Alice no país da escuridão

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Ela apareceu no rol do primeiro andar. Era uma velha casa em uma velha rua. Não haveria nada para se dizer, nada para se pensar, nada para se escrever, absolutamente nada, até o surgimento daquela criatura. Nada demandava esforço ou preocupação. Nenhuma aleivosia e nenhum sufoco. Mas passou a existir uma figura, e é a partir dela que construo esta personagem.

Sim, a personagem.

Uma criatura feminina. Vestia o contraste das pequeninas bolas brancas com o azul-turquesa do seu vestido. Também uma finíssima sapatilha de pano preto. O cabelo era curto, metade branco, metade preto e estava de todo unido por uma fita vermelha.

Caminhou até a sacada do apartamento, apresentando um caminhar lento e trôpego. Da porta que dá para a sala de visitas para onde estava, agora não se tinha mais que quatro metros. Distância que ela cumpriu em um minuto, pelo menos. Encostava sua mão nas paredes como se fossem guias.

Talvez as paredes fossem suas mais vivas amizades.

A velha rua parecia se movimentar freneticamente, enquanto a senhora, que deveria ter perto de seus oitenta anos de idade, expressava tão gritantemente a quietude quase secular de seu silêncio. O trejeito único de seu semblante faria qualquer ser sensível meditar sobre a morte e a vida.

O sol ardia o meu rosto e tudo era uma só manifestação de estio.

Depois fiquei sabendo que se chamava Alice. Agora ela andava de um lado para outro, segurando na grade frontal o seu tombamento presente. Dava passos numa sôfrega e angustiante lentidão. Sua tez flácida e alva e seus olhos quase fechados por causa da luz pareciam esperar alguma elevação superior, de ordem divina e de caráter último. Franzia a testa numa tentativa de observar as pessoas que passavam nas calçadas. Porém, percebia-se uma incapacidade de proporção colossal em toda aquela vontade.

Imaginava-a presa, amarrada pelas algemas da vida.

E eu fiquei a observá-la por um breve instante. Foi quando Alice pôs-se a caminhar em direção à sala, onde sentou numa cadeira de balanço a espreitar as horas imprestáveis e infames do mundo.

As horas imprestáveis e infames do mundo.

Talvez estivesse entre a vida e a morte, e aquele balançar triste na cadeira forrada fosse mesmo os signos totais da indecisão e da dúvida.

Escrito em 29 de outubro de 2005.

Pastores em Transe


Cada vez tuas coxas.
Cada hora teus espelhos.
Cada estampa, árvores
de raízes curtas: eu.

Percepção de se escurecer,
sombras e sombras e sombras...
navalha nua.
Mulher espírito em cama minha;

transa pastoral.

Cada vez tuas moças.
Cada esquina tuas costas.
Cada vaga teu preenchimento:
massa de modelar.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Gigo e as formigas... (Pitacos - Parte III)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Parecia até que Jesus Cristo tinha acabado de chegar à Juazeiro, aqui, bem longe ou perto, no norte baiano. Um formigueiro de formigas tontas! Meu Deus, que evento! Sensacional! O evento do ano, quiçá da década! Inesquecível esquecer do foguetório dizendo venham ser também formigas tontas! Venham ver as novidades aqui no formigueiro de formigas tontas! Eu passei e vi, as formigas tontas, todas tontas, meu Deus! Será que foi Jesus mesmo que desembarcou aqui? Será, meu Deus? O que será que será, meu Pai? O que era aquilo? “Nada não, foi só a inauguração de mais um supermercado”. Pai, perdoa as formigas!

Conceição da Maré


Cingem algas perfumosas
nestas vagas de ilha
(será sozinha essa Maria?)
Forte, de paredes grossas
e ásperas
Maria Maré Conceição da Ilha

Na ida e na volta bravia
molha garganta seca
com o acre gosto da Vida
arma dura guerreira
navio casco de ferro
Maria Maré Conceição da Ilha

Pendem fios de ondas na memória
pobre infância de menina merencória
tudo o que planta é dela
Amor saudade alegria espera
abate ouro sustento de bicho
Maria Maré Conceição da Ilha

Foi trabalhar, Maria?
Alta trigueira mulher
divina bebe dos teus laços
roceira baiana filha menina
(Quem não te quer família?)
Maria Maré Conceição da Ilha

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Escrito a pedidos de Cida Mello, ilustradora do livro Clube de Carteado, após ela ter conhecido a história de Maria da Conceição, natural de Ilha de Maré-BA, num centro de reabilitação no qual era voluntária. Vocês precisavam ver o desenho que Cida criou para ilustrar este poema. Muito bonito. Quem quiser saber mais detalhes sobre o contexto e a história deste poema, basta perguntar. Grande abraço, meus caros!

Poemas de Amor

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Meus poemas de amor não falam de Amor.
O Amor que escorre de mim
é antes a mágica fria,
a ótica das formas esquálidas
que vezes mentem;
outras, perfuram a carne
das lembranças, dos passados.

Não quero meu poema de amor
choroso, vagando por becos fétidos.
(Amor, a que fragrância te assemelhas?)
Inda ver quero meu poema de amor
esfaqueando almas sequiosas por brilho,
dilatando as regras amorais,
ceifando, sugando, matando.

Meu Amor cabe na palma da minha mão,
mas pode acabar com o mundo inteiro,
porque o mundo, sim,
o mundo é pequeno e frágil.

Meu Amor é rebelde; certa vez
fugiu de mim quando,
na noite estrelada e negra,
eu meninamente dormia.
E aberta a janela deixou...

(Tenho medo de perdê-lo)
Num dia chuvoso ele voltou
e fiquei tranquilo.

Meus poemas de amor mais parecem caligrafias.
São feitos das vidas,
dos frios,
das flores raras
e são muito meus;
nem assim menos teus.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Do verbo "Mudar"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Devíamos mudar de comportamento com a mesma frequência que trocamos a mobília da nossa casa. Uma nova decoração para cada etapa da vida. Papéis de parede e tintas coloridas deviam acompanhar a nossa infância. Aliás, as tintas coloridas deviam ser itens obrigatórios durante toda a nossa existência. São, de fato, muito importantes. Diria, para ser mais franco, fundamentais. Para a mancebia, cores mais instigantes, objetos mais pontiagudos e/ou afiados. Afinal, é um período de sangramentos, de cortes, de feridas e de cicatrizes. Mascarras e sequelas que servirão justamente para nos definir, para nos caracterizar (de caráter). Espelhos cairiam bem, muito bem. Espelhos por toda a casa. No quarto, atrás da porta. Na caixa do banheiro. Outro grande, bem grande mesmo, na sala de visitas. Um de igual proporção no quarto das crianças e um também na garagem. Assim como todos, este breve intervalo de tempo, se mal aproveitado ou mal utilizado, muito nos compromete e nos aturde. Por isso os espelhos. Necessitamos, aqui, estar sempre em contato com a nossa imagem, no desígnio de nos auto-encontrarmos, de realizarmos uma autocorreção diária. Já que andaremos feridentos pelas ruas dessa nossa imatura idade, é sempre bom saber enxergar as nascentes desses horríficos ferimentos. Para isso servem os espelhos.

Ó deuses, santificai os espelhos que podem refletir as almas dos homens!

Quando adultos, uma boa receita seria mesclar um pouco da inocência infante com o tom cinza da responsabilidade e das ações resolutas que sabem resumir bem as formas e perfumes desses vergéis, sem jamais esquecer de pôr uma pitada de amarelo-mostarda nesse prato, pantomina das conquistas pessoais, materiais e espirituais. Seria essa a fase do aprimoramento, da concretização e do reconhecimento. Uma etapa de muita cautela e paciência, de muita experiência. Os móveis, aqui, deverão estar muito bem combinados, em perfeita harmonia e ajuste. Sem folgas, os parafusos apertados no simbolismo da segurança, da racionalidade em detrimento da emoção. Nada de pinturas surrealistas ou abstracionistas na ornamentação. A distorção das coisas, dos fatos, aqui, não será de muita valia.

Agora, um sinal de alerta. Uma advertência para o estado das gavetas. Conservem-nas sempre muito bem fechadas, cerradas até o limite dos seus "umbrais", até que toquem as suas outras peças de contato. Não é proveitoso deixar brechas nesse patamar da vida, elas podem ser extremamente perigosas. Podem significar más influências, dissoluções e , acima de tudo, conflagrações que irão nos dissolver por completo, nos queimar e , na pior das hipóteses, nos tornar inúteis, meras estátuas de carne estragada ou aparelhos fungíveis.

Depois da fugidia aurora temporal, será preciso uma acurácia tamanha na arrumação e na escolha e na preferência das tintas que irão predominar em nossas vidas. Ao cabo dos semblantes marcados, caberá agora o uso de nossas ferramentas de defesa, de nossas armas de retaguarda. É o tempo de sermos insolentes, chegando ao extremo, de derrubarmos muralhas e fortes com os nossos aríetes ou com os nossos gládios, numa batalha mais dura. Um tanto que alquebrados, disporemos de nossa adormecida impudência, no justo intento de nos cobrirmos com os louros e com as glórias oriundas da sabedoria apreendida com o fel das quedas. É momento de contarmos os nossos proventos e não de lamentarmos os nossos infortúnios, os nossos átimos de agouro. É local de desfrute, de deleite e de congraçamento. O perigo aqui é cair no abismo da obscuridade, dos gestos desvalorizados, tornados escórias e refugos. Cabe aqui o olhar vivo, clínico, em busca de diagnosticar a fonte do gozo etéreo. Os pensamentos e ideais devem percorrer os caminhos da eternidade. Debaixo desses trovões, pensar efêmero é retroceder e, como já sabemos, a infância é, a essa altura do campeonato, apenas um retrato na memória.

Devíamos mudar de atitude com a mesma periodicidade que trocamos de roupa. Todavia, tudo tem de ser muito bem estudado e necessário mesmo. Ninguém deve mudar por mudar, assim, sem precisão. Para cada ocasião, um novo espécime de sorriso, um novo modelo de cumprimento, sempre mais afirmativo e veraz. Pela manhã, na companhia do sol, um "bom dia" radioso e claro. No descanso solar, o "boa tarde" amigo e, no silêncio da lua, o "boa noite" sincero. Certamente, agindo assim, seríamos muito mais felizes. O número de pessoas depressivas decresceria. O estresse não faria tantas vítimas.

Na vida, tudo é uma questão de arrumação e de bom senso. Se bem soubéssemos, a partir desse instante selecionaríamos as nossas amizades da mesma maneira que escolhemos as tintas que colorirão os cômodos de nosso lar. Selecionaríamos os gostos, se amar ou não, se querer ou não, se ir ou não, se ser ou não. Da mesma forma, jogaríamos fora as nossas desilusões, os nossos desapertos e desapegos, assim como descartamos algumas peças do vestuário. E viveríamos mais e melhor, sem distorções, sem desatinos.

Então, o que você está esperando?
Acho que é hora de uma faxina geral...

Escrito em 31 de janeiro de 2005.

Em tudo preencher


Buscar Shakespeare
nos versos do vento,
nas vozes tuas...
linhas escritas distantes,
bem distantes
do que é de um só.

Buscar nos teatros,
nos bares,
nas luzes dos bares
noturnos...

Buscar nos alcouces,
e na tua preguiça
buscar...
tentar as ruas, as luas,
nos distintivos,
nas guerras...

Tudo existe.
Preencher, que palavra bela!
Preencher,
e nada mais...

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Quando há nuvens no firmamento

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Hei de comprazer os loucos
e suas loucuras - quanto sal em mim,
ruídos, para ser dissolvido! -
que afloram vastos caminhos.
Vale à rosa a dor do espinho?

Procuremos a unidade
em nossos vários,
a persona, única,
singular.

O meu mundo já não tem o elã
de outrora, está menos diáfano,
menos etéreo, menos mundo.
Mas nem por isso morto,
devastado; não hei de planger
e, amargamente,
olvidar das esperanças.

