vida minha minha morte ( XIX )
foi aquele me dizendo
este todo-mundo apavorante
sendo o que sou
estando vida embalada
pelo gosto amargo de um trago suicida
absinto
gole do cão e ser sem saber
se sou
estando morto e caído no abismo da má-sorte-má da renúncia
esquecido na luz-lustre de cristal embebedante gole do cão
...
tenho fome sou insone
vagabundo metralhado das letras
ladrão de vidas
(matéria para minhas telas)
sempre
quistas
as vulgares vidas
que mesmo eu vivo
nem tendo nem sendo
o que deveras sou
do verbo poetar

vida minha minha morte ( XVIII )
da força de um canto

reticências

caxixi agogô roncô, neguinho!, vai
vai neguinho
desce o morro pra cidade santa
traz tua manta
escura e mancha o que for
incolor neguinho vai
ataca a classe e toma banho de mar
mar que é mais teu
mar que é mais teu
vem neguinho vai
de cima pra baixo sobe na vida
vem voar vai voar
teu céu
vem ser verso de Solano
vem imerso vem avesso vem excesso
vem sem essa de não ser
vem com essa de querer
vem neguinho vem
vem buscar o que é teu
chama a tua gente e faz da gente
espelho e sangue teu
chega de sofrer de beber a água amarga
chega de não ser neguinho chega
mais pra perto vem incerto vem
certo que você pode e vai também
vai neguinho vem
o egoísta ecce homo
não fugiu o mundo
era tão grande era tão
romântico o mundo e tão
marginal era ele
não fugiu quando era possível
quando havia ainda a escadaria
não fugiu não escapou do mundo
tão grande tão grande
e agora o caminho que ele segue
o destino suspenso gradual
do fim
o cambiante final da história
amarga e sádica história
do final sem fim
não fugiu suas mãos
eram tão fortes tão divinas
não afrontou a realidade tragável
e agora destroça-se amavelmente
olhando em si o traje puído
a indumentária da pele de palhaço
irreconhecível perdedor andando
e conhecendo e engolindo
a sua remordida desgraça particular
vida minha minha morte ( XVI )
sobre o chão
todo o quadro simula
o repouso
a multidão tamanha
tamanho imenso
paredão que me destoa
do resto o impulso que dou
é queda na hora
em que me saio distante
a gravura
que me é figura
arte e luz
fica no que marca
o ditame do meu eu
um pincel morto
meu realismo vivo
de dor
de dia
Buena Vista Social Club: um texto
vida minha minha morte ( XV )
frutos partidos
o silêncio das agulhas ( Parte VII )
Imagem:"Pentru cand mi e dor de tine", por Lady-mon.
Querido Escritor,
E se fez inverno em nosso tempo. Sim. Inverno e bom tempo. Assim lembro do Quintana, assim lembro de você. Lembro dos dias de olhar o céu como se tudo a ele fosse possível. Mas nada chegou a mudar. Céus são possíveis, mãos são possíveis e já chega o silêncio dos que dormem. Você dorme, escritor. Eu escrevo. Ainda permaneço de ponta cabeça, como se costuma dizer aqui. Nasci naquela cidade cinza - hoje prefiro o verde destacado dos jardins. Espero. Sei esperar. E você, aprendeu a esperar? Aprendeu a prender fôlegos? Eu aprendi. Aprendi lendo a Adélia Prado. Ela não fecha a boca enquanto não termino um verso. Como se faz verdade nossos dias. Como se torna inteira a metade. Como se torna forte a vontade da hora. Como se torna verdade o escrever.
Ainda no mesmo livro,
Virgínia.
PS.: Tudo se faz tempo. Tudo se faz você.
**********
Sim,
O tempo é mesmo um temporal. Ele muda e acaba mudando a gente. Aqui fez bastante frio por um tempo, mas o sol já raiou bonito outra vez. Eu gosto do tempo frio, sempre gostei. Lembro minha infância na cidade pacata onde cresci, hoje uma cidade metida a besta. Na verdade, sou um humano pulverizado por reminiscências. Vivo delas e limpo-me delas constantemente. Mas esquecer é também lembrar, você sabe disso. Todos sabem. Lembro de tudo e não esqueço você. Lembro também, porque você sempre será aquela perdida em meus braços. E não adianta, você levou o firmamento daqui. Hoje me alimento do passado porque o presente é ralo e gratuito. Fui fraco, estou fraco, me rendi ao desespero, vivi, mas luto por você. Meu sono é para o sonho. Se durmo é para te encontrar, dimensão outra que tu és. Meus olhos fechados e tristes são lâminas contra a covardia de amar o que não posso. Aprendi com você a esperar a hora certa. Você me ensina o mundo, e eu aprendo a fome. E nossa hora é a melhor.
