uma história de amor

domingo, 31 de agosto de 2008
Imagem: "Ruya Cerceve", por Clyme.

Sou um escritor. Ou melhor: escrevo. Ou melhor: sou um escritor e tenho uma boa e velha máquina de escrever. Salvo os escritores de antes da invenção, para mim todo e qualquer escritor deveria ter uma máquina de escrever. Escritor que não tem uma máquina de escrever não é escritor. Desculpe-me se estou sendo radical, mas é que estamos em agosto e agosto é mesmo um mês de muita agonia. Sem querer pavonear a minha crônica já iniciada, preciso lhe dizer que é muito difícil precisar a data de nascimento desse invento. Mas fiquemos com o nome do inglês Henry Mills em nossa memória. Foi ele que, no ano de 1713, conquistou a primeira patente para algo do tipo. Pellegrino Turri, italiano da mais alta sociedade, também corre por fora nesse dérbi. Em 1808 ele inventou um artefato que só temos notícia, hoje, devido às cartas que ele escreveu para uma amiga cega com quem se comunicava, destinatária do objeto - e pensar que em 1808 ainda estávamos pensando em "independência". Todavia, para não dizer que não falei das flores, um tal de Francisco Azevedo, brasileiro, criou um protótipo que causou um verdadeiro rebuliço na Feira Internacional de Recife, em 1861. Depois disso, surgiram nomes e mais nomes, marcas e modelos distintos, a brincadeira transformou-se em negócio, em linha de produção, e o final da história todo mundo já sabe. Mas não estou aqui para contar a história da máquina de escrever, e sim para contar a história de amor e paixão que tive na adolescência, lá por volta dos meus menos de quinze anos de idade. Lembro que, em minha infância, quando eu entrava numa casa e via uma máquina de escrever descansando sobre uma escrivaninha ou qualquer outro sustentáculo, ficava imaginando "O dono desta casa é um escritor! Olha que máquina bonita!" Era babação mesmo, perplexidade. Ali, ao lado dela, eu acaba idealizando um mundo feito de palavras, um universo de letrinhas que surgiam na folha em branco quando alguém ousasse tocar aquele "instrumento musical". Para mim, os sons que uma máquina de escrever emitem são os mais apaixonantes que existem. Cada um com um timbre diferente, com uma afinação particular. Cada tipo é um acorde único e cada tecla batida é um esforço sentimental do ser humano, revelam um manifesto de desejo e de esperança. Realmente único o tempo de se ouvir. No dia do meu aniversário de treze anos, ganhei minha primeira máquina. Não foi bem um ganhar, mas assim considero. Meu padrinho Tibiro, que já tinha me dado uma bicicleta e um carrinho de controle-remoto, presenteou-me com uma nota de cem reais. Sim, 100 reais! Na época, e ainda mais para um menino de treze anos, era realmente uma fortuna. Disse ele que assim seria melhor, pois que eu poderia vir a comprar o que eu quisesse. Eu tinha apenas treze anos de idade e cem reais no bolso. Bem... vou lhe contar uma coisa, mas não pense coisas acerca de mim. É que naqueles idos a última moda, pelo menos na minha cabeça, era a de matar lagartixas e passarinhos com espingarda de chumbinho, ou de pressão, como preferir. Foi mesmo uma revolução. Eu que tanto atirei pedra com beca feita com galho bifurcado dos pés de planta do quintal lá de casa... pois bem, dito e feito. Eu já sabia o que comprar com o dinheiro que tinha ganhado do meu padrinho: uma reluzente espingarda de chumbinho CBS. Para isso, guardei a quantia até o final do ano. Era quando íamos para o agreste pernambucano, passear e rever a parentada do meu pai. Sabe como é, férias em novas terras... sempre uma novidade. E assim aconteceu. Chegado o grande dia da minha vida! O dia em que compraria uma legítima espingarda de chumbinho CBS. O valor era esse mesmo, não ia sobrar troco. E eu nem faria questão. Meu pai levou-me numa grande loja de departamentos. Certamente, lá eu iria encontrar o objeto que tanto queria. Entrei veloz. Saí pedindo informações "Por favor, onde fica o setor de armas?" Aquilo soava demasiado esquisito para uma criança de recém-completados treze anos de idade. Segui as dicas. No segundo piso, à direita do corredor principal, vislumbrei o balcão de armas. Acelerei os passos sem imaginar que, para se chegar ao balcão onde estaria a minha tão adorada espingarda de chumbinho CBS, teria eu de atravessar antes um corredor repleto de máquinas de escrever. Isso mesmo, prateleiras e gôndolas recheadas de máquinas de escrever, de diversos modelos e preços. Eram de tamanhos e cores e marcas variadas. Quase tive um troço, como se diz por aí. Foi paixão à primeira vista. Eu: uma criança de treze anos de idade e cem reais no bolso que na noite anterior havia sonhado com uma fantástica espingarda de chumbinho CBS. Ela: uma Olivetti Lettera 25 portátil, de fabricação mexicana. Não hesitei. Era amor. Olivetti foi o nome da minha primeira paixão. Naquele mesmo dia firmamos um compromisso para a vida inteira. Não, não restava dúvidas, o que eu sentia por ela era mesmo o amor. Não haveriam palavras que pudessem descrever o quanto eu a amava e o quanto eu ainda a amo. Viajamos juntos para diversos lugares. Juntos, sempre, eu e ela. Uma companheira inseparável - sem falar que ela jamais me decepcionou. E quando fico longe de Olivetti a saudade torna-se insuportável. A bem da verdade é que nunca aprendi a arte de matar. E se algum dia conjuguei desse verbo, fi-lo sem pensar. Eu não seria um bom atirador nem daria para ganhar a vida como atirador de aluguel, comendo calangos, passarinhos ou codornas fritas ao fogo da noite escondida. Ai de mim, Olivetti! Drummond, deixe as formigas em paz!
(04/11/2005)

auto-celebração

Imagem: "Requiem II", por Deepindreams.

Inclusive,
porque quando moços
e andantes – eu, solitário -,
padecemos
por sermos tão velozes,
e por esquecermos de complicar o sujeito
do poema.

Penso que Germano morreu.
E agora madressilvas exalam um réquiem
em seu sepulcro de boda.

me vi na pele de Cabeludinho

sábado, 30 de agosto de 2008
Imagem: "Torneira Azul", por Fernando LP.

A Manoel de Barros

Cabeludinho não joga mais
no Porto de Dona Emília.
Cabeludinho disaprendeu?
Isqueceu de aprender, o Cabeludinho?

Saiu de casa cedo.
Quando menino, quase que
nem de casa saía.
Pobrezinho do Cabeludinho!
Os postes tão altos, acesos
lá fora,
na rua brilhando,
e ele
brincando de se esconder,
de si mesmo.
Para ele, nada como brincar de esconde-esconde.

A diferença é que na rua
os meninos procuravam outros meninos.
Já Cabeludinho não.
Cabeludinho gostava era de procurar
explicações para os sentimentos das torneiras abertas.

poema de massa

Imagem: "Guilhotina II", por Alexandro MF.

Pontos em revista,
o crescente e próprio
e talvez formal
artigo

civil.

Diante do recorte,
mudo e processual.
me programo
governo de ninguém.

E abaixo às emergências!

o equador das coisas

terça-feira, 19 de agosto de 2008
Imagem: "Pair of Swans", por Glori305.

Fui buscar um punhado de pirilampos
no jardim da minha casa,
deixei países de mim.

Fui ao quintal catar terremotos,
daqueles bem grandes,
e acabei conversando estrelas na areia dos vendavais.

das estréias

Imagem: "A date with a dream", por Gilad.

Tenho experiências em abismos.
Ziraldo, eu também inaugurei sentimentos!
É da tua forma, em vôos, que me batizo.
É da tua forma, em vôos, que sonho sonhos.
É da tua forma que é minha forma,
da minha forma sem forma.

Eu comia uma manga verde quando senti rudeza.
Eu furtava rosas quando notei tristeza.
Eu tomava mel de colherzinha no pires marrom
de mainha, e percebia aspereza.
Deitado, no chão encerado e vermelho,
manchava-me de solidez nos verbos irregulares da gramática.
Como era fria a gramática que sempre amei!

Assim foi com o medo,
experimentado em árvores.
Desse jeito foi com a paixão, vitimada em saltos, muros e aventuras.

Era no trajeto da bola no céu viajando
que eu aprendia os espaldares da minha alma.

Assim foi com tudo.
Assim foi com todos.

E eu, também, que mesmo no buraco das coisas
ainda arrumava tempo para construir aeroplanos!

O Silêncio das Agulhas ( Parte X )

segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Imagem: "Las ruedas los pelos el sexo", por Ramses Giovanni.





Até breve uma merda. Li a carta e tremo de tesão e vontade de engolir você, seus livros, suas teses - com sangue, em sentimento, em corrupção. Sou corrompida. Sou voraz e devoro. Devoro alma e a sua tem sido o meu alimento de privilégios. Privilégio é estar dentro de uma mulher e saber tocar e andar por entre telhados. Foda-se Melville e todo o resto. Foda-se o Fernando Pessoa - já devorado pelos vermes de tudo que não viveu. Quero você e sou mulher de mundos abertos. Foda-se qualquer padrão e sua leitura pela madrugada. Foda-se também quem estiver em meu caminho. Não ando em grupo. Sou Pandora sim e minha caixa só se abre com palavras. Me alimento de você também, Cádor. Foda-se a criatividade e a subjetividade. Sou escritora e me rasgo em centenas de folhas, em sangue e sêmen. Quero você - quero e terei. Sinto seus olhos, boca e seu membro poético penetrando ávido entre minhas pernas. Que seja a besta ou espada. Sou caminho de pedra, mas como você, vivo da morte e quero morrer junto com você. Morrer sem medidas. Morrer sem fome e faminta. Não tremo, não ando cabisbaixa e se você estiver ardendo por me ter, terá. Não me libero a deuses sem que haja ornamentação. Sou sua missiva sem medir palavra e sou mulher de tempos. Não me escondo. Caso me queira, queira. Ou vire páginas e deixe que Dionísio tome conta de mim.

Também escrevo com raiva.
Também sei arder por sexo e amor.

Virgínia de Cádor.

E goze por mim em suas leituras e ao ler meus textos.
Exponho meu sexo em cada um deles.
Com amor de quem escreve...


**********


Virgínia, os dicionários perderam o valor depois de você. São medonhos objetos apenas objetos. Não mais os consulto, porque sei que o significado sou eu, é você. A significação idêntica ao que não é de ordem mimética. Não sei emular sentimentos. Sou aquilo que você já sabe, que você permitiu que eu fosse. Agora é hora do fardo maior, da carga mais dolorida. Nossas envergaduras podem arder, mas precisamos do sim. A hora de nos provarmos sem prova, como em verso, como em prosa, como em faustosos favos. Bocas e outras coisas mais em lama de nós, nossas fatuidades, nossas fases que sempre passam e não passa nada, porque somos feitos da perfeição do verbo ser e tudo em nós fica, permance. E somos. Não somos despojos, mas antes a própria primeira estação. Descemos os degraus correndo contra o mundo castigado e sem, e nos elevamos, sem pedir licença. Quero você como amo. Amo-te, meu diamante. Meu tesouro escondido por tempos, tempos antigos. Nácar namorada morada de mim, amorada prece orada, flor de meu jardim: jardim das delícias, repito. Meu retrato pregado, quadro grande em mim.
(...)
Sigo teu conselho.
Iorubano nagô sou, e minha religião é você.
De sincretismos...
Cádor
Virgínia Borges é Letícia Palmeira.
Anderson Cádor é Germano Xavier.

as tardes

Imagem: "Tarde", por Cometa 24.

“Serena, a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.”
(Jorge Luís Borges)



Caminhar os ecos da alma
sob o adormecimento do sol,
cujos olhos fitam cada penumbra
escondida nos corações
humanos, que indesejando
são pássaros dizendo adeus
sem medo nem dor;
é fotografar sentidos
da mais bela jornada
secreta, onde o sombreado
que cai com a lua
é a fortaleza extra
para o rumar honesto e cônscio.