Figurarei de olhos abertos
à espera - e a espera,
nasce sol depois do noturno? -
de que sejamos carne e osso,
vivo ou morto?,
insulso?,
é culpado quem sente pena?,
o que é mesmo...
O que é que é,
nunca tendo sido,
jamais nascido?

Vai ver esperança seja mesmo
a da morte derradeira.
Vai ver o filho não é
o espelho do pai.
Vai ver não há Pai,
nem dúvidas amargas
que nos tornam faltos
ou termos médios
ou crisálidas.

Se no Homem não reside a promessa,
o que nele restará de original?

A vista cega?
As mãos que iludem?
Píricas chamas apagadas?

Ah, eu hei de comprazer os loucos
e todas as suas loucuras
e delírios,
pois não há razão
perdida
para um coração que se abre.

Correrá rios, badalos,
e sentimentos de pássaro,
pois somos a propriedade
única
da variedade,
com espaços para beber da Arte,
libar do mundo,
querer do outro,
fugir do escuro.

Assim, estando loucos
(e há lucidez nata?),
voar céus sem metas,
pescar estrelas sublimes,
atracar portos sombrios
e se alimentar da Vida,
que por vezes nos fere
e nos derruba
e nos arrasta
para a distância mais fria.

Quando há nuvens no firmamento
e o celestial se mostra azul,
quando se enxerga o bem que tem
o circular vôo dos urubus,
pode ser que a hora venha
abraçar teu canto morno,
pode ser que a hora venha
afastar teu véu, negrume.

Eu hei de abarcar o teu indício
insano, limpar tristeza
de ser humano...
para só depois repousar.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Os Impérios de Napoleão Joujaumontx (Parte II)

domingo, 24 de fevereiro de 2008
Em sua última aparição, Napoleão Joujaumontx encarou imbróglios diversos que acabaram por mexer no seu comportamento habitual. Percebendo que nada estava acontecendo como ele queria, Napoleão Joujaumontx resolveu observar a administração de um de seus impérios do Ártico, ali nas proximidades de Spitzbergen. Furioso ao ver os desmandos de seus dependentes, o general de cinco estrelas, Napoleão Joujaumontx, decidiu ir ao encontro de seu mais antigo súdito e provável herdeiro de seu trono, posto que havia desconfiado de alguma falcatrua ideológica e de uma decepcionante corrupção material.

Parecia perdido em sua existência errante, quando tomou fôlego novamente e corroborou a sua última frase, dizendo...

Já sei u qui fazê, pô! Tenhu um planu mirabolanti aqui na cachola. Aqueli salafráriu du Pinóquio vai si arrependê di tê mi conhecidu. Eli vai vê cum quem está li danu! Ah, si vai...

Napoleão Joujaumontx, a lenda viva e o virtuose do poder, num acesso de cólera, iça sua adaga imperial e grita gritos de homem já experimentado em fronts por todo o mundo...

Eu hei di ti pegar, seu gatu disgramadu! Eu hei di arrancá us fiapus di teu bigodi, seu bichanu di uma figa! Ou eu ti capu di uma vêis pur todas ou eu não mi chamu Napoleão Joujaumontx!

Depois de elevar a voz forte e máscula de guerreador invencível, Napoleão Joujaumontx, ele mesmo, o irmão caçula do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, aquele do Saavedra, olha para o seu relógio suíço de ouro 24 quilates e acerta os ponteiros de sua próxima glória...

Agora são 07:37 da matina i você tem exatamenti uma hora pá aparecê di ondi quer qui você isteja, seu Pinóquio disgraçadu. Eu não disistu assim tão fácil não! Doa a quem duê, eu ti capu ainda hoji. Nunca mais você vai mi disobedecê dessi jeitu. I vou logu avisanu, viu! É melhó você trazê a disgraça du meu chinelu, purque sinão a coisa podi ficá ainda mais preta pú seu lado!

Armado da cabeça aos pés e com os devidos broches da Academia Militar de Paris pendurados no belo capuz azul com bordados turcos, o artilheiro-mor Napoleão Joujaumontx começa a aferir todos os recantos do condado de Spitzbergen, onde descansava havia duas semanas...

Ondi é qui essi infiliz si meteu!? Atráis da bosta da geladêra nova eli num tá. Nem imbaixu da pia. Piorô atrais du bujão. Sabi di uma coisa, eu vô é procurá lá no banhêru. Gatu gosta di iscondê suas artis em locais privadus. Nada melhô du qui vê si eli istá atráis da latrina. Não custa nada averiguá!

Conhecendo novamente a força que impulsiona os maiores homens da história a lhe percorrer as veias e as artérias, o indestrutível Napoleão Joujaumontx demonstra uma certa malemolência corporal logo depois de adentrar pelo portão sul do Condado de Spitzbergen, perto do setor de descarga de paramentos bélicos de seu já citado território...

Pô, qui disgraça di fedô é essi! Qui disgraça é essa, meu padin Ciço! Quem foi qui obrô nessa merda i não deu discarga!? Pinóoooquio, seu felinu maleducadu! Deixa eu ti pegá qui você vai vê a cô du meu currião vermei, viu... Pô, esse banhêru tá parecenu us infernu... cum aqueli tantu di inxofri frevenu nus caldeirão lá das terra di baixu. Qui fedentina, meu padim! Pareci qui não limparu a privada desdi o início du anu.

Surpresa maior o maior dos mestres da guerra iria ter ao abrir a tampa do seu esconderijo subterrâneo...

Qui tulete é essi, meu sinhôzim do Ceará! Aqui tem cocô qui não acaba mais! E é cocô di gatu, i di gatu safadu! Pinóooquio, seu gatu fididu, queru tê uma convessinha cum o sinhô! Apareça, seu vermi disubidienti!

Depois do susto, mas ainda claudicante, Napoleão Joujaumontx percebe uma trilha feita com as pegadas de seu súdito. Uma trilha construída recentemente, ainda viva e de perfeitas formas...

Ah rá, seu Pinóquio di uma figa! Seguindu essa istradinha eu vô ti achar rapidinhu e pegá você cum a boca na butija!

Mesmo descobrindo uma real pista do seu escudeiro trapaceiro, o irmão caçula do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, o fenomenal Napoleão Joujaumontx, utiliza-se de cautela, dom daqueles que já nasceram para a arte da guerra*...

Eu não possu mi afoitá. A paciência nessas hora é a melhó coisa a si produzí. Precisu esperá chegá u meiu du dia, pois assim terei mais chanci di capiturá Pinóquio. Todu gatu é priguiçosu quandu u sol tá nu meiu du céu.

É quando Napoleão Joujaumontx percebe alguma coisa a se movimentar no setor norte do Condado de Spitzbergen...

Meu padin Ciiiiiçooo! U qui foi aquilu, meu deus!?!?!

...

Não perca o próximo capítulo da saga de Napoleão Joujaumontx!
Você não perde por esperar...


Obs: Napoleão Joujaumontx não leu "A Arte da Guerra", de Sun Tzu. Todos os seus conhecimentos foram adquiridos em campos de batalha, comendo o pão que o diabo amassou.

Uma Vida


É momento de messe
dias grandes e de júbilo
em que o homem se renova
nova forma de ver, sentir
(que é tudo diferente?)
rente aos olhos da espera

Os campos verdes nascem belos
são os frutos das mãos calosas
no fundo são mãos de seda
donas do segredo, da fonte
e também do medo

O sol se deita os homens lassos
bebem o crepúsculo
som de noite no campo
o passo-preto entoa o derradeiro
hino do dia difícil
que parece não acabar

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Os Impérios de Napoleão Joujaumontx (Parte I)

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O fabuloso, o fantástico, o estupendo, o incrível, o inenarrável, o maravilhoso, o magnânimo, o impermeável, o inclassificável, o parafinado, o memorável, o homem que Deus guarda, o mosqueteiro das ínfimas situações, o fantasma da ópera, o paraninfo dos covardes, o homem que tudo vê, o grande, o maior, o incomensurável, o independente, o abominável homem das pequenas coisas, o dono do mundo, o prefeito dos formigueiros, o presidente das reuniões inacabáveis, o magnífico, o tirano e respeitadíssimo Napoleão Joujaumontx acordou atordoado e o relógio marcava 06:32 da matina.

Sem água no condado, Napoleão Joujaumontx resolve conferir um de seus Impérios do Ártico...

Pô, u supe bondi qui comprei onti já tá cum u bico intupido. Qui disgraça di cola é essa qui cola até ela mesma!? Tô aqui matutano umas idéia, pera ainda... Deve havê algum poblema cum alguma coisa, purque num é possíve umas coisa dessa! Paguei foi quato pila na bosta da cola pá agora ela ficá assim...

Indignado e pensativo, o grande Imperador das libélulas rastejantes, o imprevisível Napoleão Joujaumontx, aparece com uma lâmpada acesa sobre a cabeça, como nos desenhos animados de antigamente...

Issu! Suspeitei desdi us primórdio das civilização! É a disgraça da geladêra. É daquela do comercial i tá cum menos di um mêis qui ela invadiu a cuzinha aqui di casa. É issu! Motô novo só podi dá nissu, congela dimais. É purisso que cultuo u som dus bulachões. Já ouvi dizê qui quem iscuta muinta música em aparei de Mp3 fica surdo em seti anus. Pur causa das finas feqüências. Bulachão é uma onda, u chiado pareci música clássica.

Fingindo uma melhora em seu estado de nervos, Napoleão Joujaumontx é acometido por um pequeno desvio de comportamento e acaba reagindo de maneira abrupta e impensada...

Pô!!!
Gastei dinhêro pá dedéu na merda dessa cola maluca!
Vô jogá é no lixo!

Depois de atirar o objeto na pequena lixeira da cozinha, o insubstituível Napoleão Joujaumontx tenta o pneumotórax...

Meu chinelu! Cadê u meu chinelu!? Pô, cadê u meu chinelu? Qui disgraça di dia é essi qui já amanheceu dano tudo errado! Pô, devi tê sido o Pinóquio. Ah, quandu eu pegá aqueli gatu safadu eu acabu cum a raça dêli... ah, si acabu! Pinóooooooquioooo!!! Ô, Pinóoooquio! Bichano, psiu, psiu, psiu!!! Venha cá, meu herdeiro!!! Pinóoooquioooooooo...

Depois do insucesso da investida, o inabalável Napoleão Joujaumontx conversa silenciosamente com os seus botões...

Pô, num sei u qui é qui eu faço agora. Nem cola nem u qui restava di meu chinelu, e muinto menus sei du paradêru du Pinóquio... Eu tenhu qui bolá um planu!

O estrategista Napoleão Joujaumontx encara o desafio de encontrar o seu calçado com a seriedade dos grandes generais. Quando todos pensavam que o Imperador dos imperadores precisaria de muito tempo para elaborar uma tática de abate, o gênio Napoleão Joujaumontx aponta o dedo indicador de sua mão direita na direção de sua testa e vocifera como um leão enfurecido...

Já sei u qui fazê, pô!

...

Não perca o próximo capítulo da saga de Napoleão Joujaumontx!
Você não perde por esperar...


Inicio aqui mais uma série de histórias curtas, agora com o título “Os Impérios de Napoleão Joujaumontx”. A comicidade como pano de fundo, mas no fundo, no fundo mesmo, uma crítica brincalhona e meramente decorativa ao descaso perante a "correta" pronunciação das palavras da nossa Língua Portuguesa. Espero que gostem da idéia! Continuem ligados no Clube de Carteado, pois a qualquer momento Napoleão Joujaumontx pode atacar novamente...

Abraços a todos os leitores do Clube de Carteado.
Com atenção, Germano V. Xavier.

