vida minha minha morte ( XIX )

quinta-feira, 31 de julho de 2008
Imagem: "Morte", por Laruska.

Pessoas matam pessoas, eis uma afirmação.
Tudo certo, tudo errado. Confesso a você que me matou ontem que sou este ser quase desprezível e imprestável perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Lagarta que sou, o vôo parece-me, ainda, apenas um longínquo desejo. Acordo e vou aos lugares e você que me matou ontem sabe bem os lugares que visito. Quando iniciei um projeto de vida com você que me matou ontem, quis mostrar a você que sou um ser desprezível ou quase perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Engraçado como o pensamento toma ares de verdade e consegue alcançar patamares de altura tão elevados. Sem esperar, tinha já eu confabulado preâmbulos também atabalhoados e, por vezes, modulares diante da sua figura que me matou ontem. No meu inventário, marquei com um xis a palavra confiança. Uma palavra que parece ser mais forte que o próprio amor. Mas você me matou ontem e você também sabe que seres desprezíveis ou quase não morrem assim do nada, sem razão menor que seja. Esquece-se que sou uma fênix e que minhas flamas não se avulsam assim. Digo a você que me matou ontem que, caso queira matar-me de verdade, basta algumas palavras e te desejarei um belo resto de vida.
Mot just
Li Emerson e os transcendentalistas. Aquele exemplário de palavras tecidas no texto não são vulgares. Ele sou eu que não sou fraco. Faço o que quero e sou eu. Creio ser sincero e não minto quando sou eu e você você. E a sorte do homem é quando precisa.
- Desse amor minguado eu não quero. Canso de coisinhas. Não sou criança. Escrevo e vivo. Eu sei que tem fal... Tinha coisas. Coisas íntimas. Não me vem com desculpa. Eu não mando em você. A maior prova foi... sei. Não divido palco. Eu não vou perguntar nada. Eu sei. Não sou burra, embora aparente... Se acredito em? Sim, mas mentiu. E isso quebra minha crença. Tudo seu é menos. Nunca explode? Nunca fica com raiva? Que merda de amor é esse? É sempre assim. Sai da conversa. E a culpa é sempre minha. Sempre o mesmo teatro. A culpa é da minha neurose. Raiva, pura e simples. E por que aquela porra te mand...? Fico feito tonta vendo mulher se desmanchando nos seus po... Isso não posso deixar de dizer. "Você escreve com a alma". Você tem poesia nas mãos. Só semi-analfabetas. Significa: Ciúmes de uma mulher que am... Imagino morando com e pregado... Eu tenho direito. Dei tudo o que tinha. Você venceu porque amei você de verdade. Amo. E deixo com você o amor. Vou lembrar...
- Obrigado por tudo. Eu te amo.
"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"
"Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la."
[Carlos Drummond de Andrade]

foi aquele me dizendo

Imagem: "No.9", por Poorchiggies.

este todo-mundo apavorante
sendo o que sou
estando vida embalada
pelo gosto amargo de um trago suicida
absinto
gole do cão e ser sem saber
se sou
estando morto e caído no abismo da má-sorte-má da renúncia
esquecido na luz-lustre de cristal embebedante gole do cão
...
tenho fome sou insone
vagabundo metralhado das letras
ladrão de vidas
(matéria para minhas telas)
sempre
quistas
as vulgares vidas
que mesmo eu vivo
nem tendo nem sendo
o que deveras sou

Escrito em 10 de novembro de 2005.

do verbo poetar


poeta-me, que eu te conjugo!
transfigura-me, que eu te arrebato!
ponha-me de pé, que eu te desfaço!
sou palavra, sou arco
atirado no escuro...

Escrito em 21 de outubro de 2005.
Imagem intitulada de "Pelo chão a poesia", por Anarquistaduvall.

vida minha minha morte ( XVIII )

quarta-feira, 30 de julho de 2008
Imagem: "Layers", por Hantenshi.

Levantei por volta das seis horas da manhã, tomei dois potes de iogurte e fui continuar a leitura de um livro que a Virgínia me deu. É um livro curto, que sou capaz de devorá-lo em uma tarde só. Mas as obrigações que tenho a cumprir nos últimos anos não estão me permitindo uma tarde nem numa noite propícia para uma leitura seguida, sem freios. Nunca mais consegui ler um livro numa sentada só, com fiz como a história da Capitu, do Assis, na mesa da cozinha na casa dos meus pais em Iraquara. Estou lendo de maneira fragmentada, mas ainda compulsiva. Sou doente por livros e quem me conhece parece desconfiar. O livro que estou lendo fala do amor, de um amor diferente e de um amor igual. O título é "Memória de minhas putas tristes", do Gabo. Sim, uma memória no singular, como toda a história, apesar da idéia velha da pluralidade amorosa. Para mim, idéias não envelhecem. E devem ser reconstruídas, sempre. Como a própria idéia, a idéia do amor também é imortal. Mas o homem sim, o homem morre. Morre de várias mortes. Morre em vida e na própria morte, seja do corpo ou da alma. Mas a idéia do amor não falece, como o amor. Estou lendo calmamente, devagar, como quem degusta um bom vinho tinto. Sentindo o deslizar da personagem sobre as lâminas do sentimento-mor. Gabo mata o amor no homem e recobra-o com outro amor, força geradora da vida. O motor que faz a vida, mesmo quando quase impraticável. Mas essa é uma análise romântica e imatura ainda. Preciso terminar de ler o livro para, quem sabe, não me sentir tão decrépito assim... ou não.

da força de um canto


canta, canta, canta... e s'encanta
pois cantar, grand lugar
d'eloquência é sopro
da alma, efervescência
quando se tem esperança
tanta

quem não canta, alegria espanta
e vive eterno a conhecer o escuro
não sei se posso, meu canto impuro
é dança de copas: pobre planta

e é semente, que de mim germina
doença que me corrói, maltrata,
um sufoco escuso que não termina

que reluz como ouro, e não prata
o encanto é arte madura;
espelho de mágica visão
e cura

Imagem intitulada de "Love Season is Coming", por The White Night.

reticências



qual o peso das certezas
que carrego nestes dias
de luto interior
em que me destituo
do que sou e estando
o não-ser me desconfiguro
como quem perde a face
diante dos diamantes?

Escrito em 05 de outubro de 2005.
Imagem intitulada de "La certeza de no ser", por Nargothround.

vida minha minha morte ( XVII )

terça-feira, 29 de julho de 2008
Imagem: "The sea keeper", por Dianora.

Hoje não quis ser o que fui.

caxixi agogô roncô, neguinho!, vai

Imagem: "Negro", por Alholic.

vai neguinho
desce o morro pra cidade santa
traz tua manta
escura e mancha o que for
incolor neguinho vai
ataca a classe e toma banho de mar
mar que é mais teu
mar que é mais teu
vem neguinho vai
de cima pra baixo sobe na vida
vem voar vai voar
teu céu
vem ser verso de Solano
vem imerso vem avesso vem excesso
vem sem essa de não ser
vem com essa de querer
vem neguinho vem
vem buscar o que é teu
chama a tua gente e faz da gente
espelho e sangue teu
chega de sofrer de beber a água amarga
chega de não ser neguinho chega
mais pra perto vem incerto vem
certo que você pode e vai também
vai neguinho vem

"Lincharam um homem/
entre os arranha-céus/
(li num jornal)/
procurei o crime do homem/
o crime não estava no homem/
estava na cor de sua epiderme..."
(Solano Trindade)

o egoísta ecce homo

Imagem: "Mudo", por Death Itself.

não fugiu o mundo
era tão grande era tão
romântico o mundo e tão
marginal era ele
não fugiu quando era possível
quando havia ainda a escadaria
não fugiu não escapou do mundo
tão grande tão grande
e agora o caminho que ele segue
o destino suspenso gradual
do fim
o cambiante final da história
amarga e sádica história
do final sem fim
não fugiu suas mãos
eram tão fortes tão divinas
não afrontou a realidade tragável
e agora destroça-se amavelmente
olhando em si o traje puído
a indumentária da pele de palhaço
irreconhecível perdedor andando
e conhecendo e engolindo
a sua remordida desgraça particular

vida minha minha morte ( XVI )

segunda-feira, 28 de julho de 2008
Imagem: "Intravenosa", por Woda.

