
V
“Um futuro feito de agoras”
(Conhecido desconhecido)
“Um futuro feito de agoras”
(Conhecido desconhecido)
queria permitir a si mesmo uma espécie de emersão, livrar-se de inúmeros desafetos, inclusive o que atendia pelo nome de Helia, melhorar suas relações interpessoais e com o mundo, melhorar para ele, com ele e por ele. e como meio de realizar tal encontro consigo, tão necessário àquela etapa de sua vida, o homem usava de um poder inato, cujo potencial reformador nem todos têm conhecimento: sua angústia.
observava ele, inteligentemente, que certos transtornos poderiam vir a ser curados pelo simples gesto de angustiar-se, de afligir-se, de estreitar-se. tinha lido sobre isso o homem. era um exímio curioso na arte das belas letras. aliás, adorava qualquer manifestação que revalorizasse os diversos conceitos que a arte demanda, esteja ela utilizando o suporte que for.
gosta dos marginais, dos escritores da geração perdida, um pouco de Dante, um pouco de Hesíodo, mitologia, os modernos e pós-modernos latino-americanos, do Gabo, do Benedetti, um tanto do Lorca e do Martí. admira-se, incessantemente, com a capacidade que alguns seres humanos possuem de defender um postulado da imaginação ou da memória a ponto de conseguir se posicionar positivamente frente a um movimento de fluxo e refluxo existencial.
para ele, deuses eram aqueles homens que escreviam livros.
inúmeras vezes arriscou-se por ambientes literários mais complexos, escreveu poemas, alguns contos, cartas repletas de literariedade enviadas aos amigos distantes, esboçou até um romance de grande fôlego, nada de grande repercussão. nada que lhe permitisse o gozo de realizar uma viagem ao exterior, ao menos, com tudo pago e tal. nada.
deu-se na vida, rebolando pelas ruas e avenidas do mundo, e isto até agora, justamente por ter conseguido salvaguardar um punhado de notas de cinquenta com as aulas de literatura e latim que ministrava em dois colégios na cidade, agora já esquecida até pela memória de qualquer que fosse o espelho refletor do passado. nada de tão respeitável para um homem culto e de boa presença como ele, mas que lhe proporcionou, por exemplo, o combustível para que seu veículo velho, daqueles equipados com motores de oito cilindros, beberrões e nervosos, conseguisse chegar até a pousada onde estava agora.
voltou-se para o instante.
a voz ressoou em seus ouvidos. uma voz.
“que desejas, forasteiro?”, a voz cada vez mais próxima.
o homem suspeita que a imaginação é capaz de fornecer ao homem, a partir de informações do passado e, também, do presente, referências várias que, atuando em seu reflexo individual, modificam o conteúdo e mesmo a natureza das atitudes projetadas para um futuro. em seu caso, para um futuro bem próximo.
um futuro feito de agoras.
“bom dia, senhora. preciso de um café quente, algo para comer. e também de um bom banho. vi a placa do estabelecimento. imaginei que...”
nem bem terminou de construir a frase, a velha lhe sorriu perniciosamente, impedindo a conclusão do pensamento do homem.
“e qual o teu destino, cigano? não sabes do perigo que é andar por esta estrada?”, resfolegou.
“ainda não sei, senhora. sinceramente, não sei para onde estou eu indo. apenas sei que estou eu a sentir umas pontadas, aqui, na altura de meu estômago. penso que é fome. ontem, mal comi. no mais, não se preocupe comigo”, pronunciou o homem um pequeno discurso de apresentação de estado, com uma voz que tinha cor de fraqueza.
“muito tempo faz que aqui aportou ser vivente. então, creio ser de muita normalidade o fabricar de meu atual estado de estupefação, não achas? acrescentando, posso saber como te chamas, estranho?”. assim a anciã esboçou terminar sua interferência, ainda com um sorriso maliciosamente perturbador. “mas antes de qualquer coisa, cigano, leia isto”, falou, estirando o braço curto que alavancava uma pequena tira de papel já assaz amassado.
O homem leu sem cerimoniar.