As tardes derramam a falência
do imaginável.
Julho de 2006.

bonde velho

Imagem: "12: Sao Tome", por Paper-and-Pencil.

Para Karlos Lory

Camarada, este bonde velho
ainda nos levará além. Esta
nossa nudez gritada de ausências
transforma-se-á no estrondoso som
de nossos sonhos.

Além... muito além, mudaremos.
Fugiremos deste eremitério em que estamos,
posto que o sol fica
em retidão
unânime
e não brilha o cristal de nossos punhos.
E como inesquecível será o gosto
do líquido bebido em renovada atmosfera!
Mas que lembrarei de ti em surpresas
e adivinhações, de nossas noites estudantis
e de reclames...
Isto muito mais que tudo.

Ah, camarada, como esquecer de nossos prêmios!
Como acobertar os triunfos conquistados em união,
mesmo que não valha o infinito esforço a gentil
insensatez das horas!

Eu sei que o Tempo deambula o meu quesito mais essencial e verdadeiro:
o de sincerizar-se,
mesmo no usufruto da indiferença inevitável
a que me atenho em obediência servil
em sentidos momentos,
e sinto vazar de você os significados
de toda a língua nascida em choques.

Fomos nós que criamos o mundo, aquele,
revertido e secreto, virtual
e concreto,
no qual procuramos destacar
a importância das leituras humanas.

Fomos nós, pobres apaixonados
pela mesma musa, a palavra, que
universalizamos o verbo esquinar
e derramamos a púrpura tintura
sobre a seca moldura podre dos envenenados.

Ah, camarada, meu camarada, como não brindar
toda a prosa e toda a poesia
e todo o rumar incerto e certo
na certeza de em amizade acertar-se!
E acertamos o alvo da eterna presença.

Caminhemos sem aturdimentos nem pressões.
Nossas letras ainda andam bêbadas,
mas não por isso deixaremos de bebê-las.
Jamais, é certo.

E o mundo escreveremos em sanha
nossos vôos, e nele
aprenderemos mares e casas.

E perderemos o Tempo, e perderemos
nossas pastas, e perderemos
nossos dicionários...
Escreveremos outros!

E perderemos o mesmo bonde velho,
na mesma ladeira velha,
da mesma rua velha,
com os mesmos
sentimentos velhos,
e deitaremos,
definidos pelos arcos,
em nosso mesmo constelar velho e atemporal...

2006

potins

domingo, 17 de agosto de 2008
Imagem: "Hwh 08", por Diana Cretu.

I

ferido de mortal beleza,
um torno me aper
ta e lambe e su
ga,
na monocórdia dor
de na
da ser

II

despejado na sola
do sa
pato holandês,
do anti
go avô,
o rapazola libava
a candura das esquinas
cor de ele
tri
cidade


III

limítrofe
passo
engolido

... o homem em pernas
limítrofes...

grítrofes,
atrofilamento
rouco
de liberdade

28 de outubro de 2006.

realidades essenciais

Imagem: "Ahau", por Menahau.

“As coisas falam. Eis o indizível.”
(Afonso Felix de Sousa)


Move o teu moinho, sonhador
e errante e vazio, das frouxas potências
sempre repintadas, e afoga-te
no teu soluço e – ai! – nas lufadas,
anteriores ao teu próprio espectro,
do teu deambular sozinho.
O humano é quando cristal o pranto,
caído em ondas. Colhe, do teu olivedo
mais sofrido, o instante íntimo
de sazonar-te. E singra-te,
sem medo, no mar do teu silêncio,
que a poesia da vida é dura,
meu caro, pétrea.
Roda tuas pás, teus ferros de tanta dureza,
mesmo ao vento, quase sempre tácito
e azul, na direção de tua criança,
guardada, em espantos. Roda tuas pás
homem-pastor, e desgoverna-te, forte
em tua chama, para fora de tuas aves
de ilusão, que o amor te tem,
e ele, carne do teu mundo, vela,
envolto em águas dominantes,
a paz do teu sono meninil.
Volta à tua porta ancestral – ao teu vestíbulo -;
deposita a chave de tua tarde, alcançada em ausências,
no colo do teu branquejo galopante, e escancara,
febril e dourado, a tua nave corrompida.
E deixa – ai, deixa! – que o beijo do teu entusiasmo,
suspenso em nuvens, construa em ti
o indelével e puro obelisco de amar,
mesmo sabido como de rica florada:

eis, assim posto, do ocupado da poesia, teu maior poema.
16 de dezembro de 2006.

Lucien

Imagem: "Mea culpa", por Mute-No Face.

“Também a moral é uma questão de tempo, dizia um sorriso maligno, você vai ver.”
(Gabriel Garcia Márquez, in Memória de minhas Putas Tristes)


Ela apareceu assim, quando eu menos esperava. Apareceu sorrindo e tinha um sorriso bonito. Bonito como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu tinha. Como o coração que eu sempre imaginei que era o meu coração. Tudo tão rápido, tudo tão veloz. A linha de partida e a linha de chegada. Tudo tão rápido, tudo tão veloz e tudo tão bonito. A linha do tempo se delineando. Ela morava no centro. Eu também morava no centro, mas no centro mais afastado do centro. Uns vinte minutos caminhando. Lá na praça da igreja foi o local do nosso primeiro encontro. Na noite e no vazio das pessoas noturnas, nosso primeiro encontro depois de alguns encontros muito mais que desencontrados. Lucien era encorpada, seios fartos, boca carnuda e usava óculos. Um vestido cinza ela vestia, com bolsos grandes na altura dos mamilos. Eu tinha dito que a beijaria ao primeiro sinal de engraçamento. Não perderia tempo e não desperdiçaria nenhum segundo ao lado dela naquela noite de conhecimento. Questão de honra para mim. Saí de casa pontualmente, tecendo esperanças. Sem esnobar virtudes, dedilhei uma canção antiga de uma banda antiga arranhando as unhas no cós da minha calça jeans já um pouco sofrida pelo uso. Era uma canção bonita. Bonita como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu possuía. Bonita como o coração bonito que eu sempre imaginei que era meu coração, e só meu. Meus passos leves por fora e pesados por dentro. Minha alma em apuros. Minha alma evasiva, parecendo inaugurar um complexo de dúvidas em mim. As pessoas noturnas e as pessoas quase-noturnas encurralando minha carapaça andante, meu esqueleto robusto indo, minha arquitetura forte fugindo da desgraça do convívio unilateral e partindo para a felicidade ou para o axadrezado recanto dos moribundos desalmados. Eu tinha de escolher e já tinha feito minha escolha. Ela estava a me esperar, eu sabia disso. Pensava e vinha logo um tufo de alívio no meu tórax, entrado pelos pulmões, ar mais ameno. Ela, sim, ela estava a me esperar no vazio do banco da praça vazia da igreja fechada e vazia e dos homens noturnos e quase-noturnos nem tão vazios assim de miséria e breu. Eu estava cada vez mais perto dela, da mulher que eu queria naquela noite, para ser e fazer dela a minha noite. Eu sabia que se eu pensasse nela e na proximidade cada vez maior entre o meu corpo e o dela, certamente chegaria mais rápido, com mais vontade, bramando um arco de voz cortante e animalesco. Eu sabia que ela me esperava, porque ela queria toda a boniteza do meu coração, toda a sua castidade, toda a sua paciência, toda a sua timidez. Tive a impressão, num ligeiro estalar de tempo, que nossas veias pulsavam num mesmo diapasão, latejando a voz maior do corpo. Uma espécie de sintonia preambular, metade anacrônica metade feita do agora. Eu perto, eu longe. Perto do coração inconsolável de Lucien, longe de minha demolidora verdade. Longe de qualquer coisa que pudesse me deixar ainda mais distante. Mais dois ou três quarteirões vencidos. Meus pés calçados, roçando o pó endurecido e caído de todo um dia. Continuei e foi quando apontei na grande praça central. Minha mente esgotada de tanta confabulação. Minha enciumada armadura já partícipe de um qualquer desastre, especulando e calculando probabilidades. Eu já ali, eu mesmo, esperando qualquer coisa. Esperando até a Lucien, em seu vestido cinza, com dois bolsos na altura dos mamilos, com a fartura doce de seus seios melíferos, desvencilhados de qualquer medo maior senão do medo de cair nas garras do amor. Amor que não escolhe praças, que não escolhe horas nem vezes, que simplesmente fere e marca com a brasa incandescente a epiderme das repúblicas humanas. Ah, Lucien, se você soubesse o quanto te quis durante o curto passeio que agora dou! Se você soubesse o quanto pronunciei teu nome ao vento durante o intervalo do não-ter e do ter você em totalidade! Se você soubesse, Lucien, o quanto a aflição me dominou, o quanto amuadas por receio tilintaram minhas vozes internas e o meu coração... Meu coração bonito. Aquele mesmo coração que sempre imaginei que era o meu coração, e que só eu o possuía. Porque meu coração era tão bonito que ninguém mais poderia ter um igual, ou qualquer outro que se assemelhasse ao meu coração, tão bonito, tão bonito, incapaz de qualquer maldade. E como foi complicado a presença, tua presença tão grande diante de mim, me abarrotando de luas, me emplumando de uma carga de sombra e silêncio. Mas como foi maravilhoso o nosso mistério, a nossa palidez diante de tudo, o nosso momento tão nosso, ali, dois e um, unindo zodíacos inversos ao contratempo dos vendavais. Nossas mãos se entrelaçando como quem quer a completa destruição dos embuços e das paredes. Nossos olhos se olhando na fundura da poesia anarquista de nossas embalagens de vidro e espelho. Nossas bocas, como foi tudo tão especial, tudo tão principal, tão puro, nossas bocas dando voltas e mais voltas por sobre o eixo das línguas. Como esquecer dos nossos sexos se cheirando, em pêlos ouriçados, castigados pela curta maldição das abotoaduras. E tudo logo se abrindo, seus regaços sendo preenchidos com a vulcânica seiva produzida pelo meu coração bonito, meu coração tão bonito que não cabia mais em mim e que explodia em você, bem dentro de você, só em você, escorrendo o líquido pastoso e branco, signo da brancura da nossa hora. Quantos foram os laivos que antecederam e sucederam os trejeitos do gozo, Lucien! Quantas foram as expiações que realizamos juntos, na coberta daquelas estrelas que nos flechavam através da janela aberta. Quantas foram as minhas invasões e minhas cruzadas em suas terras mais protegidas, e como foi tão forte e como foi tão bom. Ah, Lucien, o quanto nos castigamos e o quanto eu desconhecia o maligno do meu coração! Aquele mesmo coração bonito que sempre imaginei que eu tinha. Aquele mesmo bonito coração que pensei mil vezes ou mais ser tão bonito e puro e incapaz de qualquer maldade. Você me amou, Lucien, e eu não fui capaz de tanto. Você me amou com a força de esperar a campainha acender o uivo meu, ainda da calçada, esperando a voz de retorno. Meu coração bonito agora me provando o contrário de todas as minhas elucubrações. Meu coração nem tão bonito assim, assassinando os nossos meses juntos, decapitando as minhas idas à sua casa, degolando as nossas horas loucamente amadas e todas as memórias edificadas sobre o mesmo travesseiro. Meu coração, Lucien, que você pensou ser só seu, inteiramente seu, absolutamente seu, como quem possuísse um outro ser, meu coração arrancando para fora a língua da víbora do amor e te emprestando o veneno eterno da ilusão. Ah, Lucien, não foi minha culpa! Não foi do meu querer tanta desgraça e tanta mágoa! Foi esta coisa que guardo aqui, veja!, esta coisa que mora em meu peito, sinta!, por favor!, chegue mais perto!, esta coisa vermelha, feita de sangue que vive dentro de mim, esta coisa que tem vida própria, Lucien, que não sei dominar, animal silvestre, sem dono, arredio, cavalo trotando no planalto baldio, besta do inferno, Lucien, esta coisa!, toda a culpa é dela, toda a culpa, toda!, Lucien, toda...

ensaios ( Texto II )

sábado, 16 de agosto de 2008
Imagem: "Pintura Callejera", por Drusma.