Hoje deixei a álgebra e os cálculos em paz. A matemática de minha vida tem sido dura comigo em alguns sentidos. Em outros, consideravelmente mais dispensáveis, leve e acolhedora. Não desejei fazer conta de palavras. Deixei tudo nas mãos do tempo que passa mudando tudo. Vi que preciso repetir isso mais vezes. Tentar explicar ou pedir explicação pode causar incômodo ou mudar a rotina dos ventos. Eu tinha ouvido conselho sobre isso. E, como sabem, mudar é bom, mas nem sempre. Firmar teu pé no chão de alguma coisa e ir no profundo daquilo é um sinal de força. Radicalismos à parte, ir nas funduras das coisas é sempre mais gostoso. Já perdi muito tempo nesta vida tentando comentar meus crimes mais perfeitos. Hoje, com vinte e quatro anos e dezesseis dias de vida aqui na Terra, sou outro. Ainda repleto de falhas e fraquezas, mas outro. Para que servirá eu medir a onda do rio? E a tinta da mão? Ou a finura dos biscoitos? Melhor deixar o rio transbordar de qualquer coisa, sempre. E viver melhor do jeito que se sabe. Nunca me apeguei aos números, e não será agora que irei render-me a eles. Prefiro mil vezes a poesia torta de meus dedos. Ah, e como prefiro...

sobre o chão

Imagem: "Craters of the moon", por Milkboxer.

todo o quadro simula
o repouso
a multidão tamanha
tamanho imenso
paredão que me destoa
do resto o impulso que dou
é queda na hora
em que me saio distante
a gravura
que me é figura
arte e luz
fica no que marca
o ditame do meu eu
um pincel morto
meu realismo vivo
de dor
de dia

Buena Vista Social Club: um texto

Imagem: "Cuba", por Moonamorbueno.

Resistir como símbolo maior da perpetuação de uma vida, de uma história -nesse caso, de várias vidas e de várias histórias. A música serve para isso? Em se tratando de luta, um território propício ao uso de tal termo é o cubano. Distante pouco mais de 150 quilômetros dos Estados Unidos, o único país socialista do continente americano foi o palco principal para a realização do documentário "Buena Vista Social Club", que tem como diretor o consagrado Win Wenders, mestre na arte de documentar. O filme, que contou com cenas gravadas em diversos países, tais como Alemanha, Estados Unidos e França, além da própria Cuba, alcançou posição de destaque nos festivais que participou, levantando o público e obrigando loas quase que intermináveis em grande parte das platéias. Mas, até onde o poder da manifestação artística pode chegar? Até quando a melodia de uma música enraizada, como é o caso da que o grupo musical retratado faz, pode soar mais forte que os clangores e estalidos metálicos do espectro cultural regado ao artificial e gratuito do mundo em que vivemos? Quais os limites ou as fronteiras da música, da boa música? Certamente, após assistir ao documentário, que possui 101 minutos de duração, fiquei com a nítida impressão de que para a música não existe barreira, que nada ou quase nada é capaz de impedir que a produção do som reverbere uma vibração de ordem construtiva ou destrutiva. E o melhor de tudo é perceber que a música também ultrapassa as trincheiras do tempo, tendo em foco que os protagonistas do evento estavam com idades entre os setenta e os noventa anos. Indubitavelmente, uma espantosa e, ao mesmo tempo, deliciosa redescoberta de toda uma geração de grandes músicos que, enfrentando inúmeras dificuldades, conseguiu abrilhantar novamente os campos da arte musicada. E o fizeram com muito orgulho e acurácia. O recheio de tudo isso é uma grande história de amizade e companheirismo, assim como de batalhas e conquistas. Luis Barzaga, Joachim Cooder, Ry Cooder, Julio Alberto Fernández, Ibrahim Ferrer, Carlos González, Rúben Gonzalez e mais outros vários componentes, acabaram registrando ao mundo uma marca que, precisamente, ficará para a posteridade. Tudo começou quando, no ano de 1996, o guitarrista Ry Cooder produziu um disco intitulado "Buena Vista Social Club", onde colheu e armazenou recortes de velhos temas da música cubana. Não demorou muito e o disco foi premiado com um Grammy. Pronto. A tenda já estava aramada, só faltava reunir o "pessoal". Essa reunião também não tardou muito e, logo em 1999, o grupo foi convocado a reviver o passado, revelando ao mundo todo o "desencadeamento e desenvolvimento" do "Buena Vista". Wenders passeia por Cuba, revelando em cada nova cena um retalho de uma antiga e demorada história de isolamento e resistência. A sociedade cubana, o seu atual estado, a sua população que carece de muitas coisas, o sentimento mesclado de fúria e orgulho que marca os semblantes das pessoas de uma geração que permanece à margem do progresso global, também são personagens contundentes e sufocantes do documentário. Um projeto onde os músicos não apenas contam suas histórias particulares, mas a de toda uma nação, no mínimo, classificável como diferente das demais. No entanto, culpa-se "Buena Vista" de ser um material extremamente reacionário, profundamente ideológico e que, de alguma maneira, tenta vender o modelo de vida norte-americano para o restante do planeta. E a bem da verdade é que não tarda muito para que percebamos as suas "questionáveis" intenções. Tenta-se criar uma atmosfera cult sobre o filme, localizá-lo como manifesto social preocupado em retratar a realidade daquele determinado país, de colocá-lo como um produto do gênero alternativo, entre outros mecanismos. Todavia, o que se vê são recursos até certo ponto medíocres e banais, que só ajudam à elaboração de mais pareceres polêmicos. Outro ponto a se destacar é o fato de que Ry Cooder é americano e não um cubano. O "Buena Vista Social", que é o nome de um antigo clube em Havana, foi descoberto pelos americanos - e aí você pode imaginar as consequências várias de tal afirmação. Tudo está envolto numa densa cortina de fumaça. Porém, a tentativa de fazer um cinema transparente é logo destruída e, por certo ponto de vista, até facilmente. A recompensa para tanta exposição e tanto talento e tanto trabalho estaria em uma apresentação no teatro mais famoso do mundo? Foi isso que, numa análise muito pessoal, foi a mim passado. Sem querer esquecer, é preciso refletir também sobre o deslumbramento dos músicos cubanos quando estão passeando entre os gigantes edifícios de Nova York, já no final do documentário. Não é um cinema experimental, talvez seja a frase mais cabível para uma produção como essa que, mesmo tão discutível, apaixona os amantes da boa música e, porque não dizer, os amantes do bom cinema. Cinema verdadeiro ou não, a conclusão deixo na mão de vocês.
Escrito em 02 de junho de 2006.

vida minha minha morte ( XV )

domingo, 27 de julho de 2008
Imagem: "Each time a new birth", por Reluctant God.

O diabo abre a voz quando o dia nem acorda e esnoba um pensamento. Não existe paixão nesta vida, ninguém pode, ninguém deve. Não há possibilidade, não se pode tecer esperanças. Iludido é o homem que crê no amor, ainda que fraco. E as palavras do diabo são flores evasivas, não são flores melíferas. Nenhuma abelha, nenhum pólen. Sem saber o diabo que o mel demoliu a palavra. Acordo cedo, leio, como, bebo. Minha escrita vem depois de tudo, após sentir o clima do dia. Não redijo mediunidades ou lampejos sem céu pertencido, ainda que só tocados de leve. Acredito no tempo da palavra e em tudo o que o diabo se intromete. Não, eu não quero muito. Quero o pouco que me transforma, que me transporta. Quero o céu que é meu, o meu pedaço. E acredito na mão que, sem cerimônias, ama o outro. Ela tem uma amiga quase irmã que defende a teoria do encontro. Para ela, a felicidade é apenas mudar. Mudar com calma, mas mudar. Falei que a hora é a maior dor, que o tempo é longe e é tão perto do sofrer do peito. Disse ela que tudo um dia muda e a felicidade sonhada acontece. Aí pensei ser esnobe a ilusão de não crer que a vida é feita do apaixonar-se. E vi que estava certo o velho que passa. Triste é não ir.

frutos partidos

Imagem: "morango", por Robsberto
velei o corpo do teu morto
argumento
teu crime imprimiu em mim
padecimento
nunca quis você assim
entendimento
vou morrer também
acolhimento

o silêncio das agulhas ( Parte VII )

Imagem:"Pentru cand mi e dor de tine", por Lady-mon.

Querido Escritor,

E se fez inverno em nosso tempo. Sim. Inverno e bom tempo. Assim lembro do Quintana, assim lembro de você. Lembro dos dias de olhar o céu como se tudo a ele fosse possível. Mas nada chegou a mudar. Céus são possíveis, mãos são possíveis e já chega o silêncio dos que dormem. Você dorme, escritor. Eu escrevo. Ainda permaneço de ponta cabeça, como se costuma dizer aqui. Nasci naquela cidade cinza - hoje prefiro o verde destacado dos jardins. Espero. Sei esperar. E você, aprendeu a esperar? Aprendeu a prender fôlegos? Eu aprendi. Aprendi lendo a Adélia Prado. Ela não fecha a boca enquanto não termino um verso. Como se faz verdade nossos dias. Como se torna inteira a metade. Como se torna forte a vontade da hora. Como se torna verdade o escrever.

Ainda no mesmo livro,
Virgínia.

PS.: Tudo se faz tempo. Tudo se faz você.