Anforal


Grãos de lua em minh'alma.
Pétalas de sombra
cobrem meus recantos
de pássaro, crescem lâmpadas
escuridão cintilante de ser
e de estar
contido
em redomas, campânulas
cor de violeta
quando borboletas ainda crisálidas.
Sibilam árvores. Ventos,
na tentativa de raízes arrancar.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

A vida é mesmo um absurdo (O Sonhador - Parte VII)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Perdoa, Senhor, eles não sabem o que fazem. O que é que você é? Que espécie de animal é você? É isso mesmo! Hoje resolvi falar direto com a sua pessoa, que mete o dedo no nariz do seu ócio repugnante. Você não enxerga o mundo que te cerca? Você se enxerga, verme de mostarda? Eu sei, e já disse isso muitas vezes... que a humanidade está fadada à civilização. Todavia, não é por isso que deixaremos de mexer nossos pauzinhos em prol de uma vida mais digna, igualitária e justa. O assunto é muito sério, seu canalha! É melhor tomar logo o seu comprimido. Eu não quero aborrecimento. Nessas horas, é bom um pouco de calma.

Não se preocupe comigo, eu já tomei o meu "chazinho" das três. Eu quero lhe falar de uma criança que tive a oportunidade de conhecer hoje. O nome dela era Uiliam. Ele não soube me dizer a sua idade. Desconhecia as idades dos seus irmãos, que eram no número de doze. Dissera-me que era o segundo mais jovem. O seu olhar era profundo, de um langor que trespassava a pouca gordura de seu corpo trigueiro e castigado pelo sol. Era noite e o frio não era tanto, mas capaz de fazer gemer um organismo infantil descamisado e que não devia ter os seus onze anos de idade no dorso infante. A fome é visível mesmo quando tenta-se, em vão, escondê-la. Não que o menino estivesse querendo esconder alguma coisa de mim, mas é que havia muito mais miséria e sofrimento por trás daquelas respostas curtas e secas que proferia.

Minha cabeça... ah, essa dor de novo!

Não quero imaginar que você é daquele tipo de pessoa que consegue dar risada numa situação tão constrangedora como esta. Não, eu não te imagino assim. Espere um pouco, eu não encontro a minha puçanga!

Sim, eu falava da noite e também do frio... Quando perguntei o que ele queria ser quando estivesse maior, ele sussurrou: "Nada." Se eu tinha alguma pretensão de entrevistar aquele pingo de gente, minha intenção terminou diante daquele singelo "nada", tão sequioso e tão cheio de esperança. Eu sabia e você também deve saber: Uiliam quer ser alguém na vida. Ter uma vida digna e justa é um direito de todos. Você sabe o que é miséria? Você desconfia das marcas desse sufoco? Vendo a sua cara de idiota, tão dissimulada e polida, começo a acreditar que o idiota aqui sou eu, que não vê a desfaçatez de seus trejeitos ordinários.

Afasta-te de mim, seu fescenino! Eu não quero discutir com você! Agora compreendo que de você não devo esperar nenhuma mão que acalenta o vazio, que acoberta a escassez ou que diminui a ânsia pela saciedade.

Deus, como poderei suportar tudo isso? Uiliam cruzou os braços fininhos na tentativa de encontrar os seus sonhos de menino, de menino de rua e que não tem o que comer nem onde refugiar-se. Seus pais parecem não esperar sua volta. Uiliam deita no banco da praça. A lua logo se prontifica em cobri-lo de estrelas e nuvens.

Deus, o que será de Uiliam?
Há será?

Ass: O Sonhador Gervixa.
P.S. Jô, ainda retornarei às suas questões. É que não estou no seu "mundo"...

Tudo, outra vez! (Pitacos - Parte II)


Ainda sobre o “Pitaco” inicial, é bom que a poesia não fique apenas na primeira impressão. Ainda é cedo. Quem viver, verá! É que ontem eu olhei pra Maiane, colega de Letras, e perguntei irônico se ela já não sabia de tudo o que a professora estava vomitando lá no meio da sala. Demorou uma demora curta e logo surgiu um sorriso de pimenta. "Já sim, já sim, parece que ouvi esse discurso três vezes ano passado", falou. Ela faz Pedagogia na universidade onde também curso Jornalismo. Pior que é Prática V e ainda teremos mais três outras Práticas pela frente. Será mal de quem cursa duas faculdades? Quem viver, verá!

O melhor do mar

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Que mar trará
a graça?
Divina fortaleza,
marazul mulher...

Que céu, que vento?
Sonhado alimento
d'aurora d'alma,
marazul mulher...

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

O cinismo do sol


Onde estão as algemas? Preciso prender o Tempo! Devo armar uma tocaia, eu sei. E pegá-lo por trás, sem que ele perceba. Mas, onde estão as algemas? Não sei onde as deixei. Estou perdido. O frio é insuportável! É noite... Pequenos insetos voadores circundam os vidros translúcidos das luminárias dos becos da cidade que dorme a morte diária. Muitos fantasmas me espiam. Eles desejam o medo... querem que eu sinta medo... Bravo sou! Mas, onde estão as alg...

Que frio intragável! A escuridão noturna é a ironia do sol. O sol é mesmo um cínico, um partidário da rutilante desfaçatez. Sinto o vento gélido que vem dobrando as esquinas vazias, sem almas. Frio... Preciso amarrar o Tempo! Vou construir armadilhas para pegá-lo desprevenido. Espalharei ardis por toda a cidade. Isto me custará um tempo. As copas das árvores balançam numa dança macabra, elas parecem sinalizar alguma coisa.

O frio é cada vez maior. As algemas! Procurei por todos os lugares e nada. Estou perdido. Não conseguirei o que quero. As velhas casas parecem tão vivas. Mas, e o Tempo!? Meu Deus, onde estarão as algemas? Minha cabeça, onde estará?

Antes em forma de brisa, os ventos agora resolveram se agigantar. Eles sopram forte. O cenário é de esquisito. Sinto frio... Meu corpo treme. Sinto-me fraco, cansado. Vou descansar um pouco. Encosto numa parede e recolho algumas armadilhas para perto de mim. Folhas são sinfonias que escuto. Minha visão é confusa. Acho que vejo alguém se aproximando. Uma sombra. Um vulto. E cada vez mais perto. A sensação de frio é desumana. Tento um velho agasalho, não adianta. Meu Deus, será Ele? Algo de feições muito estranhas está vindo em minha direção. Beiro a cegueira. Por Deus, as algemas! Onde estarão as algemas? Até quando este suplício? A sombra... A sombra que desaparece. Não vejo nada. Tudo é silêncio e noite. Indesejável frio! Preciso prender o Tempo! Mas...

Saí em disparada. Os loucos...

O sol se lança. Um novo dia atravessa o caminho dos meus olhos. E eu que preciso prender o Tempo! Eu que preciso! Ainda o frio. Sento na calçada. As antigas formas se reconfiguram. Daqui, pacientemente, espero o Tempo passar...

Escrito em 05 de novembro de 2005.

Modéstia à parte... (Pitacos - Parte I)


Eu que pensei ter perdido a poesia há um certo tempo, tempo de morangos azedos, errei foi feio o alvo. A dita cuja me veio de novo, agora sorrindo um sorriso de sapato alto. Um mule. Blusa roxa, corte vertical preto. Lantejoulas. Cabelo loiro, na altura do queixo. Pingente de borboleta. Presa? Não! Voável! Relógio, pulseira. Mão esquerda e mão direita, respectivamente. Óculos, batom e, principalmente, Bakhtin. Dois anéis em dois artelhos da mão esquerda e Saussure deixado de lado. Eu pensando cá... Será mesmo? Esquece, sou poesia de novo. E tem nome: Isva Modesto. Professora de Linguística II.

Inicio aqui mais uma série de textos, esta intitulada de "Pitacos". A intenção é produzir impressões do cotidiano em, no máximo, 500 caracteres devidamente digitados e contados. Portanto, a série "Pitacos" preza pela mensagem dinâmica e resoluta. Espero que gostem da novidade. Mais um exercício que pratico no intuito de não morrer vazio, assim, no vago do mundo. Espero que gostem! Interfiram...

Decisão


Vou me jogar do prédio,
eliminar todo esse tédio,
que me devora
e que vara
a madrugada
dos meus sonhos.

Vou descer num vôo-instante,
maravilhosamente ausente.
Flutuar o bastante e,
leve, feito um sorriso
infantil,
fitar a existência
doutros planos.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Dois

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ela deixou cair dois cigarros da pequena tiracolo cor de calabresa mal passada. Eram seus últimos dois cigarros. A mínima certeza da saciedade em dois mínimos tragos. Era já o terceiro maço e o sol forte ainda titubeava no horizonte. Há muito o astro-rei houvera demanhado. Tinha acabado de sair da farmácia. Remédios. Fumante inveterada. Dois tarjas pretas. Tinha ido ao Dr. Temístocles no dia passado, aquele dos cabelos tingidos. Remédios estavam custando os olhos da cara ultimamente. Olhos esbugalhados, é claro.

Odiava ter de fazer contas. Foi para isso que se casou. Seu marido dava aulas de matemática em um colégio no centro da cidade. Nunca se interessou por cálculos, trigonometria, juros, porcentagem, geometria espacial. Um tédio tudo o que tinha ou usava cálculos.

Errou nos cálculos do seu prazer. Um dia a gente sempre erra, por mais pensar que não. Costumava fumar três maços de cigarro por dia. Aquilo significava que era possível fumar dois "tabaquinhos" e meio por hora e, mesmo assim, terminar o dia completamente saciada. O cálculo desprezava as horas em que ela passava dormindo. Mas não tinha feito isso. Tragou mais do que podia. E agora? Nesses casos, o que fazer quando sobram horas e faltam cigarros? Certamente, uma questão difícil de ser respondida. O que fazer quando o ópio da vida lhe escapa? Qual a saída?

Quando reparou que aqueles dois tubinhos brancos e nicotinados lhe eram os derradeiros, a mulher, que aparentava uma sofreguidão de décadas, sorriu um sorriso cor de quiabo. Levou as mãos à cabeça num gesto quase instantâneo. "Ai, meus pulmões desgraçados!", disse baixinho consigo mesma.

O sol agora é que resolvia descansar. A branda lua, prenúncio de escuridão. A cidade acendia seus fachos luminosos e artificiais. A noite se agigantava e ela não iria suportar toda aquela angústia e todo aquele vazio interior. Nenhum marido nem televisão, nem banho aromático, tampouco algum sonífero... nada seria capaz de substituir aquele seu vício antigo. Nem uma trepada louca perto da sacada do apartamento.

Noite total.

Noticiário local: sinônimo de um trago. Aquele, o último. Seu marido não fumava e ela não costumava deixar reservas. Sem estoque, o que fazer com essa vida virada?

A última tênue cortina de fumaça baforada, olhos tristes e desorientados. Onde estará daqui a alguns instantes?

Quinze minutos se passaram e nenhum cigarro a ser devorado. Nada, absolutamente nada nas mãos. Agora trinta. Começo do suplício. Trinta e cinco. Aguentará? Trinta e nove: o estopim, o divisor de águas. Ela está desgovernada, como um carro que despenca de um precipício. Suas mãos cegas procuram no vento negro da cegueira o combustível do seu caminho. Quarenta, palavras duras com o marido sonolento. Quarenta e um, a casa parece querer cair. Quarenta e dois, nenhum arrependimento pela matemática impraticada. Quarenta e três, pequenas facas de churrasco brilham seus aços de mortalha. Jugular seca. Não suportará!? Perderá a partida!? Quarenta e quatro minutos, o ar é curto, o tempo não pára. Quarenta e cinco, "Deus é mais!". Quarenta e seis, estiletes voam sobre sua cabeça baixa. Quarenta e sete, ela vai explodir.

Quarenta e nove, quase cinquenta, ouve-se um latido. É o Tato, seu cãozinho de estimação. Ele veio lamber suas pernas.

Texto escrito em 23 de março de 2003.

Uma visão no palácio das almas


Manuel, acabei de ver um homem humano!
Não tinha moda nem artigo,
vestia a poeira de seus rincões,
calçava o sol dos grandes gerais
...
Lia você, quando ele entrou no palácio
das almas;
aquilo me paralisou.
Notei educação em teu chapéu,
quando o pôs ao encontro de suas ancas.