Revertério. O consumo em prosa, em papelote. Em papel fotográfico de eus e tus ré/Torcidos e engomados em papelotes prosaicos. Um tus de eus torcidos e ré, ré/Concebidos à margem da própria imagem em cristal e papel, em papelote. As ré/Formulações auráticas do que se quer como fim, final interrogado se real, ré/Impressão fidedigna e firme e forte e fiel e fantástica e focalizada como ré/Gula mente ação, regulamentação. Até onde o pop, o full, o under, o cosmic ré/Direção dos modos das vidas dos outros em nós. Os eus-tus, os tus-eus, em ré/Manejo de livro velho aberto e lido do cabo ao rabo e o cometa de nós que ré/Planta a brincadeira de ser e não ser sendo e não sendo e só sendo se o é ré/Lógico e dúbio diálogo sublime impacto sestroso e elétrico chocante show ré/Invenção da tinta que me pinta em cores descolores, a mixórdia bombástica ré/Pensamento: meu orgânico-metálico-organismo-mecânico. O ciborgue imótuo ré/Significação robótica em flashs. A arte enquanto o nó gordo e górdio fera ré/Doma o monstro homem na jaula da objetiva, redoma. Campânula tecno e bio ré/Implante em máscaras e rouge e batom coletivo, a labial face dos exemplos ré/Integrados ao desejo profano por liberdade: eis o néctar e a ambrósia dos ré/Eleitos.

Liberdade: eis o néctar e a ambrosia dos ré
Eleitos.
Texto que fez parte de uma exposição fotográfica produzida pelo professor José Renner Benevides de Alencar e por alunos do curso de Comunicação Social/Habilitação em Jornalismo Multimeios da Universidade do Estado da Bahia/ UNEB, em 07 de dezembro de 2006.

ensaios ( Texto I )

Imagem: "Time lapse" por Dipped Feather.

Escolástico porque bombástico
A minha tua sua
Nossa vossa arte
É inter
É entre
É junto
É coletiva
Não seletiva

Mas de escol cabeça dura-mole de plebeu
DE PLEBEU RICO

A esfera maciça do teu retângulo oco e morto
VIVO
Meu organismo fotografado
Em personagens

Eu sou Tu és o sou
?

Bem dentro e fora
Sulcos púlpitos pudicos
E o pudor
Por liberdade

E o poder
Da LiBeRdAdE
?
A bala na jugular
Do mundo
Bem fundo espelhos em RETALHOS
Costuro furo marco sugo li
BO
De liberdade LIVRO DE MIM EUS
LIVRO DE NÓS TUS desejo

De ver verde vivo
De suar esgotado
Em eus e tus
Fotos
Fo-TUS
Fo-EUS

A prima
A obra
A prima dona obra
O flash
O show
A IMAGEM
À MARGEM

A ARTE ENQUANTO O NÓ

O LÚDICO
O fim o fim o fim o fim o fim o fim o fim o f
Im
?
?
?

Tecno-bio-lógico
?
Escuta diálogo sublime impacto reproduzível

A RÉPLICA de mim
Em intensidades
Em capacidades
Em esclarecimentos
Em técnicas
Em rituais
Em auras
Em autenticidades replicadas
A MINHA REPRODUÇÃO

Ré? Ré-produção?

Só sou o que sou só sou o que sou só sou o que sou só sou o que sou só sou o que?

Texto que fez parte de uma exposição fotográfica produzida pelo professor José Renner Benevides de Alencar e por alunos do curso de Comunicação Social/Habilitação em Jornalismo Multimeios da Universidade do Estado da Bahia/ UNEB, em 07 de dezembro de 2006.

libelular

sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Imagem: "Libélula", por Bchxl.

minha cantiga precipita-se,
(ainda de menino esta competição
de memórias leais)
da janela do meu quarto
vai libelular
- onde não te pus?

e fica apenas o trato
que não te dei, e o sangue
coagulado, de um vazar obstruído.

desafias, veloz, o tempo.
teu instinto baldio
não vê muros nem trincos nem cercos.
vai perfurando meus limites
sobre o pátio da emoção,
até que pulse em mim
apenas a sineta do vago silêncio,
em perfurações
volantes.

a libélula pasta sobre a mesa.
eu, branco e sem domínios,
apascento todo o meu gado.

é quando a memória, esta vadia,
abre as pernas para o estrangeiro.

23 de setembro de 2007.

corpo

Imagem: "Corpo", por Hipno.

meu corpo,
cota medievalesca imprestável,
em tardes de eu-sozinho
e em receitas exageradas
de se combinar braseiros,
apenas acende, no fundo,
a exata forma de uma existência
anulada, esgotada em dor.

o corpo, meu vestido
(multiplicante, pois sou vário)
de andar direito, direto,
reto?
é apenas ele,
o que se sabe dele.

não sou meu corpo,
como também não sou a palavra.
a palavra está.
o corpo está.
não são.
não me são.

tenho certeza, Affonso,
é sal meu corpo,
é sangue minha palavra.
e mesmo morrendo, pouco a pouco,
vivo onde e quando os dois,
o corpo e a palavra,
sem querer me ultrapassam.
14 de setembro de 2007.

Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade

Imagem: "The bad child", por Guerilla-Grafix.

BLIKSTEIN, Izidoro. Kaspar Hauser, ou a fabricação da Realidade. 9.ed. São Paulo: Cultrix, 2003.
Jeffrey Moussaieff Masson, Werner Herzog, Izidoro Blikstein... A constatação é verdadeira. Muitos são os pesquisadores, cientistas e especialistas que foram tocados, de maneiras discrepantes, é claro, pela enigmática história de Kaspar Hauser. É no desígnio de tentar a revelação de seus "espantos", que o ensaio intitulado de "Kaspar Hauser, ou a fabricação da Realidade" foi escrito pelo Doutor e Livre-Docente em Linguística, Izidoro Blikstein. Uma criança vestindo um corpo adolescente, dos 15 aos 18 anos de idade, que não sabe andar, não entende o mínimo do que lhe dizem os outros. Um rapaz estranho, selvagem, quase totalmente desorientado frente ao "mundo já conhecido", que aparece ("aparece", eis o melhor termo a ser aqui utilizado) pela primeira vez numa praça da cidade alemã de Nuremberg, provavelmente em 1828. Um homem. Sim, um homem, que ninguém sabia de onde vinha, para onde iria ou quem era. Uma criatura causadora de um misto de espanto e interesse, que pensava ser as galinhas monstros vorazes - aqui, alguma semelhança com o nosso bravo e engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, criatura de Cervantes que, entre tantas loucuras, desafiava moinhos de vento pensando estar diante de gigantes maldosos? -, mas que também possuia habilidades demasiado notáveis, assim como uma memória excelente e uma boa dose de curiosidade. Um mito? Algo como as irmãs Amala e Kamala, ou como o caso francês Victor de Aveyron. Este é o perfil do protagonista de todo esse levante de pesquisas e estudos científicos. Blikstein, a partir de uma abordagem intercientífica e histórico-social, analisa o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, numa busca incessante em prol de relatar, diante de inúmeras considerações, que a construção perceptiva do ser humano, em todas as esferas de aplicação, depende sobretudo da práxis social, necessária para fomentar o arcabouço referencial-cultural de apreensão de uma suposta realidade, articulando, também, o jogo intencional existente entre a linguagem e o pensamento no caminho do desenvolvimento cognitivo de Kaspar Hauser; e, por conseguinte, como ocorre ou ocorreu o processo de concepção de mundo que o rodeava, posto que Kaspar Hauser esteve privado dos variados estereótipos culturais que condicionam a percepção e o campo epistemológico. Mas, o que é mesmo a "Realidade"? Até que ponto podemos classificar como "Realidade" somente aquilo que percebemos? E a linguagem, onde ela atua e com o ela pode permitir ao ser humano a descoberta da "Realidade"? Difícil encontrar tais respostas... todavia, exemplo melhor para se aprofundar nessa temática do que o de Kaspar Hauser, certamente ainda é mais raro de se encontrar. Apoiado em diversas suposições, Blikstein envereda-se pelo processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá ao "desembarcar" em Nuremberg, assim como nos usos da linguagem e nas tentativas de concepção daquilo que sua natureza até então não concebera: a representação do que está à sua volta. Tentando dar nome aos bois, o autor insiste em pregar que tanto o pensamento quanto a linguagem se originam de maneira independente, transformando-se posteriormente no modelo de linguagem interna que constituirá a maior parcela do complexo de pensamentos mais amadurecidos, "talvez porque a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que o recortamos: os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade". Kaspar Hauser, para o autor, aparece como um "modelo de práxis libertadora", o que faz com que o autor inicie um processo de descoberta e investigação, baseando-se, para tal ato, em seu aparelho perceptivo-cognitivo. Conceitos e considerações de inúmeros filósofos, linguistas e pensadores são aproveitados, servindo de base para a construção das "perguntas" a que o autor se destina a "responder". Vale ressaltar, aqui, nomes como o de Santo Agostinho, Pierce, Saussure, Buyssens e até o do nosso poeta modernista Carlos Drummond de Andrade. Mas é o "Referente" o alvo de maior polêmica para o desenrolar das idéias de Blikstein. O incômodo já se inicia a partir do instante em que o autor cita o "Triângulo de Ogden e Richards", fundadores da idéia de "Referente". A preocupação com a correta comunicação entre símbolo e referência, ou significante e significado, irá propiciar a construção do debate maior sobre as barreiras e obstáculos criados pela influência da linguagem sobre o pensamento. Todos os tipos de signos são impostos a ele, mas o que fica é a pergunta: como Kaspar Hauser estaria apto à compreensão dos significados que têm as palavras - ainda mais por elas possuirem a capacidade de representar coisas -, se ele não atravessou um qualquer processo de aprendizado-sociabilização importante para o desenvolvimento de um método de compreensão sígnico? E é afirmando que "a educação não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade, ou seja, que a educação estimula na criança um processo de abstração", que Blikstein inicia a fabricação de suas teses-hipóteses. E o que dizer de um homem que passa a representar um incômodo? Pois, após algum tempo de convivência com a comunidade da cidade alemã, Kaspar Hauser começa a enxergar a realidade - que aos olhos dos demais estava tão bem ordenada-, com olhos subversivos e de negação, negação dos referenciais que a sociedade lhe insistia em impor, ou olhando para as pessoas, para os objetos e as situações com o espanto de um olhar ainda imaculado, também perturbador. Aqui, a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, ou pelo menos não aparenta ser, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são elementos que intermedeiam o sujeito e o mundo. Diante da análise do texto de Blikstein, ficamos à mercê de um arrebol conceitual. Após a devida apreciação, o leitor adquire uma voz, que diz: toda linguagem criada é, posteriormente, utilizada para a comunicação. O uso da voz por Kaspar Hauser, a possibilidade de diálogo, a construção de uma mensagem baseada em outra mensagem recebida, a transmissão no tempo e no espaço da mensagem recebida e já processada, a sociedade como condição da linguagem e para a linguagem, têm de ser colocados como parâmetros iniciais e primordiais para o entendimento de todo o processo de estudo dado a partir do caso de Kaspar Hauser. Por outro lado, a real finalidade da linguagem, e tudo o que lhe é ramificação, ainda permanece enigmática, e não é diferente com o próprio Kaspar Hauser. Bom para todos, pois é o anseio por esclarecimentos dessa estirpe a via que alimenta a chama de dezenas de ciências e correntes de pensamento. Então, que seja assim... Amém.
2006.

sessões individuais de uma terapia poética

quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Imagem: "Peace love and Bicycles", por Usartdude.

daquilo que está por trás
do que se esconde na superfície
do corpo
daquilo que reclama liberdade
ou do que quase aparece
sem se querer
daquilo que não se torna público
ou experiência compreensível
do que se reestrutura em particularidades
alguns objetos
daquilo que se discutirá
no próximo congresso sobre caroços
de frutas tropicais
permanece
apenas e apesar
os plurais museus de amanhã

04 de junho de 2007.

poesia

Imagem: "No place like home", por Dalai Harma.

Indicado para uso infantil.
Atóxico e NO INFAMABLE, caso engolido.
Agite-se antes e, principalmente, depois de usar.
Em caso de intoxicação, mandar os médicos para a p...
Não lavável.