“Voltei. As voltas e regressos sempre me doem. Fica uma sensação esquisita de que não devíamos nos permitir, no canto esquerdo de uma salinha sem vida, a oblação de um cântico de luz. Sofre imaginar que toda volta é um recomeço, e que recomeços tendem ao que não vingou, ao que não foi ou ao que não poderia ser. Combato, hoje, minhas obviedades mais satélites, e na procura de um fusível perdido, curto um curto que, se não é de choque, é circuito de se ir. Ainda ontem foi isso, mas sei que não me fui. Perigo é fazer o retorno impossível, o retorno insubstancioso. Melhor caminhar torto pelo caminho vital, quebrando caras e bocas, beijando luzes e lamas, estéticas mancebas. Eu tinha por mim que ontem o relógio do mundo tocou as horas que sempre desejei. E fui ponteiro, bússola de mim, mendigo do tempo, gauche vivedor, e errante. A gente sempre tem a sensação de que na próxima esquina, na padaria da rua, no banco do consultório médico, desponte o algoz voraz, surgindo pelo portão principal, decidido em nos capturar. E para isso retornos servem. Para nos dizer das horas possíveis...”
de pronto, uma ligeira observação.
um mesmo texto sem assinatura. e o mesmo sentimento brotando. o mesmo emparelhar de ângulos, cada palavra mais congruente que a outra, estabelecendo-se substância adesiva no corpo-alma daquele homem, dizendo vozes de que precisava ouvir, atirando arpões no corpulento obelisco sistemático de se ser ultimamente, atacando os setores ainda vagos de uma multidão humana que começava a se dispersar, irremediavelmente, de dentro de si.
novamente a memória de um alguém rompeu num miserável espaço de tempo. era ele o narrador onisciente e psicológico e interno de seus próprios episódios execráveis. a inesperada combinação dos fatos fustigava-lhe o pouco de harmonia ainda sensível no homem, mas tudo acontecia de maneira numerosamente brutal. segundo dia, apenas. segundo dia longe de quem não queria ser, segundo dia após os outros vinte e seis dias de completa dúvida, e tudo desta forma acontecendo, veloz e irrefreavelmente.
uivava o homem, para o poço aberto que era, em alaridos quase inúteis senão fosse a serventia para o afugentar de silêncios assombrosos.
deveria desconfiar que rogos e pedidos vociferados exasperavam o verdugo. sozinho na companhia do incerto destino, espumava uma ânsia que lhe devorava racionalidades, que lhe tirava o escasso sorriso que carregava o rosto pardo, porém seguro.
atolado num charco de imperativos, inclusive nos que ele próprio havia alicerçado após fugir dos braços possessivos de Helia.
novamente o baforejar áspero e visceral da velha da pousada. “gostou, homem estranho?... fiquei observando você lendo o papel na parede, e então pensei em lhe trazer mais este texto. significam-lhe algo?”, soprou a velha.
o homem balançou afirmativamente a cabeça, prostrou-se face a face diante da vetusta senhora, e começou.
“Afonso é meu nome...”


7 comentários:
Crédito da imagem:
"moon-by-w6i"
Deviantart
Com certeza Germano nao deixemos para o amanha o que podemos fazer agora....hojee,,,,
otimo texto..
abraços
Folgo em ver o blog indo de vento em popa.
Há braços!!
Sigamos...
Meu caro Germano,
Como vai essa Bahia de tantos talentos?
Sempre que possível, estou no Clube do Carteado, de longe um dos melhores blogues de nossa blogosfera. Obrigado pelo comentário. E um grande abraço.
Em tempo: de fato, há por aqui uma quantidade grande de livros empoeirados. Nada é antigo. E está tudo à disposição dos amigos.Gosto muitíssimo de presentear com livros. Se tiver alguma coisa de que goste, fique à vontade para me dizer. Tenho, sobretudo, textos sobre jornalismo, filosofia, literatura, história, arte (música, cinema, pintura), educação, meio ambiente e política. Bom, mas para começar, se você me permitir, enviarei meus próprios livros, a começar pelo Crônicas Quixotescas, de 2005. Gostaria de ler sua avaliação. Sigamos, ora pois, ou, como queria Guimarães Rosa, "somos que vamos..."
Eu estou atrasada com a leitura por aqui, mas nunca é tarde. E acho, após ler pela segunda vez, que esse texto foi escrito em voz alta. Há um espelho no texto, Germano. E ele reflete muito bem o estranho que foge.
o futuro é sempre feito de "agoras"...
beijo
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