um caminho para onde estou ( II )

sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Continuemos o nosso passeio. Esta é Morro do Chapéu, também conhecida como a "Cidade das Flores". Dista aproximadamente 140 quilômetros de Iraquara e 390 da capital Salvador. Possui altitude média de 1.100 metros e é uma das cidades mais frias do estado, com temperaturas próximas de 0° no inverno. "Suas principais atrações turísticas são a Gruta dos Brejões e a Cachoeira do Ferro Doido. O município também dispõe de diversos pontos turísticos, como citado anteriormente Gruta dos Brejões e Cachoeira do Ferro Doido; tem a Cachoeira do Agreste, com suas trilhas maravilhosas, o Buraco do Posidônio, cujo seu interior encontra-se árvores nativas como o cedro, entre outras; cientistas julgam ter sido um meteoro gigante que caiu e abriu essa cratera; o Balneário do Taréco, que tem águas termais e segundo a população são medicinais; o Morrão, este morro que deu origem ao nome do município por ter a forma de um chapéu sendo visto do lado Sul; dentre os pontos turísticos existe também um centro ufológico. O município se destaca pelo seu clima (tropical de altitude), o único desse tipo no Estado da Bahia." (Wikipédia)

Esta é a rotatória, na entrada da cidade. Estava muito frio quando cheguei, para variar. E olha que eu estava com duas camisas e um capote...

Caminho que nos leva para o centro da cidade. Morro do Chapéu tem uma atmosfera muito boa, não no sentido literal da palavra. Penso que é um bom lugar para se viver. Muito charmosa, deveras.

Sede do Correio do Sertão, segundo jornal mais antigo da Bahia.

Parada para ver a nova pintura da igreja.

Calçamento de beleza singular. Passagem obrigatória para quem visita. Muitos solavancos e pedras rústicas de um tempo antigo.

Em breve, a cidade de Jacobina.

penumbra do corvo

Imagem: " Crime", por notursweetie.

adormecimentos
são pássaros fechando os seus bicos
de neve crescem
alpistas
de um verde rasteiro
nos bicos de neve
dos pássaros

enclausura-se um desejo
e tudo adormece
inclusive o silêncio

um caminho para onde estou ( I )

quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Semana passada foi tempo de viajar, de rever a família em minha cidade natal. Iraquara é o nome dela e faz já um bom tempo que lá vou só esporadicamente. Resolvi retratar um pouco o roteiro que fiz de moto, cujo destino final foi a cidade de Juazeiro, norte baiano e divisa estadual com Petrolina-PE. Aos poucos, vou colocando as imagens. Nesta primeira parte, o percurso retratado é de aproximadamente 100 quilômetros, sendo que ao todo a distância pula para 480 quilômetros. Para ampliar as imagens, clique sobre elas. Bom passeio!



Cinco horas da manhã, apesar do dia já claro. Esta é a rua Tito Luna Freire, onde vivi todos os anos de minha infância e um pouco da adolescência. A Argus ainda teimou um pouco em pegar, devido ao motor "quase congelado".

O letreiro na entrada de Iraquara, a Cidade das Grutas.

A refinaria de Biodiesel recém-implantada na saída de Iraquara.

Entrada para o povoado de Pau Ferro, ainda no município de Iraquara.

Entrada para a cidade de Souto Soares, a 18 km de Iraquara.

Entrada para o distrito de Segredo, a 8 Km de Souto Soares. Seguindo a pista principal e andando cerca de 120 km, chega-se à Irecê, conhecida como a Capital do Feijão, lugar onde fiz todo o meu segundo grau escolar. Para Juazeiro, dobra-se à direita.

Uma igreja com paredes revestidas com ardósias, em Segredo.

Entrada para a cidade de Mulungu do Morro.

Entrada para a cidade de Cafarnaum, último ponto antes da "Cidade das Flores": Morro do Chapéu.

Em breve, a continuação do roteiro.

viandante

Imagem: "Is knowing that we'll soon be", por tugbaakdag.

Um silêncio desordenado comove
o brilho da luz que ataca
os cristais sobre o mármore frio.
O frio corta o sangue viscoso
que caminha pelas catedrais
do corpo e a alma se interrompe
no arroxeado sem vida
da matéria que pende
sobre o peso de sua turba.

O infinito ergue as escadas do mundo
e o movimento dos vendavais
apaga as vozes das ruas cinzas
que, castigadas pela rotina,
celebram com ares risonhos
os clamores roucos e cansados
dos que passam, perdidos.

a autoria da reflexão

quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Imagem: "Cheryl McKinnon 3", por Pale-Enchantress.


o outro
em lugar
de explicá-lo

ou descrevê-lo

o todo
em seu vigor
hipotético

hipotético-teórico

a medida
assumida
como sendo

talvez

da incoerência dos homens

terça-feira, 28 de outubro de 2008
Imagem: "16.12", por agressivision.

Degolai-vos, pobres criaturas mortais,
porque não sedes nada diante da ventania,
esta nobre chama invisível e branca
que nos aterroriza intensamente...

... e as brisas suaves
de camarote as vejo,
e sinto se encontrarem
por entre meus flancos.
Cortai-vos as carnes, vossas fraquezas,
vossos pandemônios indecifráveis,
que nos corroem nas íngremes distâncias...
Ah, somos tão pequenos e frágeis,
que nos tornamos noites brancas
recheadas de incontáveis desesperos.

Oh, grandes esperanças, hei de nutri-las!
Serei ainda neste mundo um gato,
a olhar de soslaio
e com ar de desinteresse
para os recantos sujos
de onde os doze cézares abriram seus maxilares.

Degolai-vos, a si próprios,
pois é dos sinceros a alva nuvem dos céus!

um Mário maior

Imagem: "Steppes", por JoNation.

No dia 20 de setembro do ano de 2005, a UNEB (Universidade do Estado da Bahia) exibiu o documentário sobre a vida de um dos maiores folcloristas deste país: Mário Souto Maior. A exibição ocorreu na Biblioteca Central do Campus III, em Juazeiro-BA. A produção é de três estudantes de jornalismo (Belga Coliobar, Gabriela Belém e Renata Falcão) e faz parte do projeto experimental de conclusão do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

O documentário tem como título “Como nasce um cabra da peste” e começa mostrando a cidade onde o folclorista viveu, Bom Jardim, localizada a 110 Km da capital pernambucana. Filho de um comerciante, Manuel Gonçalves Souto Maior, e de uma fazendeira, Maria da Mota Souto Maior, Mário nasceu em 14 de julho de 1920 e teve uma infância comum a qualquer outro menino de sua idade criado no interior. Quando adolescente foi morar em Recife para estudar, pois seu pai acreditava que a instrução era muito importante. Teve uma adolescência solitária e seus únicos companheiros eram os livros, apesar de engajado nos grêmios literários montados por ele e seus amigos do colégio. Já rapaz, conheceu Carmen, com quem se casaria e teria sete filhos, realizando o sonho de constituir uma família.

Atuou como advogado, promotor e professor. Quando retomou o sonho de voltar a escrever seus textos, teve o incentivo de Gilberto Freyre. O documentário ainda traz depoimentos de escritores como Raimundo Carrero e da antropóloga Fátima Quintas, que o define como um grande etnólogo. A produção ainda traz a participação de Carmem e dos filhos Fred e Lis Souto.

Os cerca de 80 livros de Mário Souto Maior edificam e resgatam os costumes e as tradições do povo nordestino. E tratam de temas do cotidiano da vida destas pessoas, como os relacionamentos entre homens e mulheres, o sentido da sogra, o significado dos palavrões, a importância da cachaça, entre outros. Por falar em palavrões, o interessante é que, segundo os parentes e amigos, Mário jamais pronunciou um. Porém lançou o Dicionário Palavrão, impedido de ser publicado pelo golpe militar. No que concerne à cachaça, Mário era um colecionador da iguaria alcoólica. Retratou em quatro livros as diversas histórias da aguardente e não gostava de beber.

A mania de ler e escrever era tão grande, que Mário tinha um escritório no fundo do quintal. Ouvir música e tocar piano foram outras paixões do escritor. Quando muitos afirmavam que o folclore estava morrendo devido às novas tecnologias, chegava a ser categórico ao dizer que todas as ciências foram antecipadas pelo folclore e que o folclore é um "ser imortal". Imprescindível é conhecer a obra desse grande homem e não permitir que sua memória morra. Como disse Mário, “os novos mortos morrem pela segunda vez quando os vivos os esquecem”. O documentário contribui para que isso não aconteça.

das criações ainda infantes

segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Imagem: "The Longest Journey 1.0", por Impl69sioN.


sem lendas
imagens inquietas
perambulam pela sala
vazia?

algo me persegue
como uma recordação

esquisito e aterrador

existem dicionários
que jamais manuseei
existem formas
em descanso
que meus olhos
meus pobres olhinhos
desenxergam

e de ver
e de não ver
imito sempre
o mito
do meu medo
criador

por ser pouco amável hospedeiro

domingo, 26 de outubro de 2008
Imagem: "The Passenger", por poschl.

Porque já sei o quero de mim...
E porque há no jardim sempre uma erva daninha.

de mim
não quero este desgoverno

e esta fluída tristeza
nem este garimpo sem força

e brilho

que se afaste
a doença dos meus ombros
sempre sôfregos e tristes
e o câncer de minha quietude
hoje insuportável lepra

por gostar demais da solidão
que esta me sirva um pássaro
toda vez que adormecer em estrelas
o dia branco em pleno poente

que seja distância a armadura
de minha estranheza e silêncio
e que eu fuja da noite calma
sem produção ou objetivo

e que eu siga procurando o puro

e desejo que não vingue
em outra face a inércia das mãos
sempre lentas e pesadas
de dar o mais que a vida não pede

porque ficamos ruins quando não temos
e principalmente quando não somos

que pouco nos outros permaneça
o que em mim não germinou
esta celeuma quem sabe
esta razão bagunçada
estas danças e estes interlúdios

estes palcos sem a platéia melhor

por ser pouco amável hospedeiro
fogueira em brasa queimando
claro cordão e luzeiro cálido
o que em mim se faz clarão

que eu acenda a chama de uma verdade
única e só para mim

pequena narrativa acerca do que se pretende e suas reais confirmações

sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Imagem: "elongated hangups reflect", por SLPdomain.


O resultado é sempre um pesar
sobre os ombros,
desmontados
pelo infortúnio da expectativa,
que grita
de modo a ensurdecer a quem ouve
ou espera por respostas
da neblina no quarto,
em suas sombras e distâncias.