13 de novembro de 2006.

minhas musas

Imagem: "Musas", por Renato Miguel.

Acaso lhe pareça breve,
não se assuste,
é que namoro a invenção, a fantasia
e a mentira.

Aquilo
que se chama realidade
passa,
somente,
na extensão máxima
dos limites estaduais;
passa sobre a pretendida linha nacional
e permanece,
serena em se perecer...
Aquilo que se chama realidade
ocupa o Centro-Sul
de Micronésia:
um lugar fundamental,
diria,
para o infundamentável.
Se, porventura,
não
enxergares
a limonada no copo americano,
pelo menos que sinta o acre gosto de cruzar
os Trópicos.
Um bom poema só começa a ser sentido
a partir dos 23º27' de coordenadas
Norte ou Sul,
bem pra lá do equador das coisas...
28 de maio de 2006.

os sentidos de adão e eva

quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Imagem: "Cinco sentidos", por Sulya.

o horizonte distante e a pressa em chegar, sentar, acender verdades sob a árvore, fez de Eva a resposta aos mundos dos sentidos. Adão se sujeitava a colher frutos dos produtos que não se juntam, oferecendo-se poema inteiro. mulher de café e antistamínico, borbulhava em roupas que mal cabiam a alma, sequer o coração acelerava sob o seio que emoldurava o corpo. o homem, formalizado, recordando-se a propósito, estimaria a falta de certeza. sem anteparos nem escolhos, continuava em admirações. presa de si e sustentada por anos e erros do passado, falava sozinha porque jamais entenderiam sua eficácia em transformar parábola em vocábulo simples. com as bochechas rosadas, o primogênito do pai aprendia que pecar era gostoso e que o melhor fruto é o fruto que não desnatura. o homem amava o pai, amava o próprio homem e amava a mulher do homem. se era tarde, era tarde e se fosse cedo, hora de dormir e comer mais sonhos sem as teses entrecortadas de Freud. nenhum psicanalista saberia da anatomia do amor nem da alma como a única criatura dos dois, que nasceu assim para ser assim. o que teria de tão espetacular e analístico em sonhar com escadas migratórias e pães açucarados? sonhos são castiçais, candelabros individuais. por que complicar se tudo já era disperso ( uma bola de neve no cerrado)? talvez por ser a vida uma caixinha de surpresa, ou um clube de carteado, com formigas e cigarros e bocas. ela pensava que o mundo se escondia embaixo de sua cama e sempre o mesmo inseto criaria casa, casca e certeza em seu abajour. a mulher arrepende-se, por ter ficado embaixo da cama durante toda a guerra e por perder o melhor da festa. o homem não sabia o quanto tudo aquilo soava verdadeiro. Eva tinha quarto, cama e abajour. um amor por segundo e o movimento dos sentidos era eterno. sua emancipação era carregar as chaves de casa. melhor é a língua tanta da língua, nossa tanta torre de babel. era sua a casa em que morava e também o inseto e a luminária azul - coisa de quem vive de antigos convites não aceitos. marca de batom, clara marca de si no pescoço do amor do minuto seguinte. ela não eternizava a vida. eternizava o beijo de sonho e Freud não saberia amar os seios de Eva como ela amava seus pensamentos noturnos. Adão, no final, que era só um iniciar, criou a teoria do amor. e a teoria resumia-se a um só item: amar com amor. tinha amor por si e - navegava em si - a nova egoísta dos segundos que vivia. o segundo era o amor. e o primeiro também.
A Virgínia escreveu. Eu buli...

bicho do mato

Imagem: "Impressão Digital", por Catarina Cardoso.

A Luís Osete.

Ele está - porque me perguntam, respondo, os lógicos -,
ali, tão perto e tão distante, tão-somente
só em se deixar estar perdido, inerme,
disfarçadamente esconde tua cidadela,
teu forte, nos arroubos do branco.
Tua tez, tua estrela - o teu fado?, fardo? -
de universar, de mundar, de amadurar
em sempre. Aonde tu vais, passarinho?
- perdido, ai, na perdição mais deliciosa,
a arte, de viver, de sonhar, de estar
sendo, onde tu te encerras? -, bicho
do mato que nem eu - esse menino
é muito homem. Viajado, procura a viagem
que nunca faremos, mas que ela existe,
tua procura. Investiga, deslinda, os
sons, os barulhos, as pegadas do tempo
que jamais ouviremos, mas que elas o habitam,
um caçador. E quando batem à porta,
digo que está, e que não te atenderás
porque navega o inextenso espaço. Vais,
não acompanho, deixo-te seguir, não singro
teu mar, respeito-te, amigo, irmão, nosso oceano
de ganhos desponta - tua psicologia em silêncio
e ausência - mais que presente em se estar
junto, teu jeito, meu jeito, o jeito
desajeitado de ajeitar o mundo, tantos.
A liberdade na chave que carregas, de ouro
o olhar, o gesto, o apreço, a manipulação
das horas. E quando te chamam, persisto,
e digo - atenderás, os lógicos? -, não a ti,
mas aos que vêm, curiosos, teu desgoverno.
Não te acordo, deixo-te o sono, eterno,
deixo-te a paz, dos desvarios, das certezas loucas.
A tua verdade, anda, não te prives, vais,
qual bicho do mato, sem vis governos.

17 de dezembro de 2006.

Brasis: em Sérgio Buarque e Gilberto Freyre

Imagem: "Meu povo", por Napolean-hell.



A relação existente entre o excerto do livro Raízes do Brasil, intitulado de "Novos Tempos", cujo autor é Sérgio Buarque de Holanda, e o documentário "Casa-Grande e Senzala", sobre a obra de Gilberto Freyre, faz-se essencialmente visível na tentativa de ambos em explicar o processo de formação do povo brasileiro através de diversas teorias, explanações, conceitos e interpretações. A obra de Gilberto Freyre discorre tendo em vista o mito das três raças - Branco, Índio e o Negro -, partindo do pressuposto de que a junção dessas três raças constituiu o alicerce fundamental para a "construção de uma identidade brasileira, realçando as parcelas de contribuição condizentes a cada uma, através de seus costumes, crenças, línguas, entre outros aspectos". No texto de Sérgio Buarque é notável o enfoque dado aos conflitos e perturbações dos povos que aqui viviam no período colonial. Há também uma preocupação na questão da chegada dos imigrantes (portugueses, em sua maioria), que ocasionou mudanças no modo de agir e pensar dos nativos, retratando também as transformações ambientais. Segundo o autor, os velhos padrões da colônia se viram ameaçados com a migração forçada da família real, no ano de 1808; tal fato fez com que o país deixasse o anonimato para começar a ser pensado como uma ordem nacional propriamente dita. Toda essa modificação, drástica e rápida, veio contribuir para a germinação de um "caos", de uma desordem que atingiu mais especificamente os modos de vida rural. Em "Novos Tempos", Sérgio Buarque mostra o apego da sociedade atual moderna ao recinto doméstico, uma relutância em aceitar a super-individualidade. O autor questiona a importância da leitura para o cidadão (indivíduo). O texto deixa claro a existência de uma preocupação exacerbada com a gramática, com o Direito Formal, com a retórica e com a palavra, elementos que eram utilizados na fomentação de uma nova "realidade", mais artificial e livresca; fator esse que colocava a intelectualidade num patamar de sujeito diferenciador e segregante, já que o livro e a sua rotineira leitura funcionavam como um instrumento de elevação e de dignificação para aqueles que o cultivavam. A posição social ou a mobilidade social, de acordo com o pernambucano Gilberto Freyre, não estava vinculada diretamente com a aquisição de conhecimento, ou com a leitura de livros, mas sim à cor, ao poder, à hereditariedade e até à quantidade de escravos que um senhor tinha. O livro e a leitura, assim como a cor e o poder eram fatores de repressão social. O documentário conta a formação do povo brasileiro, enfatizando o fato da colonização explorativa dos portugueses, o contato com os povos indígenas e os negros trazidos de diversas localidades do continente africano. Esse povo - o brasileiro - acaba tendo uma singularidade, uma caracterização intrínseca, apesar da complexidade do seu surgimento; surge um povo com hábitos e costumes próprios. A verdade é que Sérgio Buarque tenta, através do nosso passado, enxergar o futuro. O Brasil, diz o autor, tem muitas características ibéricas, e que é justamente daí que é construída a sua cultura. E então?
Novembro de 2005.
Escrito por Renê, Osete, Germano, Paulo e Jacy.

Godot, na esquina, um eu

terça-feira, 12 de agosto de 2008
Imagem: "Godot", por Halugii.

o instante pisa o meu corpo, pisa.
do meu vulto, espero Godot chegar
em sua liteira de nuncas com assentos de seda carmim.
minha sombra devolve minhas formas de penumbra.
sou apenas o resto de dois homens
que não são mais e são
sentados e sujos, e que mastigam
a peçonha dos dias.
revolvo-me, sufocado pela corda
dos meus próprios e débeis braços.
corre um veneno vermelho, minha
capa de chuva interna.
meus olhos, diante da lua interna de mim,
são lagoas azuis, secazuis.
espero Godot chegar, sublime,
atrás dos gelos. enquanto isso,
o instante pisa o meu corpo, pisa.

15 de agosto de 2007.

um certo destexto

Imagem: "Returning", por Guzin-Guzin.
Para Ana Lorena.

É por obrigação que escrevo estas linhas partidas. Simplesmente esse é o motivo. Pura obrigação de um escritor que deve na praça, ou melhor, que está em dívida perante seu público leitor. E isso soa irônico e ainda mais interessante no momento em que o escritor, aqui, não é bem um escritor e o público se resume a uma só figura de alma feminil. Então, esse é um não-texto. Uma coisa, apenas. E o pior de tudo: é um esboço textual ainda sem um tema concreto, pois esse perdeu-se no vazio do tempo, na distância da "impresença". Portanto, ficamos assim: o escritor, que não é bem um es-cri-tor, esforça-se na construção de um texto não-texto e sem "texto" e, por consequência, descontextualizado. Tudo começou quando... Não me lembro mais quando tudo começou, mas sei que um dia, numa certa ocasião, numa certa tarde ou manhã ou noite e numa certa hora isso foi inicializado. De supetão? Evidente, ou não? Não vale a pena especular, tudo mesmo nesta vida não deve ser "por acaso". Algo mais forte deve existir para que exista a conjunção dos fatores metafísicos-humanos-paradoxais-reais-imaginários que exercem força de atração entre a classe mamífera pensante. Há de ter algo entre os homens e o mundo, simplesmente algo e só. E isso é tudo. Dispensa qualquer tipo de comentário, basta... Bastamos nós. Não. Sempre falta alguma coisa, alguma ação ou prática ou movimento, que tanto pode ser originário de nós mesmos como pode ser derivado do exterior. E eu sinto que estou em falta. Aliás, não raro tenho de conviver com tal sentimento. É quase um costume. Percebo que as pessoas esperam alguma manifestação minha, uma atitude que possa sair desta boca calada e que mais sabe em silêncio permanecer, ou destes olhos mínimos e medrosos - dos olhos espera-se um flerte, um piscar de olhos fatal, daqueles indicadores de fogos. Mas esse texto não seria um texto se, por trás de todas estas orações e períodos, não existisse um receptor ou, melhor dizendo, um interlocutor. Aqui, é bom que se ratifique, uma receptora. Sim, como eu já tinha empregado, uma criatura feminina. Em toda a sua essência, feminina. Não lembro como a conheci, e isso também já devo ter enunciado. Acredito que já estou ficando chato, é o que me parece. Todavia, todos os escritores que conheço, a maioria por intermédio da leitura de suas obras, foram homens extremamente rabujentos, pegajosos e chatos. A chatice pode ocorrer de diversas formas. É um fator que aqui preciso salientar. Existem chatices. Os que disserem o contrário estarão mentindo. Escritores são paredes, mesmo os mais loquazes. Parece que há uma barreira de ferro maciço entre ele e o leitor, obstáculo esse que só é desmanchado com o advento do "fabrico" e da leitura de seus respectivos livros. Ou não. Os livros, para muitos, também são paredes, e das mais grossas... Estou perdido. O mundo das palavras medeia a minha brutal insignificância. Sobre o que estava eu a falar mesmo? Não importo. Mas sobre o que eu deveria estar a falar, se este que nasce não é um texto sentido? O que escrevo neste momento é antes uma dor, humana. Deus, haverá quem possa com um não-texto? Do que será capaz tão perverso monstro? Exterminá-lo, seria essa a melhor e mais inteligente maneira de continuarmos? E quem seria o escolhido? O homem é tão capaz assim? Tão digno é o homem? O homem, não seria ele o não-texto em disfarce torto? Então, veio-me agora um naco de lembrança. É tudo um jogo:
- Olá!
- Oi.
- Como você se chama?
- Eu me chamo... eu me chamo Acaso. E você?
- Meu nome é... meu nome é Medo, mas pode me chamar de Desejo. É assim que todos aqui me conhecem.
- Engraçado.
- Graça, onde enxergas?
- São estas árvores, descabeladas.
- Não vejo árvores aqui. Estamos perto do céu.
- Há coisas que não vemos. Essas foram feitas para serem sentidas.
- Mas... como?
- É simples, um exercício apenas. Basta um pouco só de disciplina e de coragem, principalmente.
- Ensina-me?
- Não. Não posso. Não existe professor para esta matéria.
- Por favor... eu te peço!
- Perdão, mas eu não posso.
- Então, é tudo um jogo mesmo.
- Sim, é tudo um jogo.
- Mas, o que você enxerga agora?
- Continuo a enxergar árvores. Elas estão frondosas e com frutos maduros, estes caem e se esparramam em gosma pelo chão frio. Também vejo pessoas. Elas estão caminhando pela nudez de seus descaminhos. Parecem perdidas, como eu.
- Queria ter a tua visão!
- Você tem, e é muito mais que a minha, demasiado ampla.
- Não entendo.
- E nem deveria... os olhos são lâminas doentias, portadores de tétano.
- Você é sempre assim?
- Assim, como?
- Assim... meio...
- Não. Eu sou como o vento, ora sibilo ora me calo. Mas tudo isso me ocorre por dentro e muitas vezes passo despercebido.
- Engraçado.
- Graça, onde enxergas?
- É o teu discurso, típico de um escritor em início de carreira. Ainda sofres a devassa da ilusão!
- Tens razão. Tem um fiapo poético no que digo. Deve ser doença, não sei.
- É, deve ser uma doença. E me parece que é um mal incurável.
- Li algo sobre o assunto. Não estou preparado.
- Mas ninguém está, até que se prove o contrário.
- É verdade.
- É um jogo, esqueceu?
São duas horas da madrugada e eu não sei o que faço para saciar a minha fome. E sinto que ela me mata.
19 de março de 2006.