Pediu informações; calmamente
vislumbrou toda a volúpia do lugar.
Sentou-se vagarosamente, esperando
o artefato que o levaria
à tão sonhada "pasárgada".
E eu ali, completamente atônito
ao perceber que o homem humano
era sereno em seu olhar.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de carteado/2006)

Qual é a da Poesia?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Poesia não é um crime premeditado, em que o escritor forja álibis ou procura esconder pistas sobre um "assassinato" de um indigente qualquer. Pode até vir a ser, se dominado, o poeta, pelo mal-do-tempo. Porém, na maioria dos casos, não é delito sabido. E é aqui onde o perigo reside. O poeta simplesmente atira seu projétil-verdade e acaba ferindo estruturas diversas, inclusive os andaimes que o sustentam. É claro que cometo algumas gafes, como por exemplo dizer "Eu vou escrever um poema". Mas todo homem tem o direito de errar uma vez na vida. Pensando assim, talvez o crime poético esteja aí, na falácia impensada e sem juízo de quem legitima sua escrita em pulsões distraídas e cobertas de uma volúpia insensata. Mas também é certo que, no maior do tempo, o poeta, aquele de verdade, costuma escovar os cabelos do silêncio e permacer absorto, tentando se encontrar. Quem aqui irá dizer que não é necessário escutar-se, que não é importante ouvir seu próprio barulho interno, refletir, amar ou odiar a si mesmo?

Escrevo como quem existe. É mais do que lógico: ninguém hesita em existir. E não me venha dizer de defenestradores de quinta categoria, ébrios que ateiam fogo em suas carcaças doentias ou de loucos arrependidos. Se, por acaso, a poesia for uma atitude criminal, partirei do princípio de que ela tem o seu lado passional. E isto também é fato, indubitável. O poeta escreve por que ama, e também porque odeia. Odiar também é amar, amar inversamente.

Se você me perguntar o que é Poesia, eu simplesmente agirei da forma mais vaga possível. Eu não sei explicar, sinceramente. Não conheço sua face primaz, primitiva. Eu apenas suspeito de tudo. Acredito até que ela é uma "coisa" que não possui conceituação plausível e humana. A poesia transcende, duplica-se, quadruplica-se, perde-se em si mesma por tão gigantesca ser. Para mim, ela sempre foi algo maior que eu, muito maior, mil anos-luz maior que eu, um universo maior que eu. E sempre será uma explosão de música, de nervos, de pensamentos, surgindo de um ato quase sempre solitário, intransferível e altamente singular.

Se há alguma coisa que desejo nesse mundo é um dia escrever um poema. Mas sei que isso me ocorrerá apenas se eu não desistir no meio do caminho ou tropeçar nas pedras da vida, porque, como diria o nobel Elias Canetti, cada poeta que nasce ajuda a tecer um irrisório fio na poesia-una, na poesia total do mundo. Por isso sigo, lançando lanças em combates diários e quase sempre madrugadores. Poetar significa, entre tantas outras coisas, matar o Amor para que ele sobreviva sem a pieguice. Significa desbastar o poema para que fique somente o essencial, como tantos assim já disseram. É ter o verso como uma escultura ainda não lapidada: o rosto está lá dentro, sendo preciso descobri-lo extraindo pedra. Daí a dureza de escrever, o suor.

Há quem pense que o texto poético se faz derramando sentimentos no papel, inflamando o ego da namorada, chantageando os amigos com loas, descrevendo as belezas do mundo, registrando nossos melhores momentos no diário. É também, mas isso é o mínimo, e justamente o contrário. Não há de ser desabafo somente, poesia revela a realidade sem intermediários e filtros, ou é o próprio aparelho filtrante. Uma comoção, sem choro ou com, psíquica, nunca servindo para maquiar ou obscurecer o cotidiano, mas para apanhar os detalhes e as distrações que tornam o homem mais verdadeiro e intenso.

A poesia também faz sangrar, é preciso lembrar disso.

Óleo sobre tela


Bateu a porta
na cara daquela
mulher gorda...

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Pagú que há em mim

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Para o Sr. Gervixa

Há coisas que precisamos conversar, mas não se preocupe! Não são bobagens infundadas e você não perderá seu tempo me ouvindo, garanto!

Já olhou o céu hoje? Já sentiu a brisa fria passar pela sua pele? Ah... certas coisas deviam ser feitas apenas nas manhãs de janeiro. Mas não precisamos falar disso, se não quiser.

Quero falar-lhe dos meus sentimentos. Não penses que já te amo, seria traiçoeiro da minha parte fazer isso com os meus hormônios. Quero que olhe nos meus olhos e sinta o que sinto neste momento. Sabe o que é um sentimento de impotência?

Ainda entrego-me a causos particulares do dia-a-dia para me safar desse sentimento, e ainda me aplaudem, vê! A impotência surge toda manhã assim que abro os olhos e acompanha-me pelo resto do dia como uma alma inebriada. Sinto que não faço aquilo que quero, mas não existem opções. Há um vulcão dentro de mim, pronto para explodir desejos, sensações e sentimentos de todos os tipos, mas eu não consigo. Simplesmente não consigo. E cada milímetro que vejo daqueles que sentiram o mesmo, tornam a minha dor mais fácil de ser sentida... mas não se acalenta, ela continua aqui com uma força de dar inveja aos guerreiros persas.

Como podem falar em beleza se não entendem a pureza dos sentimentos que sentem? Não quero ser a nova Pagú sem um Mário de Andrade. Escrever versos frustrados à beira de um alguém. Quero chegar de manhã com uma xícara de café na mão e um punhado de palavras na outra e dizer bom dia.

É verdade! A minha vida tem sido um papel riscado por diferentes contornos, contudo a infelicidade (ainda) não se aglomera em mim. Parece pecado ou milagre, não é mesmo? E vivo em tentativas... eternas tentativas de encontrar o pote de ouro no final do arco-íris, ousadia em sonhar, ousadia de não fraudar o que sinto.

Algumas vezes pergunto se a minha sina será perambular pelos arredores com uma folha em branco na mão. De certo que sim.

Vai ficar aí com essa cara?

Não vai me dizer nada?

Não vai dizer que estou certa ou que sonhar faz parte da vida, vai?

Texto escrito por Jô Moraes (www.cinemadavida.blogspot.com), em diálogo com as aventuras do "Sonhador". Uma dica: Para melhor entender este texto, é bom ler os seis capítulos do "Sonhador" que foram publicados até agora aqui no blog. Agora é só esperar pelo próximo texto do "Sonhador". Será que ele irá responder às perguntas da sua admiradora? É esperar para ver, e ler, claro.

Mulher-Asfalto


Não foi um encontro marcado
mas, no fim de tudo,
como quem manda um aviso,
vi-me a olhar o teu rosto
quase apagado,
manchado de sangue,
que também manchava o asfalto
frio
desse mundo ligeiro.

Parei em um breve instante
de espanto;
todos olhavam
e todos queriam saber
o porquê da queda daquela mulher
perdida entre tantos
olhares aguçados, sequiosos, ávidos.

Ninguém sentia a dor da sua roupa
miserável sertaneja,
que de tanta seca
acabou
esquecendo a dor
nata,
calada.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Soneto Verdade

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Sabe, eu não quero parecer ingrato;
longe disso, nem mesmo magoar eu sei!
Mas, entenda, eu não comungo desse trato,
do teu pacto de amor eu não assinei.

Destarte, posso até ser julgado
de insensível, indiferente ou traidor.
Eu só não quero carregar o fardo
de mentiroso. (Como posso dissimular o Amor?)

Veja, há tanta Vida para se viver!
Não leve água a um só passarinho.
Ouça outro canto, pois no outro caminho

é que do fruto do Amor você poderá colher.
Não sei se te fiz perder a graça,
mas a honestidade, por vezes, é a melhor desgraça.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Três faces para Julieta


Para Germano Xavier

A mão que antes se detinha a escrever poesias desconexas, agora pousa sobre as teclas da máquina de escrever. Apenas a pobre Julieta o entende, e fica ali, pronta para qualquer atitude inusitada. Há no peito um grande ensejo de liberdade, não se sabe porquê. Não há problema, e nem haveria de ter, pois a graça de viver está aí: libertar-se e aprisionar-se constantemente.

Uma linha imaginária separa o jornalista e o poeta, o professor e o escritor, o amigo e o amante: como meridianos e paralelos do globo terrestre. Só que estes, que ousadamente descrevo, traçam uma essência inocente, fugaz e, por ora, inesperada.

Os versos e prosas detalham olhares despercebidos pelos outros. São momentos que nunca são desperdiçados pelos olhos esverdeados (ah...o verde mar destes olhos), momentos arrestados paulatinamente em palavras, e assim, o poeta que existe no menino grande da Chapada Diamantina se lembrará de uma paixão. O jornalista, por sua vez, ficará por ali, tentando desvendar segredos com uma conversa boba aqui e outra ali... O professor fará um plano estratégico a fim de deixar bem claro o que quis dizer; já o escritor, estará em pleno gozo. Afinal de contas, as outras faces lutam arduamente para o seu regozijo. E aí, quando os personagens do menino deixarem de gladiar entre si, algo estranho acontecerá. A liberdade será para sempre! E eu não quero estar aqui para ver o final dessa história.
Texto gentilmente cedido por Jô Moraes (Senhor do Bonfim-BA)

Por baixo da saia (Ou quando o pecado não é mais que um mero detalhe)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Eu suspeitei de tudo, desde as primeiras horas da manhã. Eu suspeitei de absolutamente tudo. Estava tudo na cara. Tudo levava a crer que aquilo iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Mostrei-me um verdadeiro pascácio. Como fui bobo!

Você se sentou, retirou da bolsa um maço de cigarros e, com o auxílio de um isqueiro, acendeu um. Logo a primeira baforada acariciou a pele do meu rosto. Você não disse nada, e eu, completamente atônito, não percebi os dragões da paixão passeando pela atmosfera daqueles vitrais franceses.

"Quando começou a fumar?"

"Aos dezesseis."

"Por quê?"

"Não sei. Desgosto, talvez. Fui obrigada a dar para o dono da zona. Eu era ingênua. Fiquei traumatizada com aquilo. Pensei em me atirar de uma ponte qualquer, ou melhor, eu não pensava em mais nada. Passei a me detestar, a me odiar e a desejar que os outros também se sentissem como eu naquele momento da minha vida. Foi tudo tão rápido e brutal. Eu era virgem até aquele dia. Ele acabou com a pureza que havia em mim, mostrou-me o pecado. Não pude reagir, eu precisava de uns trocados... Lembro de tudo. Voltando para o sobrado onde eu morava de favor, passei em uma mercearia, ali na Travessa do Comendador, e resolvi comprar o meu primeiro cigarro. Estava muito triste, sentindo-me uma desgraçada, sem dignidade nem honra.

"E aí?"

"No outro dia, voltei à mercearia e comprei logo um maço. Fumei dez cigarros até cair feito uma pedra na esteira da saleta. Não tinha conseguido dormir na noite passada, foi horrível. Mas, como vê, hoje sou outra pessoa. Entrei para a igreja. Destino boa parte do que ganho para Deus. Ele me proverá o dobro. É a minha segurança, o meu tudo, é o meu Deus. Mas ainda sou caridosa com os homens..."

"Caridosa?"

"Puta, entende?"

"Desculpa..."

"Você parece que também é ingênuo..."

"Não, não pense isto! É que eu não quero olhar para você e pensar nesta situação."

"De puta?"

"Sim. Mas, por favor, não pronuncie mais esta palavra. Certas pessoas não combinam com certas palavras."

"Quer dizer que... mas isso é impossível. Eu não sou mais que uma puta!"

"Por favor!"

"Tudo bem, para você não sou..."

"Quanto tempo faz?"

"Do que?"

"Quanto tempo faz que... você..."

"O cigarro?"

"Não. Quanto tempo faz que você foi obrigada a dar para ele?"

"Perdão. Agora sou eu quem peço. Eu não sei. Talvez uns sete anos. A partir daquele dia resolvi desconsiderar o tempo. É tanto que, se você me perguntar quantos anos eu tenho, não saberei responder. Perdi a minha idade.

"Entendo."

"E você, o que faz aqui?"

"Não sei. Estou cansado. Essa semana foi difícil. É estafa mesmo."

"Entendo..."