**********


Sim,

O tempo é mesmo um temporal. Ele muda e acaba mudando a gente. Aqui fez bastante frio por um tempo, mas o sol já raiou bonito outra vez. Eu gosto do tempo frio, sempre gostei. Lembro minha infância na cidade pacata onde cresci, hoje uma cidade metida a besta. Na verdade, sou um humano pulverizado por reminiscências. Vivo delas e limpo-me delas constantemente. Mas esquecer é também lembrar, você sabe disso. Todos sabem. Lembro de tudo e não esqueço você. Lembro também, porque você sempre será aquela perdida em meus braços. E não adianta, você levou o firmamento daqui. Hoje me alimento do passado porque o presente é ralo e gratuito. Fui fraco, estou fraco, me rendi ao desespero, vivi, mas luto por você. Meu sono é para o sonho. Se durmo é para te encontrar, dimensão outra que tu és. Meus olhos fechados e tristes são lâminas contra a covardia de amar o que não posso. Aprendi com você a esperar a hora certa. Você me ensina o mundo, e eu aprendo a fome. E nossa hora é a melhor.

Sim, a mesma página.

Em estado, Cádor.

Virgínia Borges é Letícia Palmeira.

Anderson Cádor é Germano Xavier.

vida minha minha morte ( XIV )

sábado, 26 de julho de 2008
Imagem: "The dream", por Alex C86.
Eu tenho medo de mim. Tenho medo porque não sei tudo sobre mim. Desconfio que muito de mim ainda não aconteceu, que muito de mim ainda vive dentro de mim, em sono. E cada dia é um novo susto, um novo espanto, um novo ser. Quando penso que tenho já pouco a aprender sobre as pessoas, sobre o mundo, vem alguém mais louco que eu e me diz ineditismos. Quase todo um dia investido em leitura e estudo não me diz nada sobre quem sou realmente. Mas a noite sempre vem clara de ensinamentos. A mulher que amo bebe comigo o líquido azul. E eu sei que aquela voz não é somente uma voz. É alguma coisa acordando em mim.

um não-rímico experimentar

Imagem: "Alquimia", por Querberos.
(...)
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido.

(Ana Hatherly)

se não posso com a realidade
que foge
escrevo fantasia

minha nova consciência
é consciente
e demente

se sou não sei
se vou não sei
minha linguagem é o presente

recuso o uso do estabelecido
porque já fui e não sou mais
porque fui e vi minha mudança

e se não posso com a fantasia
de tal modo tão fugaz
condeno-me a mim mesmo e realizo meu inconsciente

post-mortem

Imagem: "the past", por Imnadie.

quando eu morrer
que me enterrem pra vida

vida minha minha morte ( XIII )

sexta-feira, 25 de julho de 2008
Imagem: "help me", por Mirculinu.

O dia de hoje, dia vinte e cinco do mês de julho do ano de número dois mil e oito do calendário gregoriano, foi marcado pelo fim de mais uma tentativa. Não que eu esteja triste, pelo contrário, encontro-me muitíssimo feliz, principalmente por haver tentado. Mas é que eu tentei na esperança única de dar certo, de ajudar o outro, com o mesmo sentimento de quem ajuda o mundo a ser mais humano e menos pesado. Por motivos simples, porém conflituosos, a tentativa passou de conquista e confirmação para um esboço e um "quem sabe, num outro momento". Sem mágoas no coração, de nenhum dos lados, a vida segue seu caminho. Do meu lado, continuo o mesmo aspirante a realizador de sonhos que sempre fui. Não obstante, o sol apareceu radioso e vivaz. Parece ser o fim também daquele friozinho que cobria nossas pegadas ultimamente. Destaco também a boa aula do professor Edimar sobre a relação existente entre o poder e os diversos tipos midiáticos. Ele realmente conseguiu mudar pré-conceitos e paradigmas criados por mim. Mas, do que somos feitos senão de metamorfoses constantes?! Eu mudo, tu mudas, ele muda, ela muda, nós mudamos, vós mudais, eles mudam, elas mudam... E, assim, a vida segue seu caminho.

a orgia

Imagem: "Un fantasma", por Carito.


o inútil de cada um está
na hora patética está
n'aurora morta
da hora derrotada
seminal hora
o inútil de cada um está
no agora refugiado
no gado que somos
o fruto podre
a maçã vencida
o inútil de cada um está
no veludo impuro
da vaga seresta
na tristeza sofisticada
na boceta malamada
o inútil de cada um está
no quadro enquadrado
do choro frequente
na mente demente
no gozo guardado
o inútil de cada um está
no abuso do piano
da rua depravada
na rua sem alma
sem história e delicada
o inútil de cada um está
na cidade esnobe
na aristocracia amorosa
do casal esquecido
do amor impossível
o inútil de cada um está
na covarde boca
sem voz sem língua sem nada
de ferir de bombardear nada
absolutamente nada
o inútil de cada um está
na velha marafona que existe
na moça feliz com tão pouco
iludida bambina traída
pelas ilusões de cor
o inútil de cada um está
no embasbacamento alheio
de quem assiste sentado
de quem fica resfriado
de quem não sabe andar
o inútil de cada um está
na improvisação como fim
na guerra na luta de classes
nos classificados do jornal
na criança morta do nada
o inútil de cada um está
na impiedosa riqueza áspera
no falsete harmônico no canto
sem encanto jogado ao léu
no céu com véu sem mel
o inútil de cada um está
na província tão capital
no capital tão desigual
no mal sem sal das pessoas
na estação de tratamento do ideal
o inútil de cada um está
no incauto recém-chegado
no funcionário público
no público sempre alvo
do escatológico estado
o inútil de cada um está
no partidarismo sem lei
no condomínio cercado
no automóvel refrigerado
na cafonice das gravatas
o inútil de cada um está
na natureza doente
nas bengalas nas macas
fofas das salas de estar
do gordo homem magro
o inútil de cada um está
na pajelança imaginária
nos anexos nos apêndices
nas mordaças nos martírios
nos patrões nos empregados
o inútil de cada um está
no celibato no fanático
no padroeiro pra tudo
no tudo pra nada
no tudo pra nada

na vida pra morte

vida minha minha morte ( XII )

quinta-feira, 24 de julho de 2008
Imagem: "Só pro meu amor passar", por Fegafa.

Hoje fui amor total.


duchamp não vence beuys

Imagem: "broken", por Freexel

quebra o pote
o lote aberto do dia vivido
e prega na parede dum museu
que tudo é todo
mundo pode
todos nós somos artistas
habilite-se vivendo a si
de si e sobre
mesmo dentro ou fora
para dentro ou para fora
pára fora ou pára dentro
comunicar é fascinar-se
e um pote no chão não é
apenas
à duras penas um pote no chão
é antes a consagração do signo
a criação
mas primeiro quebra o pote
a ordem da forma
lunar
quebra o pote, quebra o pote
empenhado no escuro indiscernível
pois é indo e vindo
ao pote
que o caco adere ao outro caco
e toda criação vira destruição

do existir da verdade


Ao amigo Marcos Vinícius

dúvida... neste oceano escuro navego,
sentindo o desesperar das águas;
um turbilhão de almas!, dilaceras
o pulmão do meu rosto?... te nego!

sou carne, fraqueza e inutilidade,
choro, lástima em fúria insana,
asas pesadas em nuvem plana:
reles ser em tão imatura idade!

a ida me é porta, tento fugir...
pois se fico me porto desastre
e castração, pobre e infame contraste

de quem um dia sonhou seguir.
quem sincero verdade quer, esquece
digno e justo de que só o verdadeiro não falece.

Escrito em 06 de outubro de 2005.
Imagem intitulada de "Traumerei", por Vampire Zombie.

vida minha minha morte ( XI )

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Gosto de olhar para o rio quando ele fica verde. É como se ele dissesse "olhe, estou quase da cor do teu olhar." O rio está presente em mim, e sempre sonho morrendo nele, um dia, morrendo, caudalosamente morrendo. Silenciosamente morrendo, como se morre com a bebida de Dioniso. Morrer para viver. Acredito. Morrer para viver, acredito. A bem da verdade é que não tenho o verde ocular tão claro quanto o verde do rio, mas na luminosidade da metade do dia, meu olho quase que se transforma - ou seria transporta? - num pedaço d'água do São Francisco e se inunda dele, nele, como se os dois estivessem a combinar um encontro nada casual. Quando atravesso a ponte, é como se o rio me permitisse a passagem para um lugar belo, onde tudo seria naturalmente leve e verdadeiro. Não quero aqui entrar em maiores explicações, mas hoje não olhei para ele como quase sempre faço, namorando-o. Eu quis assim, jamais sendo indiferente a ele. Mas percebi o verde bonito de tuas pequenas ondas. Foi o bastante para que minha alma fosse abençoada. Não é bom perturbar sempre os deuses assim, de forma tão gratuita, ainda mais quando estão em suas sestas acobertadas pelos dourados raios de luz do astro-rei. Estou melhorando comigo mesmo. Todo dia faço questão de me matar e todo dia faço questão de nascer de novo. Estou gostando dos resultados. Quem sabe eu esteja no caminho certo. Se não, tenho uma certeza: a de que estou no bom caminho errado. E, de uma forma ou de outra, sigo tentando...