recado a Gullar

segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Imagem: "Ventilador", por Silvano Reaktor.

vai morrer o poeta, Gullar,
aos 23 anos. ele sabe
que vai
e sabe até onde cairá, pesado,
num feriado,
véspera de alguma coisa.

vai morrer hoje,
que amanhã é longe.
descansou a teima, deu-se.

hoje, assistiremos à morte
de uma criança.

semanas depois, as vassouras de cerdas
naturais, as cortinas improvisadas,
o ventilador branco encostado à esquerda
da cama, as fechaduras, os copos, as toalhas
e os livros arrumados na estante, a máquina,
as borrachas e as lâmpadas soluçarão,
ocas de significados,
diante do susto e da certeza
de não mais ser.

07 de setembro de 2007.

sobre as bicicletinhas da tarde

Imagem: "En bici", por Marsaav.

Ao ler Vera Lúcia de Oliveira.


o caminho corrido
levitado
as mãos que remam
e apóiam
os sonhos
a esfera girante

par a par
sob o par de pés infante
o mundo

o infinitivo do vento
o infinitivo do vôo
voar

Julho de 2007.

doró, e era e só... ( Parte IV )

Imagem: "Menino", por João Fred.

IV

dava era dó ver doró
ressumando o teor da tristeza
na procura pelo infinito
que era ele mesmo
aqueles olhinhos arteiros
de quem sabia tudo de cor
derretendo numa chuviscada de lágrimas

e mais sementes regadas
e sempre mais verde e floresta
e sempre mais sombra e nuvem de escuro
pro menino brincar de imaginar
que no fundo de todas as coisas
há um machado de ouro
com a douradez na face
abrindo enormes clarões no obscuro

inverso era o moreno do mato
o posto oposto
e o absurdo de ser
e só doró
por ele mesmo em lagartixas
voz de nuvem aguada e alva
sorriso celeste em terras
que isso era o que o menino era
rodador de roda gigante
brincador das coisas de dentro
escondedor de pedra e espinho
que nada disso valia a pena
que importante mesmo era virar cambota
abraçar finura do grosso
voar em riso de morto

esse menino era era uma fonte

doró e era
e só

além do labirinto

domingo, 10 de agosto de 2008
Imagem: "Labirinto-Parte1", por Nierika.

a porta, Borges,
a porta nunca haverá.
a porta dos destinos de ferro,
a porta dos mares que morrerão,
a porta do que ainda será
não haverá.
e nisso ponho-me consternado
porque tua voz forte é ouro
e reluz amanhãs em clamores
o tempo.

o tempo, Borges,
o tempo
gêmeo e tal como a porta
nunca haverá.
o tempo,
nessa ferrugem de tarde,
doura horas mortais.

Setembro de 2007.

O Silêncio das Agulhas ( Parte IX )

Imagem: "No men allowed", por XjustliketherainbowX.
Cádor

Acabo de receber sua carta e aproveito para responder antes de sair para mais uma sessão de tortura em companhia da Marília. Nunca vi tanto sofrimento em um único ser. Parece uma urna fúnebre – reclama até do vento que vem torto e assanha aquele cabelo dela, cheio de nós. Sinto náuseas, mas sou amiga e amigo agüenta. E ser triste incomoda sim. Incomoda porque é como uma praga que se alastra. Sei disso porque já fiquei triste e fiquei sozinha. Tristeza assusta. Você tem que aprender A Doce Arte de Ser Feliz o Tempo Todo. É fácil fingir. Lembro de quando nos conhecemos. Muitas vezes eu fingi. Houve dias em que me era insuportável olhar sua superioridade imaculada. Sentia repulsa. Queria sumir. E agora você vem com as velhas notícias. Eu bem que imaginava. Você seria ou chegaria a ser ou então, flutuaria em seu ego por tudo que já conseguiu. Ao menos você é triste e sente revolta e lê revistas de filosofia. Eu me atenho a Reader's Digest e aqueles artigos que nos aconselham a não morrer cedo. E não morri cedo. Já passei do ponto – meu ponto de partida. Você esteve comigo - fora amigo e amor durante anos. Me conhece e sabe o quanto invento coisas. Agora estou vivenciando outra criação minha. Amei você por tantos anos e agora retiro sua estátua de meu armário. Fiz arrumação. Tanto lixo, tanta bobagem. Nós acumulamos bobagens. Acumulamos necropsia. Decidi me limpar e limpei tudo. Envio com a carta aquele seu livro cheio de colagens e fotos de pássaros. Juro - até hoje não entendi a existência desse livro. Está aqui ao meu lado, me observando com cara de amostra grátis. Vai junto com a carta e com minha desobediência. Como sempre não entendo o que me levou a escrever pra você. Talvez para me exibir. Estou em queda, mas ainda no auge. Impossível? Não. Nada é tão impossível. Existo até hoje – há milagres. Gosto de deixar você saber que estou bem. Dou risada quando lembro das coisas que você me disse quando decidiu ir à Brasília. Sempre achei que Brasília me roubaria algo. Levou você de mim. Hoje não odeio essa cidade, gosto de política e sou amiga da Marília. Ela me serve – adoro ser senhora das coisas. Ela carrega meus livros, agüenta meus porres e minhas enxaquecas. Tenho dores de cabeça – coisas do passado ainda estimulando minha memória refratária. E você, senhor de todos os livros, é humano sim. Humano e tonto. Quase um imbecil. Estou rindo agora – rindo e imaginando sua cara ao ler minhas palavras sem retórica. Não sou retórica e você é humano. Só um homem comum em plena combustão, escreve como você anda a escrever. Parece mais estar se consumindo. Me fala em dragões, em tempo, mas fora você quem apagou traços. Nada fiz. Só caminhei. E sou dona de meu tempo sim. Agora mesmo irei sair e dar minha cara à vida. A Marília irá me encher falando do novo livro de um qualquer e seguirei para o trabalho. Aí completo o ciclo. Sou dona do tempo, dona do meu nariz e de você também. Fez caso e casa sobre meu nome e agora transborda em cálices. Aceito o cálice. Você conhece meus tons.
De saída para a vida, Virgínia.
P.S.: Nada de importante – apenas achei que post scriptum combina bem com a nossa hipérbole em escrever.

********
Vírgínia,
essa tua resposta é apenas um papel velho amarelado pelo tempo. Eu tinha guardado em uma de minhas gavetas vestidas com os signos do sigilo. Rarefaz-se palavras tão duras dirigidas a quem só sabe amar-te. Não é de agora, é de outrora. Bugras palavras enlameadas de passado. Quase apócrifas. Traços sem traço. Você bem sabe que destruimos coisas antigas e fizemos nosso muro de sangue. Sutis nuanças que nos percebem desde a era em que surgimos para o mundo. São crespos papelotes sem endereço, haja visto minha vistosa fuga daquilo que a ti não pertencia. Hoje nossas capas são acetinadas, nossas abotoaduras dispensam asas de papel crepom. Pactuamos com o desquitamento dos estropícios, consignamos nossas animosidades para viver melhor, galardoados pelo nosso mais que totêmico amor. Amor infundido que teima repartir prebendas. Amor teimoso de tanto amar. Radial, paquidérmico, lanho, eficaz canção é nosso amor tão tudo. Amor fragrância alcaçuz. Amor gosto erva verde de chá. Pômulos e pórticos maltratados em aberturas e fendas. Halo e cotejo, nosso palpite eterno de se envelhecer junto, sem idade nem hora. Páginas ampliadas que apagam essas, tortas e sem sexo. Palavras informes, vacilantes, editoriais de tablóide chinfrim. Nossa manchete é outra, com sangue na capa, paixão e rebeldia, homem que mata mulher e vice-versa. Assassinatos e assassinos. Morte diária e papel vermelho, escorrendo verbo na prisão. Prisão do amor. Cela escura e mistério poético. Minha bata é tão formal assim ou é forno? E o fraque, precisava? Cebolão, mantilha, galhofa, zumzum... O que será que será, Virgínia? Te como antes de matar ou mato antes de comer? Porque meu amor é assim, notícia do caderno policial. E me desculpe por ser breve. Nem só de retórica vive nosso amor. Meu caderno cultural.
Cádor
Virgínia Borges é Letícia Palmeira.
Anderson Cádor é Germano Xavier.

Jacó, o seixo e as lâmpadas negras

Imagem: "Luz negra", por Android3.

tomado o caminho de Harã,
este refúgio, esta tenda
de não ser mais
o que não se pode mais esconder,
e encontrado em cansaços,
adormeço e sonho.

uma voz:
"sê como a pedra ao chão, sempre rija!
sê como o feno, aprendiz, alimento
dos que ruminam.
sê como a lança, afiada.
sê como o metal, duro escudo.
mas, mormente, sê como o mel, doce,
porque só se ouve o trote puro
e abastecido de guizos
quando sossegados os punhais".

depois do sonho
e depois de Bersabéia
(que tais lugares sempre existem)
eu te pergunto, senhor,
como caçador e teu filho:
"por que não se esgotam as peças
de minha aljava? por que, meu senhor?
por que, se tanto as atiro,
se tanto mato
e se tanto morro?
Setembro de 2007.

vernissage

sábado, 9 de agosto de 2008
Imagem: "Vernissage", por Mythikch3rry.