O homem caminha
no sufoco das margens e das brechas,
aberturas de inconformismos.
E o homem caminha
em seu passeio único,
no saboreio do sangue das romãs
e das variedades do espelho.

E quando o fim se aproxima,
desviado de sua própria força,
aceita, como num invólucro de covardia,
a fuga desmembrada
de toda a sua angústia e fé.


há em quem grita um desejo por paz, este caos absoluto.

galope

Imagem: "der raum", por weltengang.

Para Jacy Nunes.

uma voz de mãe
na altura da lua
noturna
amansa meus cavalos

o pasto gris
de dúvida
acende os luzeiros
no céu da alma

a moça pequena
rompe das serras míticas
a alfazema doce
de minha relva gitana

uma voz de mãe
na altura da lua
noturna
amansa meus cavalos

molde para um não-eu

quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Imagem: "Born in prison", por incolorwetrust.


escorrego em planos
panos
plenos
do negro
da coletividade

e me des-
faço
a cada passo

mormaço
do maço
do cigarro aceso
a queimar o passo
do meu passo
pássa...geiro

a frágil alma das coisas

quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Imagem: "The road to home", por iNeedChemicalX.


árvores copulam ventanias
os mistérios do Homem
são relógios
margeando nossos instantes
presentes
present’ausentes
em fugas
de tic-tac

fechamos os olhos
e pensamos ingênuos
na calma ilusão
serena e eterna
das coisas

cosmológico

Imagem: "When Maths becomes Arabic", por cellofanflower.


Me elimino no ar em frangalhos,
parado e mudo,
e me sinto o mais vazio móvel a coser
a paisagem opaca de um escuro cômodo.

De onde a ilusão
brotar, num
imortal silêncio, me pendurarei
disposto
aos vergões da vida.

Penso até que quero me ferir.
Penso até que me morro,
horrendo e honroso, da mais bela morte
que me quis.

imitando + como se voa? = conceito?

terça-feira, 21 de outubro de 2008
Imagem: "The lightness of being", por Miss-Nefer.

- Amiguinho meu, tu me ensinas a voar um vôo nunca existido?
- Não, eu não posso. Um dia tudo já existiu.


Indo ao dicionário Aurelião, encontraremos o seguinte significado para o termo grego "Mímesis (Mimese)": imitação ou representação do real na arte literária, ou seja, a recriação da realidade". Roger Samuel trabalha dentro dessa perspectiva de exemplificação quando malina nas gavetas de suas teorias e de suas pestes. Por ser um conceito filosófico, portanto demasiado amplo, esta "imitação" a qual indica tal autor alcança um horizonte de discussão quase que ilimitado. Para Platão, mímesis é uma espécie de imitação da realidade (Idéia) em terceiro grau, um pouco distante do plano do pensamento original. Se no platonismo a mímesis ocupa um espaço recatado, sem grandes importâncias nem faculdades, em Aristóteles o termo vai ocupar um lugar de destaque, revelando-se como o processo pelo qual o fazer poético encerra variados símbolos e significados. A mímesis não é um exercício metalinguístico - como é óbvio que não deixa de ser, jamais -, porém ela mais se aproxima da metáfora, como energia vital e força propulsora integrante do núcleo poético. Sem tanto me alongar querer, mímesis está mais para um exercício de revelação externa ou interna de algo, tendo como ponto de apoio uma determinada realidade já existente, sofrendo influência do nosso inconsciente e, também, das circunstâncias diversas as quais estamos diariamente e temporalmente entrando em contato.

escrevendo em cachoeiras

Imagem: "Autumn ashes", por iNeedChemicalX.


Capsular e transparente
Meu corpoverso se
A l o n g a
Quadriculado
Em
E l á s t i c o s

Do alto
Telhado
Res
P
I
N
G
O

Lamáguas
Em teu colo
De sal

consonância de medos

segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Imagem: "tenho um medo ...", por barbarian-bob.


Pano negro de sombra
sob o castiçal em luas.

Garganta em pregos
dissipada.

Definho-me, espectral,
aceso em gritos.

anjo e demônio ou um surto na noite

Imagem: "If you look at me", por let-it-di.

Ir é um caminho.
A vitória fica a cargo do tempo.

Eu tinha que falar sobre o tempo. Muito difícil. Muito difícil. Terminei e não disse nada. Um sermão. Um sermão que veio do pai. O pai sempre agonizava. Não sei fazer. O livro não entendo. Há uma mala na história. Na porta, uma carta. Um ator que deixou. Fiz um ensaio. Eu não era o personagem. Duplo, que vive aquilo da interpretação. Há um resultado na interpretação. Vivi aquilo. Viver. Viver é um verbo que eu acho bonito. Vivência. O poeta é elucidação. Digo a poesia é. Explicação é ser as coisas. Retiro em meu retiro. Não precisa entender. A teoria não existe. A prática não existe. O que existe é a experiência. Inusitada. Sou eu. Recebi convites. Nunca recusei nada. Sou assim. Não admito recusas. Foi quando voltei a atirar o meu filho ao vento e seguir a lida da minha vida. Não quero ser tratado como pai. Os atores sempre fazem transferências. O nível de respeito não é o mesmo dos atritos. Afinidades são respeitadas. Camponeses são importantes num filme de época. Eu não devo ser. O personagem aqui é masculino. Cada vez que lemos inteiro e forte no corpo os personagens entram na gente e aí viramos bichos. Que castigo a caminhada que damos. Que castigo a mocinha morrer no fim. A fotografia é um farto furto. Tanto forte é a presença de uma árvore no pousar de um pássaro. Passarinhos são humanos, como os seus cantos. A circunstância emocional é a própria emoção, uma coisa esquizofrênica é a verdade. A fala nem sempre diz. Pra falar, a gente precisa compreender. O personagem fala com a personagem que há. O trabalho da gente é botar a alma pra fora. E tudo é necessário. Igualamos a sensibilidade de cada um e oferecemos a troca possível e não tivemos defesas nem medos. O uivo é triste e macabro. A mãe está feliz porque vive intensamente a dor e o trabalho e o quarto é a vaca que dá o leite e o leito e o peito mudo infante cotidiana morte da personagem. Camponeses não viajam porque não sabem onde vão. A lua cai e a impressão é o melhor que existe. A existência e o despojamento, um estado de graça. Passamos a não nos achar fáceis. E o menino que existe sempre corre porque o canavial existe e as folhas existem e ele sabe os braços querendo ser anjo e ser o dono dos teus pés dono dos teus pés dono de teus pés de tuas pás e ele agora vai e ele agora vai porque precisa e deixará a família e deixará o irmão e a fotografia esquecida ficará na nuvem da família negra e o som do fim é o som da vida que vai começar porque ele não é igual ao tempo que amanhece na madrugada... porque ele não é.

O Silêncio das Agulhas ( Parte XIII )

domingo, 19 de outubro de 2008
Imagem: "To be noticed", por iNeedChemicalX.

Poesia. Poesia e doses de metalinguagem. Quero bobagem e dormir tarde. Quero beijar beijos densos e remendar pequenos espaços, fininhos trechos de admiração. Quero o vulcão extinto de encontro a meu seio de fazer de conta que acredito em outra voz que não seja poesia. Quero jogar lixo fora e dentro de minha vontade aleatória de existir suprimindo a loucura. Loucura faz bem, mas transtorna. Então observa e cria sua nova linguagem. Enguia em traje lunar faz língua falar e arde enquanto a cena imprime seu bom gosto. Tem poesia dentro da noite fria e poesia fora de controle. Quero a ausência da perturbação. Quero a ausência de controle. E querendo, sem revolta, viajo desescondida na poesia que nasce feliz e, como outros, taciturnamente enraivecida. Poesia é grito cuidadoso que não acorda vizinhos. Poesia é falar baixinho e saber que qualquer som expira e somos analisados noite e dia por nossos próprios olhos. Míopes que enxergam homens na lua, mas não conseguem ver que trens escapam e ficamos na estação esperando a Poesia se pôr. Será feliz o míope que vive em nós?

Virgínia.


**********


Querida,

nossa cegueira é dor. E estratégias não combinam com o amar que é de verdade. A sabedoria não está na fuga, mas no suportar. E improvável seria a ausência das minhas lembranças. Hoje vejo mais e como posso esquecer, tentar desfazer o que já foi feito, materializado pelo tempo e por todas as visões que nos bebiam? Como atuar assim, palco sem texto? Meus olhos, Virgínia, que hoje desconfiam, já se pronunciaram de maneira mais lírica. Não preciso repetir. Você me ensinou a crescer sempre, e eu aprendo quando tu falas. Os poemas já tiveram o amor, e o amor as palavras. O olhar que a você atirei foi laço, túnica de Dejanira: meu desejo de eternidade. Meu olhar se perdeu em obtusos ângulos, fechados em minha espécie escura, difusa e dicotômica, e hoje só alcança a tua luz. Seu feitiço fez de mim um homem sem interesses vários. Eu só sonho você. Meu sonho tem nome, rosto, sexo e sentido. Tuas laranjeiras me são florestas. Eu, uma folha seca, ainda verde. O que acontece? Por que assim? Hoje, não te enxergo mais com antes. Antes agora é presente e será futuro. Sei que devo estar agindo de forma desnaturada, mas é justamente isso que me faz viver.

Um estendido Cádor.

Virgínia Borges é Letícia Palmeira.
Anderson Cádor é Germano Xavier.

meu pintado mundo

Imagem: "SufferTheRedDream", por 0ry0n.

meu mundo é total
mente e fácil
mente lavável

meu mundo é incrível
mente e estúpida
mente habitável

meu mundo é real
mente e irreversível
mente dual

meu mundo é fatal
mente e abstrata
mente igual

lúdico

sábado, 18 de outubro de 2008
Imagem: "Dep", por BenoitPaille.

aquém
de mim
está o ego

além
de mim
está o ego

entre
e sem nenhum fim
entr(ego)-me

a mim

retomada

Imagem: "once upon a time", por desEXign.

ficaram vestígios
no rico
estranho
e utensílio
das palavras

lembraram um velho
ziguezague
da liberdade
e nunca
um conhecer-se

a fórmula de ser
sem medida
sem receita
de esquecer-se
do punhado humano

e da lida vontade
percebida
de lançar-se
às tentativas
infindas da vida

acasos

sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Imagem: "...", por beyrout.