Imagem intitulada de "River Fishing", por Avotius.

cuisine d'instinct


A Othon Ledoux, in memoriam.

um homem pode ser
feito das partes
que conhecemos,
ou das partes ainda
inéditas. há sempre uma
parte de nossas casas
que nos pertence mais.
há sempre um lugar onde
descansamos melhor,
onde vamos - e só vamos? -
ou nos recolhemos para morrer
nas águas fundas da paz.

Quando a existência dum livro ressuscita uma vida em sono.
Imagem intitulada de "Percepcion", por ChrisT Blood.

sobre cordas e pulseiras


"Círculos de ar e gigantes clareiras nos bosques. Buscamos e não paramos de caminhar. Noite e dia, céu e ventania, caminhamos sempre em busca. Mas o que estamos a buscar? Talvez fontes ou a natureza sem aflição. Talvez os desenhos antigos ou as maravilhas que se escondem dentro de nossos armários. Temos essa cegueira branda, mas um dia veremos que belo mesmo é o sorriso nosso em frente ao espelho."

(Letícia Palmeira)

O amor é plural, mas eu quero o amor singular. Aquele amor que é único e somente existe porque existe. Aquele amor que seja para sempre porque o sempre é apenas um segundo. O amor é plural, mas eu quero o sentido sincero da parte que nos cabe. Não é preciso muito para sentir a vida pulsando o pulso frenético da vida na hora de quando se quer. O amor dispensa o dispensável, formula o informulável, destrói o indestrutível, caminha sem caminhos, desbrava o bravo habitat inabitável, e é por isso que faço dele, esteja em que latitude estiver, a inútil-útil busca dos dias que são meus.

Imagem intitulada de "Tulpe XI", por Green Music.


vida minha minha morte ( X )

terça-feira, 22 de julho de 2008

A tradução é um ato impossível. Shopenhauer estava certo quando disse que "todas as traduções são necessariamente imperfeitas". Os homens, nós homens, estão, diariamente, tentando fazer alguma espécie de tradução, sem suspeitar que estão apenas correspondendo palavras e idéias, e não unindo os sentimentos na direção da vida em liberdade. Eu fico aqui pensando com os meus botões se é mesmo possível interpretar sensações ou fugir da naturalidade com que elas nos chegam. Não seria melhor abrir o peito duro e permitir a entrada do vendaval da poesia da vida, sem mentir algum discurso inacabado ou manipulado a nós mesmos e por nós mesmos?

Na sala de aula o professor não sabia onde estava. Eu não sabia onde estava, nem onde estive. Amanhã, quem sabe eu me encontre, porque hoje não posso mais...

Imagem intitulada de "Feather in the sand", por Rain Man.

pétala rosa branca


saberia que podia voar alto
se estivesses do meu poema.
como afugentar tua presença,
longo olhar, instinto e cria?

teria luz própria, estrela eu?
tocar-me, assim minh'alma...
a chuva, o vento, os dias,
meu mundo, teu mundo: a vida!

queria tua lepidez instancial,
veraz a nota de soar luzidio,
de apego grácil. um náufrago,
eu?, mero abúlico ser mortal!

trigueira branca feminina!
içar as velas, ao mar. amor
na proximidade distante e cega
de um amor-amigo conquistado...

Escrito em 28 de abril de 2005.
Imagem intitulada de "Dois tempos e o Mar", por Helena Bellamy.

vida minha minha morte ( IX )

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Hoje minha vida só não passou em branco porque tenho longe algum sentimento que não morre. Algo muito longe e muito perto que não sei bem explicar, nem quero. Estou aprendendo que é bem melhor não ficar dando explicações a toda hora. A Emiliana hoje me deu algumas dicas preciosas de como fazer para não se perder mais e mais em si mesmo. No que concerne ao resto do dia, só mesmo uma ponte rotineira, alguns pensamentos na cabeça e muita vontade de seguir escrevendo. Muita vontade mesmo...

Imagem intitulada de "Envelope", por Reface.

ao mar dos teus olhos


deitar, e estar-se preguiçosamente
atracado em teus portos sombrios.
olhos teus, fugazes âncoras e brios
quando do teu corpo e de tua mente.

do teu lado, viajo à velas; ventos
que me arrastam das trevas.
sinto você - cândidas quimeras
a estreitar a face dos meus lamentos.

tu que tens a vivaz força do tempo,
iça-me, perdido que estou a ser,
sendo o não-estar, o não querer

em curvar-te a ti, meu sofrimento.
o soçobrar sem ter-te, tendo o sido
estar contente, oceano em mar perdido.

Escrito em 18 de setembro de 2005.
Imagem intitulada de "Similes", por The River XV.

vida minha minha morte ( VIII )

domingo, 20 de julho de 2008

Ao vencedor, um tempo inteiro de noite com direito a um desmoronamento psicótico sem retorno. Ao vencedor, o postiço e inverídico adágio do velho amor que não machuca. Ao vencedor, a magistral essência daquilo que te engole inteiro como um bicho famélico, colérico e já sem esperança pelo bem. Ao vencedor, o espartano avanço da tropa que esfacela a alma já esparsa de sentimentos. Ao vencedor, toda uma logosfera austera imputada ao vermelho mais sanguíneo, mais sanguinário. Ao vencedor, todo um deslinde esmiuçado ao fervor de um esquartejamento de carnes fervoroso, úmido, que esculpe um novo homem em pedaços partidos. Ao vencedor, o cerceamento inextrincável no corpo todo de um redil guardando as ovelhas desgarradas de um só pastor. Ao vencedor, a intervenção das armas no peito aberto e marcado pelos mísseis sentidos. Ao vencedor, toda a labialidade do arauto que traz no pergaminho a mensagem das horas finais. Ao vencedor, o morango amargo que alegoriza qualquer desfecho sem final. Ao vencedor, as honrarias da desgraça da condição humana de se sentir fraco diante da solidão. Ao vencedor, o desatrelamento salutar de si para si mesmo como forma de beijar a totalidade vital. Ao vencedor, o bem e o mal. Ao vencedor, a agonia de ser. Ao vencedor, a nódoa na manga da pele que envelhece. Ao vencedor, a justiça dos anos dos naufrágios, das catástrofes interiores, das guerras sem veneno. Ao vencedor, a paulatina e angustiante despaz do corpo. Ao vencedor, as saudades do cheiro que você sugou como quem estivesse sem o ar da necessidade. Ao vencedor, o gatilho que apunhala, a foice que abocanha, a guilhotina que tece a lógica do caos. Ao vencedor, o choro sem vergonha. Ao vencedor, o escatológico ambiente de lamber o prato. Ao vencedor, um mundo inteiro de inverdades. Ao vencedor, a atitude de flanar sem rumo, o espelho do desgoverno, o afluir tempestuoso, o desbunde sem valor, a margem marginal. Ao vencedor, nenhuma cara, nenhuma vaga normalidade, nenhum agasalho contra a madrugada que mata de inércia e falta de história, nenhum, nenhuma. Ao vencedor, a certeza de que você não é nada, nada, nada, absolutamente nada. Ao vencedor, a dúvida de que você pode tudo, tudo, tudo, absolutamente tudo. Ao vencedor, a certeza do único jeito no ombro pintado de uma mulher. Ao vencedor, as batatas humanitistas da doída filosofia de sonhar, de sonhar, de apenas sonhar...
Imagem intitulada de "Let's Draw Love", por Fresh Cherry.

a espera


de tanto esperar se atreve
o homem o atrever-se na espera
tombo a redobrar-me na esfera
do tempo, que se faz de breve

vivo, a vida é fria amplitude
quando se quer a eternidade
desejar-te serena, ansiedade...
mudo estandarte d'atitude

e eis que troto minh'andança
na simples espera d'encontrar-te
minha, fina flor d'esperança

a germinar. oh, campos de marte!
long'estás, fugaz suspiro. desencontro
o querer ter-te a vir d'encontro

Escrito em 19 de setembro de 2005.
Imagem intitulada de "La espera", por "Nicte Arg"

vida minha minha morte ( VII )

sábado, 19 de julho de 2008

Algumas coisas ficam conosco para o resto de nossas vidas, como aquele suvenir da infância que nos preencheu alguma falta depois que nos faltou durante todo o dia alguma espécie de ornato para que o dia fosse também mais colorido, ou como algum instante de luz maior que a própria claridade natural quando resolve fugir e ser apenas penumbra. Hoje tive a sensação única da totalidade de mim, mesmo sabendo que ainda não sou só isso. Arrisquei o caminho da rua noturna, desafiei os fantasmas da rua e caminhei em direção ao meu fantástico paraíso. Meu porque só eu posso visitá-lo, meu porque só eu tenho as chaves dos portais que dão para a morada dos deuses. Sem grandes alegrias no quarto onde recobro minha consciência diariamente, encarei a rua da minha loucura. E, confesso, não me arrependi.