Pôr nas paredes da grande galeria
a tua peregrinação,
a tua visita à Ítaca
(ou às Ítacas),
os teus significados jamais encontrados,
porém cumpridos pelo caminho.
Expor tuas idas
e teus regressos.
Revelar a sensualidade
com que destes os primeiros passos.
Dispor tuas semeaduras,
tuas hortas, teus frutos,
mesmo repleto de tardes ou ao relento.
Pegar do pincel noturno
e retocar aquele sorriso quase morto,
tua relíquia. Tingir de Novo o Velho.
Desconstruir, reconstruir.
Reescrever.
Pôr nas paredes da grande galeria
o teu crisol, um dia antes
dos olhares lhe apontarem as vistas
- que é para não causar estardalhaço.
Iluminar os cantinhos com luzes de um sol
inesquecível de uma manhã acompanhada.
Iluminar-se.
Vagalumear-se.
No final, escancara tuas falhas
e deixa que o vento as varra
(momento de nascimentos).

Dia seguinte:
"Lindas terracotas!"

Agosto de 2007.

o nome errado, calam-se os homens

Imagem: "Sore II", por SkateFreak.

semana de se visitar o teu estranho
país. é sempre.
senhor de todos os poderes,
enxame de palavras,
o vosso fagote soa fanho?
incluo nesta introdução de obra
minha doce ira faiscante?
que dirá o aprender, o transformar,
se vossos filhos despolarizados
andam?
semelhante diário íntimo
o de se ser o outro
viandante
e vagabundo.
pelo menos figura-se, assim,
vastas inutilidades importantes.

10 de junho de 2006.

verbopuro

sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Imagem: "Separes", por Sakura-Ch4n.

claro enigma
teu laço de fita,
minha cela

faremos amor de mar,
a púrpura cor
em sede eterna

lambuza minha boca
com a carne do teu
corpo! comer-te

em pétalas, o ar!

dilucular a tez
em brasa e fêmea
da tua chama

tu'acéquia em molhos
a ceder a mama
em goles e nauta

traço teu casto
portulano
em angélicas ondas,

mar alto...

Setembro de 2006.

appropriation art

Imagem: "Derek", por Secluded.

relevante painel artístico
levanta-se do cotidiano

circunda na linhagem
do pega-pega
um bando de rapinagem

há de se tomar de empréstimo
o que se lança em imagens
o fundamental imaginário
das pessoas
e suas publicidades

a poesia consegue uma distância
perturbadora - assim como carece -
do plastificado
e também se fotografa

03 de junho de 2007

vida minha minha morte ( XXVI )

quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Imagem: "Cabelo", por Jigenxlupin.

Vou escrever um poema de um fim.
Acabou aqui.
Minha vida é minha e minha morte é minha.
Acabou aqui.

o regente

Imagem: "Maestro", por Theirish81.

Christoph Eschenbach define-se:
sou música.
seus rebentos decolam,
são pássaros, tons e acordes.
o salão é um teatro que surge
de preto e couro
no calçado.
virtuoses dançarinos dançam
a dança mágica, hipnótica
para os bêbados de ilusão.

mas há espaços vazios, cadeiras
sem alma alguma.
cadeiras, apenas.
porém, do camarim vem nascendo uma sinfonia
de estorninhos,
alados e superiores ao homem,
que preenche pouco a pouco os ocos
num ritual natalício brotante de plumas.

eis o trópico.

2007

rotina de viagens

Imagem: "I miss you", por Midnight00.

porque piscam luzes dentro de mim,
e eu sou apenas uma criança, arrebatada,
diante do mago brinquedo

11 de setembro de 2007.

vida minha minha morte ( XXV )

quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Imagem: "Round and round", por Svensson.

Meu dia foi divertido. Nasci quando acordei e morri quando dormi. É sempre assim, uma vida inteira num só dia. Meu cabelo está enorme e eu já não estou aguentando mais. Comprei mais dois livros, agora livros chatos para ajudar a matar o meu TCC-Minotauro. A Virgínia ligou e perguntou coisas e acabamos por sedimentar mais a dura pilastra que construímos. Hoje fez que ia chover, mas não choveu. Aqui é a terra do alarme falso. Quando parece que vai, não vai. Esperei uma ligação do meu pai, e só fiquei na espera. Arquitetei mais planos para meu projeto e estou indo bem, pelo menos nas idéias. Amanhã começo a escrevê-lo. A noite foi de abraços bons e de reencontros na faculdade de Letras. A "professora nossa do bem" sempre com uma aula interessante, até o último minuto das vinte e uma horas. Ainda vi a merda do Flamengo perder mais uma e uma estrela solitária no céu. Continuo lendo e hoje descobri coisas sobre Platão e J.D. Salinger. Adormeci com o coração manso. Minha vida é assim, sempre uma morte para nascer de novo.

doró, e era e só ( Parte III )

Imagem: "Menino", por João Fred.

III

quando se pensava que era já hora
do curió do mato sossegado piar
aí era que o vento dava duas dobras
na própria propriedade de existência
e anunciava do meio do pó doró
o moreninho do mato

o moleque estripuliava era era com tudo
uma vez foi foi matar lavandeira
passarinho do santo abençoado
dizia ele ia pro céu
ser lavador de nuvem

"tem de aguá bem aguado
pro mode ficá alvinha assim pra sempe"
pensava o menino

esse moleque era uma fonte

tinha era um umbuzeiro inteiro
plantado na cuca
cada mordida no fruto era uma arte
cada caroço um sorriso

doró gostava mesmo era soprar lagarta
"vê brabuleta de largata ameninar" dizia
e de matar "largatixa" com beca de pau
que ele mesmo fazia nas folgas de menino respeitoso
aos pais e arredondava as pedrinhas de catada
"qui largatixa é fi de largata disubidienti
fugiu de casa nun quis iscutá mãe e brabuleta sê
feiz foi ficá iscondeno no mei das foia suas arte de rastejo"

pra bicho que se esconde do seu viver
lá ia era tiro de beca de pau pra riba
que o menino ia era pro céu "sê aguadô de nuve"
e arreganhar ainda mais o sorriso de deus

no ônibus, dentro de um fim de ano ( O Sonhador - Parte XIII )

Imagem: "Além das janelas", por Yuri Leonardo.

Mulher, e isto é hora de ir trabalhar?! Foi o meu filho, aquele que gosta de escrever. Ele está muito doente. Já o levei a vários médicos, mas nenhum soube diagnosticar o seu mal. Uns dizem que ele está sofrendo um princípio de depressão, outros já apontam para uma síndrome passageira que tem como maiores consequências a insônia e o mau-humor. Que pena! Justo nesta época, tão bonita. Acho que é justamente por isso que ele ficou assim. Ele odeia estas luzes, estes enfeites, estes presentes, estas festinhas de comemorações infundadas e ridículas. Ele não queria que eu o levasse aos médicos mas, depois de muita insistência, ele resolveu aceitar. Ele nem olhou para a face dos doutores. Estava triste. É, meu caro, estamos fadados à civilização, completamente predestinados ao abismo deste "mundo" pós-moderno. Eu preciso é de um anestésico, que turve a visão que tenho destas des-cadências humanas. Não dá mais para acreditar em todo esse jogo de espelhos, onde a ilusão é a única configuração visível, que nos toca. Quem somos diante deste torvelinho? O que há de se fazer? O quê? Doentes! Drogados! Medíocres! Impostores! Vocês não valem nada! Não passam de um bando de idiotas! A harmonia passou feito a saúde daquele rapaz. O ano novo que se aproxima é somente mais um ano de infelicidades e de perspectivas fracassadas. Eu preciso de um livro de poesia, "a Poesia é a insânia". A PO-E-SI-A É A IN-SÂ-NI-A!!! Só mesmo os princípios ativos da Poesia para me acalmar agora. É tudo tão monótono, tudo tão sem graça. Desgraça! Desgraça! Mil vezes DES-GRA-ÇA!!! Calma, eu não estou querendo provocar confusão com vocês. Eu não sou louco! Eu não sou louco! Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos", e que sabe de tudo que te fere. Eu sei! Eu sei! Podem acreditar! Vejam o Tempo, ele está passando, passando, feito a gente, que também não somos mais que meros passageiros nesta aventura da Vida. O que você anda fazendo? Regou a árvore hoje? O que mais tem feito? Molhas o chão que pisas, fazes valer a pena? É tempo de renovação, de olhar para o teto do seu quarto e fazer um novo planejamento, com ênfase no que é de ordem comum e não no individual. Caso nossas forças se ajuntem, poderemos fomentar uma enorme energia positiva que, certamente, será capaz de destruir todos os nossos medos e impossibilidades. Vamos! O que eu quero é apenas isso! Que vivam suas Vidas, que vivam! Nós não podemos parar em nenhum instante. Eu ficarei observando os seus passos. Sirvam-se de seus pseudoalimentos, mas não deixem de viver. E não se preocupem comigo. Eu sei que não posso fazer tudo, porém, sei que estou fazendo tudo o que posso para ajudar vocês. Não se esqueçam das cordas e das recompensas também... Feliz ano novo! Feliz ano novo para você também! Se Deus quiser! É, se Deus quiser...
2005

imaginário

Imagem: "Menino", por Luiza Madeira.


menino acorda acorda que já é hora que já passou da hora da hora de levantar levanta menino vai brincar na chuva vai sorrir encanto não deixa pra depois não que depois a gente cresce e vê que a gente esquece que a vida é uma brincadeira que não passa de ilusão vai não durma não que o sono é véu de morte vai venha logo e chama também o teu irmão traz a sacola de sonhos a chave dos mundos a roupa da infância a alegria do coração acorda que talvez não seja agora quando as estrelas surgem o momento de fechar os olhos e dizer que não
2005.

vida minha minha morte ( XXIV )

terça-feira, 5 de agosto de 2008
Imagem: "Somewhere in between", por Preludium.

Hoje foi o vigésimo quarto dia do meu vigésimo quarto ano de vida nessa vida. Falo "nessa vida", de modo tão distante, porque sei que não podemos ser só uma etapa só. Há outras aventuras, coisas da alma. Não sou espírita, ou coisa parecida. Que fique bem claro. Hoje conclui a leitura paciente que fiz do livro das "putas" do Gabo, li um conto da Lygia e comecei a ler "1968 - O ano que não terminou", do Zuenir. Mais um livro que ganhei da minha Virgínia. O das "putas" pode ter sido um livro feito apenas para vender, coisas de mercado, haja visto os monumentos que o Gabo já escreveu, mas é uma história bonita. Quando terminei de ler a última frase, fiquei com a impressão de que eu sou mesmo velho, que meu amor é como o daquele velho e é profundamente o contrário também. Mas o velho não era velho e o amor não tem idade. Um livro que certamente irei reler muitas e muitas vezes. Hoje também foi dia de maquinar algumas idéias acerca do projeto do livro-reportagem que irei escrever como trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. Sentei com o Marcos e ele primou por luzes no fim do túnel. Cada dia estou mais decidido a fazer o projeto que pensei. Vai ficar muito bom, espero. Hoje também foi o dia de descobrir mais uma vez o que eu já tinha descoberto: tudo na vida tem duas faces, duas caras, dois semblantes. Basta apenas um ponto de vista e logo temos duas faces para uma mesma moeda. Tem um assunto que me deixa preocupado, que tem me deixado preocupado, mas prefiro não falar. Não há de ser nada. Quando o relógio apontou vinte e três horas, veio-me uma carga de sono pesadíssima por sobre meus ombros e não suportei. Fui deitar.

a coisa dos filetes vermelhos

Imagem: "Pirâmide Mulher", por Funari.

