelos só para ver a manteiga derretendo no calor do amido. Às vezes me engasgava, tossia, estapeava os ombros, apertava o copo de café, levantava pra cuspir. Olhos lacrimejando ao sorriso de meu pai. Que sempre me dizia...
- Vai com calma meu filho. Ainda tem mais...
Mais tarde eu ia tomar sereno em frente à casa de tia Bela. Ficava guardando um silêncio respeitoso enquanto os cinco mistérios passeavam pelas contas do rosário.
- Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo...
Amém. Ela nunca me falou em Adélia Prado, mas não conheci quem vivesse tanto a poesia daquela mineira de Divinópolis, sobre quem um dia Drummond, espantado, disse: “é um fenômeno poético”. Tia Bela também era um fenômeno poético, sem nunca ter precisado fazer um “Mural” que dissesse:
- A rotina perfeita é Deus.
Do arco de minha tia, pessoas mortas vestidas de branco apareciam em madrugadas insones. Crianças viam e conversavam com Nossa Senhora Divina Pastora.
- Essa menina não se cria, Totonho...
Cancelas abriam e fechavam sozinhas. Visagens de um tempo em que os galos apressavam o dia. E, para coroar a noite, sempre tinha quem acrescentasse, com uma seriedade inquestionável:
- Ainda ontem, dona Bela, finado Zé das Virgens veio me pedir para procurar um dinheiro que ele esqueceu no armário. E, veja a senhora, o dinheiro todinho tava lá...
Aquelas histórias abriam cancelas em minha imaginação. Horas depois, constelações cresciam medonhas por todas as frestas do quarto. Meus cabelos arrepiavam. O coração galopeava. Os olhos vertiam lágrimas de angústia. E qualquer barulho era como se o mundo desabasse, e eu fosse a única vítima. Quando não havia saída, engolia meu orgulho de filho mais velho e clamava:
- Minha mãe, tô com medo...
Tive de aprender a lidar com as sombras daqueles dias, imerso nos lençóis das noites afora. Quando os fantasmas cresciam nas paredes do abandono, e meus olhos lacrimejavam ao sorriso das manhãs. Que nunca me disseram...
- Vai com calma meu filho. Ainda tem mais...
soneto trincado
Iraquara muito além do esquecer
Eu falarei de Iraquara, cidade baiana-natal, lugar que me possuiu até os idos de minha adolescência de quatorze anos. Falarei, falando-me também, porque sou parte. Há de precisarmos da memória, daquele sentir guardado no escrínio de nossa alma, lugar mais ameno. É ela, e também o esquecimento, a mãe de todas as benfeitorias. Eu começo gritando a todos vocês, conhecidos e desconhecidos, que eu perdi Iraquara. Não, eu não estou blefando. Há muito não vivo em Iraquara, não ando suas escuridões noturnas, não cheiro suas manhãs vazias de automóveis nem bebo o rebusnar dos jumentos chegando das vilas e povoados para o movimentado e cansativo dia de feira-livre. Todavia, mesmo sendo este o meu último-inaugural barulho, reforço-me na idéia de pertencimento.
Pertencer é uma palavra difícil, pesa uma tonelada e, para ser mais direto, demanda um conjunto inteiro de vivências. Porque pertencer é ter consciência de construção, de participação, de si próprio. Mas voltemos a Iraquara e às palavras que por ora teço; minha rua, a Tito Luna Freire, já não é mais a mesma, as praças idem, os domingos de se visitar a parentada, amigos se foram – para nunca mais? -, o Educandário José de Arimatéia não existe mais, as brincadeiras de bola e a amurada pequena do vizinho, onde cada timinho esperava sua vez no baba, também são só lembranças. Muita coisa mudou nesses anos em que andei fora, trocando o encardido dos meus pés pisantes de paralelepípedos sujos de terra vermelha por uma alva pele acostumada ao asfalto sem gordura.
Quando, em mil novecentos e noventa e nove, aportei em outros solos, eu não sabia que o ontem pudesse ter sido o meu último dia como iraquarense nato. Talvez eu jamais desconfiasse de tal acontecimento. Um último dia é sempre algo tão longe, tão dissoluto. O derradeiro dia é tão...tão...infinito. Distante! E também impalpável, incompreensível, sem medidas. Mas, então, o que me faz escrever esta crônica-dor senão a existência de um fim, de uma presente imagem daquilo que se acaba? Por que não deixar um último registro de mim, de uma experiência de troca, para que um derradeiro olhar atinja meu universo e o universo dessa cidade tão nova, mesmo que seja apenas a forma de minha arcada dentária num pão dormido, ali mesmo, sobre a velha mesa de todos os dias?