Imagem intitulada de "Passeio à Noite II", por Lady Georgie.

vida minha minha morte ( VI )

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Até quando precisarei do doce artificial que a vida me proporciona? Até quando não conseguirei vencer minhas vaidades? Até quando me portarei fraco diante dos verdadeiros medíocres? Até quando? Acreditar que a morte é a superação da dor talvez não seja a melhor escolha. Talvez não seja, talvez...

Imagem intitulada de "Fuera de Tono", por Pamelita.

tsi, tsi, tsi


A Renê Salomão

Como diria o Max Nunes, este realmente seria um daqueles "tipos inesquecíveis". Sob o ponto de vista moral era, sem dúvidas, quase mais limpo que qualquer folha de papel em branco. De inteligência era tão redondo quanto as linhas de um velho fusquinha. Minucioso como um vendedor de imóveis talvez não fosse. Todavia, deveras seria ocupado como telefone de bicheiro.

O conheci embaixo de uma árvore, que já não existe mais. Não era um juazeiro, mas era uma árvore numa avenida de Juazeiro. Seria o primeiro dia de aula na faculdade de jornalismo. Percebi a sua chegada. Silenciosa chegada. Um de costas para o outro. O calor era muito. Ele levantou e veio até mim. Aproximou mais. Lembro que carregava uma garrafinha de água mineral em uma das mãos. Eu tinha acabado de ingerir duzentos mililitros de iogurte. Éramos dois sedentos. Com sede, certamente, de conhecimento. Senti que ele queria iniciar uma conversa comigo, e foi justamente isso que aconteceu.

"Boa tarde, tsi, tsi, tsi. Você também é calouro, tsi, tsi, tsi?"

Confesso que não entendi o código que ele usava sempre no final das suas falas. Imaginei que ele poderia ser um extraterrestre disfarçado de ser humano, e que estaria aqui para me levar para o planeta onde se falava a língua TSI. Perguntei, curioso com a situação:

"Como você se chama?"
"Bom, na verdade eu me chamo Renê".
...

A conversa começa a se desenrolar. Porém, eu ainda não conseguia decifrar o significado de um tsi nem de dois tsis, tampouco de três tsis. Disse que era de Salvador e também que estava procurando alguém para dividir as despesas de uma casa.

O jeito dele de andar era meio que desconsertado, mas o rapaz (um possível extraterreno?), estava sempre feliz. Sorria e fazia os outros sorrirem. Imaginei que estivesse mentindo, e que o lugar de onde viera, na realidade, tivesse o nome de Sorriso.

"Tsi, tsi, tsi..."

Onde estiver, Renê, que sejas tu muito feliz!
Escrito em 18 de novembro de 2005.
Imagem intitulada de "La lengua y el idioma", por Alipants.

vida minha minha morte ( V )

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Minha angústia de quinta foi a mesma de quarta, apenas amplificada. Continuei a refletir sobre a minha inumanidade e na humanidade dos homens - se é que tal virtude já existiu. Pensei se ainda há em mim um resto que seja de infância e não cheguei a nenhuma conclusão. Hoje, longe do quintal fantástico da casa onde cresci e vivi a plenos pulmões até perto de meus quinze anos de idade, surgem certezas, num primeiro momento, desanimadoras. É quando eu me pergunto onde ficou aquele corredor interno onde eu chutava bolinhas feitas com papel amassado enrolado em meias velhas e furadas de um lado para o outro com o meu irmão mais velho; quando me pergunto onde guardei todos aqueles caminhos bem sinalizados das estradinhas que eu mesmo fazia com giz ou caco de telha quebrada para logo depois começar a carcomer a pele de meu joelho de tanta alegria e euforia pela tarde inteira que deus me dava; quando me questiono sobre aquele menino tão cheio de sonhos e fantasias, procurador de coisas para inventar entre os ferros retorcidos e as geringonças quebradas no quarto das bagunças; quando me interrogo sobre os muros que tanto quis pular e pulei; quando tudo vem e o baque é tão grande que a gente precisa segurar firme no corrimão para não tombar pelos degraus da nova escada... Pergunto-me se me fizeram o animal que hoje sou, ou se eu já era assim pré-determinado. É que a gente sempre corre contra o tempo, mas ele sempre nos espeta a pílula da metamorfose. E, no meu caso, o efeito parece que ficou pela metade. Devo acreditar que sou uma criatura em processo, que atravesso um período alguma coisa parecida com o que costumam chamar de transformação. Eu tenho medo porque li Kafka e sei das consequências de uma mutação não desejada. Porque uma coisa que quero nessa vida é não incomodar as outras pessoas, ou incomodar pouco. E quando aqui me recolho para mais uma reflexão, a cadeia da contradição se alastra em mim, porque eu gosto de ler, escrever, do silêncio, de não ir, de não falar, de observar, e de outras coisas que só sabem ser agentes perturbadores. Minha forma de ser e de agir na maioria das vezes não passa despercebida. E pronto, turbilhão vivo! É o momento de exorcizar os demônios e tentar seguir em frente, porque obtive nítidas confirmações acerca de minha animalidade gentil. O certo é que hoje, depois de muito pensar e especular, minha vida passou despercebida, ao menos para mim.

Imagem intitulada de "Another Place", por Mamazmeilor.

somos existenciais existências e um pedido


Para Sartre, com amor.

Eu disse no passado no trancar de portas giratórias. Disse que um dia escreveria um poema nascido e imerso como a noite e estrelas que mudam e a lua que reascende olhares. Eu disse que faria. Eu disse que seria de verdade. Histórias comuns não nascem de mim e mentiras comuns envelhecem. Nós não envelhecemos. Ao som, no escuro, fizemos poema e poema fere as mãos. Por mais suaves - ferem. Você me fere e corrige orações com corretivo escolar. Pastas e letras suas e você escapa de mim e sorri como criança. Ama como um monstro puro e acorda em espanto porque sou eu, hortência e não uma flor qualquer. Não me vingo. Atinjo e deixo você ser segredo. Saio da estante. A Emília ganha vida. Sou Clarice buscando ajuda. Tenho amor e tenho barcos, planos e a Índia ao nosso lado e você me tortura, mas eu disse que escreveria um poema. Saio do encanto e a verdade é sempre mais. A literatura brincou de nos achar. Agora somos o veneno da madrugada e os melhores contos que não escrevemos juntos. Meu poema foi escrito.

São os detalhes que nos fazem sentir pavor. Aprendi Teoria do Conto, li poemas inéditos e dormi ao lado de deus.

**********

Senta aqui do meu lado, senta. Que nossa individualidade deve ser respeitada. O teu ser diz que me quer, o meu desce a ladeira num carrinho de rolimãs. Desce só para te ver mais de perto. Senta aqui do meu lado, senta. E sinta o que sinto, nossa inumanidade é tão humana! Eu existo com você e depois a gente calcula todas aquelas contas. Depois a gente se desgoverna porque eu quero ser teu governo e você também quer morar em mim. A gente deixa para medir as essências no fim, quando a lavoura já estiver maltratada pelo estio dos anos. Senta aqui do meu lado, senta. E me diz uma coisa bonita para eu dormir sossegado no chão mesmo. A minha pré-definição é você, por isso sou tão sem saber de mim. E diz que minha responsabilidade agora é a de construir passarinhos e a de aguar nuvens, diz. Mas senta aqui do meu lado, senta. Porque não vai adiantar nada você aí, tão-perto-tão-longe deste longo braço enfiado no fundo do paraíso infernal.

Parte I - Letícia Palmeira. Parte II - Germano Xavier.
Sobre instintos que se cozinham, alimentos e temperos.
Imagem intitulada de "Misty Day", por Joana Cunha.

vida minha minha morte ( IV )

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Existem pessoas que salvam um dia que tende ao desastre. E hoje foi assim. Minha vida "bonita" não daria nem um livro policial noir de quinta categoria, daqueles em que nada acontece na trama que nos deixe perplexos ou assustados ou ansiosos pelo final. Mas, como eu disse, existem certos tipos de pessoas que nos puxam o corpo, bem na hora do pêndulo que fulmina o balanço da derradeira hora, e nos estende o braço dizendo eu estou aqui contigo, não vá. Dia marcado pela imprestabilidade das ações e pelos votos esperançosos de que o dia de amanhã seja menos criminoso comigo. Improdução poderia ser a melhor palavra para um dia como o meu de hoje. Porém, potencialmente favorecido. É que fui agraciado com um livro do ano de 1976 que trazia na capa os seguintes dizeres: "toda a poesia de Augusto dos Anjos e um estudo crítico de Ferreira Gullar", assim mesmo, com a inicial minúscula. E vocês ainda querem que eu escreva mais alguma coisa neste pobre diário? Poupem-me! Obrigado, Inês.