Para Victor Tavares

há muito não conversávamos. apesar de sermos colegas de sala, dificilmente nos batíamos. muitos desses desencontros encontravam suas raízes em mim, em minha parcela que mistura orgulho, introspecção e tristeza. ele era um cara bom da cabeça, um aficcionado por literatura marginal. Rubem Fonseca, Trevisan, Fante e Buko eram dos seus preferidos. depois que o conheci, passei a ler com mais atenção esses autores. de certo modo, aquilo era um indício de que eu estava mesmo mudando. gostava dos clássicos, histórias que se passavam extremamente longe dos nossos problemas atuais mais corriqueiros. sim, era uma denúncia e eu estava mudando, fazendo uma pequena reforma comportamental. o cara tinha um palavreado que o tornava quase que personagem de um daqueles contos que ele sempre me trazia de sua casa. mas, o certo é que era um cara fino e eu gostava de ficar ali, conversando amigavelmente com ele. certa feita, no intervalo entre a aula de Filosofia da Educação e Prática de Pesquisa, isso na faculdade de Letras, resolvi mostrar a ele a boneca do meu primeiro livro de poesia. não estranhe, creio que sou menos horrível quando escrevo poemas. minha prosa é para poucos. aquela semana tinha sido a melhor semana da minha vida, dos meus vinte e um anos de idade. o contato com a editora, o orçamento feito, a pessoa de Kaliana conhecida (ela foi quem cuidou da diagramação do livro), o inefável prazer e delírio ao receber o projeto, já em seu formato definitivo. foi uma semana inesquecível, apesar de passar dias de muita ansiedade. pelo visto, ele gostou, ou então era um bom fingidor. puta que pariu, poeta! qual foi, rapaz?! a capa ficou massa, esse preto chama muito a atenção. e estes dois filetes vermelhos, o que significam? aí vai de cada um, meu caro. é muito subjetivo, demasiado pessoal. por exemplo, eu veja esta questão de que em nada há uma ligação ou encontro, um desconjunto, um desapego, uma busca. não vai querer que eu explique, não é?! mas, isso vai de cada um. uma colega lá de jornalismo disse que pareciam com dois semblantes humanos. é uma viagem, eu nunca pensei nisso. ficou massa, velho! agora, só peço uma coisa, não olhe o miolo. sabe como é, vai perder a graça. que nada, poeta! que onda é essa?! a surpresa é sempre a melhor parte, o deleite, o sublime. não custa nada esperar um pouco, não tardará muito para que a impressão dos exemplares fique pronta. tudo bem... pelo menos posso ler as orelhas? sem problemas, manda ver! quem foi que escreveu a biografia? foi você mesmo? não, uma professora de antes. tem uma rasgação de seda bem veemente aí, acho que é bem perceptível. ficou legal, massa... torço por você. e o lançamento? vou fazer uma coisinha lá na minha cidade, só para não passar em branco. e aqui? não sei, vou pensar no caso. tá massa, meu velho! é, acho que não dá para passar muita vergonha não. em se tratando de um começo, imagino que esteja mais ou menos. só imagino. sem dúvida. ele me devolveu o livro. guardei-o com muita cautela em minha bolsa. olhei para os lados, a turma inteira do lado de fora. intervalo. o céu negro e a lua, silenciosa, a passear sorrisos lentamente sobre os homens que encontravam na conversa as suas compensações para tanta vida malvada. estávamos sentados, ainda, quando chamei a atenção do meu amigo. e aí, Vitão, o que é que você acha da "pequena" ali? sim... sim... aquela toda agitada, a baixinha? é, essa mesm... rapaz, ela é massa, parece um motorzinho. tá se achando com ela, é? é, parece que vamos nos bater a qualquer momento. é só uma questão de tempo, de pouco tempo. já está tudo encaminhado, pelo menos é o que eu acho. vai fundo, meu velho. estou só esperando ela aparecer ali no corredor. vou falar com ela. engraçado, foi só eu terminar de fechar a minha frase e ela apareceu, ao lado de uma amiga. não hesitei. vou lá, Vitão! me deseje sorte! até mais, meu camarada... boa sorte! agora era somente eu e ela, dois. saímos da faculdade. um lugarzinho escuro é sempre melhor nessas ocasiões. dito e feito. uma breve conversa e eu já estava enlabeando a garota. ela e o seu jeitinho todo-todo de ser, ou melhor, um jeitinho todo tic-tic-tic de ser. aconteceu. hoje é sexta-feira e o que vai acontecer daqui por diante... nem me pergunte. dois dias que estamos juntos e o Victor estava certo. ela é mesmo uma pequena notável, uma menina de choque, de faísca. nada daquela baba, nem de beatice. dos tipos quase interessantes de mulher...
2006.

rios

Imagem: "Nightmares", por Froststick.

assim, súbito
veio-me uma vontade
de chorar porque homens choram com pudor
choram sem pudor os homens choram
não sei motivos
há tempos dos meus - vários -
fantasmas

e chorei
e foi um choro de criança
inocente quase virginal das gotas que caíam fez-se chuva
da chuva nasceu um rio
lindo

quando as lágrimas cessaram
vi-me em torno de um silêncio
dilatado depois pouco um arco-íris coloriu
todo o horizonte
de mim

dali em diante
como que um ventre
rios de lágrimas surgiam
e meu choro infante já tinha a face com sal antes de mar

Escrito em 25 de novembro de 2005.

novembro, 28

Imagem: "Last time here", por Pakpao.

sai
longe de mim
esta sensação de frio
cortada na garganta
devo dizer
sim que sou
um sujeito quedo
vezes ao extremo limite
mas ter de conviver
com a apreciação universal do bem do bem do bem
das coisas
isso não

por isso não raras as vezes
podes perceber um grito - mais
um périplo lunar - que vara
que sufoca e esmaga
o silêncio
meu

convido você ao grito
(conheces o teu grito...)
urre cuspa suas maiores
desonras que eu vou e sei
que meu grito é mais demoroso
mas que dia chega

a certeza não
o belo não
a verdade não

pejo-me de certos sentimentos
outros tento esquecer
para a eternidade
(os que são falsos)
dos sufocamentos
e delírios

sei esperar
não as retaliações do tempo
que não se vive
mas antes o momento certo
de apertar o gatilho
porque deveras alguns
sentimentos devem ser assassinados

(...)

cuidado com estes homens calados
são eles que guardam
sob seus lençóis
as mais altas insígnias

vida minha minha morte ( XXIII )

segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Imagem: "Chuva", por Idiossincrasia.

"Você está chovendo hoje", foi o que ouvi na faculdade de jornalismo. Eu perguntei o que aquilo significava e fiquei sabendo que era coisa boa. Sim, talvez, poderia até ser, mas a água que jorra em mim é mais uma água salgada que doce. Não consigo parar com toda esta angústia, toda esta sensação que o tempo apenas vai, passa e não espera. Que faço diante de tudo isso? A chuva em mim não é torrencial, é uma chuva passageira, espero...

ménage à trois

Imagem: "La menage a trois du metro", por Mobilohm.


se te empresto
que fazer?
Tchernichévski estava certo
ou não sabia do amor

a chave comum

Imagem: "Chave", por Betojanz.

adormecida quimicamente
deitada nua mulher
a infeliz das recordações secretas do dia azul
a porta da ridícula aventura aberta
entre as pernas
o descobrir-se
camélia perdendo as pétalas
brotando o gozo asqueroso de vergonha
complexo de nojos em recordações

vida minha minha morte ( XXII )

domingo, 3 de agosto de 2008
Imagem: "The faceless ii" por JessMarie.

A Virgínia apareceu depois de um fim de semana de sumiço. Apareceu e me trouxe novidades. Pensei que ela ia me dizer que tinha acertado quinze números na loteria e tinha ficado milionária e que ia comprar uma casa na Toscana e que ia me levar com ela. Mas não foi nada disso e foi algo melhor. É que eu estou ficando conhecido. E como diria o Autran Dourado, reconhecimento bom é aquele que a gente sente nas outras pessoas, sem forçar a barra. Foi um dia produtivo. Li muita coisa. Escrevi dois contos e três poemas. Li a terceira parte do livro do Gabo e Delgadina está amando o velho. Ela acaba de fazer quinze anos de idade, o mesmo número dos possíveis números da loteria. O velho tem noventa e um anos. Faça a conta. Noventa e um menos quinze é uma vida de anos. Mas sou daqueles que não acreditam na idade do amor. O amor é o próprio tempo e, como todos sabem, o tempo engole tudo. Meu time do coração perdeu mais uma no campeonato e agora a coisa ficou feia. Melhor nem comentar. Deixa rolar. Ainda deu tempo de dar uma volta pela cidade com a Anita e deixei de tirar uma foto lá na orla, próximo ao palco da festa do dia anterior que, talvez, seria a foto do ano no mundo e talvez com ela eu conseguisse ficar milionário e comprar uma casa na Toscana e levar a Virgínia comigo. Mas ia ser muita injustiça e eu seria um desgraçado se conseguisse alguma coisa com a desgraça dos outros. Não estava com a máquina e pensei em meu agora debilitado espírito jornalístico. Dois meninos que quase não vi direito, de tão miúdos, pretos, um nu e um com um saco branco escondendo suas vergonhas ainda não vergonhas, agachados, do tamanho da calçada em maior relevo, juntos, comendo alguma coisa de resto de festa juntos a uma pequena poça de água parada, os dois ali, pequenos cachorrinhos e a imagem da extravagância humana em contraste, o gozo pós-prazer feito do coto dos que podem e da reaplicação pelos que não podem. Eu tinha visto o "bicho" de Bandeira, ou melhor, os bichos, e desperdicei a chance de registrar aquilo para o mundo. De qualquer forma, a imagem está guardada em mim e me fez pensar em algumas coisas. Não consegui continuar o passeio e segui para casa. Fui escrever.

o silêncio das agulhas ( Parte VIII )

Imagem: "Dance of the fairy", por Snuffkin.

Senhor de mim,

E a tempestade fala em raios e trovões e as plantas de nosso jardim suspiram a urgência do querer ser único. Único ser dentro de um vaso, dentro de um envelope, dentro de um corpo, dentro do mundo sem fim das palavras. Encontrei o personagem de meus contos, suave e febril e eterno como a fonte que de mim sobrevive e anseia por estar em cada vocábulo que deixo escapar ao amanhecer. Você amanhece dentro mim a cada poema e a cada olhar em outra direção, sua Vênus Comum, se despe em estações de outro inverno. Amanhece em meu ventre, amanhece em meus olhos – nítido e veloz em sua força de caçador e herói dos livros que ainda não li. Amor em contentamento, em distração, em contração. Amor em movimentos e fases de lua e fases de ser meu senhor e servo de nosso relógio que ressoa, sem tréguas, nossa guerra em sermos um do outro em tempos de ser quem já somos.

Com urgência,

Virgínia de Cádor
que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo
(Ana Cristina Cesar In, Um Beijo)
Amo sem fim...

**********


Liubliu,

porque nossa esfera é outra, é mais e não é amor só porque é pouco e pouco não nos é. Doença que carrego no peito, meu relógio é só teu som, teu sono, teu sumiço, tua aparição. A aldeia de relógios parados, a aldeia do tempo desperdiçado, a aldeia da pele calada é o domingo sem você. Vem mais uma vez com teu ódio de amar, mulher-universo-de-mim! Vem me despir como você fez na noite fria lá fora e tão ardente cá dentro de nós. Vem no aperto do seu peito e dispara contra meu peito a bala que matar-me-á, tua dose de amar, meu mar, ó mar! Aponta a ponta da lança e vara meu coração que delira! Mira toda a tua esgrima e perfura e me cura de tanta furta-cor. Acerta perto de tudo, dilacera a hora que não vivo. A aldeia de pergaminhos trocados, a aldeia de escapulários dementes, a aldeia de alabastros febris. Porque meu cuidado em te zelar como ouro, meu diamante impuro mais puro, limpa mulher-universo-de mim vem me sujar, sugar, como nossos exercícios de outono. Nada, mergulha, vaso de jorrar o nosso cardume de morder. Apinhe-me de tuas gentes que gosto de todas em ti, tão doce tão meretriz. Vacila meu codinome e pronuncia o nome meu que é seu. Esquece a joça da vida pregressa e vem embaçar nossa devassa indevassidão. Enroscada como a cigarra no canto até o fim, tua menina em mim, flor de laranjeira, coberta de amor, alvissareira, me manda uma mensagem de flor. Traz aquela mala pequena, e me manda um bilhete de cena, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer...

Espaldar, minha costela.
Cádor
Virgínia Borges é Letícia Palmeira.
Anderson Cádor é Germano Xavier.

doró, e era e só ( Parte II )

Imagem: "Menino", por João Fred.