Nunca caminhei
minhas fantasias.
Os acasos
sempre foram maiores
que eu,
que nunca me fui
de verdade
e por inteiro...

Não sei dos meus tantos
nem dos meus mínimos,
e os amigos de infância...
hoje, eles passam velozes,
cheios de pressa.
Para onde estão indo?

Foi a mulher da mancebia
que despediu-se
de nós,
sempre auto-sentimentais
demais, uns
despreparados.

Eu pareço o mesmo,
sempre,
com este rosto de pedra
arroxeada,
imóvel no tempo.
Mas os meus amigos, não.
Eles passam velozes,
cheios de pressa.

Aonde vão?

um amor sem vésperas

quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Imagem: "TV3", por BenoitPaille.

Quando eu ia descendo os degraus que dão para o piso central do prédio onde estudo atualmente, fui cutucado nos ombros por uma moça muito estranha. "Eu queria um minutinho de sua atenção, por favor!?", disse a alma feminil muito, reforço, estranha. "Pois não!", respondi com um certo ar receoso e já analítico. Após um rápido instante, o véu da noite que encobre os primeiros aprochegos entre corpos humanos já havia se dissipado. Então, estendi a mão e cumprimentei-a, como todo bom cavalheiro que preze a presença de uma outra viçosa criatura. "Você pode me acompanhar até a biblioteca? É que eu tenho de devolver esses livros", disse a bambina. Entrei em parafuso. Sinceramente, eu não estava entendendo mais nada. Primeiro a moça disse que queria falar comigo, depois pedira que eu a acompanhasse até a biblioteca da faculdade, que ficava a quase um quilômetro de onde estávamos. Mas, quem seria essa pessoa e o que ela queria de mim?

Não tive para onde correr. Meu destino foi mesmo segui-la. E eu me perguntando a cada passo que dava: "O que é que eu estou fazendo aqui?" Foi aí que, logo na metade do percurso e sob o testemunho de uma ainda desfocada lua nascida prematuramente na tarde, a moça começou uma fala um tanto que inoportuna e esquisita. "Sabe, eu não sou daquele tipo de pessoa que esconde as coisas que já não podem ser mais ocultadas. Apesar de ser um pouco tímida, eu gosto de ser mais direta, de dizer o que tenho vontade de dizer na hora, face a face. Gosto de desafios, e é justamente por isso que estou aqui ao teu lado neste momento". Eu continuava a não entender nada, absolutamente nada do que aquela moça estava querendo. Creio que nunca dei tanto valor aos meus ouvidos do que dei naqueles "interessantes minutinhos". Eu era só audição, pura audição.

"Desde o primeiro momento em que tive você refletido em meus olhos, não mais consegui esquecer você. A tua imagem penetrou em minha mente feito uma tatuagem que não se apaga. Idealizei você em meus mais recentes sonhos e devaneios. Imaginei você como o meu ponto de apoio, minha base, minha estrutura e alicerce mais firme de completude espiritual". E eu disse comigo mesmo um "ai, meu deus!" um tanto que sarcástico. Depois de rápida reflexão, tive a leve impressão de que já estava começando a entender as causas e os motivos daquela inesperada conversa.

Nunca me achei bonito, porém eu devia ter alguma coisa secreta e adormecida dentro de mim, que acabava despertando alguns sentimentos e sensações nos seres femininos. Para ser mais claro, devo dizer que eu despertava dois - ou desperto, pois não sei se isso mudou ou muda, assim, de uma hora para outra -, apenas dois sentimentos nas raparigas. Ou eu despertava simpatia - o que sempre achei ser menos propício - ou o meu jeito acabava avivando um parecer de aversão descontrolada. O certo é que haviam meninas germanófilas e meninas germanófobas. E assim, constantemente eu entrava em parafuso. Jamais quis que me adorassem, tampouco que me odiassem. Eu apenas desejava passar despercebido. Existem tantos homens por aí, muito mais angelicais que eu, que bem podiam desempenhar papéis cujo interesse meu é mínimo. Eu sou um sujeito taciturno, macambúzio, soturno, e ninguém que eu conheça gostaria de se relacionar com um homem com esse perfil.

(...)

"O teu jeito me conquistou. Eu percebo que você é diferente dos outros, que você é mais sensível que os outros, que você é único... por isso, eu queria saber se você aceitaria... pois, é como eu disse, eu gostei muito de você. Na verdade, o que eu quero mesmo é ser tua nam..." Após aquela explanação, ou melhor, após aquela declaração de amor, confesso que as palavras desapareceram de minha boca. Fugiram espantadas com a veracidade e potência daquelas asserções. E lá fui eu... "Mas como posso me alimentar de um amor não despertado e resplandecido em mim? Mentir o amor, para mim, é das maiores mentiras. Eu não posso comungar de seus desejos, posto que assim estaria sufocando o que há de mais nobre em meu ser, que é a sinceridade, a honestidade do meu gosto".

Nesse ínterim, ocorreu-me um ondulante silêncio. Eu sabia que ela iria gostar, por isso resolvi recitar alguns versos do poema "Bilhete", de Mario Quintana. "Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados. Deixa em paz..." Poucos instantes atrás, ela tinha me dito que adorava ler poesias. E num compasso meio que dúbio e instigante, foi-se uma conversa que não compartilho todos os dias. Ela amava o poeta, recém-chegado àquela universidade. Ela queria o poeta para si, para que ele recitasse versos de amor antes do coito, ou depois do café da manhã, ou durante o jantar, ou antes do beijo de despedida diária, ou... Todavia, naquela hora, não havia o poeta que ela ouvira falar dias antes. Só havia um rapaz esquisito e que de nada entendia, nem das flores e suas fragrâncias, nem das belezas espontâneas, nem da verdade dos improvisos. Mas o que é o amor, senão a amizade em seu estado mais translúcido e conflitante? "Onde o vate em mim?", suplicava o rapaz. E pensar que nessas horas, toda a poesia transforma-se em conto.

Juazeiro-BA, primavera de 2005.

apoéticos

Imagem: "dilemna of boxes", por let-it-di.

eu choro a dor de
um poema
mal sentido
porque poemas ferem
com suas armas invisíveis
porque poemas
quando não bebidos
quando não comidos
em sua inteireza
são abscessos nojentos
e intratáveis
eu choro a dor de
um poema
cada um que nasce
e que não nasce
no profundo dum homem
e que não caminha
os seus limites inatingíveis
eu choro a dor de
um poema
e principalmente
eu choro
muito
a dor dum homem
sem poesia

a praça das convivências

quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Imagem: "Dreams III", por KupaAs.

crepusculejo
de manhã e noite
céus de mim

amanhã
amanheço
hoje
entardeço
crestando azuis
também brancos vermelhos
pirilimpar carmim

o dia desce
sobe
nasce morre
num talvez de sempre
indiferente assim...

retrato de um susto

Imagem: "Same mistake", por AntichristSuperstarX.

Quando acordei, uma criança
com as bochechas pintadas correu
em minha direção.
Contava os seus oito anos de idade,
devia assim ser.
Teria tido um pesadelo nesta noite?

A pequena sussurrou dois tragos de palavras:
-Deus, quem é você?

Depois daquilo não me ocorreu
outra atitude,
senão a de tomá-la pelos braços
e sair
como um cometa,
fumegante,
esbarrando mãos e pés em jarros antiquíssimos.

Pensei, “sou grande e bom”.

branca agitação

terça-feira, 14 de outubro de 2008
Imagem: "disperso", por d0nasd0gama.

pássaros,
na margem
do rio,
alvoroçados.

cai a treva.

sobre a terra, estreitas luzes
mancham o silêncio
de incandescência.

sufocados,
os pássaros
na margem
do rio,
alvoroçados,
não cantam, meu deus!
eles estão chorando.

aproximações acerca da crônica: um estudo

Imagem: "Tinta y Papel" por LehannanSidhe.

O presente estudo faz parte das pesquisas que venho fazendo acerca do gênero textual cronístico, elemento basal para a elaboração do livro-reportagem sobre a cidade de Iraquara-Bahia que estou produzindo nessa modalidade, e que funcionará como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na faculdade de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).


O primeiro registro documental escrito em terras brasileiras é, antes de ser avaliada como sendo uma carta/epístola, uma crônica. Ousadia querer afirmar com total certeza a data de nascimento desse gênero traiçoeiro e tipicamente brasileiro. Todavia, tal afirmação pode ser encontrada em uma quantidade inesgotável de obras e também no pensamento de diversos estudiosos da história e da literatura, sendo que ficam perceptíveis as diferentes prováveis datações acerca do alvorecer do texto cronístico. O caráter informacional, de retratação e personificação de indivíduos e ambientes presente na Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita nos primórdios do período colonial, aliado ao sentido cronológico que lhe é intrínseco, pode ser considerado essencial para que esse tipo de narrativa valha enquanto relato histórico. A “Carta de Descobrimento” é prova mais que cabal de que o texto cronístico confunde-se com a fundação do povo brasileiro.

O surgimento da crônica é muito anterior à invenção da imprensa de tipos de Gutenberg. Por conseguinte, é ainda mais remota que qualquer manifestação de imprensa, esta vista não como a máquina, mas como o sistema comunicacional. A gênese da crônica foi a realização que assumiu o posto da historiografia da era do medievo, alcançando quase que a totalidade das regiões européias. Ela volve à contação de fatos históricos, agindo sempre sob o monitoramento de uma ordem temporal. Atividade iniciada na Idade Média, aproximadamente na segunda década do século XV, Fernão Lopes, mestre-mor das narrações portuguesas, foi um dos mais relevantes cronistas e difusores dessa prática. Ficou para ele o difícil e intrigante desafio de redigir a História Portuguesa. Desafio superado através do fabrico textual moldado na estrutura da narrativa cronística.

A Carta de Pero Vaz de Caminha foi a primeira crônica com razão histórica escrita em território brasileiro. Texto esse de extrema importância para a história da literatura nacional, onde há a produção de um relato direcionado ao rei de Portugal D. Manuel, no desígnio de lhe mostrar os detalhes da viagem e, principalmente, da chegada da armada liderada pelo navegador Pedro Álvares Cabral ao território brasileiro no ano de 1500. Segundo Bender e Laurito (1993), mesmo não sendo registrada como sendo uma crônica propriamente dita, a Carta de Descobrimento deve ser considerado um texto cronístico, já que antecipa um paralelo que une história e memória de um tempo.