Imagem intitulada de "Carousel for Birthday", por BlueBlack.

ver nascer o novo


enveredar e se ater ao novo
quando se caminha longe
e onde o olhar se esconde
da alvorada mágica do povo

vai, atua em tua esfinge
face morta atrás da hora
do brotar: doce aurora
de morte que não se finge

passa ano, murcha-flor
ermo des-pedaços pedaços
sofredores em distância sem laços

acabamos por encontrar a dor
olhamos ato ver tudo em nada
somos o nada em tudo, tudo ou nada

Escrito em 14 de setembro de 2005.
Imagem intitulada de "Verde e Azul", por Muitopoucomédio.

vida minha minha morte ( III )

terça-feira, 15 de julho de 2008

15 de julho de 2008

"Uma parte de minha vida eu vivo, outra parte me contam."
(Ferreira Gullar)

Para amanhã, guardo expectativas. Porque o hoje já se foi e o que eu tenho de certeza são meus dois dias a mais que meus vinte e quatro anos de idade. Não sou novo, não nasci ontem. Tenho vinte e quatro anos de idade e mais dois dias. Se eu quiser, posso já me considerar um velho. Ter vinte e quatro anos de idade e mais dois dias é já ser velho, pelo menos para mim, é já ter uma vida longa vivida. Mas isso só se eu quiser. Por enquanto, não quero. Melhor deixar como está. Não vai mudar muita coisa se eu já me der o título de idoso. Não conseguirei nem uma cadeira prioritária num destes ônibus da coletividade. Se para idosos-idosos a coisa já está feia, imagine para mim, um pseudo-decrépito-autointitulado-sem-cabeça-alva. Sigo, dessa forma, minha odisséia. Não existe vida mais bonita que a minha. Leia-se "bonita" como "propícia às histórias livrescas e fenomenais, baseadas em eventos catastróficos-ínfimos de natureza casual-ou-não". E se você disser que não existe vida mais "bonita" que a sua, eu vou acreditar e aceitar, porque a vida de cada um é a vida mais "bonita" que existe. E a minha é a vida mais "bonita" que existe, e você deve aceitar sem titubeações. E um dia eu ainda descubro o porquê dos escritores quase sempre estarem certos... Pela manhã, agi como um ser deletério. Fui nocivo ao meu passado. Destruí coisas que achei banais e preservei outras. Eu concordo quando dizem que "a memória é o esquecimento". Concordo e não concordo, convenhamos. Mas até o concordar é passageiro no bonde que passa. E para que se preocupar, não é mesmo? Temos tanta coisa e coisa pouca para selecionar. O bom sempre anda mais escondido. Hoje, aniversário da cidade baiana onde estudo, feriado, aproveitei para manter a leitura em dia. Pensei estar doente de verdade, acreditando que eu vivia. Li jornais e revistas. Tudo sem ordem. Quase sempre leio assim. Estou lendo uma coletânea de crônicas do Ferreira Gullar, que a Letícia me deu. Mas fui à biblioteca do centro pregar um cartaz do Cineencontro e aproveitei para pegar dois livros: "Lavoura Arcaica", do Raduan Nassar, para reler, e "Os Dragões não conhecem o paraíso", do Caio Fernando Abreu, para terminar a leitura que tinha iniciado antes do início do recesso. São dois autores que me inspiram bons momentos. Mas eu me sentia doente, pensando que eu estava vivo e que a vida valia a pena. Foi quando deparei com a palavra do Antônio Abujamra, no caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, dando o seu choque de realidade para um grupo de atores comandado por ele numa recente apresentação teatral: "Tem uma loucura muito grande na cabeça deles de achar que a vida não é uma causa perdida. Tiveram de aprender que é, sim. Felicidade é uma idéia velha. Ser feliz, só no palco; na vida, não dá. A vida é uma causa trágica." Aí eu parei, olhei as horas no relógio e disse meu dia termina aqui. São vinte e uma horas mais cinquenta e quatro minutos. Preciso de minha sanidade novamente. E vou buscar. Amanhã é um dia com mais de vinte e seis horas para viver a minha vida "bonita". Todavia, por ora, fecho a conta do meu dia de número oito mil e setecentos e sessenta e oito, já contando com os anos bissextos e tudo...

Imagem intitulada de "Switch on", por Vorsakend.

vida minha minha morte ( II )


14 de julho de 2008

Hoje aprendi que a mentira não existe. Aprendi que o mundo é feito de verdades, de verdades infalíveis e de verdades falíveis. Hoje tenho vinte e quatro anos e um dia de vida. E não tenho nada e tenho quase tudo, porque sempre falta alguma coisa. E, na maioria das vezes, a coisa que falta é sempre a mais importante. Por isso a vida parece estar sempre do nosso lado contrário, indo sem nos levar. A verdade é que a verdade só existe se uma outra verdade é cooptada ou desmerecida por uma verdade mais nova. É o que costumam chamar de Conhecimento. Conhecimento é a morte de uma verdade e o nascimento de uma verdade-feto. E verdades-fetos morrem antes de nascer: é o que chamamos de Progresso. Conhecimento só pode ser novo, não pode ser livro antigo. Hoje eu perguntei se a mentira não existe porque eu queria saber se a realidade não pode ser construída por uma fantasia. Disseram-me que blá-blá-blá é igual a blá-blá-blá. Na verdade, uma das minhas, porque tenho verdades também, quase sempre finjo aceitar ou entender, para não perder a minha cara de doente. Mas, depois do golpe, ataco em revide, sem medo. E vou mentindo minhas verdades, porque mentir é criar uma verdade. E, querendo ou não, verdade é sempre uma verdade. Verdade não é mentira, é verdade. E eu acabo dando uma nova chance às mentiras que não são verdades nas bocas dos assassinos de mentiras. Mas é duro aceitar certas coisas, ainda mais quando se acredita em outros mundos mais bonitos e melhores que este mundo "real". Eu acredito em tudo, e não acredito em nada. Sou assim, mas tenho dúvidas se sou.

Meu diário de ontem.
Imagem intitulada de "Can you handle it?", por Excer.

vida minha minha morte ( I )


13 de julho de 2008

A luta que luto com meu corpo bem parece com a luta que luto com só a minha cabeça. Parte alta de mim, gaturamo, quase um contraponto em melodia inacabada, minha cabeça é corolário, dedução coberta por uma pele lustrosa, minha crônica e meu humor e meu grande livro. E luto infinito. Um corpo-a-corpo que já não mais, ou nunca, preocupa-se com as consequências e exigências estéticas impostas pelo mundinho de já-agora-apodrecido-pela-beleza-forçada. Sempre foi de caráter secundário a publicação dos meus resultados. Sim, todo mundo um dia quer provar alguma coisa a alguém. E resultados sempre existem. Positivos ou não, eles sempre aparecem. Mas o que pode ser positivo? E negativo? De quando nasci, luto com minha cabeça teimosa, manceba e também arredia. E não é diferente neste dia em que completo exatos vinte e quatro anos de idade. A sensação que tenho é que a guerra que travo com este apêndice aéreo que sustento com a força de meu pescoço não termina nem terminará, pelo menos por tão cedo. Luto de suar a testa. É minha cabeça dizendo uma coisa, meu corpo pedindo outra. E assim vai. Assim, vamos. Para onde é que nenhum dos dois sabe. Seguimos, e só. Somente e só, seguimos. Hoje foi dia de receber sinais mais ou menos do tipo olá-você-está-vivo-parabéns. Um bom dia para mais um embate, mais um round. Saber até que ponto estar vivo é positivo ou negativo, eis a questão. Não queria eu a suposta melhora de vida encontrando a morte veloz numa esquina dissolvida em anelos libidinosos e fatais? Sou eu mesmo este ser que, em seus claros vinte quatro anos de idade, ainda troca entornos de peripécias por um saudável equilíbrio relacional? E quem sou eu? Quem? Eu morro igual na idade nova. Morro.

Começo meu diário, aos vinte e quatro anos de idade.
Obs: Sem internet, não pude colocar o devido texto no dia correto.
Imagem intitulada de "Jesten Sun", por Ratsnest.

entrecho geral


É para o despertar e para
a assunção duma postura
vigilante
que seja contra desumanizações
quaisquer, e para todo o
indivíduo que se sabe
-sabe?-, programado para o
aprender constante,
que resumo meu cabal desfrute
de olhar
numa arriscada forma
de apartar únicos dissabores.

Imagem intitulada de "No somos nada", por Walking my dog.

ventos apresentados

segunda-feira, 14 de julho de 2008

na solidão me faço.
na ação me faço
de se fazer o não
se fez,
e m'encontro nu
no desencontro
da véspera que surge
afoito?, feito a carne nua
no tocante ao movimento
carnal puramente, e me des
pedaço: pedaços áureos
de solidão. meu desalento perdido
no silêncio das horas noturnas.
a vida emergindo assim, como o sol nu
no horizonte de latitudes dispersas...