II

eita doró corredor
ou é cassaco fugindo de espanto grande
ou é o moreno um artista

e se dizia que era bom de dom
e era dom de terra ele tinha
e era de água de fogo
e até dom de ar
esse menino era uma fonte
pois decifrando dom de ar devia ser
saber voar

pelas minhas contas
doró sabia voar
e eu já desconfiava disso
vendo aquela
carreira dentro do verde
a poeira depois se assentando
e nos trazendo a vista vazia sem doró
calmaria de passarinho no alto
essa altura estava láááááááááááá

o certo é que ninguém sabia onde
do menino
quando dava sumiço
desaparição dele e nele mesmo

depois foi que me contaram
era que doró soprava lagartas ainda nem crisálidas
e fazia borboletas pintoras de arco-íris
e quando o moreno sorvia tristeza
era pegar uma lagarta e soprar
depois ver o céu colorado um sorriso de deus

Não deixem de ler o próximo capítulo...

dos novos olhares


qual ordem de protesto devo
o sangue que por mim corre
fenda de vazão vermelha
a emudecer a flor que morre

eu vou e esperando ficarei
no farol da imaginação
a beleza de seus arrulhos
de esclarecimentos românticos
imaginar a boca de um dragão

a esfolar meus sentimentos
sei devo domar os meus vícios
meus olhos mais "educados"
devo fugir olhar de frente o maldito
sufoco de gerações ajustadas

Escrito em 29 de outubro de 2005.
Imagem intitulada de "To go", por Twelwern.

vida minha minha morte ( XXI )

sábado, 2 de agosto de 2008
Imagem: "Drifting in, drifting out", por Porg.

Um pouco da dor ainda na cabeça. E muitas idéias ainda na cabeça. A cada hora tinha um lampejo e pensava em começar um livro. Mas não ia longe e logo amornava a idéia que antes era fogo. Comprei quatro livros no sebo. Paguei a bagatela de quatorze reais e cinquenta centavos por "Apologia de Sócrates - Banquete", "Fedon", "Fedro" e "A República". Todos com a escrita atribuída a Platão. Foi um ótimo negócio, não tenho dúvidas. Ainda sobrou algum trocado. Com ele, pretendo comprar um pouco de tempo e elevar as horas do meu dia. Talvez assim eu consiga ler tudo que quero ler antes de morrer. O dia foi produtivo e não foi. A Virgínia não apareceu. Eu fico triste quando isso acontece. Fico fraco e ela sabe. Ainda tomei um copo de vinho na casa da Emily, conversas sobre fantasmas e mediunidade, livros revisitados e uma vela acesa. Ainda passei na orla na volta e para casa segui. Fui escrever.

evadir-se, criada de mim

Imagem: "Fugas", por Chtrunfinha.

não se atormente aqui
espaço vivo de constrangimento
existido
não há espaço para o sufocamento
que é morte em menção

mais maravilhosas criaturas cristalinas
que acabam por refletir
e a ensinar a dor de homem
ser
como se faz para se sentir ser
homem?
mas o que é o homem
tão distante da aceitação do indizível do imperfeito

não fuja minha criança criada em manhã tão linda
meu pensamento é leito
vento que te conjuga no infinito
dos horizontes
há espaço para tudo
inclusive para a madrugada
Escrito em 11 de novembro de 2005.

sobre a literatura (quase uma resenha)

Imagem: "Tinta y papel", por Lehannan Sidhe.

O linguista Roland Barthes, estudioso renomado da área das ciências que envolvem e/ou sofrem influência da palavra, defende que a literatura fundamenta-se a partir da idéia/conceito da prática da escrita, deixando de lado a noção de que a literatura é apenas um arcabouço onde se encaixam enormes listamentos de obras ou, ainda, algo ligado à esfera do comércio-ensino. Tomando como ponto de partida a práxis, a ação de escrever, o autor supervaloriza o "texto"; para ele, o "texto" simboliza o "tecido dos significados que constitui a obra" (Barthes, 2001). Já o extrapolar de representações que um texto pode abarcar não faz a cabeça do pesquisador, que acredita que o elemento basal da literatura está, somente e só, no corpo da escritura, no que indifere ao ordenado de palavras em conjunção, e não nas possíveis compreensões extratextuais ou mensagens que um material literário possa transmitir. Barthes ainda desloca a literatura das demais disciplinas, dando a ela um caráter libertário e emancipatório frente aos mais variados ramos de estudo. Ao mesmo tempo que segrega, Barthes faz da literatura um baú, capaz de zelar por vários saberes. E eis aqui o caractere que torna a literatura um "monumento" quando posta ao lado das demais disciplinas. Para o autor, a literatura "é a realidade, isto é, o próprio fulgor do real", o que a faz ser e estar sempre em excesso e vantagem diante das outras. O ingrediente a ser analisado, no caso a literatura, é o objeto ou o conjunto de instrumentos que desbastam o irreal, o que é baba ou imprestável. A literatura é o real, ou o seu fragmento, ou o seu motor, ou a "realidade" do que é real. Para Barthes, um lugarejo onde se vive do todo, para o todo e como o todo. Barthes aponta a força de representação como sendo a segunda força da literatura, dizendo que a literatura representa o real para a humanidade através de suas capacidades. Mas o real não pode ser representado, ou seja, a possibilidade que se tem é demonstrá-lo. Há uma constância em se dizer que o real é representado por palavras, através do intermédio da história da literatura. Têm-se várias idéias para uma definição do real, dentre elas afirmá-lo como algo impossível, que não há uma coincidência entre o real e a linguagem, pois estão em planos dimensionais diferentes. Sendo que, o primeiro é pluridimensional, e o segundo unidimensional. O conflito acaba sendo gerado porque é nesse ponto (a união: real + linguagem) que "a literatura não quer, nunca quer render-se" (Barthes, 2001). Os homens se recusam a aceitar tal conclusão; a consequência disso é justamente a produção contínua e ávida da literatura. Para o autor, a literatura caracteriza-se como sendo realista e irrealista. Realista na medida em que está sempre em busca do real, e irrealista porque acredita na lucidez do "desejo do impossível". Esse último conceito chama-se "função utópica". Aproveitar tudo, absolutamente tudo. Para o linguista, a transformação , a aprendizagem, o usofruto, a "decência" do escritor-leitor, ou vice-versa, pode ser encontrada no universo de "teima" do banquete da língua, e só. Então, talheres à mesa...
Escrito em 27 de agosto de 2007.

como nos haicais de Dickinson

Imagem: "Voice", por Kidchan.

capa
d'ócio
maneira íngreme do seu orfanato
a menina destampou a panela
e disse palavra
- só nasci depois que fui -
pelas quintas de chá

velacesa
lâmpada macilenta
dava saltos cada vez senhores

vida minha minha morte ( XX )

sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Imagem: "One soul", por Kirnilmiz.

Dor de cabeça o dia inteiro. Fui à farmácia e comprei uma cartela de Anador. A moça do balcão desconfiou de mim. Senti. Parei a moto na esquina e entrei vestido com um casaco bicolor e uma mochila nas costas. Com a cara barbuda, aparentando uns trinta anos de idade, entrei e pedi os comprimidos. Ela não olhou para mim durante todo o enlace mercantil. Eu olhei para ela e vi como era uma moça atraente perdendo a vida atrás de um balcão. Quanta ironia e quanta metáfora. Uma moça sadia ficando doente atrás de um balcão numa farmácia na esquina. Eu e ela e mais ninguém. Obrigado, disse. Ela agradeceu quase sem altura na voz, usando um de nada murmurante. Ainda demorei cerca de um minuto e meio entre o avistar a moto novamente na esquina e o ligar o motor. Pensei em voltar e pedir a mão dela em casamento. Ela possuía olhos de mulher boa para se casar, olhos velhos, quase tristes quase frágeis. Mas lembrei que tenho um amor e um amor que é mais que amor. Fui para casa, mas antes paguei a mensalidade do apartamento. Rua A, 500, apto 203. Bairro Maria Auxiliadora. Um lugar até confortável. De frente para o parque recreativo da cidade. Entrei e engoli o comprimido. Minha cabeça pulsava. Escrevi um poema que tinha começado na noite anterior e li alguns contos. Não demorou muito e fui para a faculdade. Foi o dia de ganhar palavras. Um papel. Um papel amigo, de se querer fortalecer laços. A vida tratada com esmero por uma mão que acarinha o tempo. Tempo que não é para marcação de territórios. Eu até entendi. Sim, entendi. Mas disse que eu era daquele jeito mesmo e que não conseguia sorrir a todo momento. Meu sorriso é difícil, e pesado quando sai de mim. A vida inteira fui tratado como o chato. O avesso à normalidade das ações, das relações. Já estou acostumado com esta parte de mim. Enfadonho, avesso, porém observador. Vivi os melhores dias de minha vida sem precisar expôr a ninguém nada e não será agora o momento de mudar de comportamento. A menina do papel, a Emily, entende tudo. É uma moça com a cabeça boa. E agradeci a ela como quem agradece um favor bom. E não era favor nenhum. Era amizade. A aula foi péssima, dor de cabeça, latejando. Faltando uma hora para o fim, saí da sala e fui para casa. Atravessei a ponte e minha cabeça dentro do capacete pulsava. Um alívio quando tirei. Entrei, tomei mais um comprimido da cartela de quatro, e deitei. Pensei na vida que eu levava, no nada que sou perante a mecânica capitalista e formatável que é essa vidinha do mundo lá fora. Aí pensei no passado e nos meus amores. Sim, porque amei todas e só amo uma. E não sei porque fiz este exercício. Talvez tenha esquecido alguma ou outra, sem maior relevância. Foi quando esqueci a dor de cabeça. Fiz uma lista, claro, sem citar nomes...
0) A estrangeira (No fim, apenas mais uma)
1) A santa vagabunda (Muita paciência, mas deu o que tinha que dar)
2) A do 802 da Pituba (Muito sexo e armário de fuga)
3) A galega (Bonitinha, mas ordinária)
4) A das duas noites (Frondosa e sem grades)
5) A moreninha (Luas, baús em miniatura e música noturna)
6) A amiga (Uma...)
7) A pequena (Muita coisa fora do lugar)
8) A da perfumaria (Que boca era aquela!)
9) A de Cabrobó (Vodka e uma tristeza alegre)
10) A beata (Muita paciência e um rio que passou)
11) A das viagens (Viagens, cama boa e música italiana)
12)A Dionisa (Baudelaire e muito vinho)
13) A Escritora (Única...)

doró, e era e só ( Parte I )

Imagem: "Menino", por João Fred.

Hoje, apresento a vocês a história de Doró. Mais uma criação minha, talvez minha melhor criação. Talvez o "menino dos meus olhos". Tenho muitos capítulos já escritos e hoje ele me pediu a vida. Cansou da escuridão das gavetas e do negro dos meus arquivos. Doró ganha vida a partir de hoje e aprende o caminho do mundo. Doró que sou eu, que é você, que é tudo e todos. Um menino que não aprendeu a maldade, que ainda acredita na água cristalina. Um menino que sonha, e só.

I

doró juntava as mãos
numa saraivada de aplausos
toda vez o vento abraçava
a velha mangueira
perto ali quintal de casa
perto ali quintal de sonhos

doró cria do mundo ensimesmado
pensava os seus botões
morenidão
do seu gesticular descamisado
"se mesmo sô do mato bicho levado
e se rio eu sozinho desmiolado
acredite culpa num sofro no fundo
esses homi tudo aconjuntado
rasga de inveja pru mim abençoado
p'essas nuve d'algodão amaciado
p'esses vento de coração lavado"

doró cai cai
e tôma bâi pelado de outras roupa
da alma
quiaqui num tem fantasma na gente colado
feito assombramento do cão

pra bicho grande cassaco foge

e era mesmo dessa maneira o menino
arredio mas bem conversado

esperto doró bicho do mato
via tudo pelos buracos
e tresmalhava tudo pra outras bandas
que não as dele, e era e só

Dedico esta sequência de textos à Letícia Palmeira.

poemas inacabados

Imagem: "135", por CarefulDream.

I

curvatura divina
meus fantasmas imundos
perdidos na alameda falsa
canhões são pétalas
roseiras são diversas


II

improváveis tempos
onde minha desconfiguração
hora de imberbe desfaçatez
cabedal instantâneo de desmarcas


Escrito em 28 de outubro de 2005.