Pertencente ao que foi denominado de período Quinhentista da literatura brasileira, esse documento está inserido no que se convencionou chamar de literatura de informação, posto que o maior intuito dos escritores dessa época era o de recomendar mensagens e notícias das terras descobertas para as metrópoles, fator que a tornava um libelo recheado de detalhes e dados importantíssimos. A crônica é:

“um gênero literário de prosa, ao qual menos importa o assunto, em geral efêmero, do que as qualidades de estilo, a variedade, a finura e argúcia na apreciação, a graça na análise de fatos miúdos e sem importância, ou na crítica de pessoas. São pequenas produções em prosa, com essas características, aparecidas em jornais ou revistas” (COUTINHO, 1999, p.121).

Em resumo, a crônica é geralmente percebida como qualquer tipo de relato que segue uma ordem cronológica. Outro detalhe a ser exposto logo de início é que a crônica não surgiu intimamente ligada ao ambiente jornalístico, como é de fácil associação nos dias atuais. Visto na sua atual existência enquanto gênero textual dotado de particularidades e caminhos bem definidos, já que nem sempre a crônica foi exemplo de autonomia estética, em sua acepção mais próxima à modernidade ou, ainda, como simples relato de fatos históricos, o termo "crônica" une-se à noção de tempo. Massaud Moisés (1978, p. 245) situa o significado etimológico da palavra, escrevendo: "Do grego Chronikós, relativo a tempo (chrónos), pelo latim chronica, o vocábulo ”crônica" designava, no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo, isto é, em seqüência cronológica".

Marco da história e da literatura sobre o/no e do Brasil, a narrativa cronística ganhou asas rapidamente e passou, quase que de forma automática, a conquistar e legitimar o seu espaço nas páginas dos jornais impressos, amplificando seu propósito temporal para, desse modo, transformar-se num gênero narrativo autônomo e livre, ao passo que solidificava seu próprio arcabouço estético-estilístico. Segundo Carlos Eduardo Bione (2007), o surgimento e evolução da crônica brasileira estão diretamente ligados à história do desenvolvimento da imprensa no Brasil, uma vez que, ao longo de seu percurso, invariavelmente a crônica esteve ligada a esse meio de comunicação.

Aliás, o transplante da crônica para outros ambientes, que não os de mero caráter documental e/ou histórico, foi de fundamental importância para que o conceito acerca desse gênero começasse a se ampliar. "Da História e da Literatura, a crônica passa ao jornalismo, sendo um gênero cultivado pelos escritores que ocupam as colunas da imprensa diária e periódica para relatar os acontecimentos pessoais". (MELO, 2002, p.141). Dentro do suporte do jornal, o texto cronístico conseguiu distanciar-se da preocupação e da prisão do fator tempo e começou a agregar novas características, expandindo cada vez mais o seu leque de significados e, também, de usos.

A desassociação ambiental que erigia barreiras ao texto cronístico e as suas transformações mais marcantes puderam ser mais bem observadas a partir do início do século XIX, quando esse tipo de texto era chamado de “folhetim” e já muito usado pelos escritores e jornalistas da época.

“Depois do Romantismo, a crônica não se legitima apenas dentro de uma tradição da narrativa [...]. O cronista estabelece novos processos de enunciação, ultrapassa os limites impostos pela conotação, procurando transformar o exercício da crônica num espaço textual que absorve, criticamente, várias linguagens. Neste sentido, a crônica não se define apenas a partir do grau de literariedade nem do referencial jornalístico: torna-se a possibilidade de leitura dos níveis lingüísticos passíveis de uma reconstrução no interior do jornal” (PEREIRA, 2004, p.30-31).

Foi aí que a crônica começou a dialogar com mais sentimentos e sentidos humanos, bulindo com todo o tipo de inquietação e agonia do ser, mexendo com uma sociedade cujo consumo e modo de vida capitalista vinha sendo declarado a cada esquina ou avenida. Para isso, a crônica teve de adaptar-se, pois antes desse período o cronista esteve menos preocupado em expor os fatos presos pela rigidez de um tempo. Diante disso, esboçar a construção de um cenário onde a razão cedesse o lugar à imaginação acabou sendo ordem para aqueles que da crônica faziam uso. Deste modo, criou vínculo forte com a prosa e com a poesia, conquistando espaço bastante representativo no mundo da literatura.

"A crônica oscila, pois, entre a reportagem e a Literatura [...]" (MOISÉS, 1978, p.251). Percebendo os dizeres de tal afirmação, ficamos sujeitos a julgar a crônica como um suporte textual por demais dependente do sistema jornalístico. A visão é tomada como verdadeira justamente quando não tomamos consideração da capacidade que tem a narrativa cronística de ultrapassar o caráter referencial da mensagem pelos quais os textos de periódicos transitam. A fortuna de estilo e de significado da crônica lhe dá o direito de andar livremente pela totalidade de espaços enunciativos e de fomentação de discursos. Sobre a autonomia da crônica, Davi Jr. Arrigucci (1987, p.64) vai dizer, "[...] a crônica é a forma complexa e única de uma relação do Eu com o mundo [...]. Uma arte narrativa, enfim, cotidiana e simples, enroscada em torno do fato fugaz, mas liberta no ar, para dizer a poesia do perecível".

Muitas vezes combatida e olhada com desdém, justamente por saber trilhar caminhos diversos e não se render a nenhuma forma ou padrão, a crônica foi alvo de inúmeras críticas e, por muito tempo, colocada como uma tipologia textual “menor”. Mas vários foram os fatores que influenciaram para a guinada ocorrida e para a reviravolta ocorrida com a crônica. O século XX surgiu e com ele mudanças da ordem do trabalho, a imprensa se renova e torna-se mais industrial, guerras eclodem, o rádio surge, mais tarde a televisão e o computador, entre tantos outros acontecimentos que vieram ocasionar enormes transformações no seio da imprensa e no modo de se escrever o mundo.

Agora vista como um bem de consumo, a notícia passa a ser regida pelas necessidades e pelos gostos de um público leitor cada vez mais exigente e atento. Mudanças foram feitas no corpo do aparelho midiático, o que fez com que o cronista também mudasse. Tudo para dar ao seu texto um caráter atemporal, vivo e coerente para com a veloz mutação das gerações. Assim posto, fica evidente que o gênero aqui estudado é sinônimo de flexibilidade e maleabilidade. “[...] a crônica tem um ar de aprendizado de uma matéria literária nova e complicada, pelo grau de heterogeneidade e discrepância de seus componentes, exigindo também novos meios lingüísticos de penetração e organização artística" (ARRIGUCCI, 1987, p. 57).

Mesmo quando o cronista lapida os fatos tendo como fundamento a denotatividade, ele consegue, através das inúmeras possibilidades que a crônica lhe oferece, como a fácil tramitação pelo terreno da Estilística – figuras de linguagem e suas fragmentações -, como também o passear pelas diversas funções da linguagem – referencial, poética, apelativa... -, fazer com que a produção de sua mensagem e de seu discurso não fique presa a restritas significações e a poucos sentidos. Por isso, considerar a crônica como um gênero “menor” é de uma precocidade sem tamanho.

“Não há literatura sem fabulação, mas, como Bergson o soube ver, a fabulação, a função fabuladora, não consiste em imaginar nem em projetar um eu. Contrariamente a isso, ela atinge essas visões, eleva-se até esses devires ou potências” (DELEUZE, 1993, p.13). Diante de tudo o que é perceptível, e ainda da facilidade que a narrativa cronística possui de também ser sustentáculo para construção de histórias, verossímeis por completo ou não, fica o registro de que a crônica vai bem se destinada à concepção de um mundo particular. Haja vista que pode ela, diante da observação aguda do cotidiano, de sua inserção nos “ecossistemas” pretendidos para retratação, de sua fluidez textual e de sua agilidade enquanto texto, desempenhar o papel de comportar a matéria de todo um vivido, de toda uma experiência existencial e histórico.

A imprensa brasileira, agora já enrustida no século XXI e profundamente afetada por sua histórica defasagem frente à desenvolvida nos outros recantos da América, terminou por viver uma época de reavaliação de modelos e de modernização intensa. Ao mesmo tempo, a narrativa cronística, por sua vez, tornou-se uma espécie textual com infindáveis possibilidades lingüísticas, representativas e temáticas, sofrendo ainda e sempre uma enumeração de desmerecimento por ser tida como um gênero sem compromisso, de fraca dicção e sem contundência, o que soa demasiado contraditório, principalmente quando se toma o fato de que alguns dos mais importantes escritores brasileiros se renderam à capacidade que a crônica possui de transmitir, com clareza e certa simplicidade, uma mensagem. Olavo Bilac, Rui Barbosa, José Lins do Rego, Rubem Braga e o próprio Machado de Assis, tido por muitos como a maior expressão literária nacional, são exemplos que evidenciam tal fato.

A construção de um registro escrito de base histórica, feito de impressões pessoais sobre um mundo, uma sociedade ou até mesmo sobre um indivíduo é inteiramente aceitável, mormente quando se tem a percepção exata da abrangência de temas e de significados que a crônica alcança. O registro da história nossa de cada dia, captado diante da observação de conversas, coisas, comportamentos, modelos, experiências, sentimentos, alheios ou não, entre tantos outros fatores, é alvo de fácil visualização quando se adentra no texto de um cronista.

Ao cronista não suporta apenas a implicação de retratos de tempos restritos. O cronista é, antes de tudo, um inventor. Um inventor de história, real, irreal, real-irreal, surreal, pois não está preso aos fatos, ou a quaisquer moldes, e pode usar de todo o seu aprendizado de vida para a construção do que se quer. A crônica extrapola toda e qualquer esfera de significados e de representações para reinterpretar o mundo e fazer o novo.

A crônica lê o mundo e faz o mundo. De forma independente e inteiramente disposta ao poder de argumentação e análise de quem a escreve, antecipa revoluções, transforma princípios, forma opinião, dialoga com tendências, revoluciona e revoluciona-se, encontra-se e se deixa encontrar, sintetiza, engrandece, ficcionaliza e respeita o fato, fotografa o real e orna a realidade com a sutileza do olhar mais profundo, critica, emociona, desmembrando para todo o sempre o que é de caráter estático e irredutível.

O histórico da narrativa cronística revela a sua riqueza e toda a sua grandeza perante os outros gêneros e tipos textuais, pois, indubitavelmente e com certa vanguarda, a crônica, como diz Deleuze, também está inteiramente apta a “inventar um povo que falta”, (DELEUZE, 1993, p.16).