Imagem intitulada de "Ventos", por Kwessta.

olhares de novidades

sexta-feira, 11 de julho de 2008

salta aos olhos as
cordilheiras da dúvida
sou só expectativa.
como agir de outra forma,
senão, se não, a de parar,
paralisar-se, diante da novidade?
nova idade.
muita luz nesses instantes
que me desboto, noites em
que navego
pelo bem-querer, minha querença.
viverei, hoje, como vive a coruja das luas
nevoentas, a no sempre olhar de si
com os olhos do mais hesitante desejo.

Escrito em 13 de setembro de 2005.
Imagem intitulada de "Olhares Diferentes", por Draculeabar.

quando é você


você surgiu
nasceu em mim
fez-se dia
raiou o sol
em noite
a lua
clareou
meu silêncio
criou-se o som
e toda cor
canto puro
de paz
você

Eu consegui escrever tal coisa! Vejam, uma façanha!
Escrito em 01 de setembro de 2005.
Imagem intitulada de "Hope", por FPortugal.

quem quiser um sobre climas

quinta-feira, 10 de julho de 2008

o sol arde. arde como todo sol há de arder. e a Terra esquece, por um minuto, de que em sua superfície habita uma criatura frágil e debilitada. forja-se, no sempre e no todo, o rumor da falsidade no exato momento em que cria-se a mentira. cada um é o espelho de seu banheiro, de sua sociedade, de seu próprio olhar estático ou transitório, da quentura ou frieza de sua cama. cada um leva o passo que dá, o caminho e a vontade, sua luta. o pior, por vezes, é que, longe de qualquer metáfora de esquina, deixamos de acreditar, sob os auspícios de inumeráveis tipos de restrição, nas instâncias mais obscuras das palavras. a palavra que, como um ser-pessoa, torna-se capaz de exprimir sensações e o tudo. e aí o sol que queima é o mesmo que dá espaço ao frio das relações de inverno. todas as folhas, assim, um dia caem da copa e o inverno acaba. o tempo é esse. o tempo que é sempre. o homem que não. todavia, enquanto não chega o entardecer nevoento, tentar cuidar das partes que nos afligem é sempre um bom começo para uma nova estação.

Texto escrito em 02 de agosto de 2005.
Imagem intitulada de "Cambio de Clima", por Bboyhector.

das perdições precoces

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Cordões violáceos
duram meus regimes.

Temporã é a fruta
do meu ventre-mão

Carteio, em grifos de depois,
meu sonho de ser antes.

Imagem intitulada de "Ciso Juízo", por Eowyn.

o artista e a liberdade

terça-feira, 8 de julho de 2008

O artista é, por natureza, um vaidoso. Envaidece-se. Unta os olhos de contemplação, orna os caminhos por onde passarão seus delírios e, por fim, desfila pelos mais ermos logradouros sua imagem de mundo. O artista não teoriza, cria. E se teoriza não sabe se. De sua mão, primeiro instrumento de consciência humana, germina o sentimento vital, aquele que fomenta a manifestação mais pura da liberdade: a Arte. Todavia, será mesmo a Arte um espaço sem muros?

Nem a Arte é livre - posso pensar assim? -, já que só é capaz de sugerir e incitar emoções através de imagens arranjadas seguindo uma certa ordem, a ordem da composição. Mas é o artista o ser que está mais perto da independência, ou seja, da liberdade. É ele que, criando e recriando o belo e suas todas ramificações, destiraniza o espírito da humanidade. É o artista que, em certa medida, gera um processo de autonomia de personalidade, visto que nossos sentidos estão sujeitos a todas as espécies de inibições e repressões.

O verdadeiro artista é aquele que sofre, e do sofrimento se alimenta. E sofrer não é apenas dor. A alegria também pode ser sofrimento. O verdadeiro artista é aquele que vomita em qualquer forma de opressão. O artista é, literalmente, um vômito sem cor, formato nem recheio pré-estabelecido. Ou deveria. Ao refletir nos espelhos da vida as imagens traduzidas em seu interior, o artista se submete a um processo de mutação, conseguindo mutar, por influência, todos que da ação artística se alimentam.

Salve o artista, o pássaro pousado no farol das imaginações.

Publicado na saudosa "Revista Visões - Materializando Idéias, em 2005.
Imagem intitulada de "Artista", por Khrysart.

outra dose


- Garçom, traga-me outra dose!

- É pra já, senhor.

- Uma dose mais forte, pois esta última não foi capaz de deixar-me embriagado!

- Tudo bem, senhor.

- Traga-me uma "overdose", pois essa me fará deslembrar que minhas mãos sangram e que estão muito feridas.

- Não exagere, senhor!

- Rápido, garçom! Não tarde muito, pois já não quero esta sensação dolorida de sentir-se fraco e quase morto. Faça-me o favor, garçom!

- Aqui está, senhor.

- Muito agradecido, rapaz! Faz bem em tornar ébrio um poeta já cansado de não ser ouvido.

Publicado na saudosa "Revista Visões - Materializando Idéias", em 2005.
Imagem intitulada de "Em Casa", por Darth Melo.

invasão de morros

segunda-feira, 7 de julho de 2008

quais são os caminhos quando não
mais se caminha? e os
mapas, quando não mais
os tesouros?
magneto corrupto, fogo
de boca de dragão cuspido.
uma minha nuvem negra
de fumaça deixou
a pessoa das casas da minha rua
fatalmente cega.

os paralelos da rua foram sufocados
e não mais
são pisados.

foram baldes derramados de sangue negro
que escorreram pelas ruas
em lágrimas caudalosas,
lágrimas de rio.

oh, deus!, imaculada mácula
que se perdeu em mim,
minha sujeira perdida
que quero, fumegando
minha-nossa máquina-matéria
do cão. de novo é quando?

Escrito em 18 de novembro de 2005.
Imagem intitulada de "Quarrel", por Ivan Hurricane.

poema de jornal


Lauda já foi tira.
Agora tira é lauda.
Se tira é lauda
ou se lauda é tira,
que diferença faz?

Imagem intitulada de "Journalism", por Petiteetoileperdue.

F. A., o mártir

sexta-feira, 4 de julho de 2008
Quer fazer o que quer! Não faz! Desde que arrumou aquele emprego no ramo da publicidade, deu para alisar almofada de espinho. Tornou-se mais um daqueles joguetes nas mãos de patrões pançudos. Fez de tudo nessa vida. Informal, judoca, comerciante de guarda-chuvas, servente de pedreiro, pichador de viadutos... Sempre quer ser tudo, sempre. Nunca foi nada. Um imprestável. Exalta-se sempre?! A mãe gritava da cozinha pelo nome. Ele, rompando, responde prontamente. Maneja gestos rudes de queixo, rabisca no quarto palavras beneficiadas, engole o ácido da crua vida. F. A. quer ser mártir de não sei o quê, mas quer. Pensa em viajar na boléia, equipando-se de paisagens sem final.

A mãe saiu e foi comprar vassoura e rodo.
F. A. quer ser mártir.

Quinta-Feira, F. A. saltou do ônibus corrido de um assalto. Não com ele, mas com o amigo. Entrou em desespero. Enxotou o rapazote o meliante. Pensou em intromissão. Não gostava de intromissões, entrar na vida assim do outro, desse modo, sem marcar horário. Pensou na mãe raivosa e na sua imprestabilidade de dias. Não satisfeito com sua desgraça mascarada por um terno azul e uma gravata vermelha, desceu a ladeira do bairro correndo. Veloz, aturdido e em outra dimensão, F. A. tropeçou e caiu. O rosto beijou o concreto duro e a quina da calçada. Saldo: dois dentes superiores e um inferior sem. Todos frontais. Juntou o sangue na boca. Cuspiu. Quis ir para casa. Andou. No caminho, lembrou da mãe neurótica e foi engolindo um tanto e cuspindo o outro tanto de sangue das gengivas.

O banheiro estava brilhando de tão limpo.
F. A. ainda pensava em ser mártir.

Hora do almoço era difícil encontrar a mãe em casa, nos afazeres domésticos e rotineiros. “Safei-me? Eu não sei o que faço. Agora mais lascado que tudo, que todos. Sem dinheiro, sem destino, sem vontade, sem dente, sem caminhão, sem boléia, sem dente, sem mãe, sem dente”. Foram três dentes. O sangue não coagulava. “Meu sangue estava quente. Preciso comer espinafre”. Abriu a geladeira. Comeu uma salsicha e um pedaço de queijo. Depois tomou iogurte. Caminhou pela casa. Entrou mais. Quarto. Pegou toalha e sabonete. Banheiro. Brilhando de tão limpo. Vassoura e rodo escorados na parede. F. A. procurando o sexo. Sexo com gosto de sangue. Fazendo e engolindo o sangue. Sangue quente. Água quente. Ele sangrando ele mesmo.