Sim, a mesma página.
Em estado, Cádor.
Virgínia Borges é Letícia Palmeira.
Anderson Cádor é Germano Xavier.
vida minha minha morte ( XIV )
um não-rímico experimentar
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido.
(Ana Hatherly)
se não posso com a realidade
que foge
escrevo fantasia
minha nova consciência
é consciente
e demente
se sou não sei
se vou não sei
minha linguagem é o presente
recuso o uso do estabelecido
porque já fui e não sou mais
porque fui e vi minha mudança
e se não posso com a fantasia
de tal modo tão fugaz
condeno-me a mim mesmo e realizo meu inconsciente
vida minha minha morte ( XIII )
a orgia
o inútil de cada um está
na hora patética está
n'aurora morta
da hora derrotada
seminal hora
o inútil de cada um está
no agora refugiado
no gado que somos
o fruto podre
a maçã vencida
o inútil de cada um está
no veludo impuro
da vaga seresta
na tristeza sofisticada
na boceta malamada
o inútil de cada um está
no quadro enquadrado
do choro frequente
na mente demente
no gozo guardado
o inútil de cada um está
no abuso do piano
da rua depravada
na rua sem alma
sem história e delicada
o inútil de cada um está
na cidade esnobe
na aristocracia amorosa
do casal esquecido
do amor impossível
o inútil de cada um está
na covarde boca
sem voz sem língua sem nada
de ferir de bombardear nada
absolutamente nada
o inútil de cada um está
na velha marafona que existe
na moça feliz com tão pouco
iludida bambina traída
pelas ilusões de cor
o inútil de cada um está
no embasbacamento alheio
de quem assiste sentado
de quem fica resfriado
de quem não sabe andar
o inútil de cada um está
na improvisação como fim
na guerra na luta de classes
nos classificados do jornal
na criança morta do nada
o inútil de cada um está
na impiedosa riqueza áspera
no falsete harmônico no canto
sem encanto jogado ao léu
no céu com véu sem mel
o inútil de cada um está
na província tão capital
no capital tão desigual
no mal sem sal das pessoas
na estação de tratamento do ideal
o inútil de cada um está
no incauto recém-chegado
no funcionário público
no público sempre alvo
do escatológico estado
o inútil de cada um está
no partidarismo sem lei
no condomínio cercado
no automóvel refrigerado
na cafonice das gravatas
o inútil de cada um está
na natureza doente
nas bengalas nas macas
fofas das salas de estar
do gordo homem magro
o inútil de cada um está
na pajelança imaginária
nos anexos nos apêndices
nas mordaças nos martírios
nos patrões nos empregados
o inútil de cada um está
no celibato no fanático
no padroeiro pra tudo
no tudo pra nada
no tudo pra nada
na vida pra morte
duchamp não vence beuys
Imagem: "broken", por Freexelquebra o pote
o lote aberto do dia vivido
e prega na parede dum museu
que tudo é todo
mundo pode
todos nós somos artistas
habilite-se vivendo a si
de si e sobre
mesmo dentro ou fora
para dentro ou para fora
pára fora ou pára dentro
comunicar é fascinar-se
e um pote no chão não é
apenas
à duras penas um pote no chão
é antes a consagração do signo
a criação
mas primeiro quebra o pote
a ordem da forma
lunar
quebra o pote, quebra o pote
empenhado no escuro indiscernível
pois é indo e vindo
ao pote
que o caco adere ao outro caco
e toda criação vira destruição
do existir da verdade

vida minha minha morte ( XI )

cuisine d'instinct

Quando a existência dum livro ressuscita uma vida em sono.
sobre cordas e pulseiras

vida minha minha morte ( X )

pétala rosa branca

vida minha minha morte ( IX )

ao mar dos teus olhos

vida minha minha morte ( VIII )

a espera

vida minha minha morte ( VII )

vida minha minha morte ( VI )

tsi, tsi, tsi

vida minha minha morte ( V )

somos existenciais existências e um pedido

vida minha minha morte ( IV )

ver nascer o novo

vida minha minha morte ( III )