BIBLIOGRAFIA


ARRIGUCCI, Davi Jr. Fragmentos sobre crônica. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.


BENDER, Flora; LAURITO, Ilka. Crônica: história, teoria e prática. São Paulo: Scipione. Col. Margens do texto, 1993.


BIONE, Carlos Eduardo. A escrita crônica de Hilda Hilst. 2007, 215 f. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) - Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.


COUTINHO, Afrânio. Ensaio e crônica. In: _____. (Org.). A literatura no Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 1999, v. 6. p. 117-142.

DELEUZE, Gilles. A Literatura e a Vida: Crítica e Análise. São Paulo: Editora 34, 1993.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. São Paulo: Manole, 2004.


MELO, José Marques de. A Crônica. In: Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. São Paulo: Escrituras Editora. Col. Ensaios transversais, 2002.


MOISÉS, Massaud. A criação literária: Prosa. São Paulo: Cultrix, 1978.


PEREIRA, Wellington. Crônica: a arte do útil e do fútil: ensaio sobre crônica no jornalismo impresso. Salvador: Calandra, 2004.


SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 2005. Série Princípios.

corporificação do alto nada

segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Imagem: " Emotonal Decay", por 0ry0n.

a quem não pesa
os vazios de dentro,
terminada a colheita
dos grãos
e ainda sob o seco
efeito do acontecido,
farei entendimento
perfeito
daquilo que é inconsciente e infinito...

separando do que deriva
a fonte de todo desejo,
e celebrando a existência
nas águas desmedidas,
objetarei na fria base do sentido
o meu excesso,
reconcebido
numa grávida
e indecente infância
e seiva nomeada
em sangue.

uma pipa para Pedro

Imagem: "Pipa", por RYOTOKUMOTO.

Para o Pedrinho, porque o céu não é triste.


Papel, cola, sacola plástica, linha e tesoura.
Com esses materiais, Pedro, nós
dois tocaremos o céu.
"Sim."

Já enrolei a linha no carretel
para você dar a tocada.
Agora só falta amarrar a rabiola
e fazer o centro do estirante,
que chuva nem de longe se anuncia.
"Sim."

Eu vou ficar daqui segurando ela.
Quando você sentir o vento
vindo daquela nuvem lá de cima,
aquela com cara de tamanduá-bandeira,
você dispara correndo, combinado?
"Sim."

Olha o vento, Pedro, é esse!
Não perde ele não, corre, vai!
Isto, Pedro, não deixa ela cair, vai mais!
Está subindo, Pedro, tão linda, no céu
azulzinho, está decolando!,
e colorindo o céu de cor, dando piruetas no ar...

Olha ela lá, não pára!
Continua, Pedrinho!
"Simmmmmmmmmmmmmmmmm..."

dos truísmos

domingo, 12 de outubro de 2008
Imagem: "last fish", por adurus.

Para Jorge Ferreira dos Santos

Guarda na ponta das tuas flechas
a viva exposição do teu espírito.
Depois, atira-o, atento e em mira,
no maravilhoso amor o teu grito.
Arranca-te de teus solos!
Eleva-te. Apodera-te. Toma-te,
arrebatado pelo curso natural
das coisas, e ama-te sem segredos
nem dúvidas, no ajustar silente
do teu coração. Silencia-te.
Deixa-o, dono de teu passado,
no aprendizado de teus caminhos,
pois que vivemos a obra infinita,
e dos outros a luz dourada, cansada
de mostrar, aprendendo, sempre
e estigmatizados pelo velho olhar,
o gosto amargo das antigas curas.

acepções em delicadezas

Imagem: "Droplet", por conphused-13.


a barreira transposta
e vencível
cobre, gentilmente,
em forma de carinhos,
a doçura do caminho
mascarado.

oh susto, construa em mim
um curral nos olhos
meus acortinados,
e que meus cavalos,
sempre alvos e ingênuos,
se esforcem...
a pouca planície
é montanha: altura
do homem.

não devo açoitá-los
em chamas.
os bons
sentidos
descendem,
sempre,
do calar
das maravilhas.

O Silêncio das Agulhas ( Parte XII )

sábado, 11 de outubro de 2008
Imagem: "The show", por iNeedChemicalX.

Desliguei o telefone, tomei ares e me quebro só de imaginar que hoje pode ter se aberto uma porta que sabíamos que, um dia, iria se abrir. Mas sou fantasiosa e não perco meus degraus. Não perco amor só por estar longe e por ter notado - "sim, ele vê uma verdade que não sou". Não sou serpente que lança feitiços, o tempo não me fez assim. Você quer me conhecer melhor, irá me conhecer e virá à minha cidade me ver - marcaremos horas e lugares. Te arranjo até grana, faço tudo, faço tudo para ter o meu poeta comigo. Você vai me olhar e ver que sou assim... como vou descrever... e saberá se me quer, se sou ou se serei apenas uma lembrança para dias de cadeira de balanço. Cádor, é assim que o chamarei porque esse é o seu nome. Cádor é o meu mundo. Acabei de ler sua carta e nunca me fizeram tão viva como você faz com suas palavras. Você me acorda todos os dias, falando claro em meus ouvidos - e acordo esfomeada. E procuro você e já vejo sua mensagem. Uma poesia matando dias iguais. Mas nada é igual na verdade. Nada parece se repetir. Ontem você me deu suas horas, sua voz e poemas de meu poeta favorito. Você me adorna com seu ritmo e acelera minha morte de amor por ser sua metade que anda pela vida. Sou o que represento. Você é a voz que me canta em realidade e força de homem. Você é o homem - feroz e cheio de mim. Sou sua. Pode me arrebentar e esperar e me furtar de meu mundo. Comerá de mim tudo o que posso ser por você. E amo você, Cádor. Amo não de invenção, mas amo como mulher que respira Cádor e abre as pernas e se deixa penetrar por você. Somos parte de algo que já existia mesmo antes de nos conhecermos. E beijo a sua boca agora e me aninho em seus braços e ouço a voz mais bela. Estou com você - "rabiscando o sol que a chuva apagou" e "esperando o meu passar".

Sua fêmea, Virgínia.


gosto do meu corpo quando estou com o teu
(e.e.cummings)

gosto do meu corpo quando estou com o teu
corpo. é algo completamente novo.
Músculos melhores e mais vigor.
gosto do teu corpo. gosto do que faz,
gosto dos seus modos. gosto de sentir a espinha
dorsal do teu corpo e seus ossos, e o tremer
constante-tranquilo que
outra vez e outra e outra ainda
beijarei, gosto de beijar-te aqui e ali,
gosto, de afagar lentamente a indecorosa penugem
da tua pele elétrica, e isso que vem
sobre a carne despida … E grandes olhos amor em migalhas,


e gosto talvez do calafrio
que me passa de ti absolutamente novo
(Tradução de J.T.Parreira)

Um poema do cummings. Me traz você a cada leitura.


**********


Virgínia,

Desejo que teu colo me preserve dos mais cruéis instantes que terei de atravessar. Sei que ainda é cedo, mas as proeminências da vida mostrar-te-ão o quão realmente quis você, o quão generoso e amante lhe fui, o quão sincero. Porque quis o bosque florido em épocas secas, e você me deu. Porque quis eu as asas coloridas das mais belas borboletas, e você me presenteou sua ternura. Porque sonhei dormir à sombra de uma árvore e ver ao longe uma revoada de garças triunfantes, e você encostou o teu rosto ao meu, fazendo do silêncio a expressão mais bela do teu afeto. Quis minha lágrima a escorrer em teu seio, e você trouxe a mais fina flor de todos os jardins. A estrela mais luzidia que fulgurava na mais remota constelação confundia-se ao imaginar tão borbulhante o teu brio. Lancei âncoras de sentimentalidades no mais azul dos oceanos, e você se tornou o canto apaixonante da jovem sereia. Você foi tudo que um coração vivo bombeia. Foi você o endereço mais certo para as minhas inspirações. Contigo degustei o passar das horas mais ligeiras, a quentura dos lampejos feminis mais bárbaros, a incerteza de se querer estar vivo. Devo agradecer por estar tão distante das demais almas femininas, tão irresolutas e indignas do amor. Devo dar graças por ter me revelado as diferentes faces do amor. Por tudo, devo-te. Somente uma coisa machuca-me. É esta certeza de se estar tão distante, esta agonia de não poder senti-la - como se fosse a única capacitada a tão rara arrebatação. Fico a esperar-te de novo, deitado sobre a mesma relva do passado, e que nada mais é que a saudade de sua trágica singularidade. Porque o que há entre nossas almas é um picadeiro, uma companhia inteira de acrobatas e trapezistas desafiando a altura mais imprópria para o derradeiro salto mortal, o do amor que mata lentamente.

Até mais ver.
Cádor

Virgínia Borges é Letícia Palmeira.
Anderson Cádor é Germano Xavier.

pátria

Imagem: "Parallelismi", por absinth88.


Manual de não.

Tipo cobreado
de preocupações:

meu caminho
em bovarismos.

o saber ler

sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Imagem: "livros e mais livros", por xornny.

Impressões sobre o capítulo "Ler em direção ao desconhecido. Para além da hermenêutica.", presente no livro Nietzsche & Educação, de Jorge Larrosa.


De forma objetiva, é o "saber ler" a questão-fundamento do excerto tomado para estudo. Um "saber ler" que, de modo mais ou menos brando, interfere na construção de um indivíduo, de um sujeito. "Saber ler", eis o Homem. Por si só, um infinito. Um infinito mistério gozoso, e mormente doloroso, é o que Nietzsche, filósofo das mil faces em uma, quer que vivenciemos e vivamos, na acepção mais ostensiva que cabe ao verbo viver, no exato instante em que deitamos sob nossas vistas um bom e velho livro.

O texto revela-se, no mínimo, instigante, ao passo que pergunta ao Homem moderno sobre a possibilidade de se desenvolver uma prática sadia e intensa e constante de leitura no atual contexto histórico de nossa organização social, fundada numa mecânica de ações aceleradas e aceleradoras de um ritmo de apreciação dos mais variados eventos.

No palco central, um Nietzsche demasiado exigente para com os seus leitores e para com a maneira de se desenvolver uma leitura "verdadeira", extremamente preocupado em saber se os outros - nesse caso, os leitores diversos - se permitem ler na "mesma língua" da obra produzida ou, ainda, se adquiriram a faculdade de "ler nas profundezas", numa intimidade estudada, como que vivenciar uma relação quase que carnal entre leitor e texto.