"Então, gosta de vermelho?"

"Antes detestava, mas agora ele me cai bem. Sabe como é, a cor do pecado. Com ele no meu corpo, sinto-me mais poderosa, mais forte."

"Devia parar com isso, procurar outra profissão, outra coisa para fazer. Você acaba ligeiro levando esta vida, é um beco sem saída. Ninguém sobrevive por muito tempo fazendo o que você faz, pega uma doença, embarriga e é despejada, sei lá, e tudo o mais de ruim que possa existir."

"Eu gosto do que faço. Não sei fazer outra coisa, senão fazer os homens felizes. Eu nasci para dar o meu corpo a quem estiver interessado em comprá-lo. Sou das caras. Tenho orgulho disto. Sou das caras, só para os branquelos..."

"Não devia sentir orgulho por isso!"

"A gente tem que se orgulhar do que pode fazer, do que pode ser, do que pode sonhar. O meu sonho... sabe qual é o meu sonho? Meu maior sonho é desfilar em um conversível preto, um Cadilac daqueles enormes, vestindo um traje de gala, daqueles que as atrizes norte-americanas usam nas cerimônias de entrega do Oscar. Aquelas branquelas grã-finas também são putas, a única diferença é que elas usam coroas."

"Sabe, você devia se matar! Era o melhor que você faria."

"Verdade, seu cretino! Tenho certeza que esse desejo é o seu mesmo. Mas acredito que você não deixaria eu fazer isto sem antes eu dar o meu rabo para você! Estou errada? Seu cretino de merda! Passe bem..."

"Não, eu n..."

...

Naquela noite tomei todas. Estava desolado. Não sabia o que fazer. Não sei como cheguei em casa. De nada me lembro. Quando acordei, já no meio da tarde de hoje, fui à mercearia do bairro. Resolvi comprar um cigarro. Era somente um e aquela mínima quantidade não iria me viciar. Eu sei domar os meus vícios!

A primeira baforada foi seguida por uma tosse rouca. Pensei em morrer. Pensei seriamente em morrer, mas antes de decidir isto de uma vez por todas, fui novamente à mercearia e comprei um maço de cigarros. Fumei dez cigarros. Senti o meu silêncio. Novamente, não percebi os dragões da paixão passeando pela atmosfera da minha casa. Foi horrível.

Mas tudo mudou em minha vida. Hoje sou daquela igreja, daquele Deus. É nele que encontro a minha segurança. É ele o meu todo...

Texto escrito em 06 de maio de 2006.

Da Totalidade


Para que serve o "eu",
se não há "eu"
sem os outros?

Eu não sei mais o que dizer (O Sonhador - Parte VI)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Aqui estou novamente. Um sonhador com sua sacola de sonhos. De tudo, até agora, ficou apenas uma lição: a de que é preciso continuar e nunca desistir. Não há mais tempo a perder. Eu sei de tudo que faz você perder a cabeça. Eu preciso de um livro de poesia! Quero me encontrar, mas a poesia só me distancia mais das coisas, das pessoas, desse mundo. É justamente por isso que sou poeta. Ah, e eu não estou preocupado com as razões dessa realidade fajuta, você sabe muito bem disso.

"Deixemos as mulheres belas para os homens sem imaginação", assim disse o Marcel Proust em um de seus delírios de homem. Os lírios são belos? Quem foi que disse isso? Quem falou que aquela flor é mais bela que esta? Quem inventou o julgamento? Os meus psicotrópicos já não fazem o mesmo efeito de antes. Acredito que está na hora de partir para uma espécie de terapia supervisionada. E homem é capaz de cuidar de homem?

Maldição!

A cratera está cada dia mais profunda. Lá embaixo o fogo torna insuportável o calor. Deus, como é possível sobreviver aqui? Para esta sensação de ardor não há remédio. O espelho, dono de toda a fraqueza do ser humano, é a dose diária de veneno que preciso. Adeus, meus "redondinhos"! Adeus, minha puçanga! A liberdade para os meus pássaros coloridos!

Só quem não quer ver a si próprio vê a beleza no Belo! Hipnótico caleidoscópio de ilusões. Onde devo pôr meu espelho? Qual a melhor altura? Qual a rotina dos meus reflexos de pequenez? E existe realidade? É frio o real? Não tente responder, você não sabe das respostas. Mas eu sei, eu sei de tudo que te fere. Eu só quero que você acredite em mim, pois eu não sou louco. Eu sou apenas um sonhador que anda meio perdido entre tantos espelhos e imagens do inexistente.

Deus, o que sou eu?

Deus deve estar dormindo agora. Já é madrugada e o sono... o sono se perde em imaginários. O chão é gélido e os ratos roem as páginas amarelecidas dos livros na biblioteca escura. Quantos mortos em um só lugar!? Quanta gente morta, quantos suicidas, quantos desencantos e quantos ratos! As bibliotecas deveriam se chamar cemitérios (palácios das almas). Morte, será esta a sina de quem escreve? É por isso que quero que vivam e que não se preocupem comigo. Eu só estou aqui de passagem. Vivam! Não deixem de gozar de seus pseudosorrisos por minha causa. Eu não valho uma parte de suas essências, de seus interiores.

E existe beleza?

Perdoa, Senhor, eles não sabem o que fazem.

Ass: O Sonhador Gervixa

O Barco

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O meu vislumbrar...
e o mar,
tão mesclado
e tão parnasiano;
é feito o Amor,
gesto mais que profano:
insano?

És o Amor que vejo,
mas... e o mar?
O vate cabeludo diria:
"O mar é meu canto,
lugarejo de encanto.
O sonho teu manto...
O mar é meu canto".

Estupefato fico
ao senti-lo,
ao ouvi-lo.
E corre denso
espanto
no ver bisonho
deste corpo vil.

Pois devo admitir
que sou fraco
por natureza,
que sou um dilema;
apenas um poema
que sou perante o mar.

Ser débil,
delgado,
ditado,
dopado,
destroço,
detento
deserto:
poético mar
que me faz parar
no tempo,
e quão bom é tê-lo
em minha vista,
que há vidas anda
embaçada
pelo acinzentar das horas,
dos momentos e lugares,
do quotidiano atávico.
Brilho falso
de melancolias percebidas.

Ah, ...
o
mar
nas ondas...
Caminho.
Fustigo
o
sonho
posto
no
barco
de
quando
jovem
e
Poeta.

Ah, ...
o
mar
que
é
o
meu
mar,
onde
cabe
o
içar
das
velas
belas,
singelas
telas
a
passar
por mim.

Na tortuosidade
de tuas pernas:
estreitos políticos
e mercantis.

Ah, ...
o
mar
das
marés
úmidas,
dos ombros suados
e
nus,
dos
sóis
vermelhos
e
da
escuridão
brilhante.

Ah, ...
o
mar!

O
mar
das
pessoas
e
também
dos
poetas
que,
como
eu,
fogem
com
certa
rotina
para
perto
de
tuas
pernas,
de
tuas
coxas
e
de
teus
seios.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Quando a morte passa e balança os roseirais coloridos...


Não consigo chorar. Mas eu devia. Hoje, sob o sol pernambucano, fez-se surgir a Morte, sempre apressada para os de bom coração, e para a dona de uma das mais belas histórias de vida que já conheci em toda a minha vida.

Estelita vai continuar sendo o nome de uma mulher de grande bravura. Os são-bentenses de todas as gerações, mesmo essa juventude sem senso de irmandade, sem sentimentos e artificial, deveriam render a ela suas merecidas homenagens.

Talvez o meu choro não significasse nada diante das inesquecíveis lembranças que trago ao lado dela. Quando penso em minha infância, uma das primeiras imagens que me vêm à cabeça é a da minha tia preparando bolos à mão. Era um ritual bonito de se ver. Ela encostava uma pequena bacia plástica ao corpo, na altura do umbigo, e ficava horas misturando a massa com uma colher de madeira. Eram bolos irresistíveis. Ainda mais quando vinham acompanhados de um bom naco de "raspa", um tipo de queijo tradicional naquelas bandas nordestinas.

Não deixou filhos, só a certeza de que a Vida é uma criança ou um animalzinho de estimação, que por isso deve ser muito bem criada ou domesticada, para não dizer vivida. Não deixou filhos, mas deixou saudades. Uma coleção completa delas, passando pelas saudades eternas (que nem os ácidos da vida corroerão) até as saudades dos gestos e fatos mais triviais (nem por isso menos inolvidáveis).

Estelita, que era e continuará sendo irmã do meu pai, trazia em sua totalidade humana uma bondade demasiado farta. Minha tia sabia viver! Mesmo moribunda, consequência de um diabetes que lhe tirou boa parte da visão, Estelita regava todos os dias as roseiras do seu mundo. Sabia das fontes mais próximas e das águas mais cristalinas e puras, mesmo em terras onde a liquidez das coisas é deveras escassa.

Saía de casa quando o sol ainda estava se mostrando infante, numa disciplina e pontualidade suíça, e caminhava a alma do rio Una como se preparasse para uma batalha que sempre estava próxima a acontecer: a batalha por uma vida doada à felicidade dos outros.

Certamente o mundo perde uma de suas mais belas atrizes principais, pois ela não se aceitaria no rol das figurantes. Estelita era muito mais que uma personagem, era o próprio elenco, um coletivo de gestos de solidariedade e de amor que faziam-na dona de um grande exército de admiradores de sua índole, de seu caráter e de toda a sua dedicação.

Quando a morte passa e balança os roseirais coloridos, só haveremos de perceber a presença do vento, que se esconde por trás do farfalhar das folhas verdes. Mas a Morte se viu retraída diante da fortaleza de espírito que Estelita possuía. A Morte passou e só conseguiu levar a matéria, a carne, a parte que apodrece com a ação do tempo. A verdade de suas palavras, o afeto de seus carinhos, o abraço quente e acolhedor de seus braços, os registros de luta de seus olhos, a transparência de seu gestual sensível e piedoso, assim como a garra fibrosa de sua sertanidade permanece, tudo isto permanecerá vivo e atuante como um exemplo para os que a rodearam.

...

Segue tua viagem, assinalando com suas mãos firmes as rotas mais dignas de serem atravessadas. Com sua missão cumprida, tia Estelita partiu para as nuvens mais alvas do céu, onde somente as almas imortais conseguem chegar.

Este texto foi escrito (In memoriam) em 15 de dezembro de 2005, como preito à morte de Tia Estelita. Porém, boa parte das palavras nele contidas servem também como uma homenagem póstuma à Tia Preta, falecida no dia de ontem (13 de fevereiro de 2008), na cidade do Recife. Que descansem em paz...

Como era bom e eu não sabia...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Por que ser adulto é tão chato assim? Eu não entendo e parece que nunca vou entender porque mudamos tanto de uma hora para outra. Sabe, no fundo, bem lá no fundo mesmo, eu não queria que aquele garotinho recluso, inventivo e irrequieto, dono de uma arraia enorme e que nunca planou no ar por falta de ventos mais fortes, ficasse assim sem jeito, mais que encabulado, macambúzio até, apagado aqui dentro de mim.

Aqui dentro, mas é bem dentro mesmo, eu queria que aquele menininininininininininininininho consertador de coisas continuasse a consertar as coisas para minutos depois desconsertá-las, e para novamente consertá-las... Que bom mesmo é ser inventador de invenções, construidor de planetas, afetador de águas paralíticas, fazedor de diversidades.

É, bom seria!

Mas tem uma coisa que atrapalha, e é o pior de tudo, meu amigo. É que existe uma palavra cruel no manual do homem. A palavra Tempo. Você já reparou que essa palavra não larga do nosso pé?! Acredito que sim, não é? Por onde quer que andemos, faça sol ou faça chuva, esteja frio ou calor, seja noite ou dia, lá está o Tempo, implacável, impenetrável, pendurado numa parede, atado ao pulso, movido por um pêndulo, ecoando um tic-tac eterno, calculando as horas, cronometrando os passos, registrando os fatos... Não adianta fugir, ele estará lá, sempre. Até onde você menos esperar, lá estará ele, o Tempo, senhor da vida.