F. A. sai do banho.
“Vou ser mártir”.

Os passos da mãe próximos. Aproximação. F. A. no quarto, distraído. Mãe que entra pela porta dos fundos. F. A. no quarto, quase limpo, limpo de banho. Mãe neurótica com manchas de sangue na casa não mais limpa. Casa suja, mãe maluca. F. A. prestes a morrer uma morte diária e a mãe que pega de uma faca. Mãe entrando. Entrou. Um susto e uma frase “O que é aquilo no chão da minha cozinha, seu desgraçado!”... Chegou a hora de F. A.. A mãe pulando no pescoço de F. A. e ele que consegue esquivar-se. Lembrou da desgraçada gravata vermelha sobre a cama. Foi por trás, num golpe só laçou a mãe, deu um nó forte, a mãe ficando roxa, sem ar, F. A. sufocando a mãe neurótica, “eu vou ser mártir, eu vou ser mártir”...




Imagem intitulada de "Fragile", por Lucidscarlet.

meu flagelo


Entre outras pessoas, o não se ater ao ínfimo é coisa natural. Não sei suprir minhas deficiências com suplementos vitamínicos sintéticos. Não sei. Aprendi desde cedo que o bom mesmo é o que dá trabalho, que nos faz pestanejar, suar. Aquilo de sentar a bunda numa cadeira, noite inteira, noite adentro, aquilo de suar a camisa, de matar o leão diário. Aprendi em casa que a vida, para ser boa, tem de ser dura. E tem sido assim comigo desde o dia em que resolvi que morreria escrevendo. Tem sido árdua a minha vida, apesar de não parecer. Disse, sim, ensimesmado, numa certa tarde de março ou abril, de algum certo ou incerto ano, que minha missão aqui na Terra seria escrever, deixar coisas impressas em papéis. Escrever sobre tudo, sob tudo, com pressa, compresso, sem, com, amando, detestando, não e sim, escrever, escrever sem fim. Faz alguns anos e hoje estou perto dos meus vinte e poucos de vida. Os últimos passei lendo e escrevendo. Poemas sem pé nem cabeça, prosas sem graça, com graça, desejosas, textos e textos. Vida escorrida do meu peito, do que já vi, ouvi, li, senti. E mesmo olhando os muitos papéis que guardo comigo, tingidos numa letra horrivelmente medonha, perco-me e não sei dizer se estou indo como desejei. Mas sinto que estou seguindo. Passos lentos, ingênuos ainda, mas estou. E isso me faz alegre, porque triste já sou de nascido. Escrever me faz acordar do pouco sono que durmo, me alimenta na tarde dominical de fome anímica, me seduz, me apaixona, me diz que sou algo e isso basta. Sou algo para mim, e basta! Escrevo, escrevo, escrevo. Escrevi. Escreverei. Sim, escreverei até quando me for possível escrever, até quando me for possível destilar minha água podre ou límpida num papel alvo, puro de tanta criança interna.
Imagem intitulada de "Writer" por Beto Campos.

roucas combinações

quinta-feira, 3 de julho de 2008

sobre o óbvio, amor não chega.
bate em disparada ao menor sinal
de existência. não combina

com o amor
um abraço sem choro,

um sorriso de estrelas,
um cão com dono,

um fogo morto.
inunda esta coisa de organizar

sofrimentos, invade a parede humana

no medo da perda,
soluça a sensação esquisita

de nem sempre continuar,

o amor, este deus sem paz.


Imagem intitulada de "By my Heart", por Lharie Luscínia.

Quando sublimam as deidades...

terça-feira, 1 de julho de 2008

"Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."

(Caio Fernando Abreu)




Como eu, parece triste o céu azul, derramado numa tristeza partida. Parece que ele vai sem ir, dormido numa angústia que se nubla. Perdendo-se no trânsito de nossas idas até quando não. Imótuo, preso numa lentidão sem asas, sobre uma fronha de algodão, rumado no vagão do destino, fazendo-me do hoje um dia de ficar. O mundo permanecendo inteiro na gente, unido em planos de fuga, permanecendo com. Minha febre passando e meu coração que não se cansa de amar. Meu velho coração cansado de amar. Há sempre um dragão cuspindo fogo por dentro da gente. E mesmo que ele esteja adormecido sobre a cama dos pulmões, arremessando-nos, doado em colossos, ser de quem que somos, ainda vamos antes, durante e depois. O que há em meu quarto? O que há em nosso quarto agora? E você me diz de uma cortina a meio corte, permissiva, entregue ao resto de luz que teima entrando, fodendo o parco escuro já adentrado no recinto em mofo. Livros serpenteando, fila de dominós, objetos nada mais que objetos, penteando os cabelos das estantes, parecendo marchar para a mais verdadeira história sobre nadas. Uma máquina de escrever descansando pesada, preguiçosa de inutilidades. O coração dela batendo já sem força, máquina de amar a peste. Existem horas mortas para a escrita, como para o ódio, como para o amor. Adianta ser sinal e vida se do horizonte não enxergamos nada? Amor é morrer olhando. Sincero, escrevendo o homem como quem se castiga, elaborando um epitáfio verborrágico, plástico, cadenciado num acorde só, seco, ele segue. Porque qualquer um tem seu flagelo, carrega. Qualquer um simplesmente sofre. Não podemos mais. Somos a regra, o medo, a vontade com câimbra. Contra somos fracos, gigantes. Há sempre um homem triste, fumando a fumaça de um charuto azedo, debruçado numa bengala em madeira nobre trabalhado artesanalmente, pintado sem cor, doído na coluna vertebral da vida, linha por onde passa a alma. E tudo aquilo, tudo, aquilo de sonhar sonhos, aquilo que vinha do beijo da namorada, da palavra do pai, no conselho depois da briga, da derrota, fracassando em nós mesmos, porque aprendemos que não somos como. Esvaindo aquilo de correr atrás do prejuízo, de marcar o novo liame para o próximo golpe, porque o jogo anda terminando, indo sem pena, deixando quem fica para trás, naufragado nas reminiscências dos dias atrozes. Como uma força assassina, estando tudo em nós armado em divisórias, o homem que existe não consegue. O homem que existe não consegue burlar a alfândega dos amadores. O homem que existe busca a imitação dos que guerreiam e as espadas fingem não poder. O homem que existe é também muitos outros, cruzados e esquecidos braços que não conseguem o aperto. O homem, solitário no quarto de ar morto, é o mesmo dono de toda a matéria explosiva. O homem que existe, sugando o resto da vida, mirrada agitação de joaninhas, o pouco do muito que sobrou. Escorado no espaldar da cadeira soturna e claudicante, segurando arma qualquer de matar qualquer indício de qualquer amor qualquer. O homem que existe, a poucos passos do preciso alimento, sentido por pescoços sufocados, casa e a bomba que tomba. O homem que existe, amparado por um tempo de ferro retorcido, sem como nem. O homem que existe dentro de um quarto absorvido pelo mistério da fragilidade, pelo segredo da impossibilidade. Morrer olhando a própria morte, a própria desgraça, o próprio fim. Sofrer como sofre um Narciso, posto em observação do belo, da estética da perfeição, vislumbrado vendo a compleição do eterno, do imortal apego dos sentidos. O homem pisando o chão que escorrega, que rui, desabando, apático chão de se pisar caminhos, oceano que trai. A festa mais ordinária, a luta mais desleal, o império mais contraditório. Como eu, fincado sem dó no rabo da miséria, o homem parente do que mendiga pão, vinho, cigarro, puta, puta, puta. Comprar o veneno do prazer na avenida vazia, lua de impotenciar sentimentos, gesto de ilusão e ferida e sangue em caldos. Permanece o homem, e ele anda sem saber sua história de pregações. Como eu, vestido contra o frio, armadura vencida, o lustre não se move e a tarde tão noite insiste. E é como se não mais existissem em mim minhas mãos, meus dedos, meus arrepios. Ela dorme. Do meu lado a mulher dorme e espera a próxima vez. Olhando, morro de amar a falta que a gente sempre traz na volta, morro de amar o precário coração tão gasto e tão de novo amo sem fim. Logo mais as bolsas estarão fechadas, costuradas sob o espectro de uma sombra que vagará pelo quarto durante toda uma vida e durante toda uma rotina de mudanças. Logo mais a noite virá, noite claudicante, trôpega, manca, noite doente. Noite vírus, malária, cólera, noite nociva, sem. E o homem, com aquele eterno dragão cuspindo a labareda vermelha, por dentro, por fora, andando pelo corredor vazio, sem os pequeninos pés brancos, sem o rastejo da sandália de couro, absorvente, sugando para sempre o som do silêncio. Logo mais será só dor e choro. Logo mais o homem que existe deixando de existir, e o tempo, perdido no terminal, despencando, grávido de liberdade, atirado no tatuado futuro desconhecido.



O pássaro sem asas, vendo o vento sem.

Imagem intitulada de "O Beijo", por Selma Sanches.