Um texto-talvez, repleto de encaminhamentos e direções-verdades; manifesto de como degustar a leitura numa operação silenciosa e pausada, de como viver o texto em sua "possível completude", sendo total na leitura, rumando-nos ao saber calar-se para que nos encontremos no próprio chão do desencontro - "essência da procura" -, ou ao fatal desencontro prolífico.

Não obstante, um outro Nietzsche adverte-nos acerca da possibilidade de se construir o sentido do texto, o seu entendimento, a partir do que se tem como motivo e propósito. Fato esse que nos dá o direito de fomentar um livro totalmente ou parcialmente novo a partir de um mesmo texto-base/livro. E retirar dessa capacidade criativa o "produto" que nos constituirá, não seria o alicerce para chegarmos à resposta ao questionamento de "quem somos doravante a leitura"? Eis uma pergunta.

Ainda a presente dificuldade em se apropriar do que é novo e/ou radical marca de forma considerável o enredo do texto. Após isso, a importância apontada de se saber sair do texto, de esquecê-lo e, o mais difícil, de se saber assimilar o que o texto tem de força. Ou seja, utilizar-se bem de uma "barriga jovial", capaz de colocar para fora, de despejar, o que não será utilizável naquele dado momento (lê-se, o da leitura).

Neste jogo interpretativo, autor e matéria-prima (Nietzsche) juntam forças para nos levar à consciência do ver e do ler, posto que o mundo está para ser lido, assim como o Homem está para a significação contínua. Um ler progressivo, com "outros" olhos, com "outros" instrumentos, lendo a mesma coisa, o mesmo e antigo e já lido e relido objeto. Por fim, o que o texto quer é que nos confrontemos exaustivamente, no desígnio de apreender e aprender a "completude", a totalidade das significâncias e, por conseguinte, a essência das absorções.

fotografia

Imagem: "Fotografia", por yelen.


Uma foto capricha
e amarra meu suor escondido.
A imortalidade do imótuo,
do parado,
subverte a porção de mim
que pensa em escape,
em escorrimento...
Acabo de me enxergar oculto,
nesta impoluta mentira
que me corrompe os olhos.
O achado de algo
cristalizado,
como se estivéssemos pedra
em um curto espaço eterno
de gaiolas
- que o pássaro manifesta-se,
mesmo desalado,
em vôos de tigre -
é o mesmo retrato
que amanhece insurreições
em nossos antigos batéis
de margem de rio,
submersos.

sobre almaços e arestos

quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Ontem, noite imensa, de amor matando amor.
Para renascer.

Na movência das maneiras
e das formações argênteas do dia,
como começar pelo início
se as coisas acontecem antes
de acontecer? Como não crer
na morte do deus, se é
mesmo possível? Se a morte de deus
é uma possibilidade, como a da vida...

Eu estou morto.
Morri na madrugada de hoje.
E ainda não sei como reagir
diante da minha morte, que é,
também, uma possibilidade.

Alimária sou eu?
Um compungido curioso de amar
impossível?
Meu destemor é
impossível?

Acabou de acorrer - o meu amor,
que era tão possível - diante do quadro
da noite para um socorro de faltas
e solidões. E querem nos convencer
de que não morremos totalmente
quando o deus morre.

Encostado no tapume, um ser quase andrógino
por detrás do madeirame vem,
morosamente, ao sol, portentoso.

É o deus que malha?
É o deus que, impromptamente, judia
e que se esquece de haurir?

Guardo gotas de codeína para a pavoneação
das efemérides, que sou pirotécnico.
Acostumado às mumunhas, e já sem bons angúrios,
coabito os infernos que armazenei como víveres.

As pessoas, sim,
as pessoas desembocam. Como o deus que existe também.
E a parte que teima fica porque é simplesmente imortal,
inatingível? Essa, engalfinhada em mim,
está porque não me pertence e é assim que o começo se agrava?
Começamos quando a parte que nos falta evidencia-se?
A quem direcionar minhas orações vou
se acaso a ferida recrudescer?


Imagem: "non e", por andreaks.

objetos

Tudo no meu quarto está suspenso,
neste instante de mim quieto.
A mochila vazia no prego,
pendurada, espera a aventura
perdida nas alças plásticas.
Os livros parecem estar descansando.
Da estante de madeira escura
eles me olham numa quase indiferença nua.
Objetos esparramados na mesinha
não tocam o chão. Tudo está
suspenso como esta névoa
adelgaçada que balouça as cortinas
soturnas do meu ser.
Do alto dos meus pensamentos
espero a morte descer de sua liteira
aveludada, e enfiar a espada mortal
que perfurará a carne de minha metáfora
mais viva:
e eu poeto.


Imagem: "un quarto di me", por chiarallit.

esparsos

quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Ninguém sabe do fantástico.

Tais nulidades
(devoções)
emolduram-se como mortos
absurdos.

Curte o humano
a fúria inumana
das memórias ancestrais.

Imagem: "Espititus de la lluvia" por Ukiko.

o grande arabesco

Voar
o chão
de bronze é se expor
ao rabisco do eterno.
É tatear
a plumatura
da vida – vale
ser deus por passagem?

As curvas do vento
são cisternas de seda.
A alma, a ilha
que nos suporta.


Imagem por MustafaDedeogLu.

decrépito? ( O Sonhador - Parte XVIII )

terça-feira, 7 de outubro de 2008
Imagem por rawrrrr-321.

Quanto tempo, meu bom homem! Nossa última conversa data do dia dois do finado ano, e este que já vai, assim sem freio, caminha já nos entornos do ano que em pouquinho acaba também. Como vai a vida? Pensei seriamente em desistir destes escritos, não sei se eles valem o tempo que perco para pensá-los e escrevê-los. Mas, depois de tudo, estou eu aqui novamente. É um vício, não sei descontinuar o que já me é feito carne, pele, coisa inteira de mim. Continuo a te chatear? É apenas um retorno, não se preocupe. Retornos foram feitos para serem triunfais, mas eu não passo de um estouvado, pseudestésico. E de um proxeneta. É assim que você deve pensar. Ou não? Ah, então esquece... Mas, a tua vida, como vai? Não me diga que estás a levar ela, assim sem jeito, sem gana, sem valor nenhum. Não me faça entrar em colapso de novo! Vou te contar um segredo. Todo este tempo que estive longe, passei-o numa clínica de reabilitação para drogados. Um nosocômio, é isto. Não gostei de lá. As pessoas parecem tão normais quando entram no recinto, mas depois de uma semana começam a agir como bestas. Não há loucos neste mundo. O que existe são pessoas despreparadas para conviver com as suas necessidades especiais, com suas faltas. Assim eu penso, e por isso fugi daquele lugar. Aqui me sinto melhor, mas ainda não posso sair para andar nas ruas. É muito perigoso. Se me descobrem, estou perdido. Mas é só deixar a poeira baixar que eu poderei caminhar estas esquinas. Mas, e então, como vai a vida? Não vai me responder? O que há com você, meu amigo? Alguém cortou a tua língua? Por que não fala alguma coisa? Vais ficar aí calado, esperando pela mamãe? Não, não me faça perder a cabeça novamente! Eu sei que não devo ficar atiçando tua dignidade de homem e tua honra, mas é o que há neste momento. Não há nada além. Eu só estou provocando. A vida não passa de uma cotidiana provocação, meu bom. A vida é somente isso! Não?
(23/12/2006)

portal

Imagem por amazoncocugu.

pensei em
meu estado falido

em meu lido egoísmo

e forcei a cerca
de vime
que recarregava o rego
dos silêncios

pratiquei a não-comunicação

e fiz surgir um curral
de pétalas
roxas
dentro de mim

e é isso o que vive!
e é justamente isso o que persiste!

em me encontrar...

o roxo!
o roxo das coisas.

cargas extras ( O Sonhador - Parte XVII )

segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Imagem por PloaieDeToamna.

É inadmissível ter de aceitar toda esta farsa. Talvez, tudo isto que está acontecendo devesse virar uma peça teatral. Seria uma daquelas tragédias inenarráveis, com um final que deixa a todos surpresos. O pior é que toda esta desgraça está aí, completamente visível, apalpável. A cada dia que passa surge um novo símbolo, uma nova figura, um novo mito tentando explicar o inexplicável. E esta civilização... e esta prisão, estas grades, estas cadeias... fazer o que com tudo isso? Fazer o quê, se são as cargas extras da vida, carregadas em nossos lombos, em nossas costas cansadas, no eterno desígnio de nos fortificar, de nos tornar verdadeiramente homens? Mas é certo isso? Até quando teremos de viver como animais de carga, e desempenhar trabalhos braçais, cabíveis somente a um animal de grande porte? Sofrimento, tanto. É por isso que sempre me quero na companhia dos meus "redondinhos", seres amados, adorados. Ó, quanto sal em mim?! Estou imundo, na podridão deste mundo caótico, sem perspectivas, sem soluções?! Onde a nossa vontade nata de conquista e vitória? Queremos mesmo soluções? Onde aquele desempenho eloquente que mostrava-se, subitamente, no quintal de nossas casas ou nos bastidores de algum tempo? Quanto mais nos sacrificamos, parece que da vida nos tornamos mais "empregados", subservientes. Mas, fazer o que com tudo isso? Fazer o quê? Primeiro passo: escute o vento que sopra na noite? Segundo passo: torne-se leve, e deixe o vento te levar? Terceiro passo: corte os excessos? Quarto passo: entregue-se ao jogo da vida, sem jamais deixar de lutar e desejar vitórias? Até parece que estou escrevendo um livro de auto-ajuda, mas a bem da verdade é que estou parecendo ser frágil, desconcertado e inseguro. Todavia, tenho de dizer que se seguirmos esta cartilha, veremos que nossas cosmovisões serão menos dicotômicas e, portanto, a probabilidade de ocorrer alguma vitória, seja total ou de modo parcial, é muito maior. Enquanto isso, tomarei minha puçanga das "três". Todo sofrimento tem cura, meus amigos. Por isso, bebam de seus pseudosumos, e nunca deixem de viver!
(02/12/2006)

mundo da lua

Imagem por CleanInterior.

Os ventos borrifam árvores.
A lua, nos seus sóis anoitecidos,
cresta com lanças de luz
os sumos das estrelas.