Não que ser adulto ou agir como adulto não seja interessante, mas é que ser criança é muito melhor, anos-luz melhor, e você sabe muito bem disso. Ser adulto é como ter uma inflamação em alguma parte do nosso organismo, é como se uma coisa esquisita quisesse explodir, pular para fora da gente o tempo todo. É a adultite, inflamação do nosso lado adulto. Neste caso, é a nossa criança interna que está doida para romper a barreira do corpo e já sair escorregando num carrinho de rolimã ladeira abaixo, rindo aos quatro cantos da Terra. A adultite é fogo, tem casos que nem um divã consegue dar jeito.

Lembra aí, vai! Tente recordar de como era mesmo fantástico ser gente miúda, dono de dente de leite, jogando sonhos para São Longuinho no telhado de casa, e mesmo assim correndo corredores coloridos sem ainda nem poder por causa do sangue vivo na boca. Lembra do pé de umbu que a gente escalava nas tardes calorentas nos roçados da vovozada, das mangas verdes com sal que a gente comia preocupado em não ingerir leite depois, porque nossa mãe dizia que fazia mal e a gente não queria nem fazer o teste para ver se era verdade ou não. Das brincadeiras em cima do monte de areia deixado pelo caminhão da empresa de material de construção quando o pai resolvia reformar a nossa casa. Era tanta alegria, não lembra? E era tão instantânea e espontânea que o Tempo era o que menos importava pra gente. A gente queria mesmo era o pé encardido de brincar na terra vermelha, o grude no rosto de tanto suor bom, a nódoa na camisa novinha em folha de tanto se lambuzar de alegria, as unhas pretas de tanto cirandar de felicidade...

Ah, como era bom e eu não sabia!

A gente dizia dizeres errados e ninguém da nossa turma nos lembrava das tais formalidades oracionais... Que gramática boa mesmo era a gramática da rua, profanada no calor da partida de futebol improvisada, com traves feitas de chinelos velhos e sujos e jogado com bola murcha de tanto quicar nos paralelepípedos. Que tese boa mesmo era a de que depois de um dia de alegria e de dedo topado no calçamento de brincar de esconde-esconde, sempre haveria de nascer um outro dia ainda de mais sorriso na face estampado. Quando se é criança, a gente vive o sonho e sonha a vida. A vida passa como passa a formiguinha no quintal de casa, serelepe, levando risonha a folhinha verde para dentro do formigueiro. É sempre dia de festa, nas chegadas e nas partidas. O fim das coisas é sempre um recomeço e não há espaço para a tristeza nem para a solidão. A gente conseguia ficar feliz até quando não havia ninguém por perto - e, olha, por vezes era bem melhor assim, concorda?

A meninice é um tempo verde, que flutua como flutuava a bolha de sabão que a gente soprava com galho de pé de mamão. Um tempo sem tempo, temperado com as mais doces especiarias, as mais raras e as mais preciosas. Um tempo destemperado por vida, liberto de amarras, tempestuoso para o bem. Porém um tempo temporada, com dia marcado para terminar. Um tempo temporal, chuviscado, torrente, toró, que infelizmente acaba. Porque logo a gente sente o peso das responsabilidades, a carga das tarefas banais, a dor na consciência pelos tempos perdidos e que, desditosamente, não voltam mais.

Ah, como era bom não ter o pesar do tempo deixado para trás!

Como era bom andar de bicicleta sem medo até o "Vai-Quem-Quer", chegar perto das serras da Chapada Diamantina, beirar o céu lá do alto, visitar o Engenho na entrada da cidadezinha, tomar banho nas cachoeirinhas da Caiçara, fingir que éramos desbravadores do mundo, bandeirantes infantes sem medo do pneu da velha bicicleta furar e nos deixar no meio do caminho... Como era bom perambular por aí, chupar fruto verde e azedo na estrada de cascalho que dava para a barragem do distrito de São José... como era bom passar pelas casas de farinha da Quixaba e da Queimada, ver aquele povo rico de histórias e de coração a olhar o sossego do mundo das janelas de suas casas... como era bom desbravar o Mulungú e pedir água de pote de barro para matar nossa sede de novidade.

Ah, como era bom e eu não sabia!

Hoje, do jeito que estou, com meus já vinte e poucos anos, só há uma coisa que me deixa feliz como nos tempos de antanho. É saber que a gente nunca pára de sonhar, e saber que a gente pode ser tudo o que imagina, tudo aquilo que a gente sonha ou que um dia já desejamos ser ou fazer. Acho que é por isso que estou vivo até hoje, porque posso ser aquilo que sempre sonhei ser um dia, mesmo que esse sonho fosse o de abarcar todas as cores e dores do mundo numa folha de papel em branco, armado de uma esferográfica de ponta fina qualquer...
Por Germano V. Xavier.
Uma criança de verdade verdadeira...
Estou de saco cheio de ser adulto. Não quero mais ser isso ou aquilo. Das duas uma: Ou peço demissão da vida adulta ou breve serei demitida por justa causa. Sairei por aí, brincando nas praças, puxando meu carrinho, soltando bolhas de sabão... Também empurrarei tonel velho rua abaixo só para ver o que acontece com o gatinho lá dentro, e vou brincar de gude na porta de casa com os meninos da rua.

Cansei! Ser adulto é muito chato e estressante. Tem que ter resposta certa para tudo e ai de mim se eu ficar calada. Responder "não sei" é falta de coragem e é pecar por omissão. A pior coisa que existe é deixar de acreditar em sonhos. Daqueles que a gente pensa de boca aberta e fica horas imaginando como seria se ele acontecesse. Uma amiga escreveu assim no meu diário: "Lembre-se sempre que, aquilo que somos nada mais é do que fruto dos sonhos que plantamos algum dia, ou seja, das escolhas que fazemos no decorrer de nossas vidas”. Li, reli, refleti e xinguei. Deveria ser um crime não acreditar em sonhos. O verbo sonhar deveria ser entendido como o verbo amar, assim como a expressão "Eu sonho" deveria ser dita com a mesma formalidade emocional que se diz (ou deveria se dizer) "Eu amo".

Falo isso porque existem pessoas que não sonham. E ainda existem demagogos, aqueles que fazem planos e falam como deveria ser, mas não fazem nada para mudar o presente. Confesso que costumo ficar irritada com pessoas que não sonham, que não pensam que um dia poderão ser melhores que hoje. É por isso que quero me livrar dessa vida adulta ingrata.

Certo dia um garoto estava vendendo geladinho na porta do banco, olhou para mim com cara de choro e disse: "Me dá um dinheiro para eu ir pra casa, não vendi nada hoje e não tenho dinheiro para voltar pra casa”. Olhei desconfiada, conhecia-o de algum lugar. Comprei três geladinhos e deixei o troco com ele. Voltei para casa, distribui geladinhos pelo meio do caminho e, assim que olhei para minha mãe, lembrei que ele era o mesmo menino que dias antes tinha pedido café com pão enquanto minha mãe guardava as compras que ele tinha trazido em seu carrinho de mão. Foi nessa oportunidade que perguntei a ele aquelas coisas de sempre. Estuda? Por que não? O que faz da vida? Não gosta de escola, não tem jeito para estudos e nunca pensou que algo poderia ser diferente. Respostas comuns, eu deveria estar acostumada. Mas não, fiquei com raiva, bem feito para a minha gastrite!
Algumas vezes pode acontecer o inverso. Crianças viram adultos de uma hora para outra e pensam que podem enganar qualquer um por causa de uns trocados. Como no dia em que uma menina me viu numa loja de cosméticos e pediu dinheiro para comprar um creme. Quinze minutos depois, em outra loja, pediu dinheiro para comprar um caderno. Foi aí que deu uma vontade de chorar... Por que crianças sonham, não sonham?! Deveriam sonhar, ao menos. Conheço pessoas que fazem questão de não sonhar, mas não são crianças. Também conheço algumas que sonham e não ligam para os sonhos alheios e saem por aí, fazendo de tudo para que a sua vontade seja feita. Crianças não deveriam ser assim, crianças são bondosas e gentis. Ao menos, na minha reles crença de mundo. Eu quero voltar a ser criança, mas uma criança de verdade verdadeira.
Por Jô Moraes (Senhor do Bonfim-BA)
Estes textos nasceram a partir da frase "Por que é tão chato ser adulto?", proferida por Joana Moraes em uma conversa virtual. O resultado está aí, deliciem-se...

Os meninos da seca


Barriga d'água, o menino cresce
de lado. A cabaceira nem dá o fruto
verde da dureza da vida.
E mais, nem correm nem fogem;
não há lugar para se esconder
do desatino, desse cruel destino.

Os meninos-velhos nem bem nascem
já estão quasemortos.
Os meninos quasevivos são pequeninos,
magros e andam despidos, desprotegidos.
Não suspeitam o futuro nem purgam
os excessos: não há excessos.
Mesmo assim brincam entre espinhos
e gravetos secos que perfuram
aquela toda-paisagem vazia.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

O indecoroso regaço (O Sonhador - Parte V)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Você devia acreditar no que eu digo! Viver é a maior das provocações! Eu devia ter dito isto a muito mais tempo. Hoje não consegui dormir direito (o que não me é novidade). Estou decididamente triste, comigo. O meu ócio é repugnante. Os pássaros coloridos estão cada vez mais pontuais, e as doses, certeiras. Ninguém aceita mais as nossas falhas. Errar, nesse desmundo, é um absurdo. A civilização ceifou a última das nossas liberdades.

Quem são vocês? Quem é você? De que matéria são feitos? Aço, metal, ferro? Eu não suporto a mecância geométrica desses seus pulsos, dessas suas vontades... Eu preciso me intoxicar!

Idiotas! Deturpados! Medíocres!

Eu não sou louco! Eu sei dos "Mundos" e de seus caminhos. Também sei que vocês não sabem de nada do que eu sei, pois se soubessem não estariam se vendendo a preços tão irrisórios e tão humilhantes. Mas, tudo bem... Tudo parece estar indo muito bem. A roupa que você usa, olhe, parece tão colorida! Você sabe alegria? Você viu liberdade? Quem te fez vitrine? Quem te fez máquina? Eu preciso dormir! Talvez umas doze horas seguidas me façam esquecer de toda essa engrenagem ridícula. Onde deixei meu pote de tranquilizantes? Há dias não o encontro...

...

Não me venha com as suas firulas de episódios repetidos. Permita-me detestar essa sua jogatina. Eu só estou de passagem. Não quero confusão com nenhum de vocês. Bebam de seus pseudosumos e se divirtam, pois a vida não é mais do que isso. Viva! Viva! É tudo o que eu quero. Comam da gordura da vida, que eu tomo o meu paliativo. Meus anticorpos estão cada vez menos operantes. As "bactérias" estão ficando mais resistentes. Nada que uma dose dupla não resolva. Deus, onde estão meus comprimidos?

Meu orgulho é não ser aromatizado, robotizado, enjaulado como vocês. Eu só peço que não se preocupem comigo. Eu sou apenas um sonhador que não vê a hora de voltar para casa. Pensem, meu amigos! Façam suas honrarias ou peçam perdão ao passado.

Sonhem, ou sirvam-se das mais francas ilusões!

Ass: O Sonhador Gervixa.

O Palhaço


O palhaço tenta o seu passe,
a mágica violenta.
O fim das horas;
escarlate desejo.
Manifesto infame, impasse,
espetáculo de medo!

Acredita-se nos lugares últimos,
a velha face no velho espelho:
síntese de vários,
costume de escuro.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

100 textos no Clube!!!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Saudações, caros leitores!

Foram incompletos três meses de existência, e o Clube de Carteado já comemora seus 100 primeiros textos publicados no ciberespaço. Nossa história começou no exato dia 12 de novembro de 2007 e, de lá para cá, muita coisa aconteceu. O Blog, que nasceu com o título "A Auto-Estrada do Sul, em homenagem a um dos contos de um dos meus escritores preferidos, o contista argentino Julio Cortázar, passou a se chamar Clube de Carteado, título de meu primeiro livro de poemas. Ao todo, feitos os devidos cálculos e titulações, publicamos 35 poemas, 14 textos científicos, 17 relatos, 11 mini-contos, 10 crônicas, 3 análises sobre cinema, 5 artigos, 1 perfil, 1 reportagem e mais 2 textos em prosa que não consegui classificar ante algum outro gênero textual.