Perder dói, eu sei. Mas ninguém foi derrotado, é preciso que se diga. Nem eu nem você, absolutamente ninguém venceu. A única vantagem que vejo em tudo isso, em toda essa nossa relação, e isso vale para todos que namoram sua cidade, se é que há vantagem nesse jogo, é que todos nós aprendemos, e o melhor de tudo, aprendemos a crescer. Não é que eu, Iraquara, filho de tuas profundezas, esteja reclamando a tua face antiga, saudoso e nostálgico, nada disso. Sei bem que não és mais ingênua como antigamente, que em teus vãos ratos e outras nojeiras compõem agora sua paisagem, o perigo das entradas e saídas, a violência, assim como renovadas fontes de alegria e beleza. Você cresceu, eu cresci. E continuamos crianças, flores anônimas, desabrochando.
Ao contrário do que possa parecer, Iraquara, só estou cuidando um pouco de ti. Esse cuidado em te querer, inesgotável em riquezas e sofrenças, ambígua fonte de sorrir-chorar, de odiar-amar, que dormir-sonhar, que tanto me formou, não pode tomar sereno e se adoentar. Eu perdi minha cidade, cidade que nem só das grutas será, mas a ela pertenço. Eternamente. E ternamente. E por isso, e muito por você, Iraquara, é que sigo te esperando lá na frente, "onde ninguém saiba nada sobre os outros, onde todos olhavam fixamente para a frente, exclusivamente para a frente".
todo texto
diálogo para final de livro
serventia
Luís Osete morreu sem saber se ia dormir ou nascer...
Nada disto aconteceu. O óbvio ululante ululou, entre choros e cânticos. As velas embalavam meu espírito, enquanto copos de café eram distribuídos aos de alma mais sonífera. Alguém lembrou de matar o tempo batendo pedras de dominó na mesa de sucupira da sala de estar. É, mais um velório...
Duas horas da manhã, um ônibus estacionou na rua. Um ônibus com um brasão, abaixo do qual se lia: “Universidade do Estado da Bahia”. Oxente, o busu da UNEB?
- Rapaz, foi difícil convencer Zé Humberto de que haveria um Congresso de Comunicação em Cardeal...
- Ainda bem que ele nunca ouviu falar nesse fim de mundo, senão aí é que ele não acreditaria mesmo...
Chegaram, e foram logo entrando. Algumas pessoas esqueceram que por trás de Osete (veja só...) tinha uma família. Correram para espiar como a minha face, cercada de flores, perdia um pouco da obscuridade. Mas até estes mais afoitos se convenceram de que deveriam cumprimentar os donos da casa. Uma fila se formou para dar os pêsames a meus pais.
Terminado o ritual, por volta das três e meia da manhã, os que não estavam a fim de rezar, chorar e jogar dominó se entreolharam:
- E aí, vamos fazer o quê agora?...
- Poxa, não dá nem pra chamar o cara pra comer um pastel, né...
- Velho, essa varanda seria massa para uma miséria coletiva...
- Mas um clima pesado desses...
- Que nada. Se ele tivesse vivo ia gostar, isso eu garanto. Eu trouxe uns vinhos, só falta alguém puxar a poesia...
- Pronto! Eu recito um cordel...
E lá se foi Vinícius declamar aquele velho cordel que nunca envelhece... Sob o lema, “a poesia é a única prova concreta da existência do homem” (Luís Cardoza y Aragon), deu-se início à madrugada de recitais. As beatas, convidadas por minha mãe, e os bêbados, que nunca precisam ser convidados, ficaram meio perdidas ante a balbúrdia. Minha família preferiu o silêncio:
- Vamos respeitar. Quem sabe não foi um desejo dele...
No sarau, o mais agitado (como sempre), era Paulo. Até no muro ele resolveu subir, com um copo de vinho numa mão e a “Carta de despedida”, de Ana Cristina César, na outra.
- Que milagre Osete não resolveu escrever uma carta de despedida também, hein Érica...
Comentou Karine, enquanto discutia uma mística de despedida ideal para aquele momento.
- Sei lá. Foi suicídio?
- Sei não. Foi mistério...
