Sou um escritor. Ou melhor: escrevo. Ou melhor: sou um escritor e tenho uma boa e velha máquina de escrever. Salvo os escritores de antes da invenção, para mim todo e qualquer escritor deveria ter uma máquina de escrever. Escritor que não tem uma máquina de escrever não é escritor. Desculpe-me se estou sendo radical, mas é que estamos em agosto e agosto é mesmo um mês de muita agonia. Sem querer pavonear a minha crônica já iniciada, preciso lhe dizer que é muito difícil precisar a data de nascimento desse invento. Mas fiquemos com o nome do inglês Henry Mills em nossa memória. Foi ele que, no ano de 1713, conquistou a primeira patente para algo do tipo. Pellegrino Turri, italiano da mais alta sociedade, também corre por fora nesse dérbi. Em 1808 ele inventou um artefato que só temos notícia, hoje, devido às cartas que ele escreveu para uma amiga cega com quem se comunicava, destinatária do objeto - e pensar que em 1808 ainda estávamos pensando em "independência". Todavia, para não dizer que não falei das flores, um tal de Francisco Azevedo, brasileiro, criou um protótipo que causou um verdadeiro rebuliço na Feira Internacional de Recife, em 1861. Depois disso, surgiram nomes e mais nomes, marcas e modelos distintos, a brincadeira transformou-se em negócio, em linha de produção, e o final da história todo mundo já sabe. Mas não estou aqui para contar a história da máquina de escrever, e sim para contar a história de amor e paixão que tive na adolescência, lá por volta dos meus menos de quinze anos de idade. Lembro que, em minha infância, quando eu entrava numa casa e via uma máquina de escrever descansando sobre uma escrivaninha ou qualquer outro sustentáculo, ficava imaginando "O dono desta casa é um escritor! Olha que máquina bonita!" Era babação mesmo, perplexidade. Ali, ao lado dela, eu acaba idealizando um mundo feito de palavras, um universo de letrinhas que surgiam na folha em branco quando alguém ousasse tocar aquele "instrumento musical". Para mim, os sons que uma máquina de escrever emitem são os mais apaixonantes que existem. Cada um com um timbre diferente, com uma afinação particular. Cada tipo é um acorde único e cada tecla batida é um esforço sentimental do ser humano, revelam um manifesto de desejo e de esperança. Realmente único o tempo de se ouvir. No dia do meu aniversário de treze anos, ganhei minha primeira máquina. Não foi bem um ganhar, mas assim considero. Meu padrinho Tibiro, que já tinha me dado uma bicicleta e um carrinho de controle-remoto, presenteou-me com uma nota de cem reais. Sim, 100 reais! Na época, e ainda mais para um menino de treze anos, era realmente uma fortuna. Disse ele que assim seria melhor, pois que eu poderia vir a comprar o que eu quisesse. Eu tinha apenas treze anos de idade e cem reais no bolso. Bem... vou lhe contar uma coisa, mas não pense coisas acerca de mim. É que naqueles idos a última moda, pelo menos na minha cabeça, era a de matar lagartixas e passarinhos com espingarda de chumbinho, ou de pressão, como preferir. Foi mesmo uma revolução. Eu que tanto atirei pedra com beca feita com galho bifurcado dos pés de planta do quintal lá de casa... pois bem, dito e feito. Eu já sabia o que comprar com o dinheiro que tinha ganhado do meu padrinho: uma reluzente espingarda de chumbinho CBS. Para isso, guardei a quantia até o final do ano. Era quando íamos para o agreste pernambucano, passear e rever a parentada do meu pai. Sabe como é, férias em novas terras... sempre uma novidade. E assim aconteceu. Chegado o grande dia da minha vida! O dia em que compraria uma legítima espingarda de chumbinho CBS. O valor era esse mesmo, não ia sobrar troco. E eu nem faria questão. Meu pai levou-me numa grande loja de departamentos. Certamente, lá eu iria encontrar o objeto que tanto queria. Entrei veloz. Saí pedindo informações "Por favor, onde fica o setor de armas?" Aquilo soava demasiado esquisito para uma criança de recém-completados treze anos de idade. Segui as dicas. No segundo piso, à direita do corredor principal, vislumbrei o balcão de armas. Acelerei os passos sem imaginar que, para se chegar ao balcão onde estaria a minha tão adorada espingarda de chumbinho CBS, teria eu de atravessar antes um corredor repleto de máquinas de escrever. Isso mesmo, prateleiras e gôndolas recheadas de máquinas de escrever, de diversos modelos e preços. Eram de tamanhos e cores e marcas variadas. Quase tive um troço, como se diz por aí. Foi paixão à primeira vista. Eu: uma criança de treze anos de idade e cem reais no bolso que na noite anterior havia sonhado com uma fantástica espingarda de chumbinho CBS. Ela: uma Olivetti Lettera 25 portátil, de fabricação mexicana. Não hesitei. Era amor. Olivetti foi o nome da minha primeira paixão. Naquele mesmo dia firmamos um compromisso para a vida inteira. Não, não restava dúvidas, o que eu sentia por ela era mesmo o amor. Não haveriam palavras que pudessem descrever o quanto eu a amava e o quanto eu ainda a amo. Viajamos juntos para diversos lugares. Juntos, sempre, eu e ela. Uma companheira inseparável - sem falar que ela jamais me decepcionou. E quando fico longe de Olivetti a saudade torna-se insuportável. A bem da verdade é que nunca aprendi a arte de matar. E se algum dia conjuguei desse verbo, fi-lo sem pensar. Eu não seria um bom atirador nem daria para ganhar a vida como atirador de aluguel, comendo calangos, passarinhos ou codornas fritas ao fogo da noite escondida. Ai de mim, Olivetti! Drummond, deixe as formigas em paz!
(04/11/2005)





























