vida minha minha morte ( II )

vida minha minha morte ( I )

entrecho geral

a assunção duma postura
vigilante
que seja contra desumanizações
quaisquer, e para todo o
indivíduo que se sabe
-sabe?-, programado para o
aprender constante,
que resumo meu cabal desfrute
de olhar
numa arriscada forma
de apartar únicos dissabores.
ventos apresentados

na ação me faço
de se fazer o não
se fez,
e m'encontro nu
no desencontro
da véspera que surge
afoito?, feito a carne nua
no tocante ao movimento
carnal puramente, e me des
pedaço: pedaços áureos
de solidão. meu desalento perdido
no silêncio das horas noturnas.
a vida emergindo assim, como o sol nu
no horizonte de latitudes dispersas...
olhares de novidades

quando é você

quem quiser um sobre climas

das perdições precoces

o artista e a liberdade

outra dose

invasão de morros

poema de jornal

F. A., o mártir
A mãe saiu e foi comprar vassoura e rodo.
F. A. quer ser mártir.
Quinta-Feira, F. A. saltou do ônibus corrido de um assalto. Não com ele, mas com o amigo. Entrou em desespero. Enxotou o rapazote o meliante. Pensou em intromissão. Não gostava de intromissões, entrar na vida assim do outro, desse modo, sem marcar horário. Pensou na mãe raivosa e na sua imprestabilidade de dias. Não satisfeito com sua desgraça mascarada por um terno azul e uma gravata vermelha, desceu a ladeira do bairro correndo. Veloz, aturdido e em outra dimensão, F. A. tropeçou e caiu. O rosto beijou o concreto duro e a quina da calçada. Saldo: dois dentes superiores e um inferior sem. Todos frontais. Juntou o sangue na boca. Cuspiu. Quis ir para casa. Andou. No caminho, lembrou da mãe neurótica e foi engolindo um tanto e cuspindo o outro tanto de sangue das gengivas.
O banheiro estava brilhando de tão limpo.
F. A. ainda pensava em ser mártir.
Hora do almoço era difícil encontrar a mãe em casa, nos afazeres domésticos e rotineiros. “Safei-me? Eu não sei o que faço. Agora mais lascado que tudo, que todos. Sem dinheiro, sem destino, sem vontade, sem dente, sem caminhão, sem boléia, sem dente, sem mãe, sem dente”. Foram três dentes. O sangue não coagulava. “Meu sangue estava quente. Preciso comer espinafre”. Abriu a geladeira. Comeu uma salsicha e um pedaço de queijo. Depois tomou iogurte. Caminhou pela casa. Entrou mais. Quarto. Pegou toalha e sabonete. Banheiro. Brilhando de tão limpo. Vassoura e rodo escorados na parede. F. A. procurando o sexo. Sexo com gosto de sangue. Fazendo e engolindo o sangue. Sangue quente. Água quente. Ele sangrando ele mesmo.
F. A. sai do banho.
“Vou ser mártir”.
Os passos da mãe próximos. Aproximação. F. A. no quarto, distraído. Mãe que entra pela porta dos fundos. F. A. no quarto, quase limpo, limpo de banho. Mãe neurótica com manchas de sangue na casa não mais limpa. Casa suja, mãe maluca. F. A. prestes a morrer uma morte diária e a mãe que pega de uma faca. Mãe entrando. Entrou. Um susto e uma frase “O que é aquilo no chão da minha cozinha, seu desgraçado!”... Chegou a hora de F. A.. A mãe pulando no pescoço de F. A. e ele que consegue esquivar-se. Lembrou da desgraçada gravata vermelha sobre a cama. Foi por trás, num golpe só laçou a mãe, deu um nó forte, a mãe ficando roxa, sem ar, F. A. sufocando a mãe neurótica, “eu vou ser mártir, eu vou ser mártir”...

Imagem intitulada de "Fragile", por Lucidscarlet.
meu flagelo

roucas combinações

bate em disparada ao menor sinal
de existência. não combina
um abraço sem choro,
um cão com dono,
inunda esta coisa de organizar
soluça a sensação esquisita
Quando sublimam as deidades...
"Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."
(Caio Fernando Abreu)
O pássaro sem asas, vendo o vento sem.Quem sou eu
- Germano Xavier
- Graduado em Jornalismo pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e Formando em Letras/Português e suas Literaturas pela Universidade de Pernambuco (UPE).
Lombadas
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