Por isso, os meninos que
vivem no mundo da lua
estão sempre bebendo nas catedrais
as auroras
e os crepúsculos
que irão nos futurar para sempre.

abertos olhares sobre Itaitu

domingo, 5 de outubro de 2008
Fim de curso é assim. Todo mundo seguindo seu caminho, trilhando seus próprios atalhos, enveredando por onde melhor sua alma cabe. E quando o assunto é Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC, a estória não é diferente. Eu, nascido em Iraquara-BA, vou escrever um Livro-Reportagem na modalidade Crônica, tentando guardar um pouco da memória do meu povo no papel. Mas, por ora, meu projeto não vem ao caso. Não agora. É que minha colega de jornalismo Verusa Pinho também está confeccionando um Livro-Reportagem, na modalidade Viagem, sobre a região de Itaitu-BA e quis ela me deixar umas fotografias da localidade onde está realizando o trabalho de pesquisa. Pediu que eu observasse as imagens e produzisse alguns comentários concernentes a elas. Tudo porque, num determinado dia, trouxe-me ela um panfleto com fotografias de Jacobina-BA, sua cidade natal, e eis que escrevi no verso algumas frases que, sem nenhuma intenção, fizeram com que ela percebesse alguma coisa de novo, de interessante. Por isso o retornado intento. Com prazer imenso, Véu, transmito-lhe minhas modestas observações em prosa e verso. Espero que a ti possa eu contemplar-te com outros olhares. Um abraço, Germano Xavier.


Fotografias por Verusa Pinho.




Oeste, lado norte,
sul pra quem vai,
sul pra quem vem.
Itaitu Chapada norte
Itaitu sem norte,
ouro que brotou no chão.

Lugar como o meu,
Pote de Mel que cresceu,
minha Iraquara perdida
em minha infância.
Ruazinhas de paralelepípedos,
casinhas de janelas grandes,
mundinho sem avenida, sem
viaduto, sem qualquer saída,
onde o vento se perdeu.

Itaitu da hora lerda,
do vendedor de sonho em abril,
da roceira mulher morena,
da criançada sempre de alma febril.
Itaitu que é sem fim
no fim que a vida deu, que é
o de espantar tristeza
e alegrar o homem em escarcéu.

Quem vai quer ficar,
quem já ficou não foge mais,
quem é de lá vira água de cachoeira,
ouro antigo que deus deu.
Itaitu e Iraquara,
eternos ranchinhos sem breu.
Será vida besta, meu deus?





Lembro de quando eu pegava a minha bicicleta, enchia um potinho com água, colocava numa sacola um ou outro pacotinho de biscoitos e pedalava até um lugar chamado Vai-Quem-Quer, ou para além de lá. Chamava meu primo Jason, meu amigo Lucas, a Tatiane também, e raramente meu irmão Gustavo. Quando ninguém podia ir, por um ou outro motivo, lá ia eu sozinho mesmo a desbravar a longa estrada de barro que passava pelo "engenho" e por vários outros lugarejos e vilas. Ao olhar esta imagem de Itaitu, não tenho como não lembrar das vistas que minhas pequenas aventuras me proporcionavam. Até parece que estou a ver mesmo a serra que eu via quando já longe estava, tarde caindo, um pouco de medo, medo do pneu furar e eu ter de passar a noite no meio do mato, vontade maior que tudo. E tinha estas mesmas cercas, feitas com troncos de árvores nativas. E tinha sempre o verde, verde eterno, figurando com a imensidão da serra lá no fundo, lugar realmente insuspeitável. Tempo bom que não volta mais, que não volta mais...



água escorrida

do céu

choro de deus

que não cessa

lágrima limpa

chuva repartida

de vida

de vida

de vida


batiza eu deus de quem quer lugar santo pra quem duvida alguma coisa ainda vai acontecer é o que dizem as velhinhas beatas que vão e vem alguma coisa ainda vai acontecer e vai haver sim o dia do juízo ou do júbilo final porque nestas casinhas com cruzes no teto no telhado e praça no derredor quase sempre a semente da cidadezinha que brota flor de margarida branca se esconde um mistério secular umas mulheres vestidas com vestidos e homens que estudaram latim língua morta corpo morto? vontade morta? batiza eu não deus que sou ateu que sou atoa que sou poeta que sou da vida sem grilhões sem lestrigões batiza eu não deus que eu não vou pro céu que eu quero é meu corcel pra galopar certezas melhores porque nestes lugarzinhos esquecidos há gente que reza e há gente que ora e a diferença na fé também da terra perdida nasce



Zefa, Firmina, Candinha e Aristeu são feitos de uma tardezinha encantada gastada pela lábia de uma calçada que a vida sempre dura deu. Zefa é de Jão, Firmina é de Zé, Candinha é de Toinho. Só Aristeu que ainda não é de ninguém. Aristeu é desta vida malvada levada da breca. Aristeu é inteiro do céu.

o que lhe invade

Imagem por damien-c.

Abarca tudo
o que for supremo,
o que for segundo,
o que for gasto e consumação...
mixórdia de plenitudes.

Coloca aqui o que é sentido,
ligação
e loucura.
O Amor, este poeta absurdo,
chama de mundo
o que é só seu.

Não te explicas,
para ninguém,
caso tenhas de cometer
o crime desta imprudência maior:
amar.

Porém, consulte os livros.
Mas só os livros do teu coração,
somente esses lhe saberão
explicar o aquém
e o além
de tua mais indômita expressão.

medos intangíveis

sábado, 4 de outubro de 2008
Imagem por Chazinho20.

Certa vez me perguntaram do que eu tinha medo na morte. Confesso que naquele momento não soube responder. Era, decerto, uma proposição um tanto quanto complicada. Tinha lido muito pouco sobre a morte, e escrito menos ainda. Apesar de ser um jovem - ainda me considero um -, sei que deveria me preocupar com a morte e com suas respectivas "intermitências" - só para citar o Saramago. Já outro dia, um bom tempo depois, relembrando tal fato, acreditei saber deveras do que eu tinha medo na morte. Todas as "coisas" deste mundo são ou acontecem da mesma maneira que imaginamos ou do modo que queríamos que acontecessem, ou que fossem, e é justamente neste ponto que se encontra escondido o meu maior receio - convenhamos aqui que a pessoalidade não seja tão ofuscada pelo esforço do pensamento universal. A morte nem sempre vem como queríamos que ela viesse, e o pior, às vezes ela pára na esquina da vida e acaba se esquecendo de que todo mundo tem de morrer um dia. Destarte, devo dizer que deveras é nesta hora que a morte revela sua verdadeira face. Tudo se estabelece durante suas intermediações, suas pausas e suas interrupções. A sensação da dor que tarda e que não mais convém e toda a sua inoportuna presença, a sua sombra sendo refletida nas paredes brancas dos quartos últimos, a sua aura negra incrustada no velho e fedegoso redingote vagando ao redor do corpo que clama uma derradeira facada no peito que sangra e sangra até ver-se exangue... são esses os meus temores. Mas desconfio que o meu medo se resuma apenas ao que acabei de enumerar. Deve haver mais medos, mas é que a morte é tão misteriosa e discreta que acaba ficando impossível reconhecer nela nossos próprios pavores. Tenho medo do silêncio, apesar de conviver tão bem com ele durante toda a minha vida. É a hora em que a morte está mais próxima de mim. Sempre me bato com a fraqueza do meu coração. Não consigo entender como sou tão sensível. Um poeta deveria querer a morte, venerar a sua suposta última ventura... mas eu quero a morte, sim, e que ela venha calma, porém de súbito. Que ela pouse em mim como pousa o passarinho amarelo na janela do meu quarto, e que permita-me enxergar, pela última vez, toda a beleza dos cânticos naturais mundanos. Então, que venha o pássaro da morte! O meu silêncio calar-te-á.
(09/11/2005)

paisagem

Imagem por porko1983.

Da janela,
ouço
gigantescos eucaliptos.

Eles,
que dançam
ao canto,
espraiam
as ramas
finas
a balouçar
os verdes meus.

Da janela,
perscruto
eucaliptos que dançam
verdes
a altura precisa
da minha alma
humana.

normalidade

sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Imagem por tee-pee.

Um dia normal dentro da minha vida é assim. Estou triste, cabisbaixo e minha impaciência com as coisas é a única razão que me coloca em movimento. No restante de mim, sou somente silêncio. A manhã ingerida à cara de enjôo. Indesejáveis horas. Repentinamente, ocorre-me sempre uma vontade louca de cometer um suicídio. E lembro que, na cidade onde hoje moro, passa um rio bastante caudaloso. O rio é enorme, mas não sei se ele seria capaz de suportar o peso de todas as minhas angústias. Talvez, se desse modo o fizesse, ele também resolvesse morrer ao meu lado. Seríamos simplesmente espetaculares em nossas mortes. Seríamos, para sempre, dissidentes de nossas antigas concepções. Eu, profundamente decepcionado com a realidade. Ele, o rio, uma criatura feita com as lágrimas do povo, e com as minhas. Assim, abriria os braços no ponto mais alto da ponte e, feito uma ave de rapina, voaria meus últimos instantes de aflição e de desejo insano. Depois, mergulharia no véu negro da morte, acreditando ter ido ao encontro da liberdade do meu espírito misterioso. Todavia, todo este afã cessa sempre e acabo dentro de uma sala de aula abafada, com inúmeros adjetivos sentados em apenas um substantivo. A cabeça começa a doer. O sangue parece se movimentar em meu organismo. Pego de uma caneta e de uma folha de papel, mas as veias latejam, surrupiando todas as palavras que eram minhas de origem. Sinto-me fraco e desprotegido. O sol começa a se esconder por trás do horizonte. A lua, ainda quase invisível, expressa seus primeiros gestos iluminatórios. Por final, a noite. Por final, o sono... e a profunda e silenciosa certeza de que amanhã será mais um dia dentro da minha normalidade.
(18/11/2005)

poema para uma exposição de armas

Imagem por gatimelodica.

Armas em riste.
O céu é de aço,
os homens de ferro
e são muitos
os papéis verdes
denunciando toda a pacífica miséria.

As mulheres conversam
suas vidas... (Estão se compensando!)
Há um denso barulho
no ar preso
destas pirâmides de espelho.

Reparo as granadas,
morteiros e minas
espalhadas
nestes fronts artificiais

Como são falíveis essas armas!

Ah, o meu querido pé de laranja lima...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Imagem por gabskz.