Germano, que até aquele momento só havia recitado “Porto dos disfarces”, aproveitou os primeiros raios de uma “aurora morta” para declamar a frase que um dia servira de título a um texto escrito numa noite de insônia:
- Luís Osete morreu sem saber se ia dormir ou nascer...
Velas sem sebo, choros sem lágrimas, cânticos sem palavras... Agora já não me recordo com tanta clareza, mas suponho que um sorriso à mona lisa escapou de meus lábios ao ouvir a frase avulsa. O caixão se fechou lentamente e, antes que alguém desconfiasse de qualquer coisa, o enigma permaneceu...
Luís Osete é estudante de jornalismo e psicologia, dividi-dor de um apartamento comigo, Germano, bem ali no centro da cidade de Juazeiro-BA. E inicia hoje uma espécie de coluna aqui no Clube de Carteado, onde escreverá "Sobre o peso da existência", postulando acerca da vida, esta coisa que nos basta...
cangaceiro
modernidade
humana necessidade
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para que se consiga subir
os rios que descem,
sempre ligeiros.
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para que se possa ler
tuas mãos-oceânicas,
teus olhos-esconderijos.
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para pintar tua boca, mulher,
punhal que na cegueira dilacera,
ventre de morte lenta...
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para enxergar sabor,
tatear sons,
sentir verdade.
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para voar campos,
fazer-se passarinho,
ter liberdade.
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para ver no espelho, refletido,
teu âmago e o meu,
a imagem da realidade.
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para fechar teus botões,
sem ressentir,
pretexto para dúvidas...
Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém...
Mas, e esse amor,
pega-se?
É gente?
Vai ser preciso amar,
muito...
Machado de Assis e a flor anônima
(Trecho de “A um bruxo, com amor”, de Carlos Drummond de Andrade).
“Descolorida, ressequida, a flor parecia trazer em si um bom par de dúzias de anos. Martinha não distinguia que espécie de flor era; mas fosse qual fosse, o principal era a história”. Não há dúvida, a história é sempre o principal. Como o artista, apesar de si mesmo, se estabelece pela obra.
Nestas férias, entretanto, a estante empoeirada foi substituída por um presépio e uma árvore de natal. As leituras estavam espalhadas pela casa. Foi numa de minhas idas ao banheiro que encontrei a revista “Na ponta do lápis”, publicação da Olimpíada de Língua Portuguesa. Totalmente dedicada ao “bruxo do Cosme Velho”.
Entre o perfil amoroso de Dona Carolina (esposa de Machado) e os artigos de estudiosos da obra machadiana, encontrei o conto “Flor anônima”, publicado originalmente no Almanaque da Gazeta de Notícias, em 1897. Como é maravilhoso se espantar com um escritor, 100 anos depois de sua passagem. Senti que a luz voltou, e a flor se abriu impávida...
“Pobre flor anônima! Vejam a vantagem de escrever. O escrito traz a assinatura dos amores, dos ciúmes, das esperanças e das lágrimas. A flor não trazia data nem nome. Era uma testemunha que emudeceu. Os próprios sepulcros conservam o nome do pó guardado. Pobre flor anônima!”
Machado de Assis. Uma flor anônima, sobretudo para aqueles que se amparam na “palavra de ordem” – dizem que gostam, sem ter lido - e, o que é mais triste, para os que vivem nas amarras do analfabetismo. O que sempre me impressionou foi a maneira madura com que Machado encarava este nosso problema crônico.
Se hoje em dia o presidente da república é obrigado a cobrar empenho dos prefeitos contra o analfabetismo, imagine como não era a situação na época mais criativa de Machado de Assis. E nem por isso seus textos tiveram de ser “adaptados” ao despreparo dos leitores, para se tornar leitura de fácil acesso. Tanto assim que ler o bruxo é um espanto constante. É um desvelar da própria existência, ante o olhar “alusivo e zombeteiro” de um escritor que se abre como uma senda (ou seria uma flor?) a um lugar chamado eternidade...
Quem sou eu
- Germano Xavier
- Graduado em Jornalismo pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e Formando em Letras/Português e suas Literaturas pela Universidade de Pernambuco (UPE).
Lombadas
- * Amigos do Clube... (22)
- * Poesia... (426)
- * Prosa... (317)
- * Registros... (30)
- * Sobre o peso... (25)






