Quero agradecer a participação de cada um que visitou este espaço, tanto pelas sugestões quanto pelos comentários e críticas, sempre relevantes. Agradeço, em especial, às pessoas de Cida Mello, Mateus Dourado, ao professor Cosme Batista e a Audi Lima, por cederem textos no justo desígnio de engrandecer este ambiente. Fica aqui o registro dessa primeira marca, na esperança de sempre e sempre trazer à tona novidades em prosa e/ou em poesia para o deleite de todos.

Continue comparecendo! Sua participação é sempre uma honra!
Muito obrigado por fazer parte do Clube de Carteado.

Atenciosamente, Germano V. Xavier.

Portal de Cravos

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Olhar lasso o cavaleiro espia
o rumar longo que se desfia
na secura desse firmamento
que reverbera máculas
e sangra dores
de um corpo exangue.

Já não somos mais crianças
e crianças não mentem
o breu dos barcos da Vida.
Suas naus, seus remos
são águas coloridas borboletas
e suas possibilidades
de vôo...

Veja quão semelhante são os mapas
de se viver mundo nuvem escura
estrelazinha raro brilho
convulsão de ser,
de ser apenas homem,
varão nas vagas se achando
perdido na imensidão das plagas
sem altos rumos, rotas menores,
símbolos sinceros,
poder de mimetismo humano...

justo semblante de homem!

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

O inconsciente e a consciência-realidade

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

No início do século XX, o homem era a sede do próprio conhecimento e, nessa mesma época, surgem as ciências humanas, no justo desígnio de reforçar tal pensamento e dar suporte ao "boom" científico vivido naqueles idos. A tensão do homem (centro do conhecimento) versus a "inconsciência" (do homem é a parte do inconsciente que lhe é concedido) veio intensificar as hipóteses de Freud.

Como modelo topográfico, podemos falar de um pensamento "inconsciente" que procura transmitir-se para o "pré-consciente", de maneira a poder, então, forçar seu caminho para a "consciência". Pode-se citar, também, que o pensamento "pré-consciente" que é reprimido ou expulso é então tomado pelo "inconsciente". Ambos os modelos foram superados por um determinado grupamento mental, especial, que teve uma catexia de energia a ele ligada ou dele retirada, de modo que a estrutura em questão caiu sob a influência de um agente determinado ou dele fora afastado.

A psicologia separava a "consciência" e a "inconsciência", ou seja, um ser que age de forma "consciente" de um ser que age de forma "inconsciente". Enquanto a psicologia tratou desse problema por uma explanação verbal, no sentido "psíquico" significava "consciente", e falar de processos psíquicos "inconscientes" era de um absurdo impalpável. Qualquer avaliação psicológica das observações feitas por médicos sobre estados mentais anormais estava fora de cogitação.

Para Freud, o conceito de "inconsciência" seria o conjunto daquilo que se passa na mente (pensamentos, recordações, impulsos, desejos, emoções...) sem que a pessoa tenha "consciência" de seu conteúdo ou funcionamento, e que, por sua vez, manifesta-se nos sonhos e em certos comportamentos. O "inconsciente" é a esfera maior que inclui o "consciente", esfera menor.

Os processos psíquicos podem ocorrer sem excitar a "consciência" do sujeito, havendo "coisas" que não são alteradas pelos órgãos dos sentidos e/ou produzidos pelo domínio involuntário material do "inconsciente".

A concepção antiga que distinguia a "consciência" e o sonho perde o sentido. Dessa maneira, algumas atividades cujo desempenho bem sucedidos nos sonhos despertava assombro, hoje não devem ser mais atribuídas aos sonhos, mas sim ao pensamento "inconsciente", que se acha ativo durante o dia e não menos à noite. Sendo assim, o "Inc" é a parte do "inconsciente" que não chega à "consciência". O "Pcsc" é a parte que chega.

Texto escrito em parceria com Luís Osete, Marcos Lima e Renê Salomão, em 09/05/05, como atividade da disciplina Psicologia da Comunicação.

Desses casos particulares


Assim, de início,
quereria meu poema
descansado, à espera
de um lucilante fio
de sol de fim de tarde.

Basta isso dele querer,
sem pedir nem mais nem menos,
e já começo dele não ser
compadre, que dirá dono!

De raio de olho,
vejo letras desajustadas,
perdendo-se, perdidas
na labuta buliçosa de formação
da palavra, que escorre
e vaza e fere e foge
e que, por não se achar
na aléia dos versos,
vira vento vulto
vazio:
ente insulso,
ou seria alimento?
(Um pouco de mim?)

E vai...
E continua,
visita sendas, fendas, plagas
do impensado,
ou seria estrangeiro?
Enfim, mais uma estrofe para trás,
deixada ao sol que não quis.

Nessas horas não o tenho
em vista; criou asas
na boca do povo
e voou desmetrificado,
sem rimas ricas,
sem correntes.

No fim de tudo,
poeta sem poema
(Pai sem filho),
porém rico,
o que se deseja
é Vida:

Vida longa ao poema!

Poema que encabeça o meu primeiro livro de poemas (Clube de Carteado/2006)

A esperança é a última que morre, não perca mais seu tempo! (O Sonhador - Parte IV)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Eu teimo, insisto e não desisto. Minha voz não pode parar. Eu sei que há "Mundos", menos confusos, menos humanos. Só não quero imaginar que eu estou aqui perdendo meus preciosos segundos, falando para um bando de surdos e idiotas. A maioria de vocês não sabe ouvir. E não venha me dizer que eu estou querendo criar confusão porque eu sou apenas um sonhador e estou só de passagem.

Outro dia presenciei um estudante esfaqueando seu próprio colega, num gesto animalesco de alguém que ainda não conseguiu se encontrar na vida. Eu estou calmo! Não é nada disso! Ultimamente, quase nada me afeta. Tenho dado bons lucros à farmácia do meu bairro. Meus "queridinhos"! O sangue que escorria do corpo daquele pobre rapaz era o sinal dessa impiedosa insensatez, que cobre todo o áspero chão desse lugar.

Estamos fadados à civilização!

Minha cabeça dói, parece não suportar toda essa pressão, todo esse peso que machuca o corpo. Acho que é hora do meu barbitúrico aromatizado! Mas... eu não acredito! Esqueci onde guardei meus "redondinhos"! Deus, não me faça perder o juízo!

Não preciso de ajuda. Quem necessita de auxílio aqui é você! Eu sei muito bem me comportar! O que quero de você é apenas o entendimento. Não, eu não sou louco. É que a fúria dessa espécie faz do Capitão Acab parecer um santo. Os cachalotes da modernidade são muito mais pesados, ou deveriam ser. Pesam as toneladas da consciência da humanidade, a honra da raça, a ética das multidões e, principalmente, os governos de si mesmo. Tenho inveja dos Quicquegs dessas terras, são eles os loucos? Eu preciso descansar!

Estamos fadados à civilização!

Não tente me incriminar por tudo o que faço. Tenho consciência plena de que o que faço é o mínimo que realmente poderia eu fazer. Até pareço um de vocês, moralistas de esquina. O meu "chazinho" das três!?

Não, não fique zangado por minha causa! Eu não valho o que vocês desejam! Eu só quero que vocês me entendam e que me ouçam, ao menos uma vez. Eu não quero briga nem discórdia. Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos"!

Ai! Estamos fadados à civilização!

Ass: O Sonhador Gervixa.

ESPELHO, ESPELHO MEU! (Ou quando a Babel é humana)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Espelho, espelho meu, há no mundo alguém tão parecida comigo?
Olho para o espelho e vejo a mim mesma...Bom, então não há dúvidas que sou eu quem está do outro lado do espelho, ou há?
Meus gestos insanos são repetidos pela imagem na minha frente com tanta naturalidade que chega a assustar.
Incisiva, a imagem me olha no fundo dos olhos, o que me deixa perplexa diante de mim, trazendo o benefício da dúvida.
Será que sempre fomos assim, minha imagem e eu?
Será que essa que olho do outro lado do espelho é uma farsa que me faz acreditar nos seus gestos calculados?
Observo seus gestos semelhantes e em perfeita sincronia com os meus. Não consigo pegá-la distraída em algum instante fugaz, onde possa denunciar alguma diferença.
Repete meus gestos suavemente, compartilhando o momento como se fosse ela mesma, uma criatura real.
Olha para mim, como se conhecesse todos os cantos do meu ser, despindo-me diante do espelho.
Nessa cumplicidade silenciosa ficamos encantadas, minha imagem e eu. Um encanto do qual desconhecemos a causa e o efeito, mas são quase perceptíveis nossas idas e vindas por tempos imemoráveis e lidas pelo espaço sem fim.


(Elizabeth, São José dos Campos)

“No vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências”, escreveu Jorge Luís Borges em seu conto A Biblioteca de Babel, já quase tomado pela cegueira, mas inda dominado pelo seu gênio literário.

Babel é o homem, e é também o espelho. Babel é a réplica fundada em símbolos ocasionais, e é também a moça tomada de encanto no canto qualquer de um qualquer cômodo, moça prostrada diante de sua semelhança. A infantilidade perdida no olho do assombramento, no moinho da descoberta. O que restará ao homem ante o vazio de se saber? Pode o homem conhecer sua Babel completa?

Borges fuça, dizendo: “Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?)”.

A Biblioteca é o mundo, e é também Babel. A rosa doentia, maculada pela nódoa da história. A Biblioteca é o sentimento dos extensos processos e das ininteligíveis relações. A Biblioteca é a vida, e é também o homem, o experimento.

A moça do espelho, distantemente perdida, perdidamente distante, atravessa o corredor do decrépito aposento. Tão jovem e já tão vítima. Punhal que dilacera é o saber. Adaga que perfura o fundo, fundo, é o saber-se. Sabre sem governo, máquina de guerra. A bomba que extravasa. Até onde o homem sabe? Até quando o homem saberá que sabe?

A moça, distante e perdida, agora destece o tecido das estantes. Livros que voam, livros que planam, livros que tombam. Outros que dançam. Será mesmo o chão o limite? Quem garante que tudo não passa de ilusão? Onde a fronteira? A menina estende o braço iradamente, torna-o rijo e ataca as enciclopédias. Lombadas feridas, brochuras brocham, alfarrábios esfarelam-se, catataus viram folhas inermes, o ar é tomado pelo pó. Há um embate entre o real e o imaginário. A Babel inicia. A Biblioteca é um corpo sólido, matéria de convulsões.

Adiantará o corte na face? E o que vem de dentro, não trucida? Não esquarteja a pelanca do homem? Adiantará a dúvida? Borges responde: “Prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito...” A moça corre, não pára. Difícil demais o convívio com o saber-se. Difícil demais a dor de ser...

Exercício de diálogo textual. Agradeço a Elizabeth (http://mundodebeth.blog.terra.com/) por permitir a feitura dessa "conversa" a partir de seu texto, intitulado "Espelho, espelho meu!!!". Usei excertos do conto "A Biblioteca de Babel", do escritor argentino Jorge Luís Borges, que consta no livro "Ficções".

Tabaco (Um exercício de Argumentação)


Um dos principais motivos para o tabagismo ser a doença mais importante no mundo atual é devido ao fato de existirem grandes grupos interessados em produzir e comercializar tabaco. E, para isto, contam com o auxílio de legiões de publicitários, sempre e cada vez mais criativos. O tabaco, para exercer o seu cartel de maldades, conta com muito ajuda externa.

As campanhas publicitárias têm como base o desejo. As mensagens são quase sempre ligadas a algo que gostaríamos de ter ou ser e os publicitários tentam fazer com que o produto que eles querem vender passe a impressão de que, uma vez possuindo-o, o sonho ou o paraíso tornar-se-á realidade. Os anúncios de cigarro não querem convencer de que fumar é bom. Os publicitários querem, sim, persuadir, mexer com os sentimentos, fazer com que passemos a querer fumar sem uma clara percepção do porquê.