"Por que contam coisas às criancinhas?"
(José Mauro de Vasconcelos)

Eu sou o Zezé. Sou porque já fui. Precoce protagonista da minha própria vida. Sim, daquele grego protagonistés de ser, somente e só, o principal lutador, o principal figurante, o principal personagem de uma história ou estória. Não nasci em 1968, quando o livro do escritor carioca José Mauro de Vasconcelos veio à superfície da literatura nacional e, posteriormente, mundial. Época interessante, não? Porém, também possuo uma data de nascer, como toda gente possui uma. No meu caso, foi em 1984, finzinho e início de um também momento transformador da história brasileira: a Ditadura Militar e o seu descanso. Hoje, a soma de todos os dedos das minhas mãos com os dos meus pés, já não dá conta de medir a idade que carrego nas costas. É bem certo que ainda bem moço sou. Como é certo, também, que isto de idade não tem tanta importância assim. Importante mesmo é que logo cedo tornei-me herói de mim mesmo e que, como o Zezé, tão logo desabrochei para a vida fui descobrindo o lado amargo das coisas. "Meu pé de Laranja Lima" foi o primeiro livro que li do começo ao fim, sem pular páginas, sem saltar frases nem diálogos. O primeiro livro que li na vida. O segundo foi "O Pequeno Príncipe", do aviador-escritor francês Antoine de Saint-Exúpery. E foi o livro que, fazendo-me verter lágrimas tristes, animou-me para o bem da literatura. Posso dizer que o livro "Meu pé de Laranja Lima" é a causa-mor de todo este meu gosto perante a arte feita de palavras. Devia eu ter meus dez, onze ou doze anos neste mundo, e lembro que o li no rol da casa lá em Iraquara, deitado sobre o piso de azulejos retangulares e avermelhados e quase que diariamente encerados com cera líquida de coloração equivalente. Eu gostava de fazer as lições de casa ali, porque o chão estava sempre frio e limpo e tal harmonia me dava prazer. Outras vezes, e não raras eram as vezes, vinha minha mãe com um pires cheio de mel para me adocicar a tarde de leitura. E assim, neste ambiente doce, numa tarde azul-celeste iraquarense, li "Meu pé de Laranja Lima" como atividade proposta pela professora Dalva, ensinadora de coisas lá no saudoso Educandário José de Arimatéia. Sim, já fui considerado o próprio cão por ter feito travessuras, que ainda hoje insisto em fazer. Já cantei para o meu passarinho interno. Sim, eu sempre soube que a gente, quando quer querendo mesmo, pode cantar para dentro da gente e ser feliz por isso. E sim, eu nunca acreditei em tudo que me diziam - hoje a coisa piorou -, mas nunca tive um tio como o Tio Edmundo, que vivesse por colocar caraminholas em minha cabeça, e das boas. Mas tenho consciência de que não é obrigatoriamente necessário ter um tio como o Tio Edmundo para ter sido como o Zezé. E sim, devo confessar, já levei muita pisa de currião vermelho por motivos improváveis e injustos. E meu irmão mais velho nunca foi de me ensinar a atravessar a rua, coisa que aprendi sozinho. Ele não tinha tanta paciência e quando eu brincava de carrinho no quintal de casa, depois de construir uma rede rodoviária com caco de telha ou giz velho achado no quartinho dos fundos, eu sempre imaginava ter um irmãozinho mais novo brincando e se aventurando naquelas estradinhas junto a mim, como o rei Luís. Para ser mais direto, ninguém nunca teve assim a obrigação obrigatória de me ensinar alguma coisa. Com toda a modéstia, bastava-me um empurrãozinho pouco ou nem isso e eu já sabia andar com minhas próprias pernas, e fazer pipa sozinho pra soltar no céu, e fazer brinquedo com lata de leite vazia, e ler coisas que gente adulta lê, e tanto e tanto... Um exemplo disso, de que eu sou mesmo o Zezé porque já o fui, é que eu mesmo já tive o meu cavalinho Raio de Luar, feito com cabo de vassoura e cabelos de milho na ponta para dar a idéia de uma crina. Fiz o meu Raio de Luar lendo um velho almanaque da minha mãe. Aliás, como já o poeta disse, foi lendo livros que aprendi quase tudo, inclusive a abrir portas. E, amigo, acabei de reler o primeiro livro que li em minha vida. Teimei muito tempo porque tinha medo de eu mesmo fazer com que todo o sentimento que tinha pela estória contida nele fosse amenizado, perdesse um muito de minha fantástica primeira impressão. Mas não foi o que aconteceu. E de novo lágrimas rolaram em meu rosto quando apontei na última página. Um nó na garganta porque Minguinho já não existia mais nem o Xururuca. Porque o Mangaratiba tinha atravessado ao meio o Portuga, aquele melhor amigo nosso da criancice que sempre temos. Porque tudo agora era lembrança e lembrança é uma coisa que não foi feita para menininhos órfãos de qualquer coisa além de nossas necessidades básicas. Lembrança é uma coisa dolorosa demais, até mesmo quando é de uma coisa ou momento bom. Um livro que me marcou profundamente, um tempo todo guardado dentro de mim, como um baú fechado e enterrado numa ilha esquecida. Uma vida que vivi, indubitavelmente. Uma obra juvenil para crianças de coração. E de novo tive cinco anos de idade, tive um caminho de coisas a descobrir, um mundo interessado em me ouvir, de novo vi a falta que o meu pé de manga rosa, que tanto me emprestou seus galhos para aventuras aéreas, fez depois que o cortaram, e de novo veio a importância dos pequenos gestos, das coisas mais ínfimas, dos sorrisos, a percepção de que eu sou um privilegiado e por isso não me devo penas por mim, me veio a força das pequenas crenças, o som de meus passarinhos internos, a cantoria bonita deles me dizendo "Vá, não desista agora!", e de novo a certeza de que fui quem mais sou, aquela criaturinha investida em descobrir o segredo dos cofres enferrujados nos galpões empoeirados da vida...

o descanto

Imagem por Catrinel-Cotae.

A morte comove os pássaros,
apaga o canto do quintal aceso
na tarde vermelha que cai.
A morte é o desacordo
entre o que vive
e o que teima.
A morte desacorda
a manhã ainda impraticada
dos meus soluços e pigarros.
Ainda persisto e ofego
em meus caminhos,
como quem busca a armadura
do silêncio azul, intransponível.
Ágil é a lida que passa,
este automóvel de ouro
que nos carrega corpos,
que nos carrega almas.

Morrer é também estar presente
na justiça dos catafalcos.
A morte é a importância
da vida,
a doação de um espaço criança,
que quereria brincar sorrisos,
derrubar os mais altos castelos
de pedra e inverdade.

Morro uma, duas,
até três vezes por dia...
Até a hora que já não suporto
mais o peso das desgraças,
e caio, em toneladas,
em campos de sono raso.

Toda palavra, todo poema,
tudo que de mim sai
em giros de carrossel,
acaba sendo porções de morte
que minha misantropia me faz
esconder em glórias egoístas.
E imaginar que a glória que sinto
não é de mais ninguém,
senão do arcanoso egotismo.
Ó morte minha diária,
dor do meu peito sempre aberto
a abarcar o mundo inteiro
e toda esta gente,
vêm e leva-me de vez
em teu carro de cortinas negras,
que eu não suporto mais
este meu estar vivo e morto
e sempre...
Que agonia!

Alvíssaras ( O Sonhador - Parte XVI )

quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Imagem por Muted-Cat.

Eu trago boas novas, amigo leitor! Hoje foi um dia muito especial para mim, mas muito especial mesmo. A essência das coisas é mesmo invisível aos olhos. Foi nesta tarde de sol, de ventos lenientes. Há muito tenho dito que acredito em "Mundos", mas até a prezada página, ainda não revelei nenhuma faceta destes "lugares". Creio que chegou a hora. Desci escada, bons degraus. E era como seguir a estrada dos Deuses, os da Sabedoria, da Honestidade, da Verdade... Eu tinha certeza (e ainda tenho) da existência de "Mundos" onde olhamos o outro como um ser igual, com as mesmas possibilidades e defeitos, sem diferenças. O mais interessante de tudo é que todo este "Mundo" estava representado pela figura de uma mulher. Como ela, sei que há várias! Serás tu? Subimos escadas, bons degraus. Bons degraus... A idade nas suas costas não fazia com que ela desistisse ou hesitasse diante da subida, bastante íngreme. Seria o Arco-Íris que estaria no cume? Algum tesouro? O que fazia o caminhar daquela senhora? Curiosidade? Poções de mistérios... Eu trago boas novas, meus saudosos! São "pássaros coloridos", que revelam liberdade. É o novo ano que nasceu, feito criança indefesa, sem influências das mais ferozes máquinas abstratas da sociedade. É a esperança que renasce na poesia do aprendizado, do acerto após algum tropeço. É a consciência de que devemos ler, criar, refletir, sorrir, brincar e amar, mas amar verdadeiramente, com entrega total, inteira, sem repartes. Eu trago boas novas, meus amigos! É que hoje vi uma criança desprovida de quase todos os paramentos das "boas classes" sociais com um conjunto de lápis de cor e uma folha de papel em branco nas mãos. Ela desenhava, com a sua imaginação operante e criativa, um desses "Mundos" de que tanto tenho falado. É a prova mais cabal da veracidade de minhas palavras. Eu peço que acreditem no que eu digo, ao menos uma vez. Façam as experiências que venho recomendando, depois me mostrem os resultados. Eu tenho certeza que serão positivos. Não vacilem! Por favor, não vacilem! O remédio está aí, na sua frente. O desenho dos "Mundos", todos são capazes de fazer. Cada um com uma tonalidade, um traço diferente e original. Cada mão com o seu pincel, o seu lápis, a sua caneta, a sua expressão. Porém, antes disso, procurem as cordas e os lugares mais exclusos, ermos. Adentre pelo matagais mais densos. Fujam dos vergéis, não cultivem os vergéis. Os jardins são metáforas da morte, sempre irônicos e sarcásticos. Como diria Goethe, "as flores da vida não passam de ilusões". Vá! Siga! Ande! Não olhe para trás! Só o passado sólido é válido. O restante é volátil, desmancha-se no ar feito bolha de sabão, e se perde. Estás perdido? Continuas perdido? Ache-se! Ache-se! Ache-se!
(01/12/2005)

sonho

Imagem por coopnkai.

Das coisas, que a vulgaridade
se interrompa em arabescos.
A imprecisão branca das paredes
do discurso toca
o vago, a nada-matéria.
O silêncio me existe.
Eu só escuto as janelas,
entreabertas e nuas,
a pintar os pássaros
que pousam ainda verdes
nos umbrais da aurora.
E para viver, de nada mais
necessito.