O que as imagens vinculadas ao tabaco passaram por décadas: "fumem o nosso cigarrinho e vocês ficam poderosos". Como podem fazer isso? Colocam uma mulher linda acendendo o cigarro do usuário, de preferência, fazendo beicinho. Quer estratégia melhor? No início do século 20, o objetivo da indústria tabagista era vender cigarros somente para o homem. Por isso, a imagem da mulher era utilizada de maneira exclusiva, como o principal objeto do desejo masculino. Lembre-se que, naquela época, não havia televisão, nem outdoors, entre outros ferramentas de publicidade. Além de algumas poucas revistas e jornais, os próprios maços de cigarros eram o grande chamariz.

A publicidade subliminar do tabaco ou aquela que utiliza as imagens de poderosos formadores de opinião são recursos perigosos para a saúde pública. Quem acreditará que exista risco na prática do tabagismo, se, por exemplo, uma pessoa tão inteligente, e queridíssima, como o Jô Soares, não nos privou, em épocas passadas, de associar a sua imagem ao uso do tabaco? Fica a questão. Não é necessário explicitar o quanto sou a favor da proibição de qualquer propaganda que envolva artigos ligados ao tabaco. Todavia, é preciso revelar a minha vontade de ver um dia o mundo dizendo “não” ao tabaco, vivendo cada dia mais e melhor.

Este texto foi construído como exercício da disciplina Semântica Argumentativa, em 2007.

Desinteresse

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Deixe, não se sinta obrigado.
Por nada nessa vida vale
o seu segundo de solidão
(de encontro).
Somos mais que um só,
mas precisamos de nós
mesmos.
Quando as paredes lhe forem
grossas, toque-as,
sinta-as
na sua gelidez inflamada
e depois derrube-as
e construa outras
para novamente
derrubá-las,
com raiva e ódio e felicidade,
por ser sempre novo,
de novo,
outro.

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

Ovelha-Negra


Lá em casa, sempre fui uma espécie de ovelha-negra da família. Bicho desgarrado, sabe... Na verdade, dessa classificação que recebi desconheço a lógica. Nunca fui dado às estripulias ou aos desgovernos ideológicos. Jamais usei algum tipo de entorpecente, nunca demonstrei queda por bandas de heavy-metal. Jurei pela eternidade não deixar de ser fidedigno aos meus pais, jamais importando o teor do questionamento ou obrigação imposta por eles.

Verdade maior ainda é essa: como pode um sujeito como eu ser tido como uma ovelha-negra? Penso que tal termo remete a desmandos, atitudes inconsequentes, badernagens, desobediências e outras coisas piores... Mas, então, por que me intitularam assim?

...

Outro dia, já tarde da noite, fui encontrado por minha mãe no quintal de casa...
"O que está fazendo, meu filho? Vá para a cama, já é hora de dormir!"
"Agora não, mãe."
"Plínio, amanhã você tem de acordar cedo, esqueceu?"
"Já vou, mãe."
"E não se esqueça de fechar a porta, ouviu?"
"Pode deixar, eu fecho."

Àquela hora da noite, a última pessoa que poderia visitar o quintal lá de casa era a minha mãe. Ela era muito medrosa e tinha pavor da noite, da escuridão e de toda a sua aura sombria. Porém, naquele dia, como se fosse de brincadeira, tinha sido justamente a minha mãe, em pessoa, que viera me assustar. "Intuição feminina, e de mãe", pensei.

Então, após a sua saída, continuei a olhar para o céu da minha cidade natal. Sempre achei o firmamento da cidade onde vivi toda a minha infância, ao mesmo tempo negro e estrelado, o mais belo de todos. Ficar ali, perscrutando aqueles pontinhos luminosos, feito círios acesos, estava se tornando um hábito meu. E nunca quis saber se isto era certo ou errado, ou se era bom ou ruim. Eu apenas me deixava levar por toda aquela maravilha. Ficava horas e mais horas fitando aquelas coisinhas, tão interessantes e próximas, e também tão distantes.

Depois de quase entrar em transe, levantei sobressaltado ao ouvir novamente a voz maternal:
"Plínio, o que está acontecendo?"
"Não é nada, mãe."
"Fica aí parecendo um lelé, olhando para o céu... Perdeu alguma coisa, por acaso? Já para a cama, isso é uma ordem! Quem já viu, filho meu agora parecendo não sei o quê, vivendo no mundo da lua... Já para a cama!"
"Eu só estou olhando as estrelas, mãe."
"Não me venha com lero-lero, Plínio! Eu não estou brincando, ouviu! Você vai ter de se explicar ao seu pai amanhã. Você tem sorte dele estar dormindo agora... e eu não quero acordá-lo."
"Mas, mãe..."
"É bom você arranjar uma boa desculpa para eu não colocar você de castigo durante toda essa semana, ouviu?!"
"Eu só estava olhando as..."
"Já chega, vamos!"

...

O dia seguinte foi muito difícil para mim. Fui interrogado por meu pai e, ali mesmo, ficou decretado que eu passaria uma semana longe das coisas de que eu mais gostava, principalmente do céu cheio de estrelas da minha cidade querida.

Foi difícil, mas passou...

Nunca imaginei tais consequências. Daí por diante, eu era a ovelha-negra da família. Simplesmente por gostar de ficar olhando as estrelas, apaixonadamente. O maior título que já recebi até hoje, e também o mais injusto. Por que não ovelha-alva, ovelha-branca ou coisa parecida?
...

Texto escrito em 21 de novembro de 2006.

Talvez amando

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Talvez amando se perceba
melhor
o espetáculo que é ver
teu filho nascendo
(árvores de raízes grossas)
sob a branca nuvem
desses dias escuros.

É você que, talvez amando,
consiga enxergar as curvas
que tem essa vida...
Tenha cuidado com as curvas!
E como tantas são...

Mas, talvez amando se perceba
que somos fortes,
e que podemos acabar com todas
as fomes.
Acabar com todas as fomes.

Quiçá,
amando...

Poema retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)

A incrível história de uma história de quem já morreu e que não vive mais...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Tem alguma coisa pinicando o meu pé! Mas, do jeito que estou, é completamente impossível saber do que se trata. Aqui dentro é muito apertado e sem nenhum conforto, sem contar a falta de ar puro. Minha respiração prejudicada. Isso irrita! Há bem pouco moro aqui. A bem da verdade é que não queria sair de onde eu morava. Era um sitiozinho muito tranquilo, repleto de verde, onde eu criava galinhas e galos, patos e patas, pavões, gansos e pássaros, muitos pássaros. Todos coloridos e cantantes. Vocês precisavam ouvir o canto do meu sofrê! Era incrível e quase que inacreditável que um "serzinho" daquele tamanho pudesse ser tão imponente e belo. Tenho muita saudade do meu sofrê. Aquele laranja radiante de sua plumagem, aquele bico preto feito agulha...


Essa formiga já está me dando nos nervos! Tenho a impressão de que já não é mais uma formiga apenas, mas sim um formigueiro inteiro. As formigas caminham por todo o comprimento de minha perna e eu não tenho como afastá-las. Deve ser os meus fantasmas da infância, que me acompanharam durante toda a minha vida.
Pois é, eles acham que eu estou morto, mas eu não estou. Eles acham que depois que paramos de respirar tudo se acaba, tudo desmorona e vaza. O que eles não desconfiam é que existem outros ares para serem respirados, inalados.

"Sai, formiga!"

Para ser mais sincero ainda, vou dizer que estou até começando a gostar daqui. O mais desconfortável de tudo são essas formigas que não largam do meu pé e, também, o frio que faz durante todo o dia. É um frio de matar, de congelar pedra - como se diz por aí.

Tenho saudade é do sol. E mais ainda da lua. Ah, eu amava olhar para a lua quando a noite caía. Era tão lindo ver as estrelas no firmamento, claras, cintilantes, luminosas. Elas me traziam paz, muita paz.

"Sai, formiga desgraçada!"

Essas formigas parecem muito com os...

Tempo enlameado de sentimentos e de expressões revoltosas... Elas agem da mesma forma, as formigas! Não largam do meu pé.

Mas... um bom dia pra você!

É dia aí fora? Noite?

É difícil sentir-se cego de uma hora para outra. A realidade aqui é muito escura. Na Terra, tudo é mais diáfano, mais límpido. Mas, será? Será mesmo que os espinhos não mancham a beleza ingênua das rosas? Será você mesmo a alma que pensas? E as surpresas, elas estão mortas? Estão? Figuras em outra dimensão que não a da caixa-preta, selada, escura e mórbida? O meu nome é morto, e o seu?

Escrito em 25 de dezembro de 2005.
(Eu ainda não passava de 50 livros lidos por ano! Muita coisa mudou...)

Eu teimo, insisto e não desisto. (O Sonhador - Parte III)


Perdoai a eles, pois eles não sabem o que fazem. Desse perdão também quero gozar. Eis-me aqui novamente, tentando desfazer os preconceitos vários. Pessoal, quantas vezes eu vou ter de dizer que eu não estou querendo criar confusão!? Eu não sou louco! Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos". O resto não conta.

Estou atravessando uma fase bastante fértil e calma em minha vida. Faz alguns dias que não tomo nenhum tipo de psicotrópico. Confesso que estou mais livre e menos triste. Uma leve sensação de liberdade. Argh! Rápido, preciso dos meus "ingredientes"! Ah!... e também de um livro de poesia! Augusto! Grande Baudelaire... Nessa maresia em que me configuro atualmente, vou mesmo ficar doente da cabeça. Onde já se viu... liberdade? Liberdade é ilusão, é cabeça vazia, é foice que dilacera, é labirinto de sombras, é guilhotina, é cadafalso, é catafalco, é calabouço.

Tenho de recuperar o tempo perdido! Preciso de doses extrafortes, mais concentradas. Liberdade na pós-modernidade? Liberdade é calabouço, cala a boca! Cale-se, seu idiota! Viver é uma provocação, e isso basta! Espelho de Narciso, Édipo Rei ou Hamlet, de onde surgem esses ventos tão frios?

Não, não se exalte! As crianças... coitadas! Pássaros coloridos, onde o meu "preparado"? Deus, o que é liberdade? Eu ainda não sei o significado dessa palavra. Liberdade deve ser barriga d'água, mulher que cede, cavalo que vara, dinheiro nas ancas. Porca miséria, meus "redondinhos"!? Quanta ignorãncia, meu Deus! Continue! Viva! Apenas viva! O que eu quero é isso. Nada mais que isso. Não se preocupe comigo, eu estou aqui só de passagem mesmo! E quanto mais rápido for, melhor a aventura.

Sabe, eu sou um sonhador, e em um dos meus mundos os sonhos são como borboletas azuis. Por favor, entenda! O tempo é cada vez mais reduzido, mas ainda há esperança. A corda... pegue a corda! E corra! Corra para bem longe. E não deixe marcas pelo caminho, pois a recompensa há de ser só sua. Vamos! Abra os olhos! Eu sei que há "Mundos". Eu sei. Mas... o que é liberdade? Não, eu não posso parar. Minha cabeça parece que vai explodir. Meus... tóxicos (algemas?)!

Eu teimo, insisto e não desisto. Cale-se, para sempre!

Ass: O Sonhador Gervixa.

A Medida do Ser

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Poeta, ser demiurgo que não mente,
e se mentisse, em que plaga estaria?,
se libar desse cálice - a Poesia -
é dor cantada que não sente.

Peleja na noite e no dia, sua "gramática",
a fortuna de Linos: escritura de mundo.
Difícil, corpo de Deus, sentido fundo
de imatéria materializada na prática.

Curador do sopro, maestro do nada;
tocador d'amores e breus, não sabe
que na profundeza das coisas que acabe

à resgate... de nada valerá a mão suada?
Senta e escreve e escande a vida que escapa,
nalgum lugar genesíaco do ser humano.

Soneto retirado de meu primeiro livro (Clube de Carteado